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Poder
Aproximação isola o bolsonarismo e frustra os planos de seus aliados mais radicais
Publicado em 22/10/2025 9:46 - Semana On
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Lula e Trump devem se encontrar neste domingo (26), na Malásia, durante a cúpula da Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático). O encontro, ainda não confirmado oficialmente pela Casa Branca, foi articulado por diplomatas dos dois países e marca uma reviravolta na relação bilateral após meses de tensão comercial e retórica hostil — parte dela alimentada por aliados de Jair Bolsonaro. O presidente brasileiro embarcou nesta terça-feira rumo à Ásia, onde a cúpula ocorrerá até o dia 28.
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Desde a imposição de tarifas por parte dos Estados Unidos, em julho, sobre produtos brasileiros, o governo Lula manteve cautela estratégica, evitando escaladas verbais e recusando pressões para buscar um contato direto com Donald Trump. Na contramão, filhos e aliados de Bolsonaro elevaram o tom. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, afirmou que seria “mais fácil um porta-aviões americano chegar ao Lago Paranoá” do que Geraldo Alckmin ser recebido em Washington. Flávio Bolsonaro foi ainda mais agressivo, comparando a disputa comercial a uma “negociação de guerra” e alertando para “bombas atômicas” simbólicas sobre o Brasil.
A realidade, no entanto, tratou de desmentir o discurso. Em setembro, o chanceler Mauro Vieira foi recebido em Washington pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, para tratar do tarifaço. A conversa foi classificada como “muito positiva” por ambas as partes, segundo comunicado conjunto. A expectativa de que a reunião resultasse em cobranças políticas — como alegações de perseguição judicial contra Bolsonaro ou críticas ao STF — não se concretizou. O nome do ex-presidente sequer foi mencionado.
Trump, o pragmático
O desfecho da reunião expôs uma inflexão clara na postura de Trump. O mesmo ex-presidente que, por conveniência ideológica, já flertou com o bolsonarismo mais radical, agora busca reabrir canais com o governo Lula em nome de interesses econômicos. Empresários americanos, pressionados pela queda na oferta de produtos brasileiros, como café e aço, fizeram chegar a Trump a mensagem de que as tarifas eram contraproducentes. A resposta veio no estilo que lhe é peculiar: silenciosa, prática e sem acenos ao antigo aliado brasileiro.
Trump já demonstrou ser capaz de mudar de tom rapidamente se isso servir a seus interesses. Em 2018, por exemplo, trocou insultos por declarações de afeto com o ditador norte-coreano Kim Jong-un, com quem chegou a dizer ter “química”. O episódio, citado frequentemente como símbolo do realismo brutal da diplomacia trumpista, ajuda a entender o abandono gradual do bolsonarismo. “Trump pode ser tudo, menos burro. Ele sabe que Bolsonaro hoje não tem capital político, nem no Brasil nem nos EUA”, resume o cientista político Thomas Traumann.
O bolsonarismo ferido na estrada
A visita de Mauro Vieira à Casa Branca, mediada por Marco Rubio — figura conhecida por seu extremismo ideológico, mas agora em missão diplomática — deixou claro que a retórica do confronto perdeu espaço. As acusações recentes do Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, sobre o “Estado de Direito e censura” no Brasil foram lidas no Itamaraty como tentativa de pressão, mas não encontraram eco na mesa de negociações. A diplomacia brasileira respondeu com sobriedade, colhendo frutos na forma de uma relação reaberta, sem reverências, mas também sem subordinação.
A ausência do bolsonarismo na atual cena diplomática revela um isolamento crescente. Desde a derrota nas urnas, Jair Bolsonaro e seus filhos têm apostado na internacionalização do discurso de perseguição política. Mas até agora, não conseguiram transformar essa narrativa em apoio concreto. A tão sonhada aliança com Trump se dilui à medida que o americano se reaproxima de Lula, guiado não por afinidades ideológicas, mas por pressão do agronegócio e da indústria norte-americana.
Fim da linha?
Para analistas, o encontro Lula-Trump — se confirmado — pode selar o divórcio definitivo entre o ex-presidente dos EUA e o clã Bolsonaro. Mais do que simbólico, o gesto teria implicações políticas relevantes: enfraqueceria a retórica de perseguição internacional adotada pela extrema direita brasileira e daria a Lula um trunfo político em plena transição de cenário eleitoral.
Internamente, o momento é delicado para Bolsonaro. Com o acórdão do Supremo Tribunal Federal já publicado, abre-se o prazo para recurso no processo que pode levá-lo à prisão em regime fechado. Até aliados do PL admitem que a paciência do centrão com o ex-presidente se esgota rapidamente. “Quem não tem Trump, caça com o centrão”, ironizou um congressista ouvido pela Folha de S.Paulo, em condição de anonimato.
O gesto de Trump, mesmo que sutil, tem o poder de enterrar de vez a esperança bolsonarista de uma reconexão com Washington. A política externa do Brasil, antes subordinada a um alinhamento automático, volta a atuar com pragmatismo e soberania.
A pauta volta à normalidade
Com o bolsonarismo fora do radar diplomático e os EUA sinalizando que o foco está no comércio e não na política interna brasileira, o campo se abre para um novo ciclo. Cabe agora ao Congresso encerrar de vez as discussões sobre anistia e focar nas reformas estruturais. O Judiciário, por sua vez, deve concluir os julgamentos dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, encerrando um capítulo que arrastou a democracia brasileira à beira do colapso.
A eleição de 2026 começa a ser desenhada neste cenário de normalização institucional. Sem Trump e sem Bolsonaro, o Brasil poderá finalmente debater propostas concretas para enfrentar sua maior urgência: a desigualdade social. Mas essa construção exige vigilância cívica, responsabilidade política e uma imprensa que não se deixe capturar por falsas polêmicas.
Como disse certa vez o jornalista americano Walter Lippmann, “onde todos pensam igual, ninguém pensa muito”. O Brasil precisa agora pensar com clareza. E rápido.
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