Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
Tarcísio, Eduardo Bolsonaro e Nikolas trocam soberania por interesses políticos
Publicado em 10/07/2025 10:41 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
No esforço para blindar Jair Bolsonaro das consequências legais de seus atos — incluindo a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 —, o clã Bolsonaro passou a conspirar com lideranças estrangeiras em busca de sanções contra o próprio país. O resultado dessa estratégia: tarifas de até 50% impostas pelos Estados Unidos ao aço e alumínio brasileiros, com impacto direto sobre empregos, renda, inflação e câmbio. Ainda assim, esse movimento conta com a cumplicidade de figuras como Tarcísio de Freitas, que parecem mais preocupadas com a bênção da extrema direita internacional do que com a população que deveriam representar.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Donald Trump não tomou suas decisões comerciais em nome de Bolsonaro — mas tem utilizado o ex-presidente brasileiro como moeda simbólica para pressionar o Brasil a ceder em pontos sensíveis: redução de tarifas sobre produtos americanos, liberação de mercados para empresas dos EUA e a flexibilização de leis nacionais para favorecer as big techs. Em outras palavras, o ex-presidente dos EUA tenta impor uma pauta de subordinação econômica e regulatória, aproveitando-se da instabilidade política brasileira e da ambição de seus aliados internos.
Nesse cenário, declarações recentes de Eduardo Bolsonaro beiram o surreal. Ele atribui a responsabilidade pelas tarifas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sugere que o caminho para evitar sanções seria anistiar Jair Bolsonaro por sua tentativa de golpe. Não por acaso, Eduardo está nos Estados Unidos, de onde articula livremente, sustentado, segundo o próprio pai, por R$ 2 milhões transferidos por ele para esse fim.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, não fica atrás. Na busca por consolidar-se como candidato do bolsonarismo à Presidência em 2026, o ex-ministro da Infraestrutura tem optado por um alinhamento público com os interesses da extrema direita estrangeira. Em janeiro, apareceu sorridente com o boné “Make America Great Again” na posse de Trump. Agora, diante da ofensiva tarifária americana, Tarcísio prefere culpar o governo Lula: “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado”, afirmou no X (antigo Twitter), em defesa indireta de Trump e de seu mentor político.
A ironia é gritante: o campo político que diz defender o patriotismo se alinha, sem constrangimento, a um governo estrangeiro que impõe prejuízos diretos à indústria nacional — especialmente à paulista — e pressiona o país a renunciar à sua soberania regulatória e democrática. E quando o governo brasileiro mantém o caminho da negociação, sem retaliar ou romper pontes diplomáticas, seus opositores o acusam de ser ideológico.
Fato é que o governo Lula — com todos os seus defeitos — manteve uma postura institucional, buscou o diálogo com os EUA desde o anúncio do tarifaço e jamais flertou com soluções antidemocráticas para chegar ou se manter no poder. Diferente de Bolsonaro, que foi derrotado nas urnas e incentivou uma tentativa de subversão do processo eleitoral, com apoio explícito de setores extremistas nos Estados Unidos.
Ao apoiar uma narrativa de perdão ao golpismo e endossar as declarações de Trump, mesmo quando elas atacam o Brasil e suas instituições, Tarcísio não apenas se compromete politicamente com esse projeto reacionário — ele compartilha a responsabilidade por seus efeitos econômicos e sociais.
O Supremo Tribunal Federal não vai rever o julgamento de Bolsonaro por causa das tarifas impostas por Trump. Tampouco o Brasil aceitará passivamente interferências externas em suas decisões jurídicas. O que está em jogo aqui é algo maior: a integridade da democracia e o respeito à soberania nacional.
A tragédia é que tudo isso — tarifas, prejuízos econômicos, erosão institucional — tem origem em um grupo político que, incapaz de aceitar a derrota eleitoral, optou por sabotar o próprio país. E que agora conta com o apoio de líderes como Tarcísio de Freitas, dispostos a rifar o presente e o futuro da nação em nome de um projeto pessoal de poder.
Como observou o jornalista canadense Paul Wells, quando Trump sugeriu que o Canadá deveria se tornar o 51º estado norte-americano, a população reagiu com indignação, e os conservadores perderam força. Um recado claro: patriotismo não é submissão.
No Brasil, a distorção semântica virou estratégia. Para o clã Bolsonaro, “democracia” significa impunidade para golpistas. E “patriotismo” virou sinônimo de conspirar com potências estrangeiras contra o próprio povo.
O país corre o risco de perder receitas, empregos e soberania por causa de brasileiros que juram amar a pátria, mas agem como seus algozes.
Tiro no pé
São Paulo é, de longe, o principal exportador brasileiro para os EUA. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e do Monitor do Comércio Brasil-EUA 2024 mostram que o estado foi responsável por 33,6% das exportações brasileiras aos americanos no ano passado, totalizando mais de US$ 13,5 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 66 bilhões. Os três principais produtos exportados por São Paulo — aeronaves, equipamentos de engenharia civil e sucos — sozinhos movimentaram bilhões de dólares. Essa dependência do mercado americano explica por que os setores industriais e logísticos paulistas serão duramente impactados pela nova tarifa.
Entre os dez municípios brasileiros que mais exportaram para os EUA em 2024, seis são paulistas: São José dos Campos (US$ 1,9 bi), Piracicaba (US$ 1,3 bi), Santos (US$ 776 mi), Ilhabela (US$ 623 mi), Guarulhos (US$ 609 mi) e Gavião Peixoto (US$ 594 mi). Essas cidades concentram polos industriais aeronáuticos, automotivos, de alimentos e logística. Em São José dos Campos e Gavião Peixoto, por exemplo, está a produção de aeronaves que totalizou sozinha US$ 2,38 bilhões em exportações nacionais para os EUA. O aço, segundo maior item da pauta brasileira (US$ 2,8 bilhões), também tem forte presença em fábricas paulistas, e sucos de frutas movimentaram mais de US$ 1,1 bilhão, boa parte proveniente do interior do estado.
Os dados oficiais revelam ainda que São Paulo responde por 31,8% de todas as exportações brasileiras para os EUA que saem pelo Porto de Santos, além de 4,2% que partem pelo Aeroporto de Guarulhos — ambos sob influência direta da economia paulista. Essa estrutura logística robusta, que em tempos normais é uma vantagem competitiva para o estado, também amplifica o efeito negativo de barreiras comerciais como a anunciada por Trump.
A postura do governo Tarcísio à época da eleição americana contrasta agora com a realidade imposta pela política protecionista de Trump. O governador apostou politicamente em um aliado ideológico, mas os números evidenciam que os setores mais dinâmicos da economia paulista — responsáveis por bilhões em exportações e dezenas de milhares de empregos — são justamente os que sofrerão as consequências diretas da medida. A celebração da vitória de Trump, vista como estratégia para aproximar São Paulo do novo governo americano, hoje expõe o estado a perdas concretas, reforçando a necessidade de estratégias comerciais menos dependentes de alinhamentos políticos momentâneos.
Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado. Tiveram tempo para prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil. Outros países buscaram a negociação. Não adianta se esconder atrás do Bolsonaro. A responsabilidade é de…
— Tarcísio Gomes de Freitas (@tarcisiogdf) July 10, 2025
Viralatismo
O gesto de Tarcísio tem farta simbologia: o governador do estado mais poderoso do Brasil, responsável por mais de 30% das exportações nacionais aos EUA, publicamente reverenciando um líder estrangeiro cuja política comercial tem sido abertamente hostil ao Brasil. A resposta de Tarcísio as tarifas de 50% — atingindo diretamente a economia paulista — beira a irresponsabilidade.
“Outros países buscaram a negociação”, afirmou o governador, ignorando o trabalho contínuo do Itamaraty e do vice-presidente Geraldo Alckmin na tentativa de diálogo com os EUA. A fala de Tarcísio, além de distorcer fatos, expôs sua disposição de reescrever a realidade para agradar a dois senhores: Bolsonaro e o empresariado conservador. Segundo o próprio relatório da equipe econômica de seu governo, enviado à Assembleia Legislativa com o PLDO 2026, “a visão atual é de menor atividade global, maior protecionismo e mudanças nos fluxos de mercadorias” — uma admissão de que o tarifaço é, sim, nocivo para São Paulo.
Ideologia vestida em boné
A aproximação de Tarcísio à extrema direita internacional não é acidental. Além do aceno a Trump, o governador vem tecendo elogios ao presidente argentino Javier Milei, cuja gestão é marcada por um ultraliberalismo caótico: cortes de aposentadorias, demissões em massa, destruição de programas sociais e ruptura institucional com os estados federados. “É fato que acha muito bacana o que está em curso na Argentina”, declarou, escancarando sua admiração por uma política que, no vizinho sul-americano, tem empobrecido as camadas médias e desestruturado o estado de bem-estar mínimo.
Esse alinhamento ideológico tem precedentes históricos. Na obra Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre aponta para a herança de uma elite brasileira que reproduz padrões de dominação externos como forma de se autoafirmar internamente. Décadas depois, o complexo de inferioridade das elites brasileiras foi nomeado por Nelson Rodrigues como o “complexo de vira-latas” — expressão que segue atual para descrever a postura de políticos que, diante de ataques estrangeiros, se curvam em nome de ideologias importadas.
A lógica do cálculo eleitoral
No jogo de sucessão presidencial, Tarcísio se movimenta com discrição, mas não com moderação. Embora negue publicamente sua intenção de disputar o Planalto, todas as suas falas, gestos e silêncios parecem moldados para atender às exigências do eleitor bolsonarista. Ao compartilhar, nesta semana, uma postagem de Trump com ataques ao STF e elogios a Bolsonaro, o governador mais uma vez se posiciona como fiel escudeiro de um projeto político que despreza o Judiciário e ameaça a soberania nacional.
Para a ala mais radical do bolsonarismo, Tarcísio ainda enfrenta desconfiança. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, é lembrado por sua participação ativa nas articulações para que Trump impusesse sanções a Alexandre de Moraes, o que escancara o quanto o bolsonarismo está disposto a aceitar interferência estrangeira desde que isso sirva aos seus interesses eleitorais.
Uma submissão antiga, um perigo atual
A postura de Tarcísio de Freitas ecoa um padrão histórico das elites brasileiras: a crença de que a salvação do país virá de fora, desde que mediada por figuras brancas, ricas e agressivas, de preferência armadas. É um padrão de comportamento colonialista, que jamais se desfez por completo. A novidade — e o perigo — está em ver esse comportamento travestido de “realismo político” por parte de alguém que governa o estado mais rico da federação e flerta com a presidência da República.
Na prática, Tarcísio acena a Washington com uma coleira no pescoço, esperando ser premiado com a bênção de Bolsonaro e o endosso da extrema direita internacional. Mas, ao fazer isso, deixa desprotegidos os empresários brasileiros, os trabalhadores da indústria, os interesses nacionais e, principalmente, a democracia.
Como escreveu o filósofo francês Étienne de La Boétie, em Discurso da Servidão: “Os tiranos são grandes apenas porque nós estamos de joelhos.” Tarcísio, por ora, permanece ajoelhado. Resta saber se o eleitor brasileiro permanecerá ao seu lado — ou se, enfim, decidirá se levantar.
Bolsonaristas admitem desgaste e buscam blindar ex-presidente
Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro admitem, reservadamente, que há desgaste político para ele e para o grupo político com as tarifas impostas por Trump.
O próprio Bolsonaro não comentou diretamente o aumento da tarifa contra o Brasil. Em publicação nas redes sociais, ignorou o tema e repetiu argumento de que é perseguido pela Justiça brasileira —algo amplificado por Trump. Depois, escreveu um provérbio.
“Quando os justos governam, o povo se alegra. Mas quando os perversos estão no poder, o povo geme”, publicou em rede social. O ex-presidente está recluso em casa, recuperando-se de uma esofagite.
De acordo com integrantes do PL, partido do ex-presidente, o bolsonarismo ainda buscava uma forma de contornar a narrativa do governo nas horas após o anúncio de Trump.
Entrou em curso uma ofensiva para dizer que a tarifa de 50% aplicada por Trump é culpa de Lula, não de Bolsonaro ou mesmo do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que trabalha junto a autoridades dos Estados Unidos por sanções a ministros do STF. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou linha parecida.
Mas bolsonaristas tomaram o cuidado de não expor comemorações com a medida, e inclusive lamentá-la —ainda que enxerguem como uma vitória o que apontam como alinhamento de Trump ao que eles têm defendido na esfera internacional.
Nas redes sociais e no plenário da Câmara dos Deputados, parlamentares usaram à exaustão a frase “a culpa é do Lula”. O argumento passa pela ideia de que o presidente não soube criar relação diplomática com a gestão de Trump.
E, mais além, argumentam que a tarifa não é resposta à articulação política de Eduardo Bolsonaro, numa tentativa de distanciá-lo da medida, e tentar associar a decisão de Trump às declarações de Lula na cúpula dos Brics, no início da semana. No encontro do bloco de países, no Rio, o presidente voltou a defender “uma nova moeda de comércio” internacional, acenando a uma agenda de desdolarização.
Aliados do ex-presidente dizem se tratar de uma resposta comercial mais do que política à administração petista.
“Por conta da inabilidade, falta de diplomacia e, sobretudo, falta de respeito para contra os adversários políticos, o governo Lula, aliado à China, à Rússia, à Venezuela e à Cuba e ao próprio Irã, vai sofrer represálias no campo diplomático”, disse o deputado Sanderson (PL-RS).
“A culpa é exclusivamente do presidente Lula. Não foi por conta do julgamento que ele aplicou as tarifas. Na carta que ele especifica, ele diz vários pontos. A questão da censura, a questão do alinhamento político do Brasil hoje com os países do eixo do mal”, disse Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Casa.
Já no Senado, Hamilton Mourão (Republicanos-RS) atribuiu a tarifa de Trump ao que chamou de “sucessivos fiascos de uma diplomacia inoculada de ideologias ultrapassadas têm uma resultante desastrosa para o País”.
Ex-ministro de Bolsonaro e deputado federal Osmar Terra (PL-RS) disse que a economia brasileira já está ruim, por culpa do governo. E que, se piorar, será também por culpa do governo, não pelo tarifaço anunciado por Trump.
Comissão da Câmara aprova moção de louvor a Trump
Para completar a pantomima da extrema direita no Congresso, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, presidida por Filipe Barros (PL-PR), aprovou ontem (9) um requerimento de moção de louvor ao presidente dos Estados Unidos.
De autoria do líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), a “moção de louvor e regozijo” ao chefe do Executivo americano pelo “brilhante trabalho desenvolvido como presidente da maior nação e pela incansável luta em defesa da democracia e da liberdade de expressão em todo o planeta”. O deputado ainda destacou feitos de Donald Trump nos Estados Unidos.
“Em seus 100 dias de governo, o Presidente Trump: reduziu a inflação norte-americana, busca reduzir os preços da contas de energia; negocia a paz entre Rússia e Ucrânia; está implementando diversos cortes de impostos; protege os valores e princípios das famílias como pilares centrais de uma boa cidadania”, justificou Sóstenes.
Por fim, o congressista ainda acrescentou que Trump deve ser “enaltecido e lembrado como um melhores presidentes do mundo e exemplo a ser seguido para a implementação e manutenção de uma democracia moderna e justa”. O requerimento recebeu assinaturas de Gustavo Gayer (PL-GO) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).
Povo Brasileiro, vamos fazer o mundo ouvir a nossa voz.
Coloque o seu agradecimento ao Presidente Donald Trump @realDonaldTrump abaixo e vamos rumo à lei Magnistky!
THANK YOU PRESIDENT TRUMP – MAKE BRAZIL FREE AGAIN – WE WANT MAGNISTKY! pic.twitter.com/1lcGUsfygw
— Eduardo Bolsonaro???????? (@BolsonaroSP) July 10, 2025
Eduardo Bolsonaro pede para apoiadores agradecerem Trump por tarifa
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou as redes sociais para convocar seus seguidores a agradecerem publicamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a divulgação de uma carta em que o líder norte-americano impôs tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
Na publicação, feita em inglês e português, Eduardo escreveu: “Povo Brasileiro, vamos fazer o mundo ouvir a nossa voz. Coloque o seu agradecimento ao Presidente Donald Trump abaixo e vamos rumo à Lei Magnitsky!”.
A mensagem foi acompanhada pelas frases: “THANK YOU PRESIDENT TRUMP MAKE BRAZIL FREE AGAIN WE WANT MAGNITSKY!”.
A Lei Magnitsky, citada no post, é uma legislação dos Estados Unidos que permite ao governo norte-americano impor sanções a indivíduos estrangeiros acusados de violar Direitos Humanos. A menção à norma é interpretada como um pedido para que o governo dos EUA adote medidas contra autoridades brasileiras, especialmente o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A movimentação de Eduardo, que está licenciado nos EUA e já afirmou que busca sanções ao Brasil, começou a gerar ruídos dentro da própria base bolsonarista. Parte da bancada agro, historicamente alinhada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, demonstrou preocupação com os efeitos da tarifa imposta por Trump.
Integrantes do setor avaliam que a tarifa atingirá diretamente a agricultura e a indústria de base exportadora, especialmente no que se refere a produtos como café, carne, frutas, celulose e derivados de ferro e aço.
O movimento também expõe uma contradição com o slogan que norteou a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
A defesa da soberania nacional, da pátria e dos interesses econômicos do país era uma das principais bandeiras do bolsonarismo. Agora, diante da tentativa explícita de um dos filhos do ex-presidente de buscar apoio internacional contra instituições brasileiras, até aliados históricos passaram a demonstrar incômodo.
Moraes diz que Eduardo Bolsonaro interfere em processo na Corte
O ministro Alexandre de Moraes disse que Eduardo Bolsonaro continua interferindo no andamento da ação penal da trama golpista.
A avaliação está na decisão na qual o ministro determinou a inclusão de um vídeo postado pelo parlamentar nas redes sociais no inquérito em que é investigado pelos crimes de coação no curso do processo e obstrução de investigação.
No vídeo, o deputado federal Gustavo Gayer diz que o sistema judiciário do Brasil é um risco para a democracia. O discurso, legendado para o inglês, foi feito durante a manifestação do dia 29 de junho em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na Avenida Paulista, em São Paulo.
“Verifica-se que o investigado Eduardo Nantes Bolsonaro permanece praticando condutas com o objetivo de interferir e embaraçar o regular andamento da AP 2.668/DF [núcleo 1], que já se encontra em fase de apresentação de alegações finais pelas partes”, argumenta Moraes.
O ministro também pediu a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a questão.
Em março deste ano, Eduardo Bolsonaro pediu licença de 122 dias do mandato parlamentar e foi morar nos Estados Unidos, sob a alegação de perseguição política.
O deputado licenciado é investigado pela suposta atuação para incitar o governo norte-americano a adotar medidas contra Moraes, escolhido relator do caso por também atuar no comando das ações da trama golpista e no inquérito das fake news.
O que quer Trump
A movimentação do governo Trump contra o Brasil não pode ser compreendida fora do contexto maior de sua estratégia regional. Para conselheiros da Casa Branca, revelaram fontes ao UOL, o Brasil é a “joia da coroa” da América Latina: a maior economia, o maior território, o maior mercado consumidor e o único país da região com potencial real de protagonismo diplomático. Enfraquecer Lula e colocar um aliado no Planalto é, portanto, uma peça central na política externa trumpista.
Esse reposicionamento se dá em um momento-chave: a crescente aproximação da América do Sul com a China, tanto no campo comercial quanto no de investimentos estratégicos. A percepção em Washington é clara: governos como o de Lula, Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile) representam obstáculos à consolidação de uma nova ordem regional de orientação pró-EUA.
A ofensiva começou a ganhar forma nesta semana. O objetivo político é evidente: jogar setores do empresariado industrial contra o governo Lula, minando sua base de apoio interno.
O Brasil, no entanto, não é o único alvo. A estratégia americana inclui também a desestabilização do governo colombiano de Gustavo Petro, por meio da amplificação de denúncias e vazamentos, além do monitoramento das eleições no Chile, onde os EUA consideram ter recebido “um presente” da esquerda ao indicar a comunista Jeannette Jara como sucessora de Boric — o que, na visão da Casa Branca, abre caminho para uma vitória da direita.
Bolsonaro como instrumento, não como fim
Curiosamente, a operação não tem Bolsonaro como figura central, mas como ferramenta. Fontes próximas ao núcleo estratégico americano indicaram que o ex-presidente brasileiro está sendo usado como pretexto para manter acesa a desconfiança nas instituições brasileiras e como símbolo da polarização. O verdadeiro objetivo seria eleger qualquer aliado confiável de Trump em 2026 — alguém que não imponha resistências à pauta econômica, geopolítica e cultural dos EUA.
Essa instrumentalização também permite que Trump explore o desgaste institucional no Brasil, sem necessariamente investir no retorno de Bolsonaro ao poder. Em jogo, estão interesses como a flexibilização de normas que regulam as big techs, a redução de tarifas de importação para produtos norte-americanos e o afastamento do Brasil de projetos estratégicos com a China, como o desenvolvimento de infraestrutura e parcerias em tecnologia 5G.
A sombra da guerra fria e o mito do quintal
A lógica que sustenta essa ofensiva é antiga — e colonial. A ideia de que a América Latina é o “quintal” dos Estados Unidos nunca desapareceu por completo. O próprio tom adotado por diplomatas americanos em encontros com líderes conservadores da região reflete essa visão hierárquica, herdada da Doutrina Monroe (1823) e fortalecida durante a Guerra Fria. A diferença agora é que, em vez do comunismo soviético, o novo inimigo é a influência chinesa.
Como explica o cientista político norte-americano Noam Chomsky, “a política externa dos EUA sempre operou sob o princípio de que deve haver obediência na região. A independência, mesmo que moderada, é considerada insuportável” (Chomsky on Democracy and Education, 2003).
O Brasil, sob Lula, tem buscado essa independência. Ao recusar-se a alinhar-se automaticamente com os interesses americanos, e ao manter relações diplomáticas e comerciais ativas com a China e outros parceiros do Sul Global, o governo brasileiro torna-se um obstáculo real aos planos de hegemonia trumpista.
Dosagem e risco de reação
A própria Casa Branca reconhece que a escalada contra o Brasil pode sair pela culatra. Dois exemplos circulam entre diplomatas americanos como alerta: o Canadá e a Austrália. Em ambos os países, a interferência de Trump nos processos eleitorais fortaleceu os candidatos progressistas. O risco de o governo Lula capitalizar politicamente esse conflito, apresentando-se como defensor da soberania nacional contra a ingerência externa, é real.
Mesmo assim, a estratégia segue ativa. Um dos instrumentos cogitados é o veto de vistos a autoridades brasileiras, além do confisco de bens — um recurso que a equipe de Trump já testou com êxito em outras frentes. A ausência de um embaixador designado para Brasília também é parte do plano: um gesto diplomático que simboliza o desprezo pela legitimidade do governo atual.
No Palácio do Planalto, a avaliação é de que o embate com Trump em 2026 é inevitável. O presidente Lula, segundo interlocutores, já trabalha com a hipótese de que a eleição será o palco de uma nova disputa entre soberania nacional e submissão a interesses estrangeiros.
O Brasil na encruzilhada
O que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição presidencial. É o modelo de inserção internacional do Brasil no século XXI. Subordinar-se a uma agenda imposta de fora — como fizeram governos autoritários no passado — significaria renunciar à autonomia conquistada após décadas de redemocratização.
Como alertou o diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro e ex-embaixador do Brasil nos EUA, “o Brasil só poderá ter voz no mundo se tiver projeto próprio de desenvolvimento, baseado na justiça social e na soberania” (Valor Econômico, 2019).
A tentativa de interferência dos Estados Unidos na política brasileira não é nova — mas a intensidade e a franqueza com que ela vem sendo conduzida hoje colocam em xeque não apenas a estabilidade do governo Lula, mas os próprios pilares da democracia brasileira. A resposta, mais do que diplomática, terá de ser política — e partirá, em última instância, da capacidade do povo brasileiro de reconhecer quem, de fato, está do seu lado.
Deixe um comentário