25/04/2024 - Edição 540

Poder

Escolha de novo chanceler mobiliza debates dentro do Itamaraty

Ausente de cúpulas, Bolsonaro tem fim melancólico de seu governo no mundo

Publicado em 14/11/2022 12:11 - Jamil Chade (UOL), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Fábio Pozzebom - Agência Brasil

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Pária internacional diante de uma transformação radical da diplomacia durante os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, o Brasil terá de promover uma reinserção internacional do país a partir de 2023 e reconquistar a confiança de parceiros no exterior. A tarefa, portanto, será grande para quem assumir o Itamaraty.

Enquanto a equipe de transição começa a ser desenhada e os primeiros contatos entre o chanceler Carlos França são estabelecidos com Celso Amorim, ex-ministro de Lula, a movimentação é intensa dentro do Itamaraty sobre quem assumiria a função de liderar a nova diplomacia do país.

A reportagem do UOL conversou com alguns dos principais embaixadores do país que, sob condição de anonimato, fizeram uma avaliação dos pontos fortes e dos questionamentos que cada um dos cotados poderia receber, assim como suas respectivas capacidades de sintonia com o presidente eleito.

Celso Amorim

Ministro de Relações Exteriores de Lula e Ministro da Defesa de Dilma Rousseff, o diplomata de carreira Celso Amorim continua com um elevado grau de respeito dentro do Itamaraty. Para os diplomatas mais jovens que nem sequer estavam na carreira nos anos Lula, a percepção é de que existe uma exaustão sobre a vergonha que enfrentam no exterior.

Os diplomatas mais maduros na profissão não escondem sua admiração por sua inteligência e visão global, ainda que os embaixadores mais antigos tenham críticas ao fato de ele não ter preparado sucessores e por ter dado excessivo valor às relações com o Sul (China, Índia, América do Sul).

Internamente no Itamaraty, diplomatas ficaram impressionados com sua capacidade de organizar uma viagem do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela Europa e ser recebido pelos principais líderes do continente, entre eles Emmanuel Macron.

A turnê deixou os bolsonaristas e monarquistas dentro do Itamaraty inconformados, principalmente diante da constatação de que as portas estavam fechadas para o atual presidente. No caso de Amorim, a idade é um fator citado como um ponto de questionamento. Mas mesmo com 80 anos, ele mantém uma sintonia fina com Lula.

Aloizio Mercadante

Outro nome cotado para assumir o Itamaraty é o de Aloizio Mercadante, visto como nome muito preparado, que daria autoridade à chancelaria dentro da estrutura do governo. Sua capacidade de diálogo com os demais ministérios é um ponto que chama a atenção. Mas percebido como político por vezes categórico, com dificuldades para fazer uso cuidadoso da linguagem diplomática.

Durante o governo Dilma, Mercadante teria estado por trás de esforço, frustrado, para criar cargos de confiança para indicados políticos na estrutura do ministério, ainda hoje ocupado exclusivamente por diplomatas concursados.

Marina Silva

Apesar de ter seu nome citado mais frequentemente para ocupar um cargo relacionado diretamente ao Meio Ambiente, Marina Silva também faz parte da lista de cotados para assumir a chancelaria.

Marina Silva inspira respeito entre os diplomatas, principalmente por sua capacidade de trazer uma forte legitimidade à política externa ambiental do Brasil.

Mas seu perfil colocaria em segundo plano uma série de outros campos da diplomacia, que, apesar de sua importância, poderiam vir a receber pouca atenção da chanceler: China, comércio, investimentos, paz e segurança internacional, reforma da ONU, América Latina, EUA, países africanos e árabes.

Maria Laura da Rocha

Diplomata de carreira, Maria Laura da Rocha desperta simpatia em uma parcela do Itamaraty pelo simbolismo de representar, na chancelaria, uma parcela majoritária da população brasileira – mulher e afrodescendente.

Sua longa carreira está concentrada na Europa, tendo servido três vezes em Paris, três vezes em Roma, ademais de Alemanha, Rússia, Hungria e Romênia.

Mas há quem alerte para o fato de que tal escolha pela Europa possa representar um obstáculo ao assumir um cargo que terá um mandato desafiador.

Fernando Haddad

Outros nomes citados são ainda o de Fernando Haddad, que suscita respeito pelo trabalho realizado como Ministro da Educação e pela relação de confiança que tem com presidente eleito Lula.

Destaca-se também por combinar experiência política e uma sólida base acadêmica, embora não especializada em diplomacia.

Hussein Kalout

Durante a campanha eleitoral, Hussein Kalout se aproximou ao grupo de Mercadante. Mas o fato de ter servido durante o governo de Michel Temer é visto internamente no Itamaraty como um obstáculo para que seja aceito entre os petistas ou os antigos aliados de Lula e Dilma.

Apesar de saber impressionar, Kalout é comparado entre diplomatas ao ex-chanceler Celso Lafer. Ou seja, uma personalidade com forte base acadêmica. Mas que ainda precisaria de uma maior experiência “no terreno”, principalmente num momento que precisará lidar com os desafios que o país terá de enfrentar para se reinserir no mundo.

Ausente de cúpulas, Bolsonaro tem fim melancólico de seu governo no mundo

O governo de Jair Bolsonaro terminou de forma melancólica sua presença no mundo, ausente das principais cúpula de 2022 e ignorado por autoridades internacionais. Nem para a Copa do Mundo, no Qatar, o presidente derrotado em sua campanha eleitoral deve ir e, para observadores estrangeiros e brasileiros, o Planalto paga caro por quatro anos de uma política externa nem sempre coerente, além de um líder com uma imagem tóxica no exterior.

Para a Cúpula do Clima, que ocorre no Egito desde o início da semana, Bolsonaro nem sequer cogitou uma participação, e seu mandato termina pela primeira vez sem que o presidente brasileiro tenha participado sequer de um encontro sobre o clima, liderado pela ONU. No total, mais de 90 chefes de estado estarão no evento no Egito, além de dezenas de chefes de governos, ministros e autoridades do mais alto escalão.

O espaço do Brasil, de fato, será ocupado por Luiz Inácio Lula da Silva que, na próxima semana, corre o risco de roubar as atenções do mundo ao desembarcar no Egito com uma agenda ambiental e uma nova inserção internacional para o país. Entre seus aliados mais próximos, a estratégia é a de usar a Amazônia como parte da recuperação internacional da imagem e credibilidade do país.

Mas o fim melancólico da diplomacia de Bolsonaro não se limita apenas aos temas ambientais. Antes de retornar ao Brasil, Lula fará uma parada de dois dias em Portugal, onde quer usar o encontro para mandar uma mensagem de uma nova relação que pretende estabelecer com a Europa.

Bolsonaro, apesar de ter feito escalas em Lisboa, jamais realizou uma visita oficial ao governo português. O Itamaraty chegou a bater à porta de vários governos europeus ao longo dos últimos anos, para tentar uma visita de estado. Mas a recusa foi generalizada. Nos últimos meses, em locais como Paris, a ordem dentro das chancelarias é a de manter o mínimo contato possível com as autoridades brasileiras. Depois de determinado o resultado das eleições, algumas embaixadas estrangeiras em Brasília optaram por adiar tudo o que não for urgente com as autoridades brasileiras para 2023.

O fim do governo ainda poderá ser marcado por um gesto inédito: uma ausência do chefe de governo na principal cúpula anual do G20, que neste ano ocorre em dez dias na Indonésia. Está confirmada a presença do chanceler Carlos França. Mas, até a quinta-feira, o Itamaraty não sabia dizer se Bolsonaro iria ou não ao evento.

Fontes no alto comando da diplomacia nacional informaram ao UOL que Bolsonaro não iria. Mas algumas das principais vozes entre seus assistentes ainda estariam tentando convencê-lo da importância da participação institucional da presidência.

Se confirmada sua decisão de não viajar, diplomatas estrangeiros apontam que ficaria sedimentada a irrelevância internacional de Bolsonaro e a ausência seria um “requiem” de um governo que apequenou o Brasil no mundo.

Já em 2021, na cúpula do G20 em Roma, Bolsonaro viveu uma situação de pária internacional, ignorado pelos demais líderes e com uma agenda completamente esvaziada. Mais recentemente, em Nova York, ele voltou a ver sua passagem pela Assembleia Geral das Nações Unidas marcada por uma ausência de encontros de alto escalão e chegou a faltar na reunião que teria com Antonio Guterres, secretário-geral da entidade.

Até agora tampouco está confirmada sua participação na Cúpula do Mercosul, marcada para ocorrer no Uruguai em três semanas. O bloco jamais foi sua prioridade e a ausência política do Brasil nos últimos quatro anos contribuiu para enfraquecer os projetos de integração.

Tampouco ficou sem resposta o convite feito pelo Qatar para que o presidente brasileiro esteja na Copa do Mundo, que ocorre a partir do final do mês. É tradição que o chefe de estado do país que eventualmente chegue à final esteja presente no jogo. No caso de Bolsonaro, essa final ocorreria poucos dias antes do final de seu mandato.

Na ONU, na próxima segunda-feira, uma sabatina que estava sendo planejada há meses para ocorrer com o governo de Jair Bolsonaro para avaliar suas políticas de direitos humanos promete se transformar em uma avalanche de denúncias contra a gestão que assumiu o poder em 2019 e que, em quatro anos, desmontou uma parcela importante das estruturas que defendem direitos fundamentais no país.

Transições institucionais

Em diversos governos, porém, cúpulas ocorrem em meio às transições de poder. Em 2021, no G20, a conservadora Angela Merkel levou ao seu lado para o encontro com os demais líderes o socialista Olaf Scholz, que iria assumir o governo alemão em poucas semanas.

Em 2008, o governo de George W. Bush manteve a equipe do então presidente eleito Barack Obama informada de todos os passos nas reuniões ministeriais e cúpulas daquele momento de crise financeira internacional.

Nos anos 90, Itamar Franco levou Fernando Henrique Cardoso para a Cúpula das Américas, com o mesmo objetivo de apresenta-lo ao mundo e mostrar que as transições em democracia poderia ocorrer sem contratempos.

Lula despiu Jair Bolsonaro da faixa presidencial

A passagem de Lula por Brasília deu ao Palácio do Planalto a aparência de sede de um governo de transição. O presidente eleito governa como se já tivesse tomado posse. Numa rodinha de políticos, Lula referiu-se a Bolsonaro como “maluco”. Movimenta-se como se quisesse tratar o antecessor de suas loucuras. Na prática, Lula despiu Bolsonaro da faixa presidencial. Gostaria de vestir nele uma camisa de força. Como não pode, antecipa a alta do paciente.

Lula acertou com o Legislativo a aprovação da emenda constitucional que reformará o orçamento que a equipe de Paulo Guedes deformou. Lapidando articulações iniciadas pelo vice Geraldo Alckmin, Lula alisou a pele do centrão. Falta acertar o preço do apoio à emenda que garantirá o Bolsa Família e outras despesas. Antes, falava-se em acabar com o orçamento secreto. Agora, cogita-se incluir na transação da transição até o pagamento de R$ 7,7 bilhões em emendas sigilosas que Bolsonaro prometeu, mas ainda não pagou.

Em visita ao Supremo, Lula restabeleceu a institucionalidade no convívio entre o Executivo e o Judiciário. Cumprimentou cordialmente até Nunes Marques e André Mendonça, as togas que Bolsonaro trata como gorjetas. Em entrevista que concedeu após a visita, Lula anunciou para depois da viagem ao Egito a escolha dos ministros. Voará para a conferência climática da COP27 deixando para trás um rastro pegajoso de dúvidas.

Repetiu o bordão da campanha segundo o qual certas despesas não são gastos, mas “investimentos”. Disse que, no dia seguinte à posse, já serão deflagradas obras públicas ao redor do país, para gerar empregos. Faltou explicar de onde virá o dinheiro. Da dívida pública? Da Petrobras? Do BNDES? Gasto ou investimento, nada se faz sem dinheiro.

Ao comentar os movimentos antidemocráticos que questionam sua vitória, Lula aconselhou Bolsonaro reconhecer a derrota, chorar em casa e se equipar para a próxima eleição. Certo, muito certo, certíssimo. Faltou dizer que as chances de êxito do projeto “Bolsonaro 2026” crescem se o governo seminovo do PT for um desastre. A hora é de mostrar serviço, não de atear interrogações na conjuntura.


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