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Poder
Presidente usa viagem para costurar alianças com líderes da extrema direita
Publicado em 19/09/2022 11:19 - Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On
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Consternação, indignação e até vergonha. Essas foram algumas das palavras usadas por diplomatas estrangeiros ao descrever o comportamento de Jair Bolsonaro em sua passagem por Londres para o funeral da rainha Elizabeth 2ª.
Fontes nas chancelarias europeias indicaram que a presença de mais de 500 autoridades — entre presidentes, líderes internacionais e representantes de governos — era para ser marcada pela sobriedade. Em seu lugar, porém, Bolsonaro fez questão de transformar seu primeiro dia em um ato de campanha eleitoral.
Seu discurso de um balcão da embaixada do Brasil, inclusive contradizendo as pesquisas e afirmando que iria vencer as eleições no primeiro turno, foi recebido com desprezo e incompreensão.
Londres, ainda que saiba que o país vive um período eleitoral, esperava um certo protocolo por parte do brasileiro diante do momento de luto.
Diplomatas brasileiros confirmaram que não houve uma recomendação expressa sobre o comportamento de cada líder. Mas admitiram que a esperança era de que nenhum deles usasse o evento fúnebre para buscar votos ou convocar apoiadores. Tampouco haverá espaço para negociações entre os representantes que desembarcam na capital britânica.
Bolsonaro, porém, usou seu discurso para criticar posições das alas progressistas e falou de tráfico de drogas, aborto e gênero.
Para diplomatas europeus, a passagem de Bolsonaro pela Europa aprofunda o mal-estar e desprezo por seu governo no Velho Continente. Salvo em países liderados pela extrema-direita, o brasileiro não foi recebido por nenhum dos chefes de governo das principais democracias da Europa ao longo de seu mandato.
Não foi falta de pedidos do Itamaraty, que chegaram a consultar no ano passado o então primeiro-ministro Boris Johnson para saber se Londres receberia Bolsonaro. Os britânicos mantiveram um silêncio constrangedor.
Turismo eleitoral de Jair Bolsonaro é caro e inútil
Bolsonaro foi aos funerais da rainha Elizabeth, em Londres, mesmo não sendo coveiro. Viajou como chefe de Estado. Mas comportou-se como candidato aloprado. Se o presidente acha que pode conquistar a reeleição fazendo comício para inglês ver e filmando o preço da gasolina num posto londrino, problema dele. O Itamaraty e a rainha não dão votos nos fundões do Nordeste nem nas periferias do Sudeste. A questão é que o turismo eleitoral, além de violar a legislação, fere o decoro, macula a imagem do Brasil e golpeia o Tesouro Nacional.
Há excesso de bagagem na comitiva de Bolsonaro. Enfiou-se no avião presidencial até um Malafaia. O pastor, um padre, o filho Eduardo, o maquiador influencer de Michelle… A viagem foi adornada com todas as extravagâncias que o déficit público pode pagar. Incorporou-se à caravana Fabio Wajgarten, o chefe da Comunicação do comitê de campanha. Ele despejou imagens das aventuras londrinas do “mito” nas redes sociais em tempo real.
Encerrados os rituais fúnebres da rainha, Bolsonaro levará sua candidatura para passear em Nova York. Depois de antever na sacada da embaixada em Londres sua vitória no primeiro turno, fará comício nas Nações Unidas. Assim que Bolsonaro se apropriar da notícia, como primeiro orador da cerimônia de abertura da Assembleia-Geral da ONU, os fatos se perderão para sempre. No gogó do candidato, o Brasil será convertido num portento econômico, comandado por um presidente ambientalista —defensor do hidrogênio verde e da energia eólica.
No ano passado, a visita de Bolsonaro a Nova York foi um espetáculo burlesco. Um presidente sem vacina e seus acompanhantes tiveram de comer na calçada a pizza que o Diabo amassou. Infectado pelo coronavírus e pelo bolsovírus, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga mostrou o dedo médio em riste para um grupo de manifestantes. O chanceler Carlos França foi filmado reproduzindo o gesto da arminha.
Neste ano, a viagem continua sendo uma dispendiosa inutilidade. A diferença é o fator eleitoral. Bolsonaro agora tem a ilusão de que o novo vexame pode ajudá-lo a obter do eleitor um passaporte para continuar envergonhando o Brasil no exterior por mais quatro anos.
Bolsonaro usa viagem para costurar alianças com líderes da extrema direita
Sem encontros com os principais líderes do mundo e rejeitado por democracias, o presidente Jair Bolsonaro (PL) irá usar sua viagem para Nova York nesta terça-feira (20) para mobilizar a extrema direita mundial. O brasileiro estará nos EUA para a abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) e, apesar de discursar minutos antes de Joe Biden, não terá um encontro com o americano.
Segundo o Itamaraty, na agenda de Bolsonaro estão os presidentes do Equador, Guillermo Lasso; da Guatemala, Alejandro Giammattei; da Polônia, Andrzej Duda; e da Sérvia, Aleksandar Vucic.
Todos representam governos ultraconservadores ou líderes da extrema direita em seus respectivos países, com agendas polêmicas e questionados por democratas europeus. Trata-se ainda de um grupo insignificante para o comércio exterior do país, para a inserção diplomática, para questões geopolíticas e para o fluxo de investimentos.
No caso da Guatemala, o país centro-americano foi um dos novos membros da aliança costurada pelo Brasil para defender pautas reacionárias no cenário internacional e na ONU. Giammattei aderiu ao Consenso de Genebra, bloco liderado pelo Brasil e que tem como objetivo lutar contra qualquer referência à educação sexual ou saúde reprodutiva nos organismos internacionais. O motivo seria a brecha que isso poderia abrir ao aborto.
A adesão da Guatemala ocorreu depois de um trabalho da diplomacia paralela do Brasil, liderada pela secretária da Família, Angela Gandra. Para muitos dentro do próprio governo, ela tem atuado como uma espécie de “chanceler sombra”.
Um encontro com o polonês Duda também está previsto. O governo de Varsóvia é considerado como um dos pilares da extrema direita na Europa, acusado de minar a independência do Judiciário e de adotar políticas contrárias aos direitos do movimento LGBTI.
No retorno de sua visita ao presidente russo Vladimir Putin, Bolsonaro esperava fazer uma parada na Polônia, em fevereiro deste ano. Mas Varsóvia optou por se afastar dos aliados da Rússia e sinalizou que o encontro não seria adequado. Mas os poloneses continuam sendo um dos principais pilares do movimento de extrema direita no mundo, com entidades em Varsóvia mantendo relações privilegiadas com membros do governo Bolsonaro.
A relação com o Equador também tem um pilar na pauta de valores. O governo brasileiro tanta costurar a adesão de Quito ao bloco do Consenso de Genebra, inclusive para minimizar o impacto que teve a saída da Colômbia do grupo depois da vitória do campo progressista em Bogotá. Lasso é, de fato, um dos últimos aliados ideológicos do bolsonarismo na América do Sul.
Já no caso da Sérvia, o encontro também marca uma tentativa de aproximação com um dos países marcados por uma profunda deterioração da democracia.
Há poucos dias, Vucic cancelou a parada gay em Belgrado, atendendo à pressão de grupos religiosos. Em 1995, ainda como deputado, ele prometeu na guerra da Bósnia que, para cada sérvio morto, Belgrado mataria 100 muçulmanos. Três anos depois, ele assumiu o cargo de ministro da Informação no governo de Slobodan Milosevic, julgado no Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra.
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