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Poder

Fecha-se o cerco a Bolsonaro. Prisão ou exílio?

Um presidente que corrompeu os militares, associou-se ao vírus matador, tentou comprar a reeleição, dar um golpe e ficou rico

Publicado em 10/08/2023 10:28 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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Não foi um governo que tomou posse quando Bolsonaro subiu pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto no dia 1º de janeiro de 2019, mas uma quadrilha. Um bando de foras da lei. A começar por ele, o mais improvável dos presidentes da República do Brasil.

Em quatro anos de desgoverno, o ex-capitão afastado do Exército por má conduta convocou os brasileiros a se armarem, associou-se à Covid que matou mais de 700 mil pessoas, tentou pelo menos duas vezes dar um golpe, comprou a reeleição, perdeu e ficou rico.

Em troca de apoio para não deixar o poder, o ex-paraquedista de triste memória corrompeu seus ex-companheiros de farda enchendo-lhes os bolsos com dinheiro e militarizando o governo para muito além do que fizeram os generais da ditadura de 64.

Tudo pareceu-lhe possível porque tinha a força ao seu lado e a pretensão de derrotar a esquerda outra vez. Então, interveio nas áreas chaves do aparelho do Estado, nomeando acólitos que só lhe dissessem “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Foi o caso do ministro da Economia que observou em silêncio a derrama de dinheiro para reeleger Bolsonaro. Foi o caso do presidente da Caixa Econômica, um assediador de mulheres, que quase quebrou o banco para ver realizado o sonho do seu líder.

Quem se negou a fazer as vontades dele, Bolsonaro mandou embora. Houve três trocas de comando no Ministério da Justiça, três no Ministério da Defesa, quatro na Polícia Federal, quatro no Ministério da Saúde e cinco no Ministério da Educação.

O general Hamilton Mourão só não foi mandado embora porque, como vice-presidente, não era demissível. Em compensação, e de uma vez, os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica foram forçados a pedir demissão, fato inédito em meio ao governo.

Sem saber, o país viveu em perigo de golpe entre agosto de 2022 e janeiro. Com a anuência dos comandantes militares da época, Bolsonaro preparou-se para dar o golpe em 7 de setembro. Não deu diante da resistência férrea do Supremo Tribunal Federal.

O golpe foi remarcado para dezembro, mas novamente esbarrou no Supremo e, desta vez, na falta de união dos membros do Estado Maior do Exército. Todos os generais eram bolsonaristas, todos anti-Lula, mas não necessariamente favoráveis ao golpe.

Restou a Bolsonaro acreditar na máxima de que “o povo unido jamais será vencido” – mesmo que fosse apenas uma parte de uma parte dos que votaram nele. Deu no 8 de janeiro e no espetáculo da destruição de prédios públicos na Praça dos Três Poderes.

Talvez desse no golpe propriamente dito se Lula, ao invés de decretar a intervenção no Distrito Federal como fez, tivesse convocado as Forças Armadas para restabelecer a lei e a ordem ameaçada. Ele poderia tê-lo feito, mas não caiu na armadilha

Peças importantes do golpe que fracassou estão hoje presas – Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Bolsonaro, e o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques. Haverá novas prisões.

Mas a pergunta que insiste em ser feita é: quando Bolsonaro será preso? Ou a ele se dará tempo suficiente para que fuja? Uma vez fora do Brasil, haverá quem o sustente sem que ele precise gastar a fortuna que acumulou em mais de 30 anos como político.

Alexandre de Moraes cerca Bolsonaro no caso da PRF

Entre todos os fios desencapados que enroscam Bolsonaro, a operação montada no segundo turno para bloquear a chegada de eleitores de Lula às urnas no Nordeste passou a ser um dos mais temidos pela defesa e por aliados do capitão. A prisão do ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques, nesta quarta-feira, trouxe à tona detalhes de uma investigação que aproxima Bolsonaro de um curto-circuito.

A ordem de prisão, expedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, evoca depoimentos e mensagens eletrônicas colecionadas pela Polícia Federal. Analisados em conjunto, os elementos produzem a sensação de que o caso mudou de patamar. O circo pega fogo. No epicentro do incêndio há uma reunião de Silvinei com 47 subordinados —a fina flor da Polícia Rodoviária.

No papel, a reunião destinava-se a discutir temas triviais como a educação física dos agentes. A retenção dos celulares na entrada prenunciava coisa mais séria. Fora da ata, o tema foi a eleição presidencial.

Chefe do setor de inteligência da PRF na época, Adiel Alcântara revelou em mensagem trocada com um colega a montagem de uma operação “politicamente direcionada” para dificultar o trânsito de eleitores de Lula. Adiel anotou que Silvinei “disse muita merda” a portas fechadas.

Os investigadores da Polícia Federal extraíram do celular de Marília Alencar, ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, planilha encomendada pelo então chefe da pasta, o ex-ministro Anderson Torres. Foram mapeados os municípios onde Lula obteve mais de 75% dos votos no primeiro turno.

Repassados a Silvinei, os dados serviram de bússola para a ação “politicamente direcionada” da PRF no dia da votação em segundo turno. Silvinei e Marília reuniram-se com Anderson no dia 19 de outubro, nas pegadas daquele encontro em que o chefe da PRF “disse muita merda” sobre eleições aos seus subordinados.

Os três serão reinquiridos pela Polícia Federal. Silvinei, nesta quinta-feira. Marília, até sexta. Anderson deve receber intimação na semana que vem.

Os operadores do capitão descobrem aos poucos que um dos problemas com as coisas varridas para baixo do tapete é que o país continua vivendo em cima do tapete. Testemunhas e arquivos nem sempre ficam quietos. Silvinei e Anderson mentiram na CPI do Golpe como se imaginassem que falavam para uma nação de bobos. Um está na cadeia. Outro amarga prisão domiciliar.

O melado escorre para cima. Alexandre de Moraes cerca Bolsonaro.

Torres e Silvinei brincam de Tom e Jerry à margem da ratoeira da PF

A Polícia Federal equipou-se para jogar Anderson Torres e Silvinei Vasques um contra o outro no inquérito sobre a operação montada para inibir a chegada de eleitores de Lula às urnas no Nordeste. Um dia depois de ser preso em Florianópolis e transferido para Brasília, Silvinei presta depoimento na tarde desta quinta-feira (10). Ex-ministro da Justiça e superior hierárquico do então chefe da Polícia Rodoviária Federal, Torres deve ser intimado a depor na próxima semana. Não será o primeiro depoimento de ambos.

Trechos de interrogatórios anteriores foram reproduzidos no relatório da Polícia Federal que fundamentou a ordem de prisão emitida contra Silvinei pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes. O documento é assinado pelo delegado federal Flávio Reis. Quem lê o texto percebe dois movimentos. Num, a PF constata que Anderson e Silvinei comportam-se como Tom e Jerry. Noutro, os investigadores armam uma ratoeira sem diferenciar os dois personagens. Trata-os como uma dupla de camundongos suspeitos.

No seu primeiro depoimento, Silvinei admitiu que “o número de abordagens” feitas pela Polícia Rodoviária Federal no segundo turno “foi maior”. Mas atribuiu a anomalia não ao órgão que dirigia, mas a uma “operação do Ministério da Justiça”. Torres declarou que a PRF agiu com “autonomia” e que “não tinha atribuição para vetar o planejamento”. Disse ter ouvido de Silvinei que “a ação foi praticamente a mesma do primeiro turno”, sem “qualquer direcionamento” político.

Para a PF Silvinei e Torres agiram de comum acordo. Guiaram-se por uma planilha que identificou as cidades onde Lula havia colecionado mais de 75% dos votos no primeiro turno. Coisa preparada sob a coordenação da então diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, Marília Alencar. A estratégia foi esmiuçada por Silvinei em reunião com 47 subordinados, em 19 de outubro. Em mensagem capturada pela PF, um dos participantes disse que Silvinei “disse muita merda” a portas fechadas. No mesmo dia, Silvineu e Marília reuniram-se com Torres.

Alexandre de Moraes e a PF desejam encostar o inquérito em Bolsonaro. Receberiam com boa vontade uma colaboração de Silvinei, desde que ele se dispusesse a delatar para cima. Mas essa hipótese é considerada no momento improvável.

Plano Silvinei-Torres reforça que Bolsonaro via nordestinos como inimigos

A reunião com o então diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, e o então ministro da Justiça, Anderson Torres, que discutiu a implementação de bloqueios em rodovias onde Lula havia ido bem no primeiro turno para atrapalhar seus eleitores na segunda etapa da eleição, representa desprezo puro pela opinião política de nordestinos.

Já a possibilidade, que está sendo investigada pela Polícia Federal, de que o Plano Silvinei-Torres de Golpe Eleitoral tenha tido o aval explícito de Bolsonaro, além de colocar o ex-presidente na antessala da cadeia, reforça que todas as declarações xenófobas e preconceituosas que ele proferiu contra o Nordeste não eram “erro de entendimento” dos brasileiros ou “má fé” dos críticos do ex-presidente, mas Jair sendo sincero.

Por exemplo, como esquecer a, hoje, icônica declaração em uma live no dia 5 de outubro, ao analisar os resultados do primeiro turno? “Lula venceu em 9 dos 10 estados com maior taxa de analfabetismo. Você sabe quais são esses estados? No nosso Nordeste”, disse Bolsonaro, que ainda disse que há “falta de cultura” por lá.

Esse tipo de pensamento, que coloca o Nordeste como burro ou inimigo, continua encontrando eco no bolsonarismo.

Para se reafirmar como possível candidato da direita radical à eleição presidencial de 2026, posto vago após Jair ser declarado inelegível pelo TSE, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, também apelou ao preconceito regional.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, disse que a região era comparável a “vaquinhas que produzem pouco”, mas recebem “tratamento bom”, enquanto o Sul e o Sudeste são as que “produzem muito” e não teriam o mesmo tratamento. Um pensamento bovino.

E não é de hoje que cidadãos dessa região são chamados de burros e ignorantes simplesmente por terem uma opinião política diferente de moradores do Centro-Sul. Já em outubro de 2014, após a vitória de Dilma Rousseff, uma onda de ataques contra nordestinos – que votaram em peso por sua reeleição – tomou as redes sociais. Um prenúncio da escalada de ódio que veríamos nos anos seguintes.

Bolsonaro e aliados, incapazes de tentar mudar pontos de vista de cidadãos através de discursos e debates, partiram para dificultar que a expressão eleitoral dessas opiniões acontecesse, colocando um contingente de policiais rodoviários federais nas estradas de estados eminentemente lulistas muito maior que o padrão adotado no Sudeste, muito mais populoso. Era preciso frear o Nordeste na base da força.

Inquérito da Polícia Federal sobre o caso aponta que o setor de inteligência do Ministério da Justiça fez um levantamento dos locais onde o petista foi mais votado para subsidiar bloqueios de estradas no segundo turno. Não só isso, como Torres viajou à Bahia para pedir apoio da superintendência da PF local à ação da PRF.

Agora, descobre-se que Silvinei chamou a cúpula da instituição à chincha, exigindo que mostrasse de que lado estava. Em outras palavras: decidissem se ficavam ao lado da Constituição ou de Bolsonaro.

É pouquíssimo provável, em um governo extremamente centralizador como o de Jair, que o plano de Anderson Torres e de Silvinei Vasques não tivesse a anuência do chefe.

O mais irônico é que a realidade das urnas contradisse o preconceito do bolsonarismo. O ex-presidente havia recebido 1,3 milhão de votos a mais no Nordeste em comparação à sua votação de 2018 no primeiro turno. Lula, por outro lado, teve uma votação 23 pontos maior agora que a de Haddad naquele ano no Sudeste e 17 pontos maior que a dele no Sul. Os dados são de apuração de Amanda Rossi e Juliana Caro, no UOL.

Mas o Nordeste, ao final, pode ser sim responsável pela ruína de Jair. Confirmada sua participação na decisão da ação golpista de 30 de outubro, de usar sua guarda pretoriana para esconder a opinião do eleitor, a região poderá ser a responsável por fazer com que amargue uns anos de xilindró.


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