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Poder

Flávio e Eduardo Bolsonaro: os herdeiros em ruínas do bolsonarismo

STF publica ata de julgamento que rejeitou recursos de Bolsonaro e ex-presidente se aproxima da cadeia

Publicado em 17/11/2025 9:56 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Se, no passado recente, o nome Bolsonaro soava como sinônimo de força eleitoral e coesão ideológica no campo da extrema direita brasileira, o presente revela um cenário de ruínas, contradições e fragmentações internas. No palco político de 2025, os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentam o dilema de herdar um espólio corroído por escândalos, investigações criminais e uma crescente rejeição social. Flávio e Eduardo Bolsonaro, outrora cotados como possíveis herdeiros do trono simbólico do bolsonarismo, agora se veem enredados em tramas judiciais que evocam tanto a velha política patrimonialista quanto práticas dignas de conspiração internacional.

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Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro, parecia ser o escolhido para uma transição suave dentro da extrema direita, alguém com mais tato político e capacidade de articulação do que seus irmãos — atributos fundamentais para suceder um pai inelegível e desgastado. Contudo, o caminho que poderia conduzi-lo ao Palácio do Planalto foi abruptamente minado pelas investigações sobre o esquema das rachadinhas — prática de apropriação indevida de salários de assessores parlamentares — que remonta ao seu mandato como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio.

Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o senador pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. A denúncia foi baseada em provas robustas, como movimentações financeiras atípicas identificadas pelo Coaf e o depoimento do ex-assessor Fabrício Queiroz — personagem que se tornou símbolo da promiscuidade entre interesses públicos e privados no clã Bolsonaro.

Apesar da gravidade das acusações, o processo foi arquivado após a 5ª Turma do STJ acolher os argumentos da defesa, que alegava foro privilegiado. O Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Gilmar Mendes, também rejeitou tentativas do Ministério Público de reabrir o caso. No entanto, como observou a repórter Juliana Dal Piva, cujas investigações no UOL revelaram a compra de 51 imóveis em dinheiro vivo pela família Bolsonaro, os efeitos políticos do escândalo permanecem vivos: “As decisões judiciais não apagam os fatos, sobretudo quando estes já foram absorvidos pela opinião pública”. A fonte dessas revelações pode ser acessada diretamente em UOL Investigação – 51 imóveis.

Mesmo com a mancha indelével das rachadinhas, Flávio se movimenta nos bastidores, ensaiando uma candidatura presidencial. Segundo Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o senador estaria avaliando a possibilidade de ser cabeça de chapa — ou, mais provavelmente, vice de nomes como Tarcísio de Freitas ou até mesmo Ciro Nogueira. A ideia seria manter o clã no centro das negociações com a direita sem carregar sozinho o peso do passado. Como disse o cientista político Christian Lynch, do IESP-UERJ, “o bolsonarismo, como fenômeno político, pode sobreviver sem Bolsonaro, mas não sem o antipetismo. E este já não é mais monopólio da família”.

Mas se Flávio tenta sobreviver com discrição, Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo, parece ter optado pela afronta aberta às instituições. Tornado réu por coação no processo da tentativa de golpe de Estado, Eduardo cometeu o que juristas consideram um erro crasso: produziu provas contra si próprio, ao comemorar, nas redes sociais, as sanções impostas pelos Estados Unidos contra o ministro Alexandre de Moraes e sua família. As medidas, entre elas a aplicação da Lei Magnitsky, vieram após articulações promovidas por aliados de Donald Trump — entre os quais Eduardo se incluía abertamente.

O gesto foi tão chocante que setores da própria direita se insurgiram. Em conversas interceptadas pela Polícia Federal, o pastor Silas Malafaia critica duramente a atuação do deputado, acusando-o de trair os princípios do nacionalismo ao submeter os interesses brasileiros à ingerência de uma potência estrangeira. “Eduardo está jogando a pauta do patriotismo no colo da esquerda”, afirmou o pastor, em um momento que sintetiza o colapso discursivo de um campo político que sempre se proclamou defensor da soberania nacional.

Mais do que um erro tático, o gesto de Eduardo Bolsonaro é interpretado por analistas como uma forma de traição institucional, ao utilizar uma nação estrangeira para pressionar as instituições de seu próprio país. Como observa o jurista Conrado Hübner Mendes, professor de Direito Constitucional da USP, “coagir ministros do STF com sanções internacionais é uma conduta incompatível com o mandato parlamentar e com a democracia representativa”.

A consequência previsível desse ato é a inelegibilidade do deputado, que, segundo prognósticos jurídicos, deve ser condenado e retirado da disputa eleitoral. E assim, o que seria uma tentativa de consolidar a liderança dentro da extrema direita acabou se transformando em um processo autodestrutivo, deixando-o fora da urna eletrônica em 2026.

Nesse contexto, a estratégia do bolsonarismo para manter sua influência sem Bolsonaro encontra uma encruzilhada. De um lado, Flávio tenta se descolar das máculas do passado e se vender como figura institucionalizada. De outro, Eduardo radicaliza, apostando na conflagração com o Judiciário e na subordinação ideológica aos Estados Unidos. Ambos, no entanto, enfrentam o mesmo obstáculo: a crescente rejeição ao sobrenome que carregam, num país que começa a despertar dos delírios autoritários dos últimos anos.

O desgaste do clã, enfim, revela mais do que disputas individuais. Expõe o esgotamento de um modelo político que tentou capturar o Estado por meio da retórica antipolítica, do apelo moralista seletivo e da instrumentalização das instituições. A herança do bolsonarismo, hoje, se desenha não como um projeto de poder consistente, mas como uma narrativa em frangalhos, onde os filhos de Jair Bolsonaro buscam protagonismo em um tabuleiro cujas regras já não controlam — e cujos fantasmas, como o de Queiroz, continuam à espreita, lembrando a todos que o passado ainda não passou.

O espetáculo da desonra diante do colapso do bolsonarismo

Enquanto os filhos de Jair Bolsonaro se enredam em tentativas desesperadas de se manterem relevantes no jogo político, o Supremo Tribunal Federal avança no desmonte jurídico do coração do bolsonarismo. A Corte publicou nesta segunda-feira (17) a ata do julgamento que rejeitou, por unanimidade, os recursos apresentados pela defesa do ex-presidente na ação que apura sua participação ativa na tentativa de golpe de Estado. A decisão confirma o que já havia sido consolidado no voto do relator, ministro Alexandre de Moraes: “amplamente comprovada” a atuação de Bolsonaro como líder de uma organização criminosa com o objetivo de abolir violentamente o Estado Democrático de Direito.

Com a publicação da ata, abre-se agora o caminho para o acórdão — o documento que formaliza juridicamente os votos dos ministros — e, a partir daí, a contagem regressiva para a execução definitiva da pena. Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, por crimes que incluem organização criminosa armada, golpe de Estado e dano qualificado ao patrimônio público. Além dele, outros seis integrantes do chamado núcleo “crucial” do complô golpista também tiveram seus recursos negados. O placar de 4 a 0 na Primeira Turma é um marco da unanimidade institucional contra a tentativa de subversão da ordem democrática.

A defesa ainda poderá recorrer com instrumentos como embargos infringentes e agravo regimental, mas juristas como a advogada Ilana Martins Luz, doutora em Direito Penal pela USP, alertam que tais recursos devem ser considerados meramente protelatórios, sem base para reverter o resultado. Como lembrou a jurista, situações semelhantes já foram enfrentadas pelo STF, como no caso de Fernando Collor, quando Moraes declarou o trânsito em julgado mesmo sem esgotar formalmente todas as possibilidades recursais, decisão depois referendada pela Turma. Em outras palavras, o caminho da defesa de Bolsonaro é cada vez mais estreito — juridicamente e politicamente.

Ao mesmo tempo, enquanto se aproxima o momento final do julgamento civil e criminal de Bolsonaro, um novo capítulo se anuncia — desta vez no campo militar. E ele não é menos simbólico: trata-se da necessidade de desonra formal dos oficiais das Forças Armadas que participaram do complô golpista. Estão entre os condenados três generais — Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira — e um almirante, Garnier Santos, todos diretamente ligados ao núcleo duro do governo Bolsonaro e à logística que viabilizou o plano golpista.

Este novo “ato” exigirá que Exército e Marinha respondam à sociedade com transparência e rigor. Será necessário instaurar processos internos para cassação de patentes, o que representa não apenas a perda dos títulos militares, mas um gesto simbólico de rompimento com a tutela política que assombra o país desde 1964. Como lembra o historiador Manuel Domingos Neto, especialista em assuntos militares, “as Forças Armadas são instituições do Estado, não da vontade de um homem só. Permanecerem em silêncio diante da tentativa de golpe compromete sua legitimidade”.

Contudo, há um elemento dramático que transforma essa etapa num verdadeiro espetáculo de desonra silenciosa. Mesmo que oficiais sejam expulsos com o máximo rigor, como prevê o regulamento militar, os proventos muitas vezes seguem sendo pagos a familiares, criando os chamados “mortos fictos” — militares expulsos que, na prática, seguem recebendo seus salários por meio de esposas e filhas. Estima-se que hoje mais de 600 militares expulsos estejam nessa condição, custando aos cofres públicos cerca de R$ 25 milhões por ano, conforme levantamento publicado pelo UOL.

Se a perda de patentes representa o rompimento com a dignidade militar, a manutenção dos proventos por meio de terceiros constitui um escárnio moral — um zumbi administrativo que revela a dificuldade da caserna em romper com a cultura da impunidade e da autoproteção. A eventual entrada dos militares golpistas nesse grupo de “defuntos de papel” acrescentará um componente farsesco ao drama político brasileiro.

É preciso lembrar que, desde a redemocratização, o Brasil hesitou em enfrentar as estruturas de poder dentro das Forças Armadas que permanecem intocadas desde o período ditatorial. A participação direta de militares na tentativa de golpe de 2023 — com apoio logístico, inteligência e até planejamento de cenários de guerra civil — não pode ser tratada como um desvio individual. Trata-se de uma falha institucional de proporções históricas.

Neste sentido, o julgamento no STF e os próximos passos no Superior Tribunal Militar não são apenas sobre punições individuais, mas sobre a redefinição das fronteiras entre o poder civil e militar no Brasil. É o teste definitivo para a democracia brasileira após os retrocessos dos últimos anos. Como afirmou o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a democracia não morre de um golpe só, mas de pequenas concessões sucessivas ao autoritarismo”.

O espetáculo da justiça avança. O do silêncio militar permanece em cartaz. Mas a história exige um desfecho claro. Não é mais uma questão de revanchismo ou vendeta política. É de responsabilidade republicana. Os fantasmas do golpe não podem ser apenas julgados. Precisam ser exorcizados — das instituições, dos quartéis, e das consciências.

DEU RUIM


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