22/02/2024 - Edição 525

Poder

Frustrado com as pesquisas, Bolsonaro deve chutar o balde no 7 de Setembro

Com o mundo de olho no Brasil, radicalização bolsonarista seria um presente para Lula

Publicado em 06/09/2022 10:08 - Leonardo Sakamoto, Jamil Chade e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação DW

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Contrariando as expectativas de sua campanha, que previa que ele já teria alcançado Lula no início de setembro, Jair Bolsonaro oscilou para baixo na pesquisa Ipec (sucessora do Ibope), divulgada na segunda (5). Foi de 32% para 31%, enquanto seu arquirrival manteve-se com 44%. A margem de erro é de dois pontos.

Não só isso: ele oscilou para baixo onde precisava ter melhorado desesperadoramente, indo de 29% para 26% no voto feminino. O que não deixa de ser uma lição: se continuar atacando mulheres e depois dizendo que elas reclamam por mimimi e vitimismo, nem Michelle salva.

Se Bolsonaro já ia montado nas más intenções para as micaretas golpistas que está organizando para o 7 de Setembro, agora, com os dados da pesquisa Ipec (que confirmam o mar sem vento apontado por outros institutos) e a decisão liminar de Edson Fachin (que limitou seus decretos que semearam armas e munições no país), o presidente pode chutar o balde.

Ele tem, neste momento, um anjinho e um diabinho falando em cada ouvido – ok, tecnicamente, são só diabinhos, mas um é racional e consequente e outro não, o que já é uma baita diferença.

Um deles, com a cara do centrão, diz para ele pegar leve na próxima quarta porque precisa garantir a simpatia de grandes empresários e o voto de indecisos moderados. O outro, com jeitão de seu entorno extremista, defende que ele toque fogo no parquinho da República, incendiando os seus seguidores para 25 dias de guerra santa contra o STF, o TSE, a urna eletrônica, os adversários. Como alguns diriam, uma escolha difícil.

Bolsonaro tem a característica de que, quando acuado, mostra os dentes. E quando mostra os dentes, seus seguidores mais radicais sentem-se à vontade para erguer faixas pedindo o fechamento de tribunais e parlamentos, exigir das Forças Armadas uma intervenção militar (a.k.a. golpe) ou ameaçar magistrados, políticos e jornalistas com surra de gato morto. No limite, algum pode fazer algo impensável – como invadir uma festa de aniversário e matar a tiros um petista.

O impacto eleitoral do Auxílio Brasil, anabolizado pela PEC da Compra dos Votos, ainda vai cair na conta de Jair. A questão é que ninguém sabe ainda o quanto, nem quando.

A esta altura do campeonato, a sua campanha imaginava que a queda no preço dos combustíveis, a melhora na renda e no emprego e as boas notícias sobre o crescimento do PIB trariam votos para o presidente. A questão é que, independente de deflação, os preços de alimentos continuam terrivelmente altos. E os pobres seguem na informalidade, sem segurança nem garantia. Isso sem contar que a sensação coletiva de melhora da vida, impulsionadora de votos, ainda não se estabeleceu.

Noves fora que, convenhamos, não importa o tamanho do PIB, mas o prazer que ele proporciona. O PIB de Jair pode ter surgido maior do que o imaginado, mas se trouxe alegria só para os ricos até agora, sinceramente, não serve para nada.

A certeza é que, com a demora da máquina do governo em render frutos eleitorais, a máquina do ódio de Bolsonaro vai vir como um rolo-compressor. Vamos torcer para, depois que ele passar, ainda termos um país.

Ao brecar armas, Fachin engatilha língua de Bolsonaro para Sete de Setembro

Virou pó a alegada articulação de auxiliares do Planalto para promover um armistício entre o presidente da República e o Judiciário. Bolsonaro e as togas que ele abomina travam nos últimos dias algo muito parecido com um tiroteio. Coube ao ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin realizar o penúltimo disparo. Ao suspender trechos de decretos e portarias armamentistas de Bolsonaro, restringindo acesso a armas e munições, Fachin como que engatilhou a língua do presidente para o 7 de Setembro.

Os articuladores da trégua enrolaram a bandeira branca. Nas palavras de um ministro de Bolsonaro, “não há como negociar a paz com quem cultiva a guerra”. Os magistrados estariam fustigando o presidente, não o contrário. Nessa versão, Bolsonaro teria agido em legítima defesa ao chamar Alexandre de Moraes de “vagabundo” em discurso no último sábado. Reagiu à decisão do ministro do Supremo e presidente do TSE de autorizar operação da Polícia Federal contra empresários bolsonaristas que conversaram sobre “golpe” no Whatsapp.

Avalia-se no Planalto que Fachin, antecessor de Moraes na presidência do TSE, escolheu metodicamente a data para limitar o acesso dos chamados CACs —caçadores, atiradores e colecionadores— a armas e munições. O Supremo já havia tentado julgar ações contra a política armamentista do presidente. Mas o julgamento foi suspenso por um pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques, a quem Bolsonaro se refere como “10% de mim no Supremo.”

Kassio mantém a encrenca engavetada há um ano, desde setembro do ano passado. Acionado por recursos do PT e do PSB, Fachin poderia decidir sobre a matéria depois das eleições. Optou por conceder os pedidos de liminar formulados pelos partidos que lideram a coligação de Lula às vésperas do 7 de Setembro sob o argumento de que “o risco de violência política torna de extrema e excepcional urgência a necessidade de se conceder o provimento cautelar” que impõe travas à proliferação das armas. A novidade chega cinco dias depois de o TSE ter proibido o porte de armas nas sessões eleitorais em dias de votação. Dá-se de barato no Planalto que Bolsonaro irá reagir.

Eduardo Bolsonaro convoca quem tem arma a virar militante da campanha do pai

“Você comprou alguma arma legal? Tem clube de tiro ou frequenta algum? Então, você tem que se transformar num voluntário de Bolsonaro”. Com essa mensagem, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) fez uma convocação, em seu perfil no Twitter, para que usuários de armas se tornem militantes da campanha de seu pai, Jair Bolsonaro, do PL, candidato à reeleição.

Uma foto de Bolsonaro em frente a um telão de TV que mostra a imagem do seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, com a informação de que, se eleito, não irá liberar decreto para compra de armas, ilustra a postagem de Eduardo.

O deputado pede, então, que os cidadãos que têm armas peçam a seus deputados federais santinhos e material de campanha para distribuir. Em São Paulo, ele mesmo coloca-se à disposição para isso e envia um endereço com um formulário para que o pedido seja feito.

Em resposta à postagem de Eduardo Bolsonaro, o deputado André Janones (Avante-MG), que apoia Lula fez uma outra postagem provocativa: “Você teve algum familiar morto pela Covid? Morreu à espera de vacina? Então, você tem que se transformar num militante contra o bolsonarismo”. Da mesma forma, Janones pede que o cidadão procure deputados federais e peça material de campanha. E também coloca-se à disposição nesse sentido.

Radicalização de Bolsonaro no Sete de Setembro seria um presente para Lula

Bolsonaro planejou usar o 7 de Setembro como evidência de que sua candidatura continua cheia de vida. Mas a pesquisa Ipesp sinaliza que o eleitor talvez já tenha jurado de morte o projeto da reeleição. Lula se manteve estável em 44%. Bolsonaro, com 31%, oscilou um ponto para baixo. A taxa de rejeição do presidente subiu. Piorou seu desempenho entre as mulheres. Os R$ 600 reais do Auxílio Brasil não compraram a simpatia do eleitor pobre. Como se tudo isso fosse pouco, Bolsonaro perde terreno na região que concentra 4 em cada 10 eleitores do país. O Sudeste vai se revelando um sumidouro dos votos de Bolsonaro.

Segundo o Ipesp, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro no Sudeste subiu de seis para 11 pontos. Na comparação das pesquisas feitas pelo Ipesp nos Estados essa região que tem quatro em cada dez eleitores do país, o resultado das urnas de 2018 revela o tamanho do encolhimento do presidente ao longo do mandato. Se a eleição fosse hoje, Bolsonaro teria em São Paulo, 17% a menos de votos em relação ao resultado da sucessão passada. Lula, que estava preso em 2018, teria uma soma de votos 24% superior à que foi amealhada por Fernando Haddad, o presidenciável do PT na sucessão passada.

Em Minas Gerais, Bolsonaro teria hoje 13% a menos de votos, Lula, 20% a mais do que Haddad. No Rio de Janeiro, Bolsonaro teria um desempenho 18% menor em relação à contagem das urnas de 2018. Lula teria 26% mais votos do que Haddad. Sem reconquistar os votos que sumiram do seu mapa eleitoral nos últimos quatro anos, Bolsonaro terá dificuldades para se livrar do vexame de descer ao verbete da enciclopédia como primeiro presidente da história que não conseguiu se reeleger.

Nos planos do comitê da reeleição, Bolsonaro chegaria ao Dia da Pátria encostado em Lula, exibiria musculatura em comícios disfarçados de celebrações oficiais e chegaria entraria no segundo turno à frente do seu rival nas pesquisas. O enredo contado pelas pesquisas é bem diferente. De acordo com o Ipesp, a taxa de rejeição de Bolsonaro oscilou de 46% para 49% em 15 dias. No momento, a possibilidade de Lula vencer no primeiro turno é uma probabilidade estatística situada na margem de erro da pesquisa.

Se Bolsonaro repetir neste ano a radicalização do 7 de Setembro de 2021, arrisca-se a produzir o fato novo que pode presentear seu adversário com um triunfo antecipado.

7 de Setembro deixa estrangeiros em alerta; embaixadas temem por segurança

Os atos programados pelo presidente Jair Bolsonaro para marcar o 7 de Setembro deixaram governos estrangeiros e entidades internacionais em alerta diante do risco de violência política. A coluna apurou que até mesmo uma célula de crise chegou a ser montada em instâncias estrangeiras para monitorar os acontecimentos nos próximos dias no Brasil, enquanto embaixadas de outros países não descartam acionar protocolos de segurança em território nacional.

Na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ativistas brasileiros e organizações da sociedade civil foram informadas pela presidência do órgão regional que uma equipe está em constante acompanhamento dos acontecimentos no Brasil, principalmente diante da convocação de Bolsonaro a atos de seus apoiadores nesta quarta-feira.

Ao longo das últimas semanas, diferentes embaixadores brasileiros e membros do governo receberam alertas claros por parte de governos estrangeiros de que uma ruptura democrática não terá respaldo internacional. Os recados foram repassados inclusive por meio dos serviços secretos.

Numa recente declaração, o relator de liberdade de expressão da Comissão Interamericana, o colombiano Pedro Vaca, também deixou clara a preocupação com o situação brasileira. “No marco do início do período de campanha eleitoral no Brasil, este escritório tem recebido reportes sobre o aprofundamento da polarização política e seu impacto no debate público”, alertou.

“A CIDH tem recebido informação sobre discursos que se direcionariam a colocar em dúvida o processo eleitoral e a legitimidade das instituições democráticas, sem aportar informação constatada ou verificável; discursos que poderiam exacerbar ou favorecer a discriminação e a violência; e manifestações que desafiariam o cumprimento de decisões judiciais ou que teriam o potencial de fomentar o repúdio a resultados eleitorais, sem aportar as evidências inequívocas nas quais se baseiam”, disse.

Segundo a comissão, mesmo em períodos eleitorais “existem limites ao direito à liberdade de expressão”. “Particularmente, as pessoas que exercem funções públicas e aquelas candidatas a ocupar cargos públicos estão chamadas a velar pela integridade e qualidade da deliberação pública e a assegurar-se de que seus pronunciamentos não exacerbem as tensões vinculadas com as eleições, nem tem o potencial de lesionar os direitos das pessoas”, completou, sem citar o nome de Bolsonaro.

Na ONU, a situação também é de monitoramento do Brasil. Antes de deixar o cargo de alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, no início da semana passada, a chilena Michelle Bachelet deu declarações de preocupação em relação à incitação realizada por grupos bolsonaristas e por autoridades para que usassem a data do 7 de setembro para uma demonstração de força.

Ela, porém, optou por questionar o presidente. Em resposta, o governo brasileiro apresentou uma carta na qual se queixava de seus comentários. No Brasil, a agência estará acompanhando os acontecimentos, com especial foco na questão de eventuais violações de direitos humanos.

Preocupações em outros países

Mas a preocupação também chega aos governos estrangeiros. Na Europa, capitais receberam nos últimos dias telegramas confidenciais alertando que a data deve ser “tensa” e que marcaria, potencialmente, um momento chave nas eleições brasileiras.

Vários governos estrangeiros já deixaram claro que ficaram insatisfeitos com o comportamento de Bolsonaro de convocar embaixadores de outros países para um evento, há um mês, que acabou sendo transformado em um ataque contra o sistema eleitoral brasileiro.

O Itamaraty convidou as embaixadas estrangeiras em Brasília para os atos. Mas isso não impediu que várias delas iniciassem debates internos para acionar protocolos de segurança, caso incidentes de violência eclodam durante a data do 7 de setembro.

Por questões de segurança e também por motivos diplomáticos, as embaixadas têm evitado falar abertamente sobre a iniciativa de implementar medidas de precaução.

Mas diversos governos apontam para o fato de que, já em agosto, o governo dos EUA emitiu um alerta a seus cidadãos no Brasil por conta da tensão dos próximos dias.

“O primeiro turno das eleições nacionais do Brasil está marcado para ocorrer em todo o país no domingo, 2 de outubro de 2022”, disse o comunicado enviado a todos os americanos com residência no Brasil. “Manifestações são esperadas ao redor do país antes e durante as eleições. Enquanto a Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil esperam que as eleições sejam relativamente calmas na maior parte do país, lembramos aos Cidadãos Americanos que se mantenham vigilantes e cientes de seus arredores e de quaisquer fechamentos de estradas”, alertam.

Diante da tensão a embaixada dos EUA no Brasil “alerta cidadãos americanos a evitarem áreas ao redor de protestos e manifestações, já que até mesmo aquelas manifestações que parecem pacíficas podem se tornar confrontos”. Entre as recomendações, o governo de Joe Biden pede que seus cidadãos “mantenham a discrição” no Brasil.


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