29/05/2024 - Edição 540

Poder

Filho de Bolsonaro está certo em curtir Copa enquanto golpistas tomam chuva

Presidente está se lixando para Eduardo. É Carlos que o preocupa

Publicado em 29/11/2022 12:12 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Flagrado no estádio em que foi disputado Brasil contra Suíça, no Qatar, na segunda (28), o deputado federal Eduardo Bolsonaro passou a ser criticado por golpistas que acampam na porta de quartéis. A reclamação é que, enquanto a extrema direita toma chuva para implorar às Forças Armadas que impeçam Lula de assumir, o filho 03 do presidente está “curtindo a vida”.

Vendo milhões de brasileiros se reapropriarem das cores da bandeira nacional e da camisa amarela da seleção de futebol por conta da Copa do Mundo, mensagens em grupos golpistas pediram para que os bolsonaristas trocassem o amarelo pelo preto. Afinal, em sua realidade paralela, eles estão em luto pela democracia.

Outras criticaram “quem se droga”, torcendo para a seleção e fazendo festa com o futebol, enquanto os “verdadeiros patriotas” (adoro essa expressão) mantêm as vigílias da “primavera brasileira” em nome do fim do comunismo, da derrota dos cavaleiros templários, da expulsão dos illuminatti e da prisão do Lula.

Em nome dessa meta, eles agridem fisicamente jornalistas, cantam hino para pneus, servem de adesivo em para-brisa de caminhão, pedem intercessão golpista do ET Bilú, rezam para muro de quartéis e desenvolvem pneumonia.

Por isso, para alguns deve ser especialmente doído ver o 03 na farra. Com a amarelinha. No Qatar. Abraçado com um homem-taça. Depois de dar corda nos golpistas, Eduardo foi para a Copa.

Chamar de “mané” quem luta por um golpe de Estado, na atual conjuntura, é até carinhoso, pois dá o benefício da dúvida, considerando que a pessoa foi manipulada. E você só tem um mané quando há um malandro para explorar a falta de informação, o preconceito, o medo, a solidão ou o ódio.

No caso do espancamento diário da democracia brasileira, há muitos manés, mas também muitos malandros.

Uma reportagem apontou que Eduardo Bolsonaro se encontrou com o ex-presidente Donald Trump, que o aconselhou a contestar o resultado das eleições presidenciais no Brasil, como ele próprio havia feito nos Estados Unidos. A informação é do Washington Post.

O 03 também esteve com Steve Bannon, um dos ideólogos da extrema direita global. Ao jornal, Bannon disse que a contestação do resultado “provavelmente falhará, mas pode encorajar apoiadores”. Leia-se, animar a galera a continuar tomando chuva em nome de Jair.

Os bloqueios nas rodovias, que foram praticamente dizimados depois que os organizadores e financiadores começaram a ser presos e ter suas contas bancárias suspensas, e os protestos nas portas de instalações militares não são espontâneos, mas foram fomentados por Bolsonaro, aliados e apoiadores.

Mas a punição não pode ficar apenas nos líderes. Não podemos tratar os golpistas que estão na porta de quartéis pedindo o fim da democracia como hipossuficientes. E essa punição deveria começar com a vergonha diante da percepção de que eles são apenas bucha de canhão enquanto seus líderes tocam a vida.

Caso Eduardo Bolsonaro esteja pagando suas próprias passagens e hospedagem, e tenha tido licença autorizada pela Câmara dos Deputados para poder se ausentar do trabalho, ele não está errado. Errado está quem, incentivado pela família Bolsonaro, exige um golpe militar que não vai acontecer, atacando a democracia, fantasiando que está em uma espécie de revolução quando apenas passa vergonha internacional em nome da defesa dos interesses pessoais de uma única família.

Diante de tudo isso, eu até sentiria pena desse pessoal. Mas não tenho pena de golpista, não.

Enfim, o golpe

Filmado pelas lentes da Fifa torcendo pelo escrete canarinho na Copa do Mundo, Eduardo Bolsonaro sinalizou aos patriotas de porta de quartel que podem voltar para casa. O golpe já aconteceu. Ao expor sua pose de 171 no Qatar, o filho 03 revelou que a crença bolsonarista numa virada de mesa iminente é apenas mais um conto do vigário em que os devotos do mito caíram. Os militares não invadirão o TSE. Mas o WhatsApp foi invadido por uma euforia de cabeça para baixo.

Não foi por falta de aviso. São Pedro vinha tentando há semanas afundar o ânimo antidemocrático sob chuvas e trovoadas. O diabo é que o general Braga Netto, na saída de uma conversa com Jair, o Messias, fizera dias atrás um apelo dramático no cercadinho: “Não percam a fé!” Numa evidência de que Deus está mesmo acima de todos, Eduardo Bolsonaro, com o golpismo indo a pique, achou que seria uma boa ideia trocar o expediente inóspito da Câmara dos Deputados pela euforia de uma arquibancada remunerada.

Os brasileiros de bem, com os pés de barro afundando lentamente na lama, renegaram a Copa. A hora seria de luta, não de festa. De repente, o terceiro príncipe e sua princesa foram filmados no Qatar em pleno Brasil X Suíça. É como se o casal real tocasse os clarins do golpe sob um telhado de vidro das arábias. A cena vale como um choque de realidade.

O bolsonarismo odeia a realidade. Mas a realidade é o único lugar onde os golpistas podem conseguir um teto de verdade e uma cama bem quentinha. Eduardo Bolsonaro ajuda os adoradores do mito a entender que é hora de voltar para casa.

Bolsonaro está se lixando para Eduardo. É Carlos que o preocupa

Derrotado por Lula, hoje faz 30 dias, Bolsonaro perdeu a voz, a vontade de governar e o ânimo pela vida. Arriscou-se a perder Michelle, com quem está casado há 15 anos completados ontem. E afrouxou o estribo que mantinha presos a ele os seus filhos Zero.

Aí deu no que repercutiu muito mal entre seus seguidores mais fanáticos e radicais: enquanto eles enfrentam chuvas torrenciais em acampamentos à porta de quartéis clamando pela anulação das eleições, Eduardo Bolsonaro diverte-se e esbanja felicidade.

E logo onde? No Catar, sede da Copa do Mundo, na companhia da mulher, de uma penca de amigos, e torcendo pela vitória da Seleção Brasileira. Bolsonarista raiz, por força do hábito, veste a camisa da Seleção, mas não torce por ela. É o que eles dizem.

Torcer pela Seleção a essa altura só beneficia o PT e Lula, que venceram uma “eleição roubada”. É justamente por ter sido roubada que eles estão em pé de guerra e cobram uma intervenção militar que a cancele. Pedem também a prisão de Lula.

Não querem só isso. Querem o fechamento do Supremo Tribunal Federal e a prisão de meia dúzia de ministros; entre eles, Alexandre de Moraes, a quem Bolsonaro chamou de canalha no dia 7 de setembro do ano passado. Bolsonaro prometeu desobedecer às ordens dele.

Como continuarão fiéis ao Mito, e aos filhos do Mito, e a uma visão de mundo que eles souberam tão bem vender para convencê-los, quando o mais ideológico dos Bolsonaros faz o que Eduardo fez em ocasião de tamanho sofrimento coletivo?

“Inacreditável que estão no Catar, aderindo ao pão e circo, e o povo aqui clamando em frente aos quartéis para que seja feito algo. Que mancada, hein. Péssimo exemplo. Parece que riem na cara do povo”, escreveu no Twitter um discípulo da família.

Outro escreveu: “No Catar? Enquanto os brasileiros estão debaixo de chuva se manifestando, enfrentando tudo e a todos? Não deveria estar no Congresso lutando pelo povo? Depois cai em descrédito e não sabe por quê!”. E outro, ainda mais revoltado:

“Lamentável a sua postura em meio ao caos, hein, Eduardo? O povo debaixo de sol e chuva na frente dos QGs lutando pelo país, teu pai acabado, chorando em discurso, e vocês aí no Catar, vendo a Copa do Mundo? Lamentável demais.”

Não é a primeira vez, e nem será a última, que Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal reeleito, que se diz amigo do ex-presidente Donald Trump e que ambicionou ser embaixador do Brasil em Washington, decepciona o próprio pai.

Em 2 de fevereiro de 2017, candidato a presidente da Câmara dos Deputados, Bolsonaro deu-se conta da ausência de Eduardo. Bolsonaro sabia que não tinha a mínima chance de se eleger, mas lançou-se candidato só para ocupar espaço na imprensa.

Eduardo, o Zero 3, estava no exterior. O fotógrafo Lula Marques flagrou uma troca de mensagens entre os dois. Bolsonaro teve apenas quatro votos para presidente da Câmara.

Bolsonaro: “Papel de filho da puta que você faz comigo”.

Bolsonaro: “Tens moral para falar do Renan? Irresponsável”. (Referia-se a Jair Renan, o Zero 4)

Bolsonaro: “Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda”. (Papuda é a penitenciária de Brasília)

Bolsonaro: “Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Eduardo: “Quer me dar esporro, tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá”. (O merda era Jair Renan)

Bolsonaro nunca revelou onde Eduardo estava, o que fazia, e por que poderia ser preso se fosse descoberto. Flávio, senador, o Zero 1, não dá tantas preocupações ao pai, a não ser quando vai à compra de imóveis pagando com dinheiro vivo.

Carlos, vereador, o Zero 2 e o mais instável dos filhos, preocupa Bolsonaro. Ele responde a processos que poderão levá-lo a ser preso por decisão de qualquer juiz da primeira instância. Esse é o principal motivo do desespero em que vive Bolsonaro.


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