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Poder
Militares precisam ser punidos com Jair Bolsonaro para enterrar golpismo
Publicado em 23/08/2023 1:07 - Josias de Souza e leonardo Sakamoto (UOL), João Filho (The Intercept_Brasil) - Edição Semana On
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As revelações policiais dos últimos dias potencializaram o cenário que transforma, por contágio, a deterioração criminal de Bolsonaro num processo de desmoralização das Forças Armadas. Os militares reagiram à corrosão com três movimentos, todos insultuosos.
Num lance, o Ministério da Defesa pediu à Polícia Federal que informe os nomes dos militares que se reuniram com o hacker e estelionatário Walter Delgatti para tramar contra urnas eletrônicas. O pedido é ofensivo porque caberia à pasta da Defesa fornecer à PF dados sobre perversões ocorridas nas suas dependências, não o contrário.
Noutro lance, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica sustentaram, numa conversa com Lula, no escurinho do Alvorada, que é preciso esperar pelas sentenças judiciais para reagir. Alegaram que convém evitar uma “caça às bruxas”.
A protelação ofende porque o repúdio da corporação à delinquência independe do Judiciário. Com a complacência do alto-comando, Bolsonaro politizou os quarteis. Para desbolsonarizar suas atividades, os comandantes terão que reagir no tempo da política. No Brasil, a Justiça tarda e, por vezes, não chega.
Num terceiro movimento, os militares incorporam à sua prática a metodologia do centrão. Articulam privilégios novos. Obtiveram de Lula o aval à destinação de R$ 53 bilhões do Novo PAC para investimentos nas Forças Armadas. É mais do que será investido em Educação (R$ 45 bilhões). Ou em Saúde (R$ 30,5 bilhões).
Em comunicado endereçado ao público interno, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, anotou que os soldados “devem pautar suas ações pela legalidade e legitimidade”. No mesmo texto, a pretexto de “fortalecer as ações voltadas para o bem-estar da família militar”, disse ter acionado o Estado Maior do Exército para articular medidas “visando à recomposição salarial dos militares”.
A elevação dos investimentos e o manuseio do fator sindical afrontam porque passam a impressão de que as Forças Armadas utilizam a brasa do bolsonarista para assar uma pizza. Nada a ver com orégano e mussarela. Uma pizza integralmente feita de omissão e privilégios.
Militares precisam ser punidos com Jair Bolsonaro para enterrar o golpismo
Na última quarta-feira, a senadora Eliziane Gama, do PSB do Maranhão e relatora da CPMI do Golpe, afirmou em entrevista que a cúpula das Forças Armadas salvou o país de um golpe de estado: “Acho que as Forças Armadas no Brasil hoje, o Alto Comando, a instituição Forças Armadas impediu um golpe no país. A instituição como um todo não se curvou, não aceitou, na verdade, essa provocação, e tanto que nós não tivemos um golpe no Brasil”.
A afirmação é uma afronta à inteligência do brasileiro que acompanhou minimamente o que foi o governo Bolsonaro. A cúpula das Forças Armadas passou os últimos quatro anos sendo sócia de um governo explicitamente golpista e ofereceu a porta dos quartéis do país inteiro para abrigar os golpistas criminosos. Foi nos acampamentos que se planejou o atentado à bomba no aeroporto de Brasília e os ataques do 8 de janeiro. Tudo isso aconteceu sob a bênção dos militares.
Diferente do que disse a senadora, o golpe só não foi colocado em prática pela cúpula dos militares por falta de apoios internos e externos. Os EUA deixaram claro aos militares brasileiros que haveria suspensão da cooperação militar entre os dois países caso houvesse um golpe de estado. O golpe só não foi concluído por não haver as condições materiais necessárias. O fato é que as digitais da cúpula militar estão impregnadas em praticamente todas as ações golpistas promovidas pelo governo.
Eliziana é uma política séria, que vem fazendo um bom trabalho na relatoria da CPMI e enfrentando com firmeza e sobriedade as provocações de parlamentares golpistas e machistas. Mas essa passada de pano para a cúpula das Forças Armadas é inexplicável.E ela não é a única a pensar assim na CPMI. Quem acompanha os trabalhos da comissão já percebeu que a cúpula das Forças Armadas vinha sendo poupada, apesar da pororoca de indícios contra ela. Nenhum integrante do alto escalão foi convocado até agora para depor. Havia o entendimento entre os integrantes da comissão de que militares que participaram de atos golpistas agiram sozinhos — não a mando dos comandantes.
Mas a fala da senadora envelheceu mal rapidamente. No dia seguinte, durante o depoimento do hacker de Araraquara, Walter Delgatti, a cúpula das Forças Armadas foi tragada para o centro das investigações da CPMI. As falas dele foram devastadoras não só para Jair Bolsonaro, mas também para os integrantes do alto escalão dos militares.
Segundo Delgatti, as tramoias para fraudar as urnas foram planejadas dentro do Ministério da Defesa junto de comandantes das Forças Armadas, com o aval do presidente da República. A CPI foi obrigada a corrigir os rumos e, agora, o entendimento é de que a cúpula esteve diretamente envolvida nas articulações golpistas que culminaram com o 8 de janeiro. Membros do Alto Comando do Exército agora serão convocados a depor. Antes do fim da sessão com Delgatti, a senadora Eliziane Gama foi ao Twitter e desdisse a fala do dia anterior: “Investigaremos na CPMI e não pouparemos ninguém, inclusive, aqueles que se esconderam na farda para cometer atos golpistas. De recruta a general, ninguém será poupado.” Antes tarde do que nunca!
Investigaremos na CPMi e não pouparemos ninguém, inclusive, aqueles que se enconderam na farda para cometer atos golpistas. De recruta a general, ninguém será poupado.
— Eliziane Gama (@elizianegama) August 17, 2023
É claro que tudo o que o Delgatti disse precisa ser devidamente checado. Mas, para desespero dos parlamentares bolsonaristas que tentaram desacreditar tudo o que foi dito por ele na CPI, alguns dos episódios relatados já estão comprovados pelos investigadores. E o que já foi comprovado é devastador para Jair Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas.
A investigação já tem provas de que Delgatti invadiu o sistema do CNJ a mando da deputada Carla Zambelli para forjar um mandado de prisão contra Alexandre Moraes, expedido pelo próprio. Está comprovado que Zambelli pagou por esse serviço. O encontro entre o ex-presidente e o hacker no Alvorada também já está comprovado.
Logo após o depoimento de Delgatti na CPMI, Bolsonaro confirmou que houve o encontro com ele e foi além: confessou que o encaminhou para o Ministério da Defesa “para conversar com os técnicos”. Ou seja, o ex-presidente admite que abriu as portas do Ministério da Defesa às vésperas de uma eleição. Só esses fatos já são suficientes para implicar Bolsonaro e a cúpula dos militares como mandantes da trama golpista.
Delgatti disse que foi ao Ministério da Defesa em cinco oportunidades e que o relatório apresentado pela pasta para descredibilizar as urnas eletrônicas foi elaborado por ele. A ordem para se criar o relatório partiu do general Paulo Sérgio Nogueira, então ministro da Defesa. “A ideia do ministro era que eu mostrasse que não é segura, que a urna é vulnerável. O relatório foi feito nesse sentido, de não comprovar a lisura”, disse Delgatti. Antes de assumir o ministério da Defesa, Nogueira era o Comandante do Exército — cargo que passou a ser ocupado pelo general Marco Antonio Freire Gomes. Segundo o hacker, o coronel Marcelo Jesus — que também fazia parte do Alto Comando do Exército — era o responsável por intermediar o seu contato com o Comandante do Exército. Perceba que as marcas de batom estão por todas as partes nas fardas da cúpula dos militares.
A prisão de Jair Bolsonaro é questão de tempo. Mas a sua prisão não bastará. É preciso que os integrantes da cúpula das Forças Armadas que atuaram pelo golpe também sejam presos. É essa resposta que o Brasil precisa dar para a sua História. Qualquer movimentação para anistiar — mais uma vez — o Alto Comando deve ser rechaçada. É preciso admitir que as Forças Armadas, uma corporação importante para a democracia, está completamente contaminada por uma ideologia de extrema direita que tem o golpismo na sua essência.
É preciso cortar o mal pela raiz. Para isso, é fundamental que os criminosos golpistas de farda sejam responsabilizados. Punir rigorosamente os chefões é o único caminho para que se enterre a cultura golpista que historicamente impera nas Forças Armadas. Essa é a mensagem que deve ser dada às próximas gerações de militares.
Bolsonarismo perde confiança em militar por falta de golpe, indica pesquisa
Apesar de uma profusão de conspirações envolvendo oficiais e das ações de parte da cúpula militar principalmente no caso das urnas eletrônicas, as Forças Armadas não derrubaram o vitorioso Lula para manter o derrotado Bolsonaro no poder. O sentimento de frustração de parte do eleitorado do ex-presidente, decorrente dessa ausência de apoio institucional a um golpe, ajuda a explicar os números da nova pesquisa Genial/Quaest.
A confiança nas Forças Armadas caiu de forma significativa de dezembro do ano passado até agora entre a população em geral. Levantamento, divulgado nesta segunda (21), mostra uma queda de 43% para 33% entre quem confia muito na instituição e uma alta de 18% para 23% entre quem não confia. Entre julho e dezembro de 2022, os que confiavam muito havia variado positivamente de 40% para 43%.
A queda foi puxada principalmente pelos eleitores de Bolsonaro: os que confiam muito passaram de 61% para 40% e os que não confiam, de 7% para 20%. Os que confiam pouco foram de 31% para 38%.
Como Bolsonaro alardeava aos quatro ventos que era o comandante militar supremo, seus seguidores mais radicais acreditavam que, no dia D, na hora H, as Forças Armadas iriam agir para impedir o petista de subir a rampa do Palácio do Planalto ou mesmo prendê-lo. Isso ficou claro nas cenas patéticas de extremistas rezando por um golpe na porta de quartéis.
De fato, houve prisão logo após o 8 de janeiro, mas foram centenas de golpistas enviados à Papuda e à Colmeia. Somou-se a isso a remoção dos acampamentos golpistas montados na frente de quartéis em várias cidades do país (que haviam sido mantidos com a anuência dos chefes militares) e trocas em comandos do Exército. Com isso, bolsonaristas intensificaram os ataques aos militares, tachando muitos deles como “melancias” – verdes por fora, vermelhos por dentro.
Já os eleitores de Lula que confiam muito nas Forças Armadas oscilaram de 27% para 29% e os que não confiam de 25% para 26%, variando dentro a margem de erro de dois pontos. Isso mostra que não esperavam muito dos militares e não foram surpreendidos.
Por outro lado, há a opinião do grupo que não apoiou nem em Lula, nem em Bolsonaro no segundo turno: os votos nulos (3,9 milhões) e os em branco (quase 1,8 milhão), mas também os que não foram às urnas no dia 30 de outubro, ou seja, mais de 32,2 milhões de pessoas.
Entre esse grupo, caiu de 40% para 31% os que confiam muito nas Forças Armadas e oscilou de 24% para 25% quem não confia. Isso pode ser resultado do conjunto de falcatruas e ilegalidades nas quais Bolsonaro e militares se associaram.
Pode ter pesado que generais, almirantes, coronéis, majores, tenentes-coronéis, sargentos, entre outros, tenham sido envolvidos em escândalos – que vão de apoio aos atos golpistas no 8 de janeiro com a destruição das sedes dos Três Poderes até a participação em esquemas de subtração de joias que pertencem ao patrimônio público e sua venda no exterior.
As Forças Armadas, que estavam em um processo de descontaminação da imagem por conta da ditadura, afundaram até o pescoço na lama junto com Bolsonaro nos últimos quatro anos na chance de retomar o poder. Agora, um novo banho de imagem vai levar um tempo.
Sim, ao que tudo indica, tivemos perda de confiança causada por dois fatores diferentes e opostos: para um lado, os militares não foram bolsonaristas o bastante; para outro, foram bolsonaristas demais.
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