Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Extrema direita subserviente aplaude ataques ao Brasil de olho em 2026

Tarcísio, Eduardo Bolsonaro e Nikolas trocam soberania por interesses políticos

Publicado em 10/07/2025 10:41 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No esforço para blindar Jair Bolsonaro das consequências legais de seus atos — incluindo a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 —, o clã Bolsonaro passou a conspirar com lideranças estrangeiras em busca de sanções contra o próprio país. O resultado dessa estratégia: tarifas de até 50% impostas pelos Estados Unidos ao aço e alumínio brasileiros, com impacto direto sobre empregos, renda, inflação e câmbio. Ainda assim, esse movimento conta com a cumplicidade de figuras como Tarcísio de Freitas, que parecem mais preocupadas com a bênção da extrema direita internacional do que com a população que deveriam representar.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Donald Trump não tomou suas decisões comerciais em nome de Bolsonaro — mas tem utilizado o ex-presidente brasileiro como moeda simbólica para pressionar o Brasil a ceder em pontos sensíveis: redução de tarifas sobre produtos americanos, liberação de mercados para empresas dos EUA e a flexibilização de leis nacionais para favorecer as big techs. Em outras palavras, o ex-presidente dos EUA tenta impor uma pauta de subordinação econômica e regulatória, aproveitando-se da instabilidade política brasileira e da ambição de seus aliados internos.

Nesse cenário, declarações recentes de Eduardo Bolsonaro beiram o surreal. Ele atribui a responsabilidade pelas tarifas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sugere que o caminho para evitar sanções seria anistiar Jair Bolsonaro por sua tentativa de golpe. Não por acaso, Eduardo está nos Estados Unidos, de onde articula livremente, sustentado, segundo o próprio pai, por R$ 2 milhões transferidos por ele para esse fim.

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, não fica atrás. Na busca por consolidar-se como candidato do bolsonarismo à Presidência em 2026, o ex-ministro da Infraestrutura tem optado por um alinhamento público com os interesses da extrema direita estrangeira. Em janeiro, apareceu sorridente com o boné “Make America Great Again” na posse de Trump. Agora, diante da ofensiva tarifária americana, Tarcísio prefere culpar o governo Lula: “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado”, afirmou no X (antigo Twitter), em defesa indireta de Trump e de seu mentor político.

A ironia é gritante: o campo político que diz defender o patriotismo se alinha, sem constrangimento, a um governo estrangeiro que impõe prejuízos diretos à indústria nacional — especialmente à paulista — e pressiona o país a renunciar à sua soberania regulatória e democrática. E quando o governo brasileiro mantém o caminho da negociação, sem retaliar ou romper pontes diplomáticas, seus opositores o acusam de ser ideológico.

Fato é que o governo Lula — com todos os seus defeitos — manteve uma postura institucional, buscou o diálogo com os EUA desde o anúncio do tarifaço e jamais flertou com soluções antidemocráticas para chegar ou se manter no poder. Diferente de Bolsonaro, que foi derrotado nas urnas e incentivou uma tentativa de subversão do processo eleitoral, com apoio explícito de setores extremistas nos Estados Unidos.

Ao apoiar uma narrativa de perdão ao golpismo e endossar as declarações de Trump, mesmo quando elas atacam o Brasil e suas instituições, Tarcísio não apenas se compromete politicamente com esse projeto reacionário — ele compartilha a responsabilidade por seus efeitos econômicos e sociais.

O Supremo Tribunal Federal não vai rever o julgamento de Bolsonaro por causa das tarifas impostas por Trump. Tampouco o Brasil aceitará passivamente interferências externas em suas decisões jurídicas. O que está em jogo aqui é algo maior: a integridade da democracia e o respeito à soberania nacional.

A tragédia é que tudo isso — tarifas, prejuízos econômicos, erosão institucional — tem origem em um grupo político que, incapaz de aceitar a derrota eleitoral, optou por sabotar o próprio país. E que agora conta com o apoio de líderes como Tarcísio de Freitas, dispostos a rifar o presente e o futuro da nação em nome de um projeto pessoal de poder.

Como observou o jornalista canadense Paul Wells, quando Trump sugeriu que o Canadá deveria se tornar o 51º estado norte-americano, a população reagiu com indignação, e os conservadores perderam força. Um recado claro: patriotismo não é submissão.

No Brasil, a distorção semântica virou estratégia. Para o clã Bolsonaro, “democracia” significa impunidade para golpistas. E “patriotismo” virou sinônimo de conspirar com potências estrangeiras contra o próprio povo.

O país corre o risco de perder receitas, empregos e soberania por causa de brasileiros que juram amar a pátria, mas agem como seus algozes.

Tiro no pé

São Paulo é, de longe, o principal exportador brasileiro para os EUA. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e do Monitor do Comércio Brasil-EUA 2024 mostram que o estado foi responsável por 33,6% das exportações brasileiras aos americanos no ano passado, totalizando mais de US$ 13,5 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 66 bilhões. Os três principais produtos exportados por São Paulo — aeronaves, equipamentos de engenharia civil e sucos — sozinhos movimentaram bilhões de dólares. Essa dependência do mercado americano explica por que os setores industriais e logísticos paulistas serão duramente impactados pela nova tarifa.

Entre os dez municípios brasileiros que mais exportaram para os EUA em 2024, seis são paulistas: São José dos Campos (US$ 1,9 bi), Piracicaba (US$ 1,3 bi), Santos (US$ 776 mi), Ilhabela (US$ 623 mi), Guarulhos (US$ 609 mi) e Gavião Peixoto (US$ 594 mi). Essas cidades concentram polos industriais aeronáuticos, automotivos, de alimentos e logística. Em São José dos Campos e Gavião Peixoto, por exemplo, está a produção de aeronaves que totalizou sozinha US$ 2,38 bilhões em exportações nacionais para os EUA. O aço, segundo maior item da pauta brasileira (US$ 2,8 bilhões), também tem forte presença em fábricas paulistas, e sucos de frutas movimentaram mais de US$ 1,1 bilhão, boa parte proveniente do interior do estado.

Os dados oficiais revelam ainda que São Paulo responde por 31,8% de todas as exportações brasileiras para os EUA que saem pelo Porto de Santos, além de 4,2% que partem pelo Aeroporto de Guarulhos — ambos sob influência direta da economia paulista. Essa estrutura logística robusta, que em tempos normais é uma vantagem competitiva para o estado, também amplifica o efeito negativo de barreiras comerciais como a anunciada por Trump.

A postura do governo Tarcísio à época da eleição americana contrasta agora com a realidade imposta pela política protecionista de Trump. O governador apostou politicamente em um aliado ideológico, mas os números evidenciam que os setores mais dinâmicos da economia paulista — responsáveis por bilhões em exportações e dezenas de milhares de empregos — são justamente os que sofrerão as consequências diretas da medida. A celebração da vitória de Trump, vista como estratégia para aproximar São Paulo do novo governo americano, hoje expõe o estado a perdas concretas, reforçando a necessidade de estratégias comerciais menos dependentes de alinhamentos políticos momentâneos.

Viralatismo

O gesto de Tarcísio tem farta simbologia: o governador do estado mais poderoso do Brasil, responsável por mais de 30% das exportações nacionais aos EUA, publicamente reverenciando um líder estrangeiro cuja política comercial tem sido abertamente hostil ao Brasil. A resposta de Tarcísio as tarifas de 50% — atingindo diretamente a economia paulista — beira a irresponsabilidade.

“Outros países buscaram a negociação”, afirmou o governador, ignorando o trabalho contínuo do Itamaraty e do vice-presidente Geraldo Alckmin na tentativa de diálogo com os EUA. A fala de Tarcísio, além de distorcer fatos, expôs sua disposição de reescrever a realidade para agradar a dois senhores: Bolsonaro e o empresariado conservador. Segundo o próprio relatório da equipe econômica de seu governo, enviado à Assembleia Legislativa com o PLDO 2026, “a visão atual é de menor atividade global, maior protecionismo e mudanças nos fluxos de mercadorias” — uma admissão de que o tarifaço é, sim, nocivo para São Paulo.

Ideologia vestida em boné

A aproximação de Tarcísio à extrema direita internacional não é acidental. Além do aceno a Trump, o governador vem tecendo elogios ao presidente argentino Javier Milei, cuja gestão é marcada por um ultraliberalismo caótico: cortes de aposentadorias, demissões em massa, destruição de programas sociais e ruptura institucional com os estados federados. “É fato que acha muito bacana o que está em curso na Argentina”, declarou, escancarando sua admiração por uma política que, no vizinho sul-americano, tem empobrecido as camadas médias e desestruturado o estado de bem-estar mínimo.

Esse alinhamento ideológico tem precedentes históricos. Na obra Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre aponta para a herança de uma elite brasileira que reproduz padrões de dominação externos como forma de se autoafirmar internamente. Décadas depois, o complexo de inferioridade das elites brasileiras foi nomeado por Nelson Rodrigues como o “complexo de vira-latas” — expressão que segue atual para descrever a postura de políticos que, diante de ataques estrangeiros, se curvam em nome de ideologias importadas.

A lógica do cálculo eleitoral

No jogo de sucessão presidencial, Tarcísio se movimenta com discrição, mas não com moderação. Embora negue publicamente sua intenção de disputar o Planalto, todas as suas falas, gestos e silêncios parecem moldados para atender às exigências do eleitor bolsonarista. Ao compartilhar, nesta semana, uma postagem de Trump com ataques ao STF e elogios a Bolsonaro, o governador mais uma vez se posiciona como fiel escudeiro de um projeto político que despreza o Judiciário e ameaça a soberania nacional.

Para a ala mais radical do bolsonarismo, Tarcísio ainda enfrenta desconfiança. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, é lembrado por sua participação ativa nas articulações para que Trump impusesse sanções a Alexandre de Moraes, o que escancara o quanto o bolsonarismo está disposto a aceitar interferência estrangeira desde que isso sirva aos seus interesses eleitorais.

Uma submissão antiga, um perigo atual

A postura de Tarcísio de Freitas ecoa um padrão histórico das elites brasileiras: a crença de que a salvação do país virá de fora, desde que mediada por figuras brancas, ricas e agressivas, de preferência armadas. É um padrão de comportamento colonialista, que jamais se desfez por completo. A novidade — e o perigo — está em ver esse comportamento travestido de “realismo político” por parte de alguém que governa o estado mais rico da federação e flerta com a presidência da República.

Na prática, Tarcísio acena a Washington com uma coleira no pescoço, esperando ser premiado com a bênção de Bolsonaro e o endosso da extrema direita internacional. Mas, ao fazer isso, deixa desprotegidos os empresários brasileiros, os trabalhadores da indústria, os interesses nacionais e, principalmente, a democracia.

Como escreveu o filósofo francês Étienne de La Boétie, em Discurso da Servidão: “Os tiranos são grandes apenas porque nós estamos de joelhos.” Tarcísio, por ora, permanece ajoelhado. Resta saber se o eleitor brasileiro permanecerá ao seu lado — ou se, enfim, decidirá se levantar.

Bolsonaristas admitem desgaste e buscam blindar ex-presidente

Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro admitem, reservadamente, que há desgaste político para ele e para o grupo político com as tarifas impostas por Trump.

O próprio Bolsonaro não comentou diretamente o aumento da tarifa contra o Brasil. Em publicação nas redes sociais, ignorou o tema e repetiu argumento de que é perseguido pela Justiça brasileira —algo amplificado por Trump. Depois, escreveu um provérbio.

“Quando os justos governam, o povo se alegra. Mas quando os perversos estão no poder, o povo geme”, publicou em rede social. O ex-presidente está recluso em casa, recuperando-se de uma esofagite.

De acordo com integrantes do PL, partido do ex-presidente, o bolsonarismo ainda buscava uma forma de contornar a narrativa do governo nas horas após o anúncio de Trump.

Entrou em curso uma ofensiva para dizer que a tarifa de 50% aplicada por Trump é culpa de Lula, não de Bolsonaro ou mesmo do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que trabalha junto a autoridades dos Estados Unidos por sanções a ministros do STF. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou linha parecida.

Mas bolsonaristas tomaram o cuidado de não expor comemorações com a medida, e inclusive lamentá-la —ainda que enxerguem como uma vitória o que apontam como alinhamento de Trump ao que eles têm defendido na esfera internacional.

Nas redes sociais e no plenário da Câmara dos Deputados, parlamentares usaram à exaustão a frase “a culpa é do Lula”. O argumento passa pela ideia de que o presidente não soube criar relação diplomática com a gestão de Trump.

E, mais além, argumentam que a tarifa não é resposta à articulação política de Eduardo Bolsonaro, numa tentativa de distanciá-lo da medida, e tentar associar a decisão de Trump às declarações de Lula na cúpula dos Brics, no início da semana. No encontro do bloco de países, no Rio, o presidente voltou a defender “uma nova moeda de comércio” internacional, acenando a uma agenda de desdolarização.

Aliados do ex-presidente dizem se tratar de uma resposta comercial mais do que política à administração petista.

“Por conta da inabilidade, falta de diplomacia e, sobretudo, falta de respeito para contra os adversários políticos, o governo Lula, aliado à China, à Rússia, à Venezuela e à Cuba e ao próprio Irã, vai sofrer represálias no campo diplomático”, disse o deputado Sanderson (PL-RS).

“A culpa é exclusivamente do presidente Lula. Não foi por conta do julgamento que ele aplicou as tarifas. Na carta que ele especifica, ele diz vários pontos. A questão da censura, a questão do alinhamento político do Brasil hoje com os países do eixo do mal”, disse Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Casa.

Já no Senado, Hamilton Mourão (Republicanos-RS) atribuiu a tarifa de Trump ao que chamou de “sucessivos fiascos de uma diplomacia inoculada de ideologias ultrapassadas têm uma resultante desastrosa para o País”.

Ex-ministro de Bolsonaro e deputado federal Osmar Terra (PL-RS) disse que a economia brasileira já está ruim, por culpa do governo. E que, se piorar, será também por culpa do governo, não pelo tarifaço anunciado por Trump.

Comissão da Câmara aprova moção de louvor a Trump

Para completar a pantomima da extrema direita no Congresso, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, presidida por Filipe Barros (PL-PR), aprovou ontem (9) um requerimento de moção de louvor ao presidente dos Estados Unidos.

De autoria do líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), a “moção de louvor e regozijo” ao chefe do Executivo americano pelo “brilhante trabalho desenvolvido como presidente da maior nação e pela incansável luta em defesa da democracia e da liberdade de expressão em todo o planeta”. O deputado ainda destacou feitos de Donald Trump nos Estados Unidos.

“Em seus 100 dias de governo, o Presidente Trump: reduziu a inflação norte-americana, busca reduzir os preços da contas de energia; negocia a paz entre Rússia e Ucrânia; está implementando diversos cortes de impostos; protege os valores e princípios das famílias como pilares centrais de uma boa cidadania”, justificou Sóstenes.

Por fim, o congressista ainda acrescentou que Trump deve ser “enaltecido e lembrado como um melhores presidentes do mundo e exemplo a ser seguido para a implementação e manutenção de uma democracia moderna e justa”. O requerimento recebeu assinaturas de Gustavo Gayer (PL-GO) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).

Eduardo Bolsonaro pede para apoiadores agradecerem Trump por tarifa

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou as redes sociais para convocar seus seguidores a agradecerem publicamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a divulgação de uma carta em que o líder norte-americano impôs tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

Na publicação, feita em inglês e português, Eduardo escreveu: “Povo Brasileiro, vamos fazer o mundo ouvir a nossa voz. Coloque o seu agradecimento ao Presidente Donald Trump abaixo e vamos rumo à Lei Magnitsky!”.

A mensagem foi acompanhada pelas frases: “THANK YOU PRESIDENT TRUMP MAKE BRAZIL FREE AGAIN WE WANT MAGNITSKY!”.

A Lei Magnitsky, citada no post, é uma legislação dos Estados Unidos que permite ao governo norte-americano impor sanções a indivíduos estrangeiros acusados de violar Direitos Humanos. A menção à norma é interpretada como um pedido para que o governo dos EUA adote medidas contra autoridades brasileiras, especialmente o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A movimentação de Eduardo, que está licenciado nos EUA e já afirmou que busca sanções ao Brasil, começou a gerar ruídos dentro da própria base bolsonarista. Parte da bancada agro, historicamente alinhada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, demonstrou preocupação com os efeitos da tarifa imposta por Trump.

Integrantes do setor avaliam que a tarifa atingirá diretamente a agricultura e a indústria de base exportadora, especialmente no que se refere a produtos como café, carne, frutas, celulose e derivados de ferro e aço.

O movimento também expõe uma contradição com o slogan que norteou a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

A defesa da soberania nacional, da pátria e dos interesses econômicos do país era uma das principais bandeiras do bolsonarismo. Agora, diante da tentativa explícita de um dos filhos do ex-presidente de buscar apoio internacional contra instituições brasileiras, até aliados históricos passaram a demonstrar incômodo.

Moraes diz que Eduardo Bolsonaro interfere em processo na Corte

O ministro Alexandre de Moraes disse que Eduardo Bolsonaro continua interferindo no andamento da ação penal da trama golpista.

A avaliação está na decisão na qual o ministro determinou a inclusão de um vídeo postado pelo parlamentar nas redes sociais no inquérito em que é investigado pelos crimes de coação no curso do processo e obstrução de investigação.

No vídeo, o deputado federal Gustavo Gayer diz que o sistema judiciário do Brasil é um risco para a democracia. O discurso, legendado para o inglês, foi feito durante a manifestação do dia 29 de junho em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na Avenida Paulista, em São Paulo.

“Verifica-se que o investigado Eduardo Nantes Bolsonaro permanece praticando condutas com o objetivo de interferir e embaraçar o regular andamento da AP 2.668/DF [núcleo 1], que já se encontra em fase de apresentação de alegações finais pelas partes”, argumenta Moraes.

O ministro também pediu a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a questão.

Em março deste ano, Eduardo Bolsonaro pediu licença de 122 dias do mandato parlamentar e foi morar nos Estados Unidos, sob a alegação de perseguição política.

O deputado licenciado é investigado pela suposta atuação para incitar o governo norte-americano a adotar medidas contra Moraes, escolhido relator do caso por também atuar no comando das ações da trama golpista e no inquérito das fake news.

O que quer Trump

A movimentação do governo Trump contra o Brasil não pode ser compreendida fora do contexto maior de sua estratégia regional. Para conselheiros da Casa Branca, revelaram fontes ao UOL, o Brasil é a “joia da coroa” da América Latina: a maior economia, o maior território, o maior mercado consumidor e o único país da região com potencial real de protagonismo diplomático. Enfraquecer Lula e colocar um aliado no Planalto é, portanto, uma peça central na política externa trumpista.

Esse reposicionamento se dá em um momento-chave: a crescente aproximação da América do Sul com a China, tanto no campo comercial quanto no de investimentos estratégicos. A percepção em Washington é clara: governos como o de Lula, Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile) representam obstáculos à consolidação de uma nova ordem regional de orientação pró-EUA.

A ofensiva começou a ganhar forma nesta semana. O objetivo político é evidente: jogar setores do empresariado industrial contra o governo Lula, minando sua base de apoio interno.

O Brasil, no entanto, não é o único alvo. A estratégia americana inclui também a desestabilização do governo colombiano de Gustavo Petro, por meio da amplificação de denúncias e vazamentos, além do monitoramento das eleições no Chile, onde os EUA consideram ter recebido “um presente” da esquerda ao indicar a comunista Jeannette Jara como sucessora de Boric — o que, na visão da Casa Branca, abre caminho para uma vitória da direita.

Bolsonaro como instrumento, não como fim

Curiosamente, a operação não tem Bolsonaro como figura central, mas como ferramenta. Fontes próximas ao núcleo estratégico americano indicaram que o ex-presidente brasileiro está sendo usado como pretexto para manter acesa a desconfiança nas instituições brasileiras e como símbolo da polarização. O verdadeiro objetivo seria eleger qualquer aliado confiável de Trump em 2026 — alguém que não imponha resistências à pauta econômica, geopolítica e cultural dos EUA.

Essa instrumentalização também permite que Trump explore o desgaste institucional no Brasil, sem necessariamente investir no retorno de Bolsonaro ao poder. Em jogo, estão interesses como a flexibilização de normas que regulam as big techs, a redução de tarifas de importação para produtos norte-americanos e o afastamento do Brasil de projetos estratégicos com a China, como o desenvolvimento de infraestrutura e parcerias em tecnologia 5G.

A sombra da guerra fria e o mito do quintal

A lógica que sustenta essa ofensiva é antiga — e colonial. A ideia de que a América Latina é o “quintal” dos Estados Unidos nunca desapareceu por completo. O próprio tom adotado por diplomatas americanos em encontros com líderes conservadores da região reflete essa visão hierárquica, herdada da Doutrina Monroe (1823) e fortalecida durante a Guerra Fria. A diferença agora é que, em vez do comunismo soviético, o novo inimigo é a influência chinesa.

Como explica o cientista político norte-americano Noam Chomsky, “a política externa dos EUA sempre operou sob o princípio de que deve haver obediência na região. A independência, mesmo que moderada, é considerada insuportável” (Chomsky on Democracy and Education, 2003).

O Brasil, sob Lula, tem buscado essa independência. Ao recusar-se a alinhar-se automaticamente com os interesses americanos, e ao manter relações diplomáticas e comerciais ativas com a China e outros parceiros do Sul Global, o governo brasileiro torna-se um obstáculo real aos planos de hegemonia trumpista.

Dosagem e risco de reação

A própria Casa Branca reconhece que a escalada contra o Brasil pode sair pela culatra. Dois exemplos circulam entre diplomatas americanos como alerta: o Canadá e a Austrália. Em ambos os países, a interferência de Trump nos processos eleitorais fortaleceu os candidatos progressistas. O risco de o governo Lula capitalizar politicamente esse conflito, apresentando-se como defensor da soberania nacional contra a ingerência externa, é real.

Mesmo assim, a estratégia segue ativa. Um dos instrumentos cogitados é o veto de vistos a autoridades brasileiras, além do confisco de bens — um recurso que a equipe de Trump já testou com êxito em outras frentes. A ausência de um embaixador designado para Brasília também é parte do plano: um gesto diplomático que simboliza o desprezo pela legitimidade do governo atual.

No Palácio do Planalto, a avaliação é de que o embate com Trump em 2026 é inevitável. O presidente Lula, segundo interlocutores, já trabalha com a hipótese de que a eleição será o palco de uma nova disputa entre soberania nacional e submissão a interesses estrangeiros.

O Brasil na encruzilhada

O que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição presidencial. É o modelo de inserção internacional do Brasil no século XXI. Subordinar-se a uma agenda imposta de fora — como fizeram governos autoritários no passado — significaria renunciar à autonomia conquistada após décadas de redemocratização.

Como alertou o diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro e ex-embaixador do Brasil nos EUA, “o Brasil só poderá ter voz no mundo se tiver projeto próprio de desenvolvimento, baseado na justiça social e na soberania” (Valor Econômico, 2019).

A tentativa de interferência dos Estados Unidos na política brasileira não é nova — mas a intensidade e a franqueza com que ela vem sendo conduzida hoje colocam em xeque não apenas a estabilidade do governo Lula, mas os próprios pilares da democracia brasileira. A resposta, mais do que diplomática, terá de ser política — e partirá, em última instância, da capacidade do povo brasileiro de reconhecer quem, de fato, está do seu lado.

Lula afirma que Brasil não aceitará tutela de Trump


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *