17/07/2024 - Edição 550

Poder

Gravações colocam governador bolsonarista do MT sob suspeita de tramar contra jornalista

Com Bolsonaro, 2022 registrou 376 casos de agressão a jornalistas

Publicado em 28/01/2023 7:37 - Vasconcelo Quadros (Agência Pública), Helder Lima (RBA) – Edição Semana On

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Testemunha-chave até agora não identificada pela polícia, o homem responsável pelas gravações que interromperam a perseguição contra o jornalista Alexandre Aprá não tem qualquer relação com a política de Mato Grosso, mas pode complicar a vida do governador bolsonarista Mauro Mendes, reeleito com tranquilidade no primeiro turno das eleições do ano passado. Localizado pela Agência Pública, o jornalista investigativo A.P. – iniciais do nome verdadeiro, que ele pediu para manter no anonimato por segurança – conta, em entrevista exclusiva, que se infiltrou no esquema por estar interessado numa pauta jornalística, mas que decidiu permanecer – o que o levaria a abortar o plano – ao perceber que o colega Aprá (que ele não conhecia) poderia ser assassinado ou se tornar alvo de uma armação. De acordo com conversas gravadas por A.P., o plano era prendê-lo sob alegação de falso envolvimento com tráfico de drogas ou pedofilia.

Seu relato sobre os fatos, dos quais participou, contraria a versão de Mendes e atribui ao próprio governador, à primeira dama do Estado, Virgínia, ao publicitário Ziad Fares e a uma advogada, Carla Grings Sabo Mendes, a contratação do detetive que, supostamente a mando do grupo, durante uma semana, em agosto de 2021, teria seguido e tentado atrair o jornalista para a armadilha. Mendes sempre negou publicamente que tenha contratado a espionagem, atribuindo a denúncia a interesses de seus adversários políticos, o que voltou a fazer em resposta à Agência Pública.

No inquérito policial a que a Pública teve acesso e que tramita sob sigilo, A.P é identificado apenas por Bruno, nome que inventou, e pelo apelido de Anjo, A.P. se diz disposto a prestar um depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), formalizando seu relato à Pública sobre fatos que presenciou e ações que articulou como infiltrado caso o que tem a dizer ajude a federalizar as investigações para que os responsáveis, diz ele, não escapem impunes diante do que considera fartas evidências de que, usando o poder estadual, pretendiam eliminar ou destruir a reputação de um jornalista profissional como retaliação a reportagens prejudiciais ao grupo.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso entraram com um recurso conhecido como incidente de deslocamento de competência na Procuradoria Geral da República, em que pleiteiam a federalização das investigações cujos argumentos estão sob análise do subprocurador-geral Carlos Frederico Santos, coordenador da Câmara Criminal do MPF. Ele chefia também o grupo de procuradores da República responsável pela denúncia contra os golpistas que depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal no dia 8 de janeiro. A competência para propor o IDC é do Procurador Geral da República.

O plenário do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) também julgará em breve uma reclamação da defesa de Aprá contra o promotor mato-grossense Mauro Poderoso de Souza, acusado pelo jornalista de ter dificultado apurações em decorrência de sua suposta amizade com o publicitário Ziad Fares. No último dia 12 de dezembro o promotor alegou foro íntimo e se declarou suspeito para continuar atuando no caso.

As entidades denunciam omissão da polícia e Ministério Público estaduais, que teriam sido aparelhadas pelo governador para encerrar as investigações sem apontar mandantes. No mesmo inquérito policial ao qual Pública teve acesso, o caso, que poderia ter terminado em tragédia se não tivesse sido abortado por A.P., foi tratado como um delito de pequeno poder ofensivo e enviado para um juizado especial de pequenas causas sem apontar mandante ou indiciar o detetive Ivancury Barbosa, que confessou ter espionado o jornalista, mas não revelou quem o contratou. De vítima da armação, Aprá transformou-se em acusado e foi indiciado por difamação contra o governador em outro caso, de suposta divulgação de fake news, juntado ao inquérito que investigou o detetive. Mendes, Virgínia, Ziad e a advogada apenas prestaram os depoimentos se colocando como vítimas do jornalista.

Jornalista investigativo, autor de vários trabalhos que trouxeram à luz denúncias relevantes, A.P. diz não ter dúvidas de que os quatro citados participaram da contratação do detetive Ivancury Barbosa, conhecido como Ivan ou Ivanzinho, para perseguir e calar o jornalista Alexandre Aprá por causa de reportagens publicadas em seu site, o Isso É Notícia, de Cuiabá, sobre irregularidades em negócios da família Mendes e do publicitário Ziad Fares, detentor de contratos com o governo estadual. Num depoimento amparado em oito horas de gravações de áudios e vídeos com trechos inéditos, cujos arquivos entregou à Pública, ele sustenta que os diálogos que travou com o detetive na condição de infiltrado demonstram que o serviço de espionagem teria sido pago com a regularização de uma fazenda de 13 mil hectares em Marcelândia, no Norte do Estado, terras que o próprio Ivancury admite que eram griladas por um grupo do qual faz parte e que ele tentava, havia oito anos, legalizar através de um processo que tramita nos órgãos de política agrária do Mato Grosso e no judiciário.

O infiltrado

Em meados de agosto de 2021 A.P. estava no Mato Grosso levantando informações sobre os negócios do filho do governador, o jovem engenheiro Luiz Antônio Ferreira Mendes, de 24 anos, dono de uma fortuna meteórica originária do capital de empresas criadas a partir de 2019, quando o pai assumiu o primeiro mandato como governador. Foi quando uma fonte o preveniu de que havia surgido outra pauta interessante: um detetive-pistoleiro teria sido contratado para assassinar um jornalista. A.P. topou a pauta, inventou uma história fictícia e, depois de se passar por um desafeto de Aprá, acabou contratado pelo detetive como auxiliar. Logo de cara, diz ele, percebeu que Aprá corria mesmo sério risco de vida, avisou-o e se manteve infiltrado no esquema.

“Até hoje nunca vi o Aprá pessoalmente. Decidi avisá-lo ao perceber que eles poderiam, sim, matá-lo”, disse A.P à Pública, se referindo a um diálogo gravado em que o detetive afirma que o grupo ligado ao governador considerava a possibilidade de mandar assassinar Aprá, hipóteses que, ao aceitar o serviço, Ivan diz ter descartado. “Não quero ‘empurrar’ o cara de forma nenhuma. Só quero tirar ele (Aprá) de um caminho (…) mas na conversa não tira (…) ele não sai por bem. É muito cabeça dura”, diz o detetive a A.P.

Nas longas conversas que tiveram durante a semana em que durou o trabalho, em meados de agosto de 2021, o detetive diz que emissários haviam sido enviados a Aprá para propor um acordo em que ele deixasse de dar notícias desfavoráveis, mas frisa que a tentativa fracassou por decisão do próprio governador. “O Mauro Mendes não confia nele”, diz num dos trechos. “Ele já foi contactado. Não vai parar. Pessoas foram conversar com ele. Eles pegaram birra dele. Já havia ’pisado’ quando Mauro era prefeito. O Mauro não confia nele”, afirma, reproduzindo uma frase que o governador teria dito para dois assessores que tentavam convencê-lo a entrar num acordo com o jornalista: “Não confio nesse cara”.

Pelo que o detetive diz a A.P., a solução, então, era “tapar a boca desse menino”, cuja estratégia ele em seguida aponta: “para tapar a boca é só dando um flagrante nele. Igual como fizeram com o Ralf. Aquilo lá foi montado. Ele perdeu o mandato, perdeu tudo.”, diz.

O Ralf a que se refere é o ex-vereador de Cuiabá Ralf Leite (PRTB), flagrado pela polícia numa relação sexual com uma travesti menor de idade, em 2009, um mês depois de eleito, num escândalo que resultou na cassação do mandato. Ex-bombeiro militar, Ralf foi um dos personagens que, sem saber de que se tratava, indicou A.P. ao detetive. Em depoimento à polícia, o ex-vereador contou que foi o próprio Ivan quem contou a ele que havia sido contratado pelo publicitário Ziad Fares para investigar Aprá. Na gravação, o detetive tenta convencê-lo que a opção por um flagrante idêntico ao de Ralf era a melhor solução: “Na verdade, Bruno, eles queriam encher ele de bala. Quando vim pra cá era para isso. (Isso) eu não quero de jeito nenhum. Não é meu negócio, não. Nós estamos livrando ele (Aprá) de uma merda (morte). Você tá fazendo um favor a ele”, afirma o detetive, se referindo aos serviços de pistolagem que já abalaram a política de Mato Grosso. Ivan, aliás, no decorrer dos encontros com a A.P. conta que é próximo do grupo do comendador Arcanjo Ribeiro, criminoso com antigas relações com políticos mato-grossenses, que cumpriu pena pelo assassinato do empresário Domingos Sávio Brandão, dono do jornal O Estado do Mato Grosso, em setembro de 2002.

Pelo relato de Ivan ao infiltrado, ele teria intimidade com o grupo político do governador. Em determinado momento chega a convidar A.P. para trabalhar com ele na campanha eleitoral do ano passado. “Vou entrar na eleição com o Mauro Mendes e aí vou precisar de gente. E você estando por aí…eu não conheço tanto Cuiabá. Quero entrar com Mauro Mendes na campanha. Fui chamado pra isso”, diz ele.

No depoimento que prestou ao inquérito policial, Ivan conta que esteve em Cuiabá cerca de dez dias antes de iniciar a investigação. Nesse período, as câmeras da Secretaria de Segurança Pública registraram a entrada do carro do detetive no Centro Político e Administrativo (CPA), endereço do Palácio Paiaguás, sede do governo estadual, às 04h37m, com saída às 09h30m, do dia 6 de agosto, numa movimentação discreta que só veio à tona por requisição da polícia. A investigação não esclarece, no entanto, o que fazia o detetive no local.

Mauro Mendes soube que havia sido apontado como suspeito ao ser procurado no dia 4 de setembro pelo jornalista Sumi Zúnica, do núcleo de jornalismo investigativo da TV Record, que produzia reportagem para o programa Domingo Espetacular. Foi A.P. que passou áudios e imagens sobre a armação para Zúnica. Os dois já se conheciam. Único até então com acesso à denúncia, Zúnica telefonou para Mendes para ouvir a versão do governador. Mendes pediu que ele mandasse um resumo da denúncia para se inteirar do conteúdo e desligou o telefone. “Eu só havia ligado para o governador. Instantes depois, coisa de minutos, recebi um telefonema do detetive Ivancury Barbosa, querendo saber o que havia contra ele”, contou Zúnica à Pública.

Mendes então elegeu Aprá como alvo de ações por injúria e difamação. Ele e a esposa Virgínia, estavam fora de Cuiabá, mas orientaram o advogado Hélio Nishiyama a registrar boletim de ocorrência numa delegacia de Cuiabá no dia 4 de setembro. Falando com base no que frisa ter ouvido do casal, o advogado declara que os dois “sequer ouviram falar do detetive”.

O problema é que a história contada por A.P. e confirmada por Zúnica, conspiram contra o governador: os dois sustentam que a reportagem foi motivada pela descoberta de um esquema que tinha como alvo um profissional de imprensa em retaliação a reportagens de interesse público prejudiciais aos negócios da família Mendes e do publicitário com o governo. Aprá havia publicado reportagens que podem ter contribuído para anular uma licitação de R$ 70 milhões favorecendo Ziad e, a que resultou na ação por calúnia, sobre um anel que o publicitário teria dado de presente à primeira dama.

A fazenda 

Nas gravações, Ivancury demonstra pressa em regularizar a fazenda e, ao constatar que A.P. era especializado no uso de equipamentos e experiente em investigação, queria resolver os dois casos ao mesmo tempo. A.P. no início simulou hesitação em aceitar. Já infiltrado no esquema, massageou o ego do detetive com elogios sobre competência profissional (“você deveria trabalhar na CIA”) e proximidade com poderosos (“você tá com moral”), táticas que foram sendo usadas ao longo da semana em que os dois “trabalharam” juntos. A partir daí, os diálogos fluíram como se fossem dois parceiros. Decorridos 14 meses de investigação, a polícia cuiabana conseguiu a “proeza” de identificar erroneamente um publicitário de Cuiabá como se fosse “Bruno”, registrado como uma das peças do inquérito, mas nunca chegou nem perto de quem é o “espião” que, pela lábia, enganou um detetive que se gabava de registrar no currículo uma passagem de 28 anos pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, vários deles na violenta fronteira com o Paraguai.

Quando A.P percebeu que a armadilha contra seu colega era grave, não só o alertou como também passou a orientá-lo sobre como agir para inverter o jogo. Por outro lado, para aumentar a confiança do detetive, se disse horrorizado com a hipótese de se envolver num crime, inventou que sua mãe, uma fictícia velhinha de 80 anos, jamais resistiria uma cena com carro de polícia chegando à sua casa e fez de conta que não aceitaria o trabalho. Nos diálogos seguintes, Ivan tenta demovê-lo, garante que nada iria acontecer e solta, com ironia, uma frase que, segundo A.P., revelaria que o assassinato poderia realmente acontecer: “O que eu posso fazer se o cara aparecer morto?”.

A.P. reforça que não faria nada que fosse ilegal, ao que Ivan explica que seu papel seria de seguir Aprá até um local onde pudesse grudar no carro um rastreador GPS e, depois, encontrar um garoto de programa menor idade, de preferência na faixa entre 14 a 15 anos, que, devidamente pago, atrairia o jornalista para uma relação sexual num esquema que permitisse que a polícia entrasse em cena para dar o flagrante. “Você não vai fazer nada. Quem faz sou eu”, diz. A.P. concorda e passa a atuar, repassando ao detetive informações sobre a rotina de Aprá. Nos diálogos seguintes, A.P. alega insegurança e sugere que gostaria de saber para quem estava trabalhando, ou quem tinha interesse na investigação.

“É a Virgínia”, afirma, lacônico. “Quem?”, pergunta o jornalista, como se não tivesse entendendo sobre de quem o detetive falava. “Vou te contar. É a dona Virgínia, que ele (Aprá) põe todo dia no jornal”. A.P. se faz de desentendido e pergunta novamente quem é Virgínia. “Mulher do governador.”, responde o detetive, explicando que seu contrato, na verdade, “é com alguém abaixo dela”. “E ela sabe?”, insiste A.P. “Sim, sim”, reafirma Ivan, explicando, então, que legalmente o contrato havia sido feito entre sua empresa, a Rota Investigações, com o publicitário Ziad Fares, da ZF Comunicação, detentor de milionárias contas do governo mato-grossense. “Não se fala dela, tá? (…) Para todos os efeitos ele (Ziad) não existe”, diz o detetive. Pelo combinado, A.P. receberia R$ 2 mil, metade para localizar o carro de Aprá, no qual seria grudado o aparelho de GPS, e metade para arranjar o menor que seria usado como isca.

Já à vontade com o auxiliar, Ivan reforça os pedidos de segredo sobre os contratantes e diz que não trabalharia nesse tipo de empreitada sem um contrato assinado. “Confiança é confiança. Ninguém pode saber que ela (a primeira dama do Estado) tá por trás. Na verdade, não é ela (a responsável pelo contrato), a assinatura é de outra pessoa (Ziad Fares).

Ele também revela em seguida que a regularização da fazenda em Marcelândia é a contrapartida da espionagem: “Eu tenho outro negócio amarrado a esse. Outra coisa, Bruno: ninguém pode saber. Um trabalho desse se cobra é 200 paus”. É nesse momento que aparece o nome da advogada Carla Mendes, que ele já conhecia de outra causa e, segundo sustenta A.P., foi quem fez a intermediação do contato do detetive com Ziad Fares.

Carla é casada com o juiz Yale Sabo Mendes, primo do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. “Não peguei esse serviço para ganhar dinheiro. Eu tava perdendo essa fazenda”, diz o detetive, explicando que há oito anos tentava regularizar a área, mas a decisão final esbarrava no julgamento de mérito no Tribunal de Justiça do Mato Grosso. “Essa doutora pegou (a demanda) tem 45 dias e eu tô com a decisão na mão”, diz Ivan a A.P., num diálogo registrado logo depois de ele ter conseguido colocar o GPS no carro de Alexandre Aprá. Em seguida, ele fala da advogada e de relações suspeitas envolvendo membros do judiciário, sem citar nomes. “O marido dela é juiz. Falta dois anos para passar a ser desembargador. Tinha uma decisão de um desembargador, que era liminar. Então os quatro concordou (sic) por unanimidade. Essa decisão saiu no ano passado. Esse mérito ia ser julgado nem sei quando. Isso custa dinheiro. Uma decisão de cada desembargador é 150 paus. Eles não podiam fazer isso nunca na vida! Ô lugarzinho corrupto”, afirma.

A.P. dá corda para a conversa: “Já entendi. Então tua advogada vai te ajudar com o processo da fazenda. Não é que você cobrou barato…”. Ivan completa a frase. “Ela é advogada da Virgínia também. Tudo que pode fazer pra Virgínia em coisa pessoal ela faz. A Fazenda é pra fazer dinheiro. Dra. Carla resolveu. Tudo tem seu preço. Ficou com 1.500 hectares. Tive de dar pra ela (…) Esse trabalho estou fazendo de graça”.

A fazenda que teria entrado na negociação fica numa região de Marcelândia, próxima ao Parque Nacional do Xingu, no Norte do Mato Grosso, área de transição entre o cerrado e a Amazônia. Trata-se de uma região cobiçada pelo agro, onde o valor da terra de pastagens e agricultura, segundo lei aprovada no ano passado pela Prefeitura, varia entre R$ 4.480,00 a R$ 4.978,00 o hectare. A advogada teria recebido como honorário 1.500 hectares, enquanto o detetive, descontadas as frações de outros dois sócios, regularizaria 6.500 hectares.

No depoimento que prestou à polícia, a advogada Carla Mendes nega que tenha intermediado a contratação do detetive, mas admite que sabia que ele faria uma investigação. Diz que apenas informou a Fares e Ivan os telefones um do outro. Ela sustenta que não sabia do que se tratava. No depoimento procura, no entanto, desqualificar as declarações do detetive sobre a suposta participação do governador, da primeira dama e de Ziad na contratação afirmando que a citação “é loucura da cabeça do Ivancury”. Diz que o detetive usou indevidamente o nome e o prestígio de seu marido ao fazer referências ao trâmite do processo sobre a terra no judiciário. Mas admite que atuou para regularizar a fazenda, recebendo como honorários os 1.500 hectares citados por Ivan a A.P.

Os delegados Ruy Guilherme Peralva e seu auxiliar, João Paulo Fontes, da Delegacia de Repressão dos Crimes de Informática, produziram um relatório em que não identificam os responsáveis pela contratação do detetive e encerraram a investigação sem responsabilizar ninguém pela suposta perseguição ao jornalista. No mesmo período abriram outro inquérito, este sobre divulgação de fake news, em que Aprá é indiciado por difamação contra Mendes. A conclusão da polícia foi mantida pelo Ministério Público estadual, que considerou as gravações como prova ilícita, produzida por um terceiro personagem cuja identificação nenhum dos órgãos de controle se esforçou para esclarecer. Depois de uma análise minuciosa, a Fenaj, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso enxergaram no caso, além de perseguição e ameaças à integridade física de um jornalista no exercício da atividade profissional, um atentado à liberdade de imprensa e grave violação aos direitos humanos, já que uma das estratégias da trama se fixava na orientação sexual de Aprá. “A trama está ligada à sua condição profissional e em especial, por estar publicando reportagens que incomodavam interesses daqueles que por elas se sentem atingidos. Silenciar, intimidar ou perseguir jornalistas é algo preocupante. Há evidente violação ao direito de liberdade de imprensa”, afirmam as entidades, acusando falta de imparcialidade dos órgãos de controle mato-grossenses na investigação.

Num outro trecho, as entidades lembram que Aprá foi alvo de um detetive que pretendia forçar uma prisão em falso flagrante por pedofilia e tráfico de drogas. “Por conta de sua orientação sexual, a intenção do detetive era forjar um cenário onde menores fossem utilizados como “iscas” para práticas homossexuais, com o jornalista. Através das falas do detetive nos áudios e vídeos, a homossexualidade do jornalista ganhou publicidade vexatória, uma vez que o mesmo mantém uma vida discreta quanto a sua orientação sexual. As pessoas LGBTQIA+ têm seus direitos humanos reconhecidos pela Constituição Federal e pelos órgãos internacionais que combatem práticas homofóbicas. A igualdade e a não discriminação constituem princípios dos direitos humanos, sendo devidamente reconhecido pela ONU que ninguém pode ser descriminado em virtude de sua orientação sexual ou identidade de gênero”, escrevem. As entidades alegam que Mauro Mendes e os demais suspeitos receberam “blindagem” dos órgãos de controle, apontando sucessivas omissões no inquérito e na denúncia e um suposto aparelhamento por parte do governo estadual.

Outro lado

Procurado pela Agência Pública, o governador enviou através de sua assessoria a seguinte nota: “Esse caso já foi investigado pela Polícia Civil e os autores da farsa foram indiciados por montarem uma quadrilha que produziu e espalhou diversas fake news contra o governador. Entre os indiciados por injúria, calúnia, difamação, perseguição, falsa identidade e associação criminosa estão o jornalista Alexandre Aprá e o empresário Marco Polo Pinheiro, irmão do prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro”. O publicitário Ziad Fares disse que A.P “deveria falar nos autos do processo” e afirmou que o jornalista investigativo “foi contratado por Aprá para armar uma farsa” contra ele e autoridades. Ele diz que não quer mais discutir um assunto “chato, que já foi resolvido” e reclamou da reportagem dar voz a Aprá. “Não vou falar nada que não seja na justiça. É uma farsa ridícula e estou cansado desse farsante, que estou processando”, disse. A advogada Carla Mendes afirmou que o caso em si não tem fundamento. “É tanta mentira. Não tenho nada a dizer sobre o assunto”, se esquivou, sugerindo que a reportagem use as declarações que prestou à polícia.

Com Bolsonaro, 2022 registrou 376 casos de agressão a jornalistas

Em 2022, foram registrados 376 casos de agressão a jornalistas e veículos de comunicação no Brasil, o que equivale a praticamente um caso por dia. Os dados são do Relatório da Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2022, divulgado na quarta-feira (25) pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

De acordo com o levantamento, os números, apesar de elevados, são menores que os de 2021, ano recorde desde o início da série histórica feita pela federação, quando foram registrados 430 casos. Apesar da queda de 12,53% em relação ao ano anterior, o relatório constata que as agressões diretas a jornalistas tiveram crescimento em todas as regiões do país.

O relatório aponta que a descredibilização da imprensa voltou a ser a violência mais frequente, em 2022, apesar de ter diminuído em 33,59% em comparação com o ano anterior. Foram 87 casos de ataques genéricos e generalizados, que buscaram desqualificar a informação jornalística. Em 2021, foram 131 episódios.

Segundo o estudo, houve crescimento de 133,33% nas ocorrências de ameaças, hostilizações e intimidações, que foi a segunda categoria com maior número de ocorrências em 2022, com 77 casos (44 a mais que os 33 registrados em 2021).

Em seguida, aparece a censura, que foi a categoria de violência com maior número de casos, em 2021, e caiu para a terceira posição, em 2022. “A queda foi de 54,96% e muito provavelmente se deu pela diminuição no número de denúncias e não dos episódios propriamente ditos, a grande maioria na Empresa Brasil de Comunicação (EBC)”, diz a Fenaj.

As agressões verbais tiveram queda de 20,69%, em comparação com o ano anterior. Mas as agressões físicas aumentaram 88,46%, passando de 26 para 49. Os impedimentos ao exercício profissional cresceram 200%: foram sete casos em 2021 e 21, em 2022.

Também tiveram crescimento significativo (125%) os ataques cibernéticos a veículos de comunicação, passando de quatro para nove episódios.

Bolsonaro no papel principal

“O ex-presidente Jair Bolsonaro, assim como nos três anos anteriores, foi o principal agressor. Sozinho, ele foi responsável por 104 casos (27,66% do total), sendo 80 episódios de descredibilização da imprensa e 24 agressões diretas a jornalistas (10 agressões verbais e 14 hostilizações)”, afirma a Fenaj.

De acordo com a presidenta da Fenaj, Samira de Castro, esse resultado pode ser explicado pela tensão política no país. “A sociedade passa nesse momento de tensionamento político a questionar as instituições estabelecidas. A imprensa é uma dessas instituições. Então a gente precisa de um discurso institucional que valorize o jornalismo profissional a partir de agora, para poder a própria sociedade entender, que quando ela agride um jornalista, ela está retirando dela mesma o direito de ser informada.”

Samira aponta meios para reverter a situação. “É preciso campanhas de sensibilização, a instalação do próprio Observatório Nacional da Violência contra o Jornalista, um protocolo nacional de segurança com as forças policiais porque também são forças agressoras da imprensa. E a partir de tudo isso, a sociedade voltar a compreender que o jornalismo é, sim, uma forma de conhecimento imediato da realidade e que estabelece um direito humano, que é você ser informado e poder saber da sua realidade imediata a partir do trabalho das repórteres, dos repórteres, enfim, de todos os jornalistas.”

Não aceitar a impunidade

Ainda de acordo com a presidenta da Fenaj, os jornalistas não devem naturalizar as agressões sofridas e precisam procurar imediatamente os sindicatos de classe e as delegacias de polícia ao serem vítimas de algum tipo delas. “A impunidade é um combustível para toda a violência contra a categoria.”

A Região Centro-Oeste continua a mais violenta para os profissionais de imprensa. O Distrito Federal é o líder no número de casos, com 30,57% dos registros, o que equivale a 88 ocorrências. “Lá é a sede do poder central. Depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial ocorreram muitas agressões a jornalistas”, disse Samira.

O relatório ainda destaca o brutal assassinato do jornalista britânico Dom Phillips, em uma emboscada, junto com o indigenista Bruno Pereira, em Atalaia do Norte, no Amazonas. “O assassinato de Dom Phillips foi o único ataque fatal a jornalista registrado em 2022, mas a repercussão internacional mostrou ao mundo a gravidade da situação brasileira no quesito violência contra jornalistas e outros defensores dos direitos humanos”, diz a Fenaj.


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