23/04/2024 - Edição 540

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Golpe orquestrado com apoio da PRF e de parte da PM não se consolidará

Aliados no exterior abandonam Bolsonaro: ao menos 93 países já reconheceram vitória de Lula e número aumentará nesta terça

Publicado em 01/11/2022 9:53 - Jamil Chade (UOL), Bernd Riegert (DW) – Edição Semana On

Divulgação Imagem: Marcos Corrêa/PR

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Governos de pelo menos 93 países já confirmaram nas redes sociais ou em telegramas oficiais a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições brasileiras no fim de semana. O número irá aumentar ainda mais ao longo desta terça-feira, com dezenas de autoridades buscando formas de falar com o vencedor do pleito.

A avalanche de reconhecimentos foi recebida no Itamaraty como um sinal claro de que, para a comunidade internacional, não existem questionamentos sobre a eleição e que, a partir de agora, o interlocutor é Lula, e não Bolsonaro.

Se as principais democracias do mundo e alguns dos principais rivais de Bolsonaro se apressaram para reconhecer a derrota do presidente de extrema direita, o que surpreendeu a ala mais próxima ao movimento ultraconservador foi o comportamento de aliados internacionais de Bolsonaro.

Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, foi às redes sociais para felicitar Lula. Ela acaba de vencer suas eleições na Itália e, pela primeira vez em décadas, o movimento herdeiro do fascismo tomou o poder em Roma.

Em sua vitória, Meloni recebeu efusivas mensagens do clã Bolsonaro, numa esperança de que a nova aliada fizesse o mesmo no Brasil. Mas isso não ocorreu e a italiana fez votos de que Lula e ela continuem a trabalhar juntos em nome da “histórica amizade” entre os dois povos.

Quem também reconheceu o resultado das urnas foi a Arábia Saudita, onde Bolsonaro chegou a dizer que tinha afinidades com o príncipe herdeiro, Mohamed Bin Salman. Nas redes sociais, o saudita desejou “sucesso” ao petista.

O governo dos Emirados Árabes Unidos, também com amplos contatos com a família do presidente, já parabenizou Lula.

Mais moderada foi a ultraconservadora Katalin Novak, presidente da Hungria e que há poucos meses esteve no Brasil. Ela não citou o nome de Lula nas redes sociais. Mas deixou claro que Budapeste reconhece a vitória do petista e que deseja sucesso ao “presidente eleito”. Ao longo dos anos, a Hungria foi o exemplo que o bolsonarismo adotou para silenciar a imprensa, a sociedade civil, controlar os demais poderes e desmontar a democracia.

Em Israel, nem mesmo o gesto de Bolsonaro de apontar para um reconhecimento de Jerusalém como capital e a mudança de votos do Brasil na ONU em favor dos israelenses levou o governo do país estrangeiro a hesitar sobre a eleição brasileira. Durante o dia da eleição, a primeira-dama Michelle Bolsonaro foi votar com uma camisa na qual a bandeira de Israel estava estampada, uma sinalização principalmente ao movimento evangélico brasileiro.

Mas, nas redes sociais, Isaac Herzog parabenizou Lula. “Recordamos com carinho sua visita a Israel diante seu mandato anterior”, disse. “Esperamos aprofundar nossos excelentes laços e principalmente cooperar em um assunto que tanto nos preocupa: o meio ambiente”,

Na Polônia, também governada pelos ultraconservadores, as autoridades não hesitaram em saudar a vitória de Lula.

Na América do Sul, o reconhecimento do Suriname nas últimos horas completou o mapa da região, com todos os vizinhos do Brasil chancelando o sistema eleitoral do país. Todos os países dos Brics também sinalizaram na mesma direção.

O reconhecimento amplo não ocorreu por acaso. Depois de semanas de uma coordenação detalhada, democracias Ocidentais se apressaram para parabenizar Luiz Inácio Lula da Silva pela vitória, com telegramas e mensagens nas redes sociais ainda na noite de domingo. A meta era de criar um cordão sanitário que impedisse Jair Bolsonaro de repetir a estratégia de Donald Trump e questionar a lisura da eleição. Outro temor era de que o cenário de caos da Bolívia fosse repetido,

Ao parabenizar Lula, o que Biden, Emmanuel Macron, Olaf Scholz e tantos outros fizeram foi sinalizar que confiavam no processo eleitoral e nos resultados das urnas eletrônicas. Mas há um segundo recado: a partir de agora, reconhecem que o poder legítimo no Brasil está com Lula.

Entidades internacionais também se expressaram, como a Organização dos Estados Americanos, ONU e a União Europeia.

O processo de isolamento de Bolsonaro foi completado nesta segunda-feira quando os maiores aliados do Brasil fora do Ocidente – China e Rússia – deixaram claro que querem estabelecer parcerias amplas com Lula.

Em menos de 24 horas, portanto, uma espécie de cordão sanitário foi estabelecido, enquanto assessores de Lula indicam que a busca pelo presidente eleito por parte de governos e entidades internacionais explodiu.

Um exemplo é a Conferência do Clima da ONU, no Egito. O UOL apurou que delegações estrangeiras estão enviando negociadores extras para que tenham como incumbência buscar a equipe de transição do Brasil para iniciar a negociação de novos entendimentos.

A fila para falar com o Brasil de Lula, segundo diplomatas, já preenche uma ampla agenda.

Entre os europeus, havia ainda a esperança de que Bolsonaro permitisse que uma equipe de transição ou até mesmo Lula fosse para a cúpula do G-20, que ocorre em novembro na Indonésia. Mas, dentro do Itamaraty, a possibilidade é vista como “impossível”.

No G-20, porém, diplomatas brasileiros já admitem que, se Bolsonaro for, será difícil organizar qualquer tipo de encontro para o presidente derrotado. Principalmente se mantiver a postura de não reconhecer a derrota e iniciar um processo de transição.

Com Lula, UE aposta em recomeço para a relação com o Brasil

Como é praxe internacional entre democratas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, felicitou o vencedor da eleição de domingo (30/10) no Brasil: “Fico feliz por poder trabalhar com o senhor no enfrentamento de desafios globais urgentes, da segurança alimentar, passando pelo comércio, até a mudança climática”, tuitou a política alemã a partir de Bruxelas. Se o resultado das urnas tivesse sido outro, ela provavelmente usaria uma fórmula semelhante.

Mesmo que suas palavras não o expressem diretamente, os altos representantes da União Europeia devem estar aliviados que Luiz Inácio Lula da Silva tenha sido eleito novo presidente, avalia Jamie Shea, especialista em América Latina do think tank Friends of Europe.

“No primeiro momento, haverá um suspiro de alívio. Lula está de volta, podemos agir com mais pragmatismo, um novo começo, um restabelecimento das relações. Há esperança de uma mudança. Lula já ocupou o cargo, e conhece a UE muito bem”, diz. “Por outro lado, ele também é um populista no sentido de ter se comprometido com altos gastos sociais”, pondera.

O político de esquerda que retorna ao Palácio do Planalto sempre foi crítico em relação ao Ocidente e ao que considera as grandes potências capitalistas. Isso não vai mudar de uma hora para a outra: ele posicionará o Brasil em algum lugar entre os Estados Unidos, a Rússia e a China, crê Shea. “Lula é alguém que gosta de assumir uma posição contra o Ocidente quando se trata de apoiar as sanções contra a Rússia.”

Nesse ponto, ele pouco vai diferir de seu antecessor nacionalista de direita, Jair Bolsonaro, que rejeita as medidas punitivas contra o país em guerra contra a Ucrânia. Além disso, o Brasil lucra indiretamente com o conflito, pois aumentou a demanda por seus alimentos no mercado mundial, como trigo.

Proteção da Amazônia

A vice-presidente da delegação do Parlamento Europeu para o Brasil, Anna Cavazzini, tem uma opinião semelhante: “Lula não esconde que não deseja manter uma cooperação super estreita com os EUA. Ele vai se manter mais neutro, sem se associar à política de sanções europeia e americana contra a Rússia. Mas creio que Lula tem um ouvido aberto para as questões da União Europeia e agirá de modo mais aberto e pragmático do que Bolsonaro.”

Apesar de tudo, a deputada do Partido Verde se diz satisfeita que o candidato de esquerda vá ser o próximo presidente do Brasil. Sobretudo a perspectiva de mais proteção para a Amazônia lhe dá esperanças: “Estou extremamente feliz que Lula tenha vencido a eleição. Mais um mandato de Bolsonaro seria realmente uma catástrofe para a floresta e também para a democracia brasileira. Lula tem agora a chance de dar espaço para muitos políticos que Bolsonaro reprimiu.”

Cavazzini espera que o novo chefe de Estado volte a restringir o desmatamento da floresta tropical, tão importante para a proteção climática. “Ainda tenho dúvidas se vai bastar diante da catástrofe, do desmatamento recorde que estamos vendo. Por isso creio que é igualmente importante a pressão internacional da sociedade civil, da Comissão Europeia, dos eurodeputados. Não será uma mudança automática, pois Lula está sob pressão das grandes empresas nacionais do agronegócio.”

Acordo UE-Mercosul

Para se impor contra o lobby agropecuário e poder manter uma política econômica diferente, Lula precisa iniciar reformas no Brasil, permitir mais comércio e atrair investidores estrangeiros, frisa o especialista em América Latina Jamie Shea: “Isso significa que ele deve abrir mais a economia brasileira. Além disso, seus programas sociais precisam enfrentar o teste da realidade.”

Ao que tudo indica, o presidente esquerdista pretende concluir e renegociar o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a UE, há 20 anos em negociações, mas ainda não implementado. Incerto é se a UE, que até agora não ratificou o pacto, que também envolve a Argentina, Paraguai e Uruguai, vai estar disposta a colaborar.

“Se Lula quiser renegociações, devemos aceitar de braços abertos. Aí a Comissão Europeia deve se sentar e reformular o acordo em alguns pontos específicos, pois como está no momento, não pode ser aprovado”, aconselha Anna Cavazzini.

Para a eurodeputada, em relação a padrões ambientais, sustentabilidade e proteção florestal, o Mercosul precisa de melhorias urgentes. A meta mais importante para a UE deve ser tornar a proteção climática a principal política do Brasil: “Espero que a União Europeia possa dar muitos impulsos aqui, na forma de verbas, cooperação, mas também de pressão política.”


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