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Poder

Empresários defendem golpe de Estado em favor de Bolsonaro

Parte da elite econômica está agarrada ao capitão não apenas por pragmatismo, mas por cumplicidade ao seu golpismo

Publicado em 18/08/2022 11:00 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Agência Brasil

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Ricos empresários bolsonaristas defendendo golpe de Estado em caso de vitória de Lula em seu grupo de WhatsApp não é apenas um ataque bizarro à democracia, mas um clichê terrível.

A reportagem de Guilherme Amado, Bruna Lima e Edoardo Ghirotto, no portal Metrópoles, que mostrou as entranhas do grupo “Empresários & Política”, é fundamental, pois confirma que uma parte da elite econômica está agarrada ao capitão não apenas por pragmatismo, mas por cumplicidade ao seu golpismo.

“Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de vezes. E com certeza ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil. Como fazem com várias ditaduras pelo mundo”, afirmou José Koury, dono do Barra World Shopping.

Ganhou apoio de Afrânio Barreira, dono do Coco Bambu. E um comentário de André Tissot, do Grupo Sierra, dizendo que “o golpe teria que ter acontecido nos primeiros dias de governo”.

Koury se justificou dizendo que “vivemos numa democracia e posso manifestar minha opinião com toda liberdade”. Ou seja, por estar em uma democracia, acredita que pode ter a liberdade de atacar a própria democracia.

Basicamente apela para o “paradoxo da tolerância”. Se uma sociedade tolerante aceita a intolerância como parte da liberdade de expressão ela pode vir a ser destruída pelos intolerantes. Como analisou o filósofo Karl Popper, a liberdade irrestrita leva ao fim da liberdade da mesma forma que a tolerância irrestrita pode levar ao fim da tolerância.

A estratégia é largamente usada por Jair, que defende o “direito” de contar mentiras sobre o sistema brasileiro de votação, pilar da democracia, em nome da liberdade garantida pela democracia.

No caso do presidente e dos empresários isso é bem mais preocupante que cidadãos comuns porque eles têm recursos para implementar seus pontos de vista.

Declarações reacendem preocupação por doações ilegais e voto de cabresto

O episódio traz ao menos uma lição e um alerta.

A lição é para quem defendeu que o (necessário) manifesto encabeçado pela Fiesp, que reuniu uma parte importante do empresariado nacional para defender a democracia, afastava o golpismo por parte da elite.

Esta coluna já havia lembrado que os empresários bolsonaristas são numerosos, engajados, articulados e endinheirados. Além dos já citados, o grupo de zap reúne também Luciano Hang (Havan), José Isaac Peres (Multiplan), Ivan Wrobel (W3 Engenharia), Marco Aurélio Raymundo, o Morongo (Mormaii), Meyer Nigri (Tecnisa), entre outros.

Já o alerta diz respeito à necessidade de monitorar eventuais apoios que possam ser dados de forma ilegal para a reeleição do presidente.

Nada impede que, como pessoas físicas, empresários doem à campanha de Bolsonaro, nos limites estabelecidos pela lei eleitoral e de forma registrada. Isso não inclui, contudo, bancar o impulsionamento de conteúdos contra adversários ou disparos em massa de mensagens, como ocorreu em 2018.

Tampouco tentar comprar o voto de funcionários, como apareceu no próprio grupo de WhatsApp, com uma sugestão de que empresários pagassem bônus aos empregados que votassem alinhados a eles. Em 2018, aliás, Luciano Hang foi denunciado pelo Ministério Público do Trabalho por tentar influenciar o voto de seus empregados.

No ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral manteve o mandato de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, apesar de reconhecer que disparos em massa foram feitos contra seus adversários via WhatsApp na eleição em que foi eleito. O atual presidente da corte, ministro Alexandre de Moraes, avisou que, se isso ocorrer em 2022, irá mandar os responsáveis “para a cadeia por atentarem contra as eleições e a democracia no Brasil”.

Por fim, o grupo bolsonarista também ajuda a explicar a raiva de Jair Bolsonaro dos ricos empresários que assinaram a carta da Faculdade de Direito da USP e o manifesto da Fiesp em prol da democracia. Ele os chamou de “mamíferos”, “caras de pau”, “sem caráter”.

Acostumado ao apoio incondicional dos integrantes do “Empresários & Política”, o presidente acreditava que todo o rico era poroso a seus ataques à urna eletrônica e ao STF e suas ameaças à democracia. Ficou transtornado quando descobriu que o mundo era maior que um grupo de zap.

A relativização do golpe

Cascudo é uma pancada dada na cabeça com os nós dos dedos. Quando menino, levei alguns aplicados pela tia Iracema, que se socorria deles para pôr um pouco de ordem entre seus 13 filhos.

Em entrevista ao canal do Youtube Cara a Tapa, Bolsonaro citou “cascudo, tapa ou afogamento” como “coisas erradas” que aconteceram durante os 21 anos da ditadura militar de 64.

Ignorou torturas, mortes e desaparecimentos. Verdade que o afogamento era uma técnica de tortura que consistia em mergulhar um preso num tonel de água até que ele se dispusesse a falar.

Mas não a qualificou de tortura, nem mesmo uma tortura branda. Não era branda. Era violenta como qualquer outro tipo de tortura. Como introduzir um rato vivo na vagina de uma presa. Aconteceu.

Os militares usaram o inexistente “perigo do comunismo” para suprimir a democracia. E da tortura para defender a democracia que simplesmente deixou de existir por um ato de força deles.

A Justiça Militar recebebeu 6.016 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos. Presos foram espancados, estrangulados e submetidos a choques elétricos.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade, cujos trabalhos foram concluídos em 2014, identificou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime militar.

Bolsonaro já disse que o número de mortes deveria ter sido muito maior. A seu gosto, pelo menos umas 30 mil. E que seu ídolo foi o coronel Brilhante Ulstra, o único torturador condenado.

Na entrevista, contou que chegou à Câmara dos Deputados em 1991 e que havia por lá “um montão” de beneficiados pela lei da anistia. Descreveu-os assim para negar as torturas da ditadura:

“Apareceram os torturados com a pele mais lisa que a branca de neve. Uns diziam: ‘Ah, me quebraram os ossos todos’. Tira Raio-X do cara e vê se tem algum calo ósseo.”

A ex-presidente Dilma Rousseff foi presa pela ditadura. Ao dar seu voto no processo de impeachment para cassá-la, Bolsonaro exaltou Brilhante Ulstra que havia mandado torturá-la.

É esse sujeito que se diz cristão? Que foi se batizar nas águas do rio Jordão, em Israel, por um pastor evangélico que depois seria preso por corrupção? Que à caça de votos vai a passeatas por Jesus?

Diante da enxurrada de manifestos em defesa da democracia, ele negou que esteja se movimentando para dar um golpe:

“Alguém já viu eu me movimentando com generais por aí, conspirando?”

Evidente que sim. No momento, ele e seus generais tentam desacreditar as urnas eletrônicas e o sistema de apuração de votos para não reconhecer uma eventual derrota em outubro.

Ele ainda convocou o público a ir para o ato de 7 de setembro, mais um ensaio para o golpe:

“Vamos todos, no dia 7 de setembro, estar presentes em Copacabana, onde vamos dar um grito muito forte dizendo a quem pertence a nossa nação e o que nós queremos”.

A nação pertence a todos os brasileiros. Ao jurar a Constituição em sua cerimônia de posse, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, não só para os que o elegeram.

Mentiu porque não o fez. Mente de novo porque não o fará se reeleito.


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