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Poder
A cada nova prisão, ressurge a mesma dúvida: E Bolsonaro? Tic, tac...
Publicado em 09/08/2023 10:41 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
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O ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques, que inaugurou a temporada de golpismo bolsonarista, foi preso na manhã desta quarta (9), pela Polícia Federal, em meio a uma investigação sobre a interferência nas eleições. Ele é suspeito de mandar instalar bloqueios em rodovias de regiões do Nordeste onde Lula havia ido bem no primeiro turno para dificultar seus eleitores de irem às urnas no segundo.
Naquele momento, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, o ameaçou de prisão se não liberasse as estradas em 20 minutos. “Ou você para os bloqueios ou você vai para a cadeia“, relata reportagem da revista Piauí que narra o encontro entre os dois no 30 de outubro. O ministro, acertadamente, resolveu a questão evitando celeuma em meio aos ânimos exaltados.
A prisão, que veio agora, 9 meses ou 283 dias depois, ainda tem força didática para ajudar a desbolsonarizar a instituição que operou como polícia política do ex-presidente da República.
Em junho, Vasques tratou os parlamentares da CPMI dos Atos Golpistas como idiotas ao dar justificativas toscas para os bloqueios nas estradas. “É um crime impossível, que não ocorreu, não tem como. Como falaríamos com 13 mil policiais explicando essa forma criminosa sem ter uma conversa de WhatsApp, Telegram, sem uma reunião, sem nenhum e-mail enviado?”, questionou.
Cinismo em estado mais puro, porque, como bem disse o próprio Jair Bolsonaro, em uma entrevista a José Luiz Datena, em março de 2020, “quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar”. Basta que algumas pessoas da cúpula foquem os bloqueios sem informar a real intenção.
A partir do momento em que o diretor-geral da PRF começou a agir como cabo eleitoral de Jair, ele deveria ter sido afastado de suas funções. Como não foi, a corporação foi usada pelo bolsonarismo em duas tentativas de golpe.
Na primeira vez, emperrou o transporte de eleitores mais pobres, principalmente no interior do Nordeste. Através da força armada de uma polícia sob o seu comando, Bolsonaro operou para tentar conseguir pela sujeira o que, de fato, não foi capaz de obter nas urnas.
Pelos depoimentos veiculados nos dias seguintes, a ação constrangeu eleitores que ainda não haviam saído de suas casas e acabaram desistindo de votar.
Na segunda vez, a PRF fez vistas grossas aos protestos golpistas que trancaram rodovias em todo o país nas semanas seguintes à vitória do petista, deixando que bloqueios se instalassem, mentindo que precisava de uma decisão judicial para desobstruir as vias. Vídeos em que policiais rodoviários passavam pano para golpistas viralizaram nas redes levando a engrossar os bloqueios.
Precisou a Justiça Federal emitir uma série de decisões e o próprio STF intervir com ameaça de multa contra Vasques para a cúpula da corporação se mexer de fato. Faltou vontade, sobrou seletividade. Afinal, quando indígenas fecharam uma rodovia por algumas horas, em São Paulo, em maio deste ano, para protestar contra o marco temporal, tomou bomba e bala de borracha no lombo.
Um dia antes da eleição, Silvinei Vasques já havia publicado em suas redes sociais um pedido de voto em Bolsonaro. Provavelmente para dirimir dúvidas de seus subordinados a respeito de quem ajudar na reta final. Depois, com o recado dado, apagou. Também deveria ter sido afastado, mas não foi.
A PRF, que sempre fez um excelente trabalho em ações de combate ao trabalho escravo e ao tráfico de seres humanos, alinhou-se à ideologia extremista do presidente e passou a transmitir a imagem de uma instituição que servia para a contenção dos mais vulneráveis e para ações golpistas.
Exemplo disso foi a morte de Genivaldo de Jesus Santos, negro, desarmado, que dirigia uma motocicleta velha e vivia com uma doença mental, assassinado por policiais rodoviários federais que o trancaram em um porta-malas de uma viatura junto com uma bomba de gás em Umbaúba (SE).
Desde que assumiu, Bolsonaro atuou para sequestrar instituições de monitoramento e controle. Sem ter conseguido garantir o apoio irrestrito da Polícia Federal, apelou à sua irmã. Inclusive a PF foi solicitada a ajudar a PRF nos bloqueios, mas não topou. Transformada em polícia política da extrema direita, a PRF teve papel fundamental, ajudando a colocar a República em estado de alerta.
O processo de desbolsonarização da corporação não ocorrerá da noite para o dia. Mas uma investigação rigorosa e uma punição firme a Silvinei Vasques podem ajudar no processo de reestabelecimento do lugar previsto para a instituição na Constituição.
E Bolsonaro?
Do ponto de vista jurídico, a prisão de Silvinei Vasques é mais uma fagulha para incendiar as redes antissociais bolsonaristas contra o Supremo Tribunal Federal. Sob a ótica política, o novo encarceramento potencializa a percepção de que o bolsonarismo desmedido transforma biografias em prontuários e dá cadeia.
Acuado pelas evidências de que conduziu no segundo turno uma operação para retardar o acesso de eleitorres de Lula às urnas no Nordeste, Silvinei se junta a um seleto grupo que já inclui o tenente-coronel Mauro Cid, preso no QG do Exército com uma aparência de camelô de farda, e o delegado federal Anderson Torres, que arrasta sua reputação deformada e uma tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar.
Todo escândalo tem uma fatalidade própria. A excentricidade do flagelo bolsonarista é a acefalia. A quadrilha do golpe é uma organização sem capo. Nesse enredo, Bolsonaro reivindica o papel de cego atoleimado. Finge desconhecer todas as perversões. Enquanto administra os R$ 17 milhões que os devotos lhe repassaram via Pix, o capitão diz torcer que os ex-auxiliares tenham como se explicar à Polícia Federal.
No tempo em que o Brasil ainda tentava fazer algum sentido, os valores pareciam mais nítidos. Bolsonaro era um messias onipresente e personagens como Silvinei, Cid e Anderson eram meros paus-mandados. Subitamente, a nitidez perdeu a função. Nada é o que parece. O mito virou um antilíder. A cada nova prisão, ressurge a mesma indagação incômoda: E o Bolsonaro?
O nome da Operação que prendeu Silvinei é Constituição Cidadã. O livrinho anota que todos são iguais perante a lei. Por ora, a impunidade dá a Bolsonaro uma aparência de invulnerabilidade que o torna mais igual do que seus subordinados.
Depoimento de Anderson Torres à CPI é inservível e até ofensivo
No Ministério da Justiça e na Secretaria de Segurança do Distrito Federal, Anderson Torres associou-se, com ações e omissões, ao golpismo estimulado por Bolsonaro. O comportamento golpista deu ao personagem orelhas de lobo, focinho de lobo e dentes de lobo. Mas Anderson Torres, a exemplo do que fizera ao depor à Polícia Federal, apresenta-se na CPI como uma inocente vovozinha disfarçada.
Como ministro, Anderson testemunhou ataques de golpistas que desceram do acampamento do QG do Exército para promover arruaças na área central de Brasília, no dia 12 de dezembro de 2022. O então ministro observou também a tentativa de explodir uma bomba nas imediações do aeroporto de Brasília, em 24 de dezembro.
Transferido para a Secretaria de Segurança da Capital, o ex-ministro desprezou o cheiro de queimado e sentiu-se à vontade para viajar em férias para a Flórida em 6 de janeiro, antevéspera da invasão às sedes dos Três Poderes. Alega que deixou pronto um plano de nome sugestivo: PAI, Protocolo de Ações Integradas. Sob a alegação de que a aplicação do plano cabia às polícias, deixou órfã a cidade que deveria guarnecer.
Do ponto de vista prático, o depoimento de Anderson à CPI é inservível. Ele apenas repete um lero-lero que já havia entoado em inquirições na Polícia Federal e na Justiça Eleitoral. O teor chega a ser ofensivo à inteligência alheia. Mas a repetição em público da cantilena recitada a portas fechadas deixa o cenário da CPI mais surrealista do que o habitual.
Anderson Torres classificou a minuta golpista apreendida em sua casa de documento “imprestável para qualquer fim, uma verdadeira aberração jurídica”. Acrescentou que “este papel não foi para o lixo por mero descuido”.
Suprema aberração: A minuta de decreto que autorizava Bolsonaro a instaurar Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral e anular a eleição de Lula foi encontrada dentro do armário, no interior de uma pasta ornamentada com o brasão da República. Nunca o lixo foi guardado com tanto esmero.
Mauro Cid, retrato dos militares bolsonaristas que se corromperam
O que mais faltava para emporcalhar de vez a reputação do tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, filho de general e ex-ajudante de ordem do pior presidente da história do Brasil?
Designado por Bolsonaro, o pai de Mauro Cid chefiou nos últimos quatro anos o escritório, em Miami, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX)
O general e Bolsonaro, afastado pelo Exército nos anos 1980 por planejar atentados terroristas a quartéis, são amigos dos tempos da Academia Militar das Agulhas Negras.
Mauro Cid está detido desde o dia 3 de maio no Batalhão do Exército de Brasília, unidade comandada por um amigo dele, o tenente-coronel Bruno Fett. É acusado de cometer vários crimes.
A Polícia Federal o investiga por realizar saques de recursos com cartões corporativos da Presidência. Mauro Cid também pagou despesas de Michelle com cartão de crédito de uma amiga dela.
Foi ele que tentou resgatar um estojo de joias sauditas retido pela Receita Federal ao entrar no país escondido na mala de um auxiliar do almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.
Mauro Cid fez parte do grupo que falsificou os cartões de vacinação contra a Covid-19 de Bolsonaro e de Laura, sua filha, para que eles pudessem circular livremente nos Estados Unidos.
Além de ter participado das tratativas de golpe para impedir a posse de Lula na presidência. No celular de Mauro Cid foi encontrada uma minuta do golpe, e mensagens a respeito.
A mais nova anotação na folha corrida de Mauro Cid foi a descoberta de que ele quis vender por 60 mil dólares (cerca de 300 mil reais) um Rolex que o rei da Arábia Saudita deu a Bolsonaro.
Mauro Cid trocou mensagens em inglês com Maria Farani, que assessorou o Gabinete Adjunto de Informações do gabinete pessoal de Bolsonaro até janeiro de 2023:
Maria Farani: Olá Mauro, obrigada pelo interesse em vender o seu Rolex. Tentei falar com você por telefone, mas não consegui. Pode por favor me falar se você tem o certificado de garantia original do relógio?
Maria Farani: Quanto você espera receber por essa peça? O mercado para Rolex usados está em baixa, especialmente para relógios cravejados de platina e diamante (já que o valor é tão alto).
Mauro Cid: Nós não temos o certificado do relógio, já que foi um presente recebido em viagem oficial de negócios. O que temos é o selo verde de certificado superlativo, que acompanha o relógio. Além disso, posso certificar que o relógio nunca foi usado.
Explicação dada por Maria Farani depois do estouro do caso:
“A pedido de Mauro Cid, por falar inglês, realizei uma pesquisa na internet para identificar possíveis compradores de relógio. Apenas enviei os e-mails e, ao receber respostas, retransmiti ao endereço eletrônico de Mauro Cid. Não tive conhecimento do desfecho de uma eventual negociação.”
Explicação dada pela defesa de Mauro Cid: ela preferiu não dar nenhuma, por enquanto.
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