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Nota do governo americano manda projetos de golpe para o lixo
Publicado em 26/09/2022 9:53 - Jamil Chade e Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
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Os sequestros por parte da campanha de Jair Bolsonaro das viagens ao funeral da rainha Elisabeth 2ª, em Londres, e a abertura da Assembleia Geral da ONU levaram governos estrangeiros a consolidar uma orientação de evitar qualquer contato mais explícito, assinatura de acordos ou entendimentos com o Palácio do Planalto, até pelo menos que a eleição seja definida no Brasil.
Principalmente na Europa, autoridades já tinham adotado uma postura de cautela em relação ao governo de Jair Bolsonaro, com a própria Comissão Europeia trabalhando internamente com a perspectiva de que, em 2023, o presidente brasileiro já seria outro.
Fontes diplomáticas confirmaram que, ao longo dos meses, a opção pelo distanciamento ganhou força depois que Bolsonaro usou um encontro com embaixadores estrangeiros em julho para mentir sobre o sistema eleitoral brasileiro. Pelo protocolo, as embaixadas estrangeiras não poderiam deixar de atender ao convite do chefe de estado do país onde estão alocadas. Mas muitos dos embaixadores se sentiram “usados” ao entenderem que eram palco para uma campanha eleitoral e contra as urnas.
O mal-estar ganhou uma nova proporção na semana passada, depois que Bolsonaro usou até mesmo o funeral da monarca britânica para fazer campanha. Em embaixadas estrangeiras em Brasília, a percepção é de que o presidente não respeitará nenhum protocolo, luto ou normas a partir de agora.
A reportagem apurou que, em diversas democracias, a orientação foi a de suspender qualquer contato mais frequente com as autoridades brasileiras para evitar a repetição do cenário constrangedor.
“Para muitos de nós, ele já é um pato manco”, explicou um diplomata estrangeiro, numa referência ao conceito em inglês de um presidente que já não governa e que apenas está aguardando o prazo para se retirar.
Diplomatas brasileiros passaram a ser informados por seus homólogos em diferentes capitais que decisões estratégicas sobre o Brasil aguardariam uma definição dos resultados eleitorais. Essa é uma forma elegante para dizer que, por enquanto, os contatos se limitariam ao necessários e aos temas urgentes.
Mas enquanto os contatos com o governo Bolsonaro passam a ser limitados, autoridades estrangeiras proliferam encontros com membros da sociedade civil brasileira, indígenas e grupos de oposição ao presidente.
Nesta semana, tanto a Comissão Europeia, como a presidência do Parlamento Europeu e relatores da ONU receberão em Bruxelas e em Genebra uma delegação de indígenas brasileiros. Faltando menos de uma semana para a eleição, o gesto foi interpretado por observadores internacionais como um recado claro de que essas entidades não estão de acordo com o posicionamento políticos de Bolsonaro sobre temas ambientais e de direitos humanos.
Nas últimas semanas, governos europeus, o Vaticano e congressistas americanos também seguiram o mesmo padrão, abrindo suas portas para entidades da sociedade civil brasileira. O motivo: a eleição brasileira e um eventual movimento de ruptura democrática por parte de Bolsonaro.
Conforme o UOL revelou no último dia 20, uma articulação também tem sido realizada entre governos estrangeiros para que haja um reconhecimento do resultado divulgado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), evitando que se abra uma brecha para que Bolsonaro tenha apoio internacional no caso de um ato de contestação.
Dias depois, a embaixada americana em Brasília foi a primeira a sinalizar nesta direção. Nas redes sociais, o governo de Joe Biden indicou que considerará como legítimo o resultado chancelado pelo sistema eleitoral brasileiro, e não por meio de uma negociação.
Sob críticas de Bolsonaro, estrangeiros começam monitoramento de eleição
A missão da OEA (Organização dos Estados Americanos) deu início aos trabalhos de monitoramento da eleição no Brasil. uma parcela dos observadores já está no país e, até o início da semana, a equipe completa de 55 pessoas estará atuando.
Se originalmente a ideia do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) era a de contar com missões de diversos outros organismos internacionais, a realidade é que o governo de Jair Bolsonaro vetou a participação da União Europeia.
Em julho, diante de embaixadores estrangeiros, Bolsonaro ironizou a presença dos observadores. “Eu peço aos senhores, o que essas pessoas vêm fazer no Brasil? Vêm observar o quê que o voto é totalmente informatizado? Vêm dar ares de legalidade (ao processo)? Vêm dizer que tudo ocorreu numa normalidade?”, questionou o presidente.
“Eu tenho dezenas e dezenas de vídeos por ocasião das eleições de 2018, onde o eleitor ia votar e simplesmente não conseguia votar”, disse Bolsonaro.
Conforme o UOL revelou com exclusividade, governos estrangeiros se articulam para legitimar o resultado das urnas no Brasil, assim que o resultado for chancelado pelo TSE. O objetivo é o de impedir que um dos grupos políticos questione a lisura do processo. Neste caso, a presença de observadores internacionais pode ser um fator importante.
A equipe da OEA será liderada pelo ex-chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano e conta com observadores de 17 nacionalidades. No ano passado, o diplomata chefiou a missão da OEA para a eleição no Peru na qual Pedro Castillo derrotou Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori.
Uma das orientações da missão neste ano foi a de não concentrar sua equipe em algumas algumas poucas cidades. Por isso, os observadores foram enviados para 15 estados, entre eles Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, além do Distrito Federal.
Também foi determinado que o processo de acompanhamento dos votos ocorra no exterior. Para isso, três cidades foram escolhidas para receber os observadores: Porto, Miami e Washington.
De acordo com a OEA, a equipe da missão conta com “especialistas que irão monitorar os aspectos chave em matéria de tecnologia e organização eleitoral, votação no exterior, justiça eleitoral, financiamento político, campanhas e liberdade de expressão, participação política de mulheres, participação de grupos indígenas e afrodescendentes e violência eleitoral”.
Antes mesmo do dia da eleição, a missão já iniciou os trabalhos e se reúne com as autoridades eleitorais e governamentais, líderes políticos, observadores nacionais e outros representantes da sociedade civil. O objetivo, segundo eles, é “receber diferentes apreciações sobre as eleições”.
“Esses encontros, somados à observação direta e à análise dos regulamentos, permitirão à Missão realizar uma análise integral sobre esse processo”, afirmou a OEA. Essa é a terceira ocasião em que a OEA envia uma missão para observar os processos eleitorais no Brasil. Em 2018 e 2020, os informes produzidos pelo grupo não indicou nenhum padrão de fraude eleitoral, como é argumentado pelo presidente Jair Bolsonaro.
Além da OEA, a eleição também será acompanhada pela União Interamericana de Organismos Eleitorais (Uniore), pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Carter Center e Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais.
Nota do governo americano manda o golpe de Bolsonaro para o lixo
O fato político mais importante das últimas 24 horas não foi o tedioso debate de pouca audiência entre os candidatos a presidente promovido pelo SBT (Sistema Bolsonarista de Televisão) sob o olhar atento de Fábio Farias, ministro das Comunicações e casado com uma das herdeiras da fortuna de Silvio Santos.
Foi a nota do governo dos Estados Unidos, postada na conta oficial no Twitter da sua embaixada no Brasil, sobre as eleições do próximo domingo. Com todas as letras, está dito ali que o governo americano avalizará os resultados que vierem a ser anunciados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Parece óbvio? Mas não é.
Os militares farão uma apuração paralela à do tribunal para confirmar se não houve irregularidades. Imagine só se concluírem que houve. Então, como ficaremos? Valerá o quê? O veredicto do tribunal ou o dos militares sob o comando de Bolsonaro? Para o governo americano, e por extensão o mundo, valerá o do tribunal.
O golpe foi para o beleléu. Em breve, Bolsonaro também irá.
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