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Poder

Grana de Vorcaro foi mesmo para o filme de Bolsonaro ou é “investimento na campanha”?

Após denúncias, candidatura de Flávio desvalorizou mais do que a carteira do Master

Publicado em 14/05/2026 9:27 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A revelação de mensagens, documentos e áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma nova frente de crise política em torno do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada pelo ator Jim Caviezel. O caso ganhou dimensão após reportagem do Intercept Brasil apontar que Vorcaro teria transferido cerca de US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões — depois de sucessivos pedidos feitos por Flávio Bolsonaro para financiar a produção do longa.

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O ponto central da controvérsia, no entanto, deixou de ser apenas a relação entre o senador e o banqueiro. As notas divulgadas pelo deputado federal Mário Frias e pela produtora GOUP Entertainment, responsáveis pelo projeto cinematográfico, acabaram deslocando o debate para outra pergunta ainda sem resposta: se o dinheiro não foi usado no filme, qual teria sido o destino dos recursos mencionados nos documentos revelados pela reportagem?

A GOUP Entertainment afirmou que “não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário” entre os financiadores do longa. Mário Frias repetiu a mesma linha de defesa ao sustentar publicamente que não houve participação financeira de Vorcaro em Dark Horse. O empresário Paulo Figueiredo Filho, aliado da família Bolsonaro, também foi às redes para negar qualquer ligação entre o banqueiro e o financiamento da obra.

As negativas, porém, não encerraram o caso. Ao contrário: ampliaram as dúvidas em torno das transferências citadas pelo Intercept Brasil. Segundo a apuração, os pagamentos teriam ocorrido entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações associadas ao financiamento do filme.

Os áudios divulgados pela reportagem reforçaram o desgaste político. Em uma das gravações, Flávio Bolsonaro aparece pressionando Daniel Vorcaro por recursos para manter a produção do longa-metragem. O senador teria solicitado R$ 134 milhões e recebido parcelas que somam R$ 61 milhões.

A dimensão financeira da operação chama atenção também pelos parâmetros do mercado audiovisual brasileiro. O valor mencionado supera os orçamentos de duas das produções nacionais de maior repercussão internacional nos últimos anos. Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, custou R$ 45 milhões. Já O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura no elenco, teve orçamento estimado em R$ 28 milhões.

Outro elemento que elevou a pressão sobre o caso foi a informação de que parte dos recursos teria sido enviada aos Estados Unidos. De acordo com a reportagem, as transferências ocorreram por meio da Entre Investimentos e Participações, empresa que mantinha parceria com companhias ligadas a Vorcaro, em direção ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, atualmente vivendo nos Estados Unidos.

A sucessão de versões e negativas passou a alimentar a cobrança por investigação mais profunda da Polícia Federal. O foco agora está em esclarecer se os recursos efetivamente abasteceram a produção cinematográfica, se houve omissão deliberada nas declarações públicas ou se o dinheiro acabou direcionado para outras finalidades.

O próprio comportamento político de aliados de Flávio Bolsonaro passou a ser observado nesse contexto. Críticos do senador avaliam que parte do entorno bolsonarista prefere concentrar esforços na defesa de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Banco Master, em vez de pressionar por investigações conduzidas pela PF. A avaliação, nos bastidores, é de que uma CPI no Congresso permitiria maior controle político sobre os desdobramentos do caso.

As declarações posteriores de Mário Frias também contribuíram para ampliar o desgaste. Depois de negar qualquer aporte financeiro de Vorcaro, o deputado afirmou que, mesmo que houvesse participação do banqueiro no financiamento do filme, “não haveria problema algum”, já que se trataria de uma relação privada sem uso de dinheiro público.

A fala foi interpretada por setores da oposição como uma mudança parcial na estratégia de defesa dos envolvidos. Inicialmente, o esforço público estava concentrado em negar qualquer conexão financeira entre o empresário e o longa. Em seguida, passou-se também a sustentar que eventual investimento privado não caracterizaria irregularidade.

Na mesma manifestação, Mário Frias afirmou que Flávio Bolsonaro não possui participação societária na produção nem na empresa responsável pelo projeto. Segundo ele, a atuação do senador teria se limitado à cessão dos direitos de imagem da família Bolsonaro e ao peso político do sobrenome para atrair investidores interessados no filme.

A explicação, contudo, acabou reforçando outro aspecto sensível do caso: a participação direta de Flávio Bolsonaro nas articulações para captação de recursos. Essa interpretação ganhou força após a divulgação dos áudios em que o senador aparece cobrando pagamentos e demonstrando preocupação com a continuidade da produção cinematográfica.

Com isso, a crise política em torno de Dark Horse deixou de girar apenas em torno da proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O centro da discussão passou a incluir o caminho percorrido pelos milhões citados nos documentos revelados pelo Intercept Brasil — uma questão que, até agora, permanece sem resposta pública.

Com Flávio, o “cercadinho” volta à cena

A tentativa de Flávio Bolsonaro de se descolar politicamente da imagem do pai sofreu novo abalo ontem (13), após o senador reagir de forma agressiva a perguntas sobre os pedidos milionários feitos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, longa-metragem inspirado na trajetória de Jair Bolsonaro.

Durante entrevista coletiva, Flávio foi questionado por um repórter do Intercept Brasil sobre as transferências relacionadas ao projeto cinematográfico estrelado por Jim Caviezel. Em vez de responder objetivamente, o senador acusou o jornalista de mentir, classificou-o como “militante”, soltou uma gargalhada desconfortável e deixou o local abruptamente.

O episódio imediatamente remeteu ao padrão adotado por Jair Bolsonaro nos anos em que ocupou o Palácio do Planalto. No chamado “cercadinho” do Alvorada, o ex-presidente frequentemente reagia a perguntas incômodas com ataques pessoais, desqualificação da imprensa e interrupção das entrevistas diante de apoiadores que funcionavam como plateia de sustentação política.

O comportamento de Flávio ganhou ainda mais repercussão porque sua equipe já havia sido procurada previamente pelo Intercept para comentar os diálogos com Vorcaro e os pedidos de financiamento para Dark Horse. O senador, portanto, sabia que a reportagem estava em andamento e tinha conhecimento de que os conteúdos apreendidos pela Polícia Federal nos celulares do banqueiro poderiam vir a público a qualquer momento.

As mensagens obtidas pela investigação passaram a revelar conexões entre Vorcaro e figuras influentes do entorno bolsonarista, incluindo o senador Ciro Nogueira. Nesse contexto, a reação de Flávio foi interpretada por observadores políticos menos como surpresa e mais como demonstração de despreparo diante do avanço das revelações.

Horas depois da coletiva, a publicação da reportagem ampliou o desgaste do senador. O material trouxe um áudio em que o próprio Flávio Bolsonaro aparece pressionando Daniel Vorcaro por recursos para sustentar a continuidade do filme.

O impacto político do episódio vai além da discussão financeira envolvendo o projeto audiovisual. A crise passou a atingir diretamente a imagem pública do senador em um momento em que ele busca consolidar espaço nacional como potencial candidato ao Palácio do Planalto.

Nos bastidores políticos, a avaliação é de que a cena produziu um efeito simbólico delicado para Flávio. Ao optar pelo confronto verbal com jornalistas e abandonar o questionamento sem resposta, o senador acabou reproduzindo exatamente o modelo de comunicação que, em diferentes ocasiões, tentou afirmar que não pretendia herdar do pai.

A questão central deixa de ser apenas o conteúdo das revelações envolvendo Vorcaro ou o destino dos recursos mencionados nas investigações. O episódio também expõe um traço de método político: diante de fatos constrangedores, a estratégia passa pela desqualificação do interlocutor, pelo ataque à imprensa e pela evasão pública.

Para aliados e adversários, a cena reforçou a percepção de continuidade entre pai e filho não apenas no discurso ideológico, mas também na forma de lidar com pressão política e escrutínio público. Se Jair Bolsonaro transformou o enfrentamento com jornalistas em elemento permanente de mobilização de sua base, Flávio, ao ser confrontado pela primeira vez em escala nacional sobre um tema sensível, acabou reproduzindo o mesmo roteiro.

Candidatura de Flávio desvaloriza mais que a carteira do Master

O avanço das revelações sobre a relação entre Flávio e Vorcaro produziu um efeito imediato no núcleo político bolsonarista: a erosão acelerada da viabilidade eleitoral do senador como herdeiro natural do capital político da família.

Até poucas semanas atrás, integrantes da campanha tentavam consolidar a imagem de Flávio como uma versão politicamente mais moderada e institucional do pai, Jair Bolsonaro. A estratégia incluía apresentá-lo como figura capaz de sobreviver aos desgastes acumulados pelo bolsonarismo após anos de crises políticas, investigações e conflitos institucionais.

A revelação de que Flávio negociou valores milionários com Vorcaro atingiu diretamente a narrativa construída por sua equipe de comunicação, especialmente porque o senador vinha tentando associar o escândalo do Banco Master exclusivamente a práticas atribuídas a adversários políticos.

O desgaste aumentou depois da reação inicial de Flávio às denúncias. Horas antes da divulgação do áudio em que aparece solicitando recursos ao banqueiro, o senador havia classificado a reportagem como “mentira” e abandonado uma entrevista coletiva após atacar jornalistas. Com a publicação do material, a estratégia de negação tornou-se insustentável, obrigando o entorno político do senador a reorganizar rapidamente o discurso público.

Nos bastidores da campanha, a crise passou a produzir um movimento até então tratado apenas de forma reservada: o crescimento do nome de Michelle Bolsonaro como possível alternativa eleitoral dentro do grupo bolsonarista.

Relatos de interlocutores próximos à campanha apontam que a ex-primeira-dama passou a ser mencionada com maior frequência como plano alternativo diante do aumento da vulnerabilidade política de Flávio. O movimento reflete a percepção de que o senador entrou em uma zona de instabilidade difícil de controlar às vésperas da disputa presidencial.

O problema para o entorno bolsonarista não se limita ao dano de imagem. As investigações sobre o Banco Master passaram a conectar o escândalo financeiro à circulação de recursos destinados ao projeto audiovisual ligado à família Bolsonaro. Segundo os elementos já revelados, Flávio teria negociado R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro e recebido cerca de R$ 61 milhões antes do colapso do banco.

Parte desses recursos teria seguido para um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, cuja estrutura jurídica envolve pessoas ligadas ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro. O elo internacional da operação adicionou nova camada de pressão política e jurídica ao caso.

Após reuniões emergenciais com assessores e operadores de campanha, Flávio Bolsonaro passou a sustentar publicamente que toda a operação teria ocorrido no âmbito privado, sem participação de dinheiro público ou mecanismos de incentivo estatal. Em declarações recentes, o senador buscou enfatizar negativas sucessivas: afirmou não ter oferecido vantagens, não ter intermediado negócios com o governo e não ter recebido benefícios pessoais relacionados às negociações.

A linha de defesa, porém, enfrenta obstáculos políticos e jurídicos crescentes. O escândalo envolvendo o Banco Master já mobiliza investigações sobre o uso de recursos ligados a fundos de previdência estaduais e municipais, o que ampliou a gravidade do caso e elevou a pressão sobre os personagens envolvidos.

No ambiente político, o efeito mais imediato foi a deterioração da confiança na capacidade de Flávio Bolsonaro sobreviver eleitoralmente ao episódio. Integrantes do próprio campo bolsonarista passaram a reconhecer reservadamente que o senador entrou em trajetória de forte desgaste, especialmente porque agora aparece diretamente associado a um inquérito conduzido pela Polícia Federal.

A consequência prática é um cenário de crescente incerteza dentro da direita bolsonarista. Se antes a discussão era sobre consolidar Flávio como sucessor político do pai, agora parte dos aliados já trabalha com hipóteses alternativas para evitar que o escândalo comprometa toda a estratégia eleitoral do grupo em 2026.

Pai de Vorcaro é preso pela PF por ameaçar adversários

A ofensiva da Polícia Federal contra o núcleo investigado por operar uma rede clandestina de espionagem, intimidação e vazamento de informações ligadas ao Banco Master atingiu diretamente a família de Daniel Vorcaro. Na manhã desta quinta-feira (14), agentes federais prenderam em Belo Horizonte o empresário Henrique Vorcaro durante a sexta fase da Operação Compliance Zero.

Segundo os investigadores, Henrique desempenhava papel estratégico dentro da engrenagem financeira que sustentava o grupo informal conhecido como “A Turma”, descrito pela PF como uma organização criminosa dedicada a práticas de coerção, monitoramento ilegal, invasões cibernéticas e obtenção de dados sigilosos.

A operação desta quinta também aprofundou suspeitas de infiltração institucional dentro da própria Polícia Federal. Uma delegada foi afastada do cargo, um agente federal acabou preso e outros dois policiais aposentados tornaram-se alvos de mandados judiciais — um deles também detido. Todos são investigados por supostamente fornecer informações reservadas ao grupo ligado a Vorcaro.

As ordens judiciais foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Ao fundamentar a prisão preventiva de Henrique Vorcaro, Mendonça destacou que mensagens extraídas dos celulares apreendidos indicam continuidade das atividades ilícitas mesmo após fases anteriores da operação.

Na decisão, o ministro afirma que Henrique seguia articulando pagamentos, viabilizando recursos financeiros e mantendo contato operacional com integrantes da organização investigada. O despacho menciona ainda uso de números estrangeiros, troca frequente de aparelhos telefônicos e movimentações consideradas compatíveis com práticas destinadas a dificultar o rastreamento das comunicações.

Para os investigadores, Henrique Vorcaro atuava como principal operador financeiro do esquema, responsável por garantir recursos ao núcleo encarregado das ações clandestinas.

Entre as mensagens citadas na decisão judicial, aparece diálogo com Marilson Roseno. Nas conversas, Roseno cobra pagamentos e afirma estar “segurando uma manada de búfalo”, expressão usada para descrever a pressão operacional enfrentada pela estrutura investigada. Henrique responde que aguardava entrada de recursos para realizar transferências imediatas, inicialmente de “400”, enquanto o interlocutor insistia em um valor de “800k”.

As investigações revelam que “A Turma” não operava apenas como aparato de inteligência informal. Segundo a PF, o grupo também buscava interferir no ambiente digital para proteger a imagem pública de Daniel Vorcaro e do Banco Master.

Os investigadores apontam que hackers vinculados ao núcleo paralelo — chamado internamente de “Os Meninos” — atuariam para remover reportagens críticas da internet, além de impulsionar conteúdos favoráveis ao banqueiro. A suspeita inclui invasões a sistemas federais, monitoramento clandestino de alvos e utilização de expedientes fraudulentos contra plataformas digitais.

O inquérito também recuperou episódios de violência verbal e ameaças atribuídas ao grupo. Em material apreendido anteriormente, integrantes discutiam formas de intimidar jornalistas considerados hostis ao banco. Uma das conversas mencionava a intenção de “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim.

De acordo com documentos já reunidos pela investigação, a sugestão teria partido do próprio Daniel Vorcaro em diálogo com Luiz Mourão — codinome que fazia referência a executores profissionais.

Mourão acabou preso em março durante etapas anteriores da operação e morreu pouco depois, em circunstâncias que a Polícia Federal classificou como suicídio.

Outro personagem já alcançado pelas investigações é Fabiano Zettel, preso preventivamente sob suspeita de atuar na coordenação dos pagamentos destinados ao grupo clandestino.

O avanço das apurações também passou a atingir a estrutura patrimonial da família Vorcaro. Segundo os investigadores, Henrique e Daniel mantinham participação conjunta em empresas utilizadas para movimentações financeiras consideradas atípicas.

Uma dessas empresas, a Multipar, já havia sido alvo de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que identificaram circulação superior a R$ 1 bilhão em operações realizadas entre contas vinculadas ao próprio grupo econômico da família. Para os órgãos de controle, o padrão das movimentações indicaria possível tentativa de ocultação patrimonial.

Além das sete prisões preventivas e dos 17 mandados de busca e apreensão executados em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a nova fase da Compliance Zero também determinou bloqueio de bens e afastamento de agentes públicos suspeitos de colaborar com a organização investigada.

Os crimes apurados incluem ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional — um conjunto de acusações que amplia a dimensão do escândalo em torno do antigo comando do Banco Master e aprofunda a crise política e jurídica associada ao grupo de Daniel Vorcaro.

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