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Poder
Direita tradicional foi a maior vencedora das eleições, avaliam cientistas políticos
Publicado em 08/10/2024 10:34 - Sylvio Costa e Lucas Neiva (Congresso em Foco), Chico Alves (ICL Notícias) – Edição Semana On
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Uma primeira análise dos resultados eleitorais do primeiro turno não deixa dúvidas: os partidos de esquerda apanharam feio das legendas mais conservadoras. Dos 51 municípios com mais de 200 mil eleitores que definiram hoje seus futuros governantes, apenas quatro (8%) elegeram — na verdade, reelegeram — prefeitos de esquerda.
Recife (PE) e Ananindeua (PA) deram mais quatro anos de mandato a João Campos e a Dr. Daniel Santos, do PSB. E os municípios mineiros de Juiz de Fora e Contagem reelegeram, respectivamente, as petistas Margarida Salomão e Marília Campos. Todos os outros 46 prefeitos são de partidos de direita (destacando-se entre eles PL, União Brasil e PP) e de centro (com destaque, nesse caso, para PSD e MDB).
Veja como ficou a distribuição dos eleitos de domingo (6), nas 103 cidades mais populosas do país:

Quando se olha para as 52 cidades que terão segundo turno, a situação melhora um pouco para a esquerda. Dos 104 candidatos que estarão de novo na cédula de votação no próximo dia 27, 21 são filiados a agremiações de esquerda ou de centro-esquerda: 14 do PT, três do PDT, dois do PSB e dois do Psol — exatamente de onde saiu a vitória mais comemorada hoje pelo presidente Lula e por seus aliados mais próximos: a ida do deputado federal Guilherme Boulos (Psol-SP) para a segunda rodada de votação.
Mesmo aí, no entanto, a superioridade das forças de centro e de direita é flagrante. Elas não só reúnem o maior número de postulantes (83, ou 80% do total) como também, na maioria dos municípios, tiveram vantagem sobre seus adversários de esquerda na primeira votação.
Em várias cidades, o segundo turno colocará em confronto direita contra direita, quando não direita contra extrema direita.
Apesar de sido o segundo partido com maior número de candidatos no segundo turno, o PT terá na nova etapa eleitoral pouco mais da metade dos concorrentes do seu maior rival partidário, o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em quatro cidades, a disputa será entre os dois partidos: Fortaleza (CE), Cuiabá (MT), Anápolis (GO) e Pelotas (RS). Veja os números.

Com 60,5 milhões de eleitores, os 103 municípios brasileiros mais populosos representam menos de 2% das 5.570 cidades brasileiras, mas somam quase 40% do eleitorado nacional. Também concentram a maior parte das riquezas produzidas no Brasil e aferidas através do Produto Interno Bruto (PIB).
Seguem os resultados do primeiro turno em cada uma dessas cidades, em ordem alfabética, com os nomes (e respectivos partidos) dos eleitos e dos contendores da batalha eleitoral decisiva a se realizar daqui a três semanas.

Especialistas respondem: o que a esquerda deve fazer para recuperar espaço perdido?
As eleições municipais de 2024 tiveram resultados que representam grande derrota para a esquerda brasileira. Partidos como PT e PSOL tiveram desempenho pífio nas urnas, enquanto legendas do Centrão, como PSD, MDB, PP e PL tomaram conta da maioria das prefeituras e câmaras de vereadores país afora.
Quais os motivos dessa queda? O que é possível fazer para que a esquerda volte a recuperar o espaço que ocupava no Brasil há poucos anos?
Para discutir essa questão, o ICL Notícias passa a publicar uma série de entrevistas com especialistas, políticos e militantes que podem ajudar a levantar reflexões importantes.
Na primeira matéria da série participam o historiador, escritor e político Jones Manoel; o cientista político Claudio Couto e o historiador, escritor e colunista do ICL Notícias João Cézar de Castro Rocha.
Jones Manoel
“Eu acho que tem três elementos: primeiro a esquerda brasileira, grosso modo, não oferece mais perspectivas de futuro. Ela se contentou com o melhorismo. Então, ela comemora os índices de crescimento do PIB, índices medíocres de formalização de emprego, ela não apresenta hoje perspectiva de resolução dos problemas estruturais do Brasil.
Ninguém, absolutamente ninguém, acredita que o governo Lula agora, em uma possível reeleição, vai significar, por exemplo, o fim do analfabetismo no Brasil, o fim do déficit de saneamento básico e água tratada, o enfrentamento radical às mudanças climáticas, o pleno emprego e o fim do emprego precário, a universalização do SUS, da cobertura de atenção primária à saúde com SUS realmente de qualidade poderoso e tal.
Então, essa esquerda não apresenta perspectiva de futuro. O principal afeto mobilizador dela é o medo: ‘vota em mim porque o outro lado é pior’, ‘eu sou menos pior’, ‘o outro lado vai atacar, vai retirar direitos, vai piorar sua vida’, ‘eu não vou melhorar muito, mas eu vou melhorar um pouquinho’. Esse é o primeiro aspecto central, não tem uma perspectiva de futuro.
A segunda questão central é um discurso hiperfragmentado que não consegue reunir diversas lutas, diversas causas, diversas bandeiras importantes num projeto de país, num projeto que, a meu ver, tem que ser revolucionário, da revolução brasileira. Mas, para além de uma perspectiva comunista, um projeto de país de qualquer vertente que seja. Então você tem as causas ambientais, as causas feministas, a causa antirracista, a causa LGBT, a causa da mobilidade, a causa da saúde, a causa da cultura e uma dificuldade de unificar num plano nacional, de conseguir dar um sentido aglutinador universalista para as diversas lutas, bandeiras, causas, movimentos.
Há uma dificuldade gigantesca em fazer isso. Tanto é assim que hoje quem mais fala de uma perspectiva universalista, ainda que reacionária, é extrema direita. Projeto de país, concepção de nação, de nacionalismo, de sociedade de valores. Por aí vai.
E o terceiro aspecto fundamental é o envelhecimento e burocratização das esquerdas de maneira geral. Então, novas lideranças simplesmente não têm espaço. Isso em todos os partidos. Todos. Da centro-esquerda até a esquerda. Então, você tem coisas muitos chamativas, por exemplo, nessa eleição. O Renato Freitas, jovem liderança em ascensão no PT do Paraná não tem o espaço que deveria, pelo contrário, quando estava para ser cassado o Lula jogou ele aos leões e deixou. Matheus Gomes, do PSOL Rio Grande do Sul, não conseguiu ser candidato. Simplesmente não tem espaço. E por aí vai.
É um processo de burocratização, de envelhecimento. Você olha, por exemplo, um panorama dos ministros petistas, ministros de esquerda ou progressistas do governo Lula. É o Carlos Lupi, do PDT, é o Rui Costa, é o Camilo Santana, é o Wellington Dias…
Enfim, figuras que estão aí na política há décadas, burocratas sem conexão nenhuma com o movimento social, sem conexão nenhuma com o campo da cultura, sem capacidade de formular de maneira teórica e sistemática sobre o Brasil, sobre os desafios do país, sobre as principais demandas que a gente tem numa era de cada vez mais enfrentamentos polarizados entre China e Estados Unidos, risco de Terceira Guerra Mundial, desastre climático batendo à porta, uma nova revolução industrial também batendo à porta e o Brasil ficando pra trás… por aí vai.
Se eu fosse resumir eu diria que esses três elementos são centrais na perspectiva de mudança para transformar a esquerda brasileira e ela volta a ter capacidade de recuperar espaço político no Brasil.”
Claudio Couto
“Essa é uma boa pergunta, acho que é quase uma daquelas perguntas de um milhão de dólares. A esquerda precisa evidentemente perceber em que ela não está conseguindo estabelecer um diálogo com grande parte da população. E isso com diferentes classes sociais. Afinal de contas, a direita não só manteve um peso muito grande nos municípios.
Lembremos que essa direita tradicional, direita do assim chamado Centrão, sempre teve uma preponderância na política municipal. Basta lembrar que os partidos do Centrão, o MDB no passado, sempre foram os reis das eleições municipais, quando você vai pro interior. Mas a esquerda, já há muitos anos, costumava ter um peso grande na disputa municipal nas cidades médias e grandes. E nem isso mais está conseguindo ter.
É bom lembrar que ela tomou um tombo dos maiores possíveis na eleição de 2016, aquele ano do impeachment, ano da recessão no governo Dilma, o ano também da Lava Jato no seu ápice. O PT perdeu naquele ano 60% dos seus prefeitos e vereadores e nunca mais se recuperou. A questão é saber por que não conseguiu nunca mais recuperar. Teve uma melhora muito sutil em 2020, teve mais uma pequena melhora agora, mas é tão pouco perto de se perdeu lá atrás que continua comendo poeira.
Ao mesmo tempo, a gente vê esse baita crescimento de alguns partidos dessa direita tradicional. O PSD acho que é o caso mais notável, mas sobretudo esse crescimento de mais de 200% do PL, do bolsonarismo. Acho que aí tem um dado que é o fato de que a extrema direita realmente consolidou o espaço na política nacional ao longo dos anos Bolsonaro. Aquilo que foi um momento de explosão da insatisfação e acaba levando à eleição do Bolsonaro em 2018 produziu uma possibilidade de crescimento.
Depois, Bolsonaro abriu esse espaço para a direita de um modo geral e para a extrema em particular. E esse espaço se firmou inclusive em nível municipal. Daí esse número muito significativo de municípios, inclusive médios e grandes, onde candidatos do bolsonarismo mais estrito, o PL mas também alguns outros partidos apoiados por ele foram bem.
Acho que tem que começar a pensar tudo de novo. Foi mencionada nesses dias uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, de 2017, que mostrava como há uma nova maneira de enxergar o mundo nas periferias das cidades. Tem os setores das periferias que estão querendo uma conversa diferente, um estado mais eficiente, de menos burocracia, de mais capacidade de resolver problemas individuais, o que não significa dispensar políticas sociais. E acho que está faltando esse entendimento de como travar essa esse diálogo, que as igrejas evangélicas estão conseguindo fazer e mais ainda a extrema direita.
Então, acho que tem que realmente parar para pensar e levar mais a sério o que aquela pesquisa de 2017 descobriu”.
João Cézar de Castro Rocha
Algumas considerações são necessárias para que se entenda a consolidação da extrema direita no Brasil, que, não nos enganemos, veio para ficar.
Em primeiro lugar, desde 2002, o PT esteve no poder por sólidos 16 anos (de 2002 a 2016 e de 2023 até hoje). Portanto, para quem nasceu, digamos, a partir de 1995, o establishment no Brasil é o PT, ou seja, a esquerda! Circunstância única na história brasileira e que autoriza a equação de outra forma incompreensível: ‘Sou de direita porque sou contra o sistema’.
Ademais, a luta ideológica, que no passado definia o campo da esquerda democrática, foi apropriada pela extrema direita. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, políticos da extrema direita investem sem trégua numa pauta de radicalização ideológica. Para tanto, a maestria com que dominam os meios digitais ameaça emplacar goleadas em série.
A esquerda democrática precisa voltar à luta ideológica e esclarecer sua visão do mundo para o eleitorado. Não adianta levar adiante políticas públicas progressistas se ocorre uma despolitização da gestão. E, claro, para que esse movimento seja possível, a reconexão com as bases é o passo mais importante.
Mas sem alarmismos apocalípticos: nas últimas seis eleições presidenciais, o PT venceu em cinco ocasiões. Objetivamente, portanto, parece que sabem o que estão fazendo. Contudo, sempre se pode aperfeiçoar práticas e teorias.
Direita tradicional foi a maior vencedora das eleições, avaliam cientistas políticos
Apesar de o primeiro turno das eleições municipais ter resultado em crescimento tanto do PL, de Jair Bolsonaro, quanto do PT do presidente Lula, os partidos com maior número de novas prefeituras foram os da direita tradicional, popularmente conhecidos como “centrão”. Especialistas ressaltam que o novo cenário municipal é de enfraquecimento do discurso de polarização e de fortalecimento de lideranças fisiológicas.
Em números absolutos, os dois partidos que emplacaram o maior número de prefeitos foram o PSD e o MDB, com respectivamente 882 e 856 municípios. Proporcionalmente, o Republicanos duplicou sua capilaridade, crescendo de 211 prefeitos eleitos em 2020 para 436. O PT aumentou de 182 candidatos eleitos para 248. O PL, de 344 para 512 municípios: um crescimento elevado, mas muito inferior à meta de mil prefeitos desejada pelo seu presidente, Valdemar Costa Neto, que esperava equiparar sua capilaridade municipal à proporção da sigla no Congresso Nacional.
Ainda assim, o PL foi o partido que mais venceu nesse domingo nos municípios com mais de 200 mil eleitores (foram dez eleições em primeiro turno) e o que mais emplacou candidatos no segundo turno, 22. A esquerda foi mal nessas cidades.
“Os partidos com maior número de candidatos eleitos às prefeituras são justamente aqueles que, apesar de majoritariamente alinhados à direita, sentam para conversar com os dois lados”, destacou o economista e cientista político Ricardo de João Braga, professor do curso de Mestrado em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados e coordenador do Congresso em Foco Análise. O PSD, presidido por Gilberto Kassab, secretário de Relações Internacionais de São Paulo, é o exemplo mais forte desse comportamento: o partido ocupa, ao mesmo tempo, pastas ministeriais do governo Lula e secretarias de um de seus rivais, o governador paulista Tarcísio de Freitas, apoiado por Jair Bolsonaro.
Também coordenador do Congresso em Foco Análise e cientista político, André Sathler descreve o mais recente resultado eleitoral como parte de um processo de amadurecimento tanto do eleitor quanto de lideranças políticas. “O prefeito Eduardo Paes [Rio de Janeiro] utilizou uma frase que, ao meu ver, bastante precisa: foi uma luta política bastante racional. No cenário geral, ele tem razão. Com exceção de São Paulo, vimos menos daquela polarização dos últimos anos e mais do que costumava ser o Brasil”, apontou.
Sathler destaca que os partidos tradicionais da direita já ocupavam amplos espaços no Congresso Nacional, e o resultado das eleições consolidou uma posição já observada por analistas dentro e fora do Planalto. Com isso, a tendência maior é de continuidade das estratégias de articulação já adotadas pelo governo, como a distribuição de emendas e ministérios em troca de apoio a proposições legislativas.
Por outro lado, para a ala radical, o resultado colhido indicou o início de um processo de fragilização. “Existe nesse grupo uma parcela formada por políticos de velha guarda precisando dividir espaços com uma nova geração que vem da influência digital. Isso cria uma dinâmica diferente dentro da direita que é muito mais volátil, muito mais instável”. Essa disputa interna se refletiu em rachaduras afetando o próprio resultado das eleições.
O principal exemplo citado pelo cientista foi a disputa eleitoral em São Paulo: o emedebista Ricardo Nunes, político tradicional na cidade e coligado a Jair Bolsonaro, precisou disputar espaço com um novo influenciador de extrema-direita, o empresário Pablo Marçal, do PRTB. A rachadura se refletiu no eleitorado, fazendo com que nenhum dos dois alcançasse uma vitória em primeiro turno.
Em Curitiba, a fragilidade interna entre lideranças de direita também resultou em um segundo turno: pelo PSD, o candidato Eduardo Pimentel estava oficialmente coligado ao PL. Nos momentos finais antes do pleito, porém, Bolsonaro direcionou seu apoio à jornalista Cristina Graeml, do PMB. Os dois agora seguem para a disputa em segundo turno.
Duas forças políticas tradicionais, porém, saíram duramente enfraquecidas na disputa eleitoral: o PSDB, partido que já formou a maior bancada de centro-direita do país, elegeu apenas 273 prefeitos, pouco mais da metade dos 523 de 2020. O PDT, partido de centro-esquerda que em diversos momentos rivalizou com o PT por influência, sofreu de forma ainda mais intensa, caindo de 315 para 149 prefeituras.
Sathler considera que, ao menos para os tucanos, a queda é irreversível. “O PSDB é um partido que tende a acabar. Os demais partidos já estão sondando os caciques remanescentes para atrair o capital político restante. É um movimento consequente das últimas reformas eleitorais, que favorecem a consolidação partidária e piora a situação para os partidos pequenos. A tendência é ele desaparecer nos últimos anos”, antecipou.
Para o PDT, por outro lado, o pesquisador acredita que o encolhimento municipal possa ressuscitar o debate interno sobre uma federação ou fusão junto ao PSB, partido ideologicamente mais próximo e que, apesar de ter conseguido colher um saldo positivo nas eleições de domingo, também lida com dificuldades para se manter diante da cláusula de barreira.
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