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Poder

Exército e agro tentam se desvincular de Braga Neto

Frente Ruralista reage a suspeitas de financiamento golpista

Publicado em 16/12/2024 10:19 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A prisão do general Walter Braga Netto no sábado (14) representa um capítulo inédito e altamente simbólico na história política e militar do Brasil. Nunca antes um general quatro estrelas havia sido detido por ordem do Judiciário em plena vigência democrática. A operação, conduzida pela Polícia Federal (PF) com autorização de instâncias civis, marca o ápice de um processo de responsabilização de militares envolvidos em uma trama golpista.

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O impacto imediato foi a tentativa da cúpula do Exército de se descolar de Braga Netto, sinalizando que o general teria atuado como civil e político, e não como militar em serviço. Essa narrativa, porém, levanta uma série de implicações sobre o papel das Forças Armadas na política brasileira e seu compromisso com a democracia.

Um rompimento inédito na relação entre civis e militares

A prisão de Braga Netto simboliza a ruptura de uma lógica tradicional na relação entre civis e militares. Desde o fim da ditadura (1964-1985), o “pacto de silêncio” e a não responsabilização judicial de militares por atos cometidos no exercício de funções foi uma constante. No entanto, o contexto atual é distinto.

Carlos Fico, historiador e especialista na ditadura militar brasileira, enfatiza a novidade da situação. “O ineditismo realmente está nesse fato de que não se trata, no caso do Braga Neto, de uma prisão ordenada pelo Poder Executivo, seja o presidente da República, seja o ministro da Guerra. Não é uma simples questão disciplinar, mas um crime contra a democracia, uma tentativa de golpe”, explica. Para ele, trata-se de uma ação estritamente judicial, o que reforça a autonomia das instituições democráticas.

A prisão não é comparável a outras detenções de militares de alta patente ocorridas no passado, como as de Euclydes Figueiredo (1989), irmão do ex-presidente João Figueiredo, ou a de Hugo Abreu, general que desafiou o governo Ernesto Geisel na ditadura. Naqueles casos, a prisão foi uma medida disciplinar interna e decidida pelo próprio Poder Executivo, sem interferência do Judiciário. Já no caso de Braga Netto, a prisão se deu por força de uma decisão judicial, fruto de uma investigação que desvelou seu suposto envolvimento em uma conspiração para minar o regime democrático.

A relação esgarçada entre Braga Netto e o Alto Comando

Os bastidores revelam que a cúpula militar já esperava a prisão de Braga Netto, embora o momento — um sábado — tenha surpreendido os generais. Desde 2022, quando surgiram evidências de que o ex-ministro da Defesa articulava contra o então comandante do Exército, general Freire Gomes, Braga Netto havia perdido apoio na caserna.

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal entre Braga Netto e o capitão reformado Ailton Barros indicam o nível de descontentamento do general. Nelas, ele chega a se referir a Freire Gomes como “cagão” e sugere que “ofereçam a cabeça” do general ao público. Tais episódios contribuíram para que Braga Netto fosse isolado no Alto Comando, especialmente após as eleições de 2022.

Essa ruptura ficou mais evidente com a posse de Tomás Paiva como comandante do Exército. Tomás, que assumiu uma postura de distanciamento das pautas golpistas, foi criticado por Braga Netto. Em uma das mensagens vazadas, o general ironizou a conduta de Paiva, sugerindo que ele agia como “um petista desde pequeno”. Isso explicita uma divisão nas Forças Armadas, entre os que abraçaram o projeto bolsonarista e os que buscaram preservar a imagem de neutralidade institucional.

O argumento das “ações individuais”

A estratégia da cúpula militar para proteger a instituição tem sido clara: sustentar que as ações golpistas partiram de militares da reserva ou de oficiais que agiram em nome próprio. A prisão de 25 militares indiciados pela PF, incluindo 12 oficiais da ativa, coloca essa narrativa em xeque. Destes, sete são oficiais-generais, o que expõe a profundidade da crise.

Essa posição oficial das Forças Armadas visa preservar a “imagem de instituição de Estado”, separando-a das ações de indivíduos. A justificativa é conveniente, mas encontra limites nas evidências de envolvimento de membros do Alto Comando. Estevam Theophilo, por exemplo, fazia parte do grupo mais alto do Exército no fim do governo Bolsonaro e está entre os indiciados.

Apesar da tentativa de dissociar a instituição dos atos dos seus membros, o fato de que Braga Netto foi preso em uma instalação militar (a 1ª Divisão de Exército, no Rio de Janeiro) revela o tratamento especial dispensado a militares de alta patente. Segundo a legislação, generais têm direito a cumprir prisão preventiva em quartéis, mas isso não impede que, em caso de condenação definitiva, possam ser enviados a presídios comuns, conforme preceitua o Código Penal Militar.

A tática de contenção: O papel de José Mucio e o Congresso Nacional

O ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, tem se esforçado para evitar uma crise institucional. Desde o início do governo Lula, Mucio tem promovido uma estratégia de acomodação com as Forças Armadas, procurando preservar o diálogo para evitar embates públicos. Esse esforço ficou evidente quando Mucio foi informado sobre a operação contra Braga Netto na noite de sexta-feira (13), mas não interveio.

No Congresso Nacional, a lógica foi a mesma. A CPI do 8 de Janeiro, que investigou a tentativa de golpe em Brasília, não convocou Braga Netto para depor, mesmo com as evidências de seu envolvimento. A ausência de convocações de generais de alta patente revela a preocupação de parlamentares em evitar embates diretos com os militares, especialmente em um momento em que o governo precisa aprovar pautas prioritárias no Congresso.

Impactos na democracia e na percepção pública

A prisão de Braga Netto lança um sinal claro de que, na nova fase democrática, nem mesmo os generais estão acima da lei. Para muitos analistas, o caso reflete o fortalecimento das instituições democráticas. Se, no passado, as Forças Armadas eram vistas como “poder moderador” e “intocáveis”, agora se tornam alvo de investigações judiciais, assim como qualquer outro grupo social.

A análise de Carlos Fico é contundente: “Não se trata de uma ordem de prisão no contexto de uma crise institucional, mas de uma decisão de um juiz, cumprida por uma polícia civil e respeitada pelas Forças Armadas”, explica. Para Fico, a prisão de Braga Netto simboliza o triunfo de uma lógica republicana em que todos estão sujeitos às mesmas regras.

A imagem das Forças Armadas, contudo, sofre o desgaste. A tentativa de apresentar os golpistas como “indivíduos isolados” não parece convencer parte da sociedade civil, especialmente após as cenas do 8 de janeiro, quando manifestantes invadiram prédios públicos em Brasília pedindo intervenção militar. O episódio reforçou a suspeita de que, ao menos passivamente, militares poderiam ter facilitado o ato.

Quais são as provas que levaram à prisão de Braga Netto

O núcleo das provas que embasaram o pedido de prisão preventiva de Braga Netto é robusto e diversificado. Documentos, perícias em dispositivos eletrônicos, trocas de mensagens e depoimentos de delatores revelam a complexidade da trama golpista. Veja a seguir os principais elementos de prova que fundamentaram a prisão:

Mensagens Apagadas e Recuperadas

As perícias realizadas pela PF no celular do general Mauro César Lourena Cid, pai do tenente-coronel Mauro Cid, revelaram “intensa troca de mensagens” com Braga Netto e outros envolvidos. As mensagens haviam sido apagadas, mas foram recuperadas pela polícia. Nelas, o tema central era o desvio de joias do governo federal, mas as conversas também expunham a articulação para obter informações sigilosas da delação de Mauro Cid.

O nome de Braga Netto estava salvo no celular do general Lourena Cid como “Walter BN”. Essa nomenclatura foi suficiente para associar o interlocutor diretamente ao general, revelando uma tentativa de comunicação clandestina que pretendia minar o processo investigativo.

Tentativa de Obstrução de Justiça
A principal acusação que levou à prisão de Braga Netto foi a tentativa de obter informações sigilosas da delação de Mauro Cid. Segundo a PF, o general teria se mobilizado para “controlar as informações fornecidas, alterar a realidade dos fatos apurados e consolidar o alinhamento de versões entre os investigados”.

A PF descobriu que Braga Netto utilizou familiares do coronel Mauro Cid como intermediários para obter acesso a dados confidenciais da delação. Segundo o depoimento de Mauro Cid, o general entrou em contato com seu pai, Lourena Cid, que mora no Rio de Janeiro, para tentar obter informações sobre o conteúdo do acordo de colaboração. A ação foi considerada uma tentativa deliberada de obstrução de Justiça, conforme descrito pelo ministro Alexandre de Moraes na decisão que autorizou a prisão.

Anotação Encontrada na Sede do Partido Liberal (PL)

Uma das provas mais contundentes foi a descoberta de um documento na sede do Partido Liberal (PL), onde Braga Netto atuava como assessor. A PF encontrou uma folha com uma série de perguntas e respostas.

As perguntas eram diretas e relacionadas à delação de Mauro Cid, indicando o interesse em conhecer detalhes do que havia sido revelado à PF. Uma das questões dizia: “O que foi delatado?” A resposta anotada na folha era: “Nada. Eu não entrava nas reuniões. Só colocava o pessoal para dentro.” As investigações revelaram que as perguntas teriam sido formuladas por Braga Netto e as respostas atribuídas a Mauro Cid, embora ele tenha negado a autoria.

Essa evidência foi interpretada pela PF como mais uma tentativa de Braga Netto de controlar a narrativa e alinhar as versões de defesa dos envolvidos.

Reuniões em Local Secreto para Planejar o Golpe

Outra prova apresentada no inquérito foi a realização de uma reunião na casa do próprio Braga Netto no dia 12 de novembro de 2022, na qual participaram militares das Forças Especiais do Exército. O objetivo seria planejar ações de monitoramento de autoridades civis e traçar as estratégias para a execução do golpe de Estado.

Segundo o ministro Alexandre de Moraes, “as ações operacionais ilícitas executadas pelos investigados integrantes de Forças Especiais” estavam diretamente vinculadas às articulações que ocorreram na residência de Braga Netto. Esse fato reforça a tese de que o general desempenhava papel de liderança no grupo e não atuava de forma isolada.

Financiamento de Operações Clandestinas

O financiamento de ações clandestinas para sustentar a tentativa de golpe foi mais um elemento que pesou contra Braga Netto. A PF revelou que o general foi responsável pelo repasse de recursos em dinheiro vivo, que foram entregues ao major Rafael de Oliveira em uma sacola de vinho.

O dinheiro foi utilizado para a compra de celulares descartáveis e chips de comunicação, que seriam utilizados de forma clandestina para evitar rastreamento pelas autoridades. Esse modus operandi é típico de operações de inteligência militar e de ações terroristas, o que levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a interpretar o ato como parte de uma “operação militar clandestina”.

Mourão admite plano golpista, mas diz que era ‘troço sem pé nem cabeça’

O ex-vice-presidente da República e atual senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) fez declarações inéditas sobre a existência de uma trama golpista durante o governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista ao jornal O Globo, Mourão admitiu que houve discussões sobre um possível golpe para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas minimizou sua gravidade, classificando-a como uma “conspiração tabajara” e “troço sem pé nem cabeça”.

As declarações de Mourão, que outrora era considerado uma voz moderada entre os militares, representam uma mudança significativa no discurso sobre as tentativas golpistas que envolveram integrantes das Forças Armadas.

Hamilton Mourão admitiu que houve “reuniões” e “conversas de WhatsApp” nas quais foi discutida a possibilidade de um golpe, mas fez questão de destacar que nada foi concretizado. Segundo ele, na lógica militar, um golpe pressupõe “ação tática”, ou seja, movimentação concreta de tropas, o que, segundo ele, não ocorreu.

“Vamos combinar: golpe não funciona assim. Golpe é como você viu aí na Síria, na Venezuela, na Turquia. É tropa na rua, é tiro, é bomba”, afirmou Mourão. Para ele, sem a adesão do Alto Comando do Exército, a tentativa de golpe não teria qualquer chance de sucesso.

Mourão foi ainda mais explícito ao destacar a atitude do general Freire Gomes, ex-comandante do Exército, que teria recusado qualquer tentativa de envolvimento da instituição militar em uma ruptura democrática.

“O Exército se baliza por três vetores: trabalhando dentro da legalidade, usando legitimidade e mantendo a estabilidade do país. O Exército não pode ser fator de instabilidade. É óbvio que uma reversão de um processo eleitoral na base da força lançaria o país num caos. Então, o Exército agiu dentro desses vetores. Foi a atitude correta do [general] Freire Gomes, não há o que contestar”, disse o senador.

Outro ponto sensível abordado por Mourão foi o plano de assassinato do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Esse suposto plano foi revelado pela Polícia Federal a partir de mensagens e e-mails interceptados de militares e ex-militares envolvidos na operação “Punhal Verde e Amarelo”.

O plano envolveria a captura e possível assassinato das três autoridades, sendo mencionado o uso de armas e veneno. Mourão, no entanto, desqualificou a gravidade das informações, tratando-as como “conversas fora de contexto”.

“Acho essas questões totalmente fora do contexto. Essa investigação da PF, que levou praticamente dois anos, é um escarafunchar de conversas de WhatsApp e de algumas mensagens de e-mails trocados. A gente nunca sabe o contexto em que isso foi efetivamente tratado”, afirmou o senador.

Mourão também apontou contradições no plano golpista, citando a proposta de utilizar armas e veneno ao mesmo tempo.

“Diziam ‘vamos ter armas, mas vamos matar por envenenamento’. Então pra que ter arma? São coisas surreais, na minha visão”, ironizou.

Para ele, o grupo que esteve à frente desse plano seria pequeno e sem capacidade operacional para executá-lo. Essa análise, no entanto, não é compartilhada pelo ministro Alexandre de Moraes, que apontou a gravidade das provas reunidas contra os militares envolvidos.

Uma revelação importante feita por Mourão foi a existência de reuniões no Palácio da Alvorada logo após o segundo turno das eleições de 2022. Segundo ele, as reuniões envolveram o então presidente Jair Bolsonaro, o general Braga Netto e os comandantes militares, embora o senador afirme que desconhece o teor dessas conversas.

“Sabia que havia reuniões no Palácio da Alvorada depois do segundo turno. Na época, o presidente com os comandantes, o Braga Netto, mas desconheço os assuntos”, disse Mourão. Ele afirmou que nunca participou de encontros que tivessem o golpe como tema e que jamais foi convidado para esse tipo de articulação.

A existência dessas reuniões já havia sido apontada em investigações da PF e mencionada em depoimentos de outros envolvidos. As autoridades investigam se esses encontros serviram para traçar o plano golpista ou para discutir a insatisfação de Bolsonaro com o resultado das eleições.

Hamilton Mourão se manifestou publicamente contra a prisão de Braga Netto. Para ele, a decisão do STF foi um “atropelo à lei”, já que, segundo sua interpretação, o general quatro estrelas não representaria risco às investigações ou à ordem pública. Mourão publicou uma crítica nas redes sociais, afirmando que a prisão preventiva foi excessiva e que as ações de Braga Netto, mesmo que suspeitas, não justificariam uma medida tão drástica.

51% acreditam que Bolsonaro tentou dar golpe

Em pesquisa realizada pela Quaest, 51% dos brasileiros acreditam que houve tentativa de golpe contra Lula por parte dos militares e de Jair Bolsonaro (PL). Além disso, 48% acreditam que Bolsonaro participou de seu planejamento. As informações são da repórter Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo.

A pesquisa, encomendada pela corretora de investimentos Quaest, ouviu 8.598 pessoas entre os dias 4 e 9 de dezembro.

Entre os eleitores de Bolsonaro em 2022, 39% afirmam acreditar que o ex-presidente e os militares estavam envolvidos na trama golpista — 51% dizem que a tentativa de golpe não aconteceu.

A sondagem também questionou os entrevistados sobre se as pessoas já presas deveriam ser condenadas: 75% responderam afirmativamente. Entre aqueles que votaram em Lula em 2022, o número sobe para 80%.
Mesmo no eleitorado bolsonarista, 68% concordam com a condenação.

Uma das questões da pesquisa procurou medir o impacto das denúncias na imagem de Bolsonaro e Lula. 50% do total acham que as denúncias não têm impacto sobre a imagem do ex-presidente, 42% acreditam que elas impactam “para pior”, enquanto 3% consideram que impactam “para melhor”.

Quando a pergunta é sobre a imagem de Lula,  51% dizem que ela é “nenhuma”, mas 33% afirmam que a divulgação das notícias sobre a tentativa de golpe fortalece a candidatura dele para 2026.

Frente Ruralista Reage a Suspeitas de Financiamento Golpista

As revelações sobre o envolvimento de figuras do agronegócio no financiamento de ações golpistas em 2022 provocaram uma resposta contundente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). No domingo (15), o grupo, que reúne 340 deputados e senadores, defendeu uma investigação “urgente e rigorosa” sobre as acusações de que empresários do setor teriam financiado, direta ou indiretamente, a chamada “Operação Punhal Verde e Amarelo”, plano que previa o sequestro e a possível execução de autoridades, incluindo o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A acusação de que membros do setor do agronegócio financiaram o golpe emergiu no depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, ao STF. Segundo Cid, o general Walter Braga Netto, preso no último sábado (14), teria buscado “recursos junto ao pessoal do agronegócio” para financiar a operação golpista. Parte do dinheiro teria sido entregue em espécie a um militar investigado, transportado em uma sacola de vinho.

A declaração foi um dos elementos-chave utilizados pelo ministro Alexandre de Moraes para justificar a prisão preventiva de Braga Netto. O caso expõe, mais uma vez, a relação entre integrantes do agronegócio e os atos antidemocráticos que tomaram conta de Brasília entre o final de 2022 e o início de 2023, culminando na invasão das sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro.

Frente Parlamentar e o Discurso de “Ações Isoladas”

Diante da gravidade das acusações, a FPA procurou afastar o setor agropecuário das ações golpistas. Em nota, a frente parlamentar afirmou que as “ações isoladas” não podem ser usadas para comprometer a imagem de um setor econômico que, segundo a FPA, “desempenha papel fundamental no desenvolvimento do país”.

“É inadmissível que ações isoladas sejam usadas para generalizar e comprometer a imagem de um setor econômico composto por mais de 6 milhões de produtores e que desempenha papel fundamental no desenvolvimento do país”, afirmou a FPA.

A Frente também exigiu que as investigações sejam conduzidas “de forma legal, transparente, equilibrada e em estrita observância ao que determina a Constituição Federal”. No entanto, o uso do termo “ações isoladas” já havia sido mobilizado anteriormente por representantes das Forças Armadas para tentar descolar a imagem institucional dos militares dos atos golpistas.

Os Caminhões e a Logística do Golpe

Desde novembro de 2022, sinais de envolvimento de empresas do agronegócio nos atos antidemocráticos já estavam evidentes. Uma investigação conduzida pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) identificou que 272 caminhões entraram em Brasília a partir de novembro daquele ano para apoiar as manifestações em frente ao Quartel-General do Exército.

Desses caminhões, quase metade pertencia a empresas do setor agrícola e de transporte. Alguns dos veículos exibiam o nome de grandes revendedoras de equipamentos agrícolas, como a Agritex, que atua em várias cidades brasileiras. A empresa foi uma das dez com contas bloqueadas por decisão do STF, sob acusação de financiar os atos golpistas.

Além disso, o relatório da Abin enviado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro revelou que os outros caminhões pertenciam a pessoas físicas com participação em empresas agropecuárias de médio porte. Algumas empresas foram flagradas incentivando funcionários a participar das manifestações. Segundo depoimentos de caminhoneiros, muitos deles foram levados à capital por ordens de seus patrões, com ordens expressas de não deixar o local até “nova orientação”.

O relatório também destacou o caso da Sipal Indústria e Comércio, de Paranaguá (PR), que possuía dez caminhões identificados na operação. A empresa teve suas contas bloqueadas após as investigações. Outro nome que ganhou notoriedade foi o empresário Alexandro Lermen, que controlava sete caminhões presentes nas manifestações. Ele também foi alvo do bloqueio financeiro imposto pelo STF.

A Relação do Setor do Agro com Braga Netto

O depoimento de Mauro Cid revelou que Braga Netto buscou apoio financeiro entre empresários do agronegócio para financiar a “Operação Punhal Verde e Amarelo”. Segundo Cid, o general entregou pessoalmente uma quantia em dinheiro vivo ao tenente-coronel Rafael de Oliveira, que participou da operação. O dinheiro foi entregue em uma sacola de vinho e, de acordo com as investigações, foi utilizado para comprar celulares e chips de comunicação, instrumentos fundamentais para a execução do plano golpista.

O plano “Punhal Verde e Amarelo” previa, entre outras ações, o sequestro do ministro Alexandre de Moraes no dia 15 de dezembro de 2022, uma data estratégica para a trama, já que coincidia com o período de transição de poder. A PF também descobriu que, além do sequestro, havia o plano de execução de Moraes, Lula e Alckmin, que seriam mortos para garantir o sucesso do golpe.

A Conexão com os Atos de 8 de Janeiro

A presença de empresários do agro e seus caminhões nos atos golpistas em Brasília tem sido alvo de investigação desde a depredação das sedes dos Três Poderes. Parte dos acampados em frente ao Quartel-General do Exército utilizou a infraestrutura fornecida por empresas do agronegócio para organizar e sustentar as manifestações.

A participação de empresários do setor agropecuário foi revelada, por exemplo, no caso do empresário Argino Bedin, que chegou a ser convocado pela CPMI do 8 de Janeiro. Durante a sessão, Bedin chorou e foi confortado pelas senadoras Tereza Cristina (Progressistas-MS), ex-ministra da Agricultura, e Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro. Apesar de sua convocação, Bedin se recusou a responder às perguntas dos parlamentares, protegido por um Habeas Corpus concedido pelo STF.

O Que Está em Jogo?

A vinculação do setor do agronegócio às ações golpistas coloca em xeque a relação entre a bancada ruralista e o governo federal. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) desempenha um papel central no Congresso Nacional, atuando como um dos blocos mais poderosos e articulados do parlamento. Seu apoio é fundamental para a aprovação de projetos-chave nas áreas de meio ambiente, reforma tributária e política agrícola.

A FPA agora enfrenta o desafio de proteger a imagem do setor agropecuário, que movimenta bilhões de reais na economia brasileira e emprega milhões de trabalhadores. O argumento de que as ações são “isoladas” visa preservar o setor de possíveis sanções econômicas ou legais. Mas o fato de que empresários agropecuários estão sendo citados nos depoimentos de delatores e nas investigações da PF torna essa estratégia difícil de sustentar.

A pressão por apuração rápida e rigorosa também reflete o temor de que novas revelações possam comprometer grandes nomes do setor. Caso fiquem comprovadas as conexões financeiras entre empresários do agro e as ações golpistas, a Justiça poderá impor sanções econômicas, incluindo o bloqueio de contas bancárias e a aplicação de multas pesadas.


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