25/04/2024 - Edição 540

Poder

Em depoimento à PF, Bolsonaro não convence ninguém, nem seus aliados

Sem blindagem, Bolsonaro recebe da polícia um tratamento de suspeito de roubo

Publicado em 06/04/2023 9:33 - Raphael Sanz (Fórum), Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Carolina Antunes/PR

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve na sede da Polícia Federal em Brasília, na quarta-feira (5), onde afirmou em depoimento que só teve conhecimento da existência das joias as quais é acusado de adicionar de forma irregular ao seu acervo pessoal em dezembro de 2022, um ano depois da entrada das mesmas no país. Além disso, o líder da extrema direita brasileira também afirmou que não se lembra quem o teria avisado sobre o pacote de joias avaliado em R$ 16,5 milhões que estaria retido na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.

O depoimento de Bolsonaro durou cerca de 3 horas. O ex-presidente falou a respeito dos 3 pacotes de joias dados supostamente a ele e sua esposa Michelle pela ditadura da Arábia Saudita. Após a sessão, foi para a mansão onde está morando em Brasília.

O primeiro pacote, endereçado à ex-primeira-dama, continha um jogo de joias de alto luxo avaliado em R$ 16,5 milhões e acabou apreendido pela Receita Federal quando o então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, tentava trazê-lo ao país sem fazer a devida declaração.

Um segundo pacote, que Bento Albuquerque e sua comitiva conseguiram contrabandear na mesma ocasião, foi entregue a Bolsonaro em dezembro do ano passado. Avaliado em cerca de R$ 400 mil, o pacote continha peças como abotoaduras, caneta, relógio e rosário da marca Chopard – a mesma do primeiro pacote. O ex-presidente entregou este segundo pacote recentemente.

Logo após a entrega dele, surgiu um terceiro e mais antigo pacote de joias, que remonta de sua primeira visita ao país, em 2019. Dentro dele, um relógio Rolex de ouro e diamantes acompanhado de outras joias. O valor avaliado é de aproximadamente R$ 500 mil. Somados, os 3 pacotes beiram os R$ 18 milhões, uma quantia e tanto para alguém que sempre vendeu a imagem de homem simples e desapegado de itens de luxo.

Entre as explicações de Bolsonaro à PF nesta tarde, uma delas vem justamente para “corrigir” essa contradição. O ex-presidente afirmou que tentou reaver as joias para evitar um suposto “vexame diplomático com a Arábia Saudita”. Seu principal medo era que caso os sauditas tomassem conhecimento da apreensão das joias na Receita Federal, o governo e a diplomacia brasileira seriam constrangidos com a situação.

Em teoria, presentes desta natureza deveriam ser enviados ao acervo da Presidência da República ao invés do acervo pessoal do presidente. O inquérito da PF sobre o qual Bolsonaro foi ouvido busca justamente investigar possíveis crimes de peculato do ex-presidente nas suas tentativas de ficar com as joias.

Sem blindagem, Bolsonaro recebe da PF um tratamento de suspeito de roubo

Bolsonaro descobriu da maneira mais constrangedora que pedestal não tem escada. Até 31 de dezembro, era superior hierárquico da Polícia Federal. Decorridos três meses, despencou para uma posição constrangedora e surpreendente. Constrange porque recebe da PF o tratamento de um reles suspeito de roubo de joias. Surpreende porque a suspeita está amparada em indícios fornecidos pelo próprio investigado.

No caso dos três estojos com joias sauditas, estimadas em R$ 18 milhões, Bolsonaro tornou-se uma caricatura burlesca de si mesmo. Mentiu mal. Primeiro, negou o recebimento de presentes. Pilhado, devolveu um pacote. Ocultou outro. Flagrado novamente, foi constrangido a devolver o embrulho que havia escondido na propriedade do amigo Nelson Piquet.

Antes de fugir para a Flórida, patrocinou oito tentativas de resgate do estojo de diamantes que jurou desconhecer. Posteriormente, passou a admitir que as joias vieram da Arábia Saudita para Michelle Bolsonaro. Alega agora que seriam incorporados ao patrimônio da União. Se fosse verdade, um simples ofício seria suficiente, como orientaram os fiscais da alfândega, em Guarulhos.

Na seleção do elenco de apoio, Bolsonaro agiu como um suicida didático. Rodeou-se de militares: o ministro-almirante que contrabandeou as peças masculinas, o tenente flagrado no Raio X com as joias femininas, o coronel faz-tudo que coordenou o plano de resgate da muamba milionária, o sargento palaciano que voou nas asas da FAB para dar a carteirada malsucedida nos fiscais do aeroporto.

Bolsonaro revelou-se um malfeitor didático. Deixou tantas pistas que parecia movido pelo desejo inconsciente de ser flagrado. Foi como se quisesse desvendar os crimes, cometendo-os. A PF trabalha com três imputações. Avalia-se que o peculato já está caracterizado. Pode haver também corrupção passiva e descaminho. Os dois primeiros crimes rendem de dois a 12 anos de prisão cada um. O terceiro, um a quatro anos.

A PF armou um cerco a Bolsonaro. Marcou para esta quarta-feira dez interrogatórios simultâneos, em salas diferentes. A lista inclui, além do capitão, o ex-ajudante de ordens Mauro Cid e o ex-chefe da Receita Júlio César Gomes.

Sem mandato e sem a blindagem do antiprocurador Augusto Aras, Bolsonaro virou um personagem constrangedoramente precário. Constrange mais pela perguntas que é obrigado a ouvir dos delegados do que pelas respostas que não é capaz de fornecer.

De ladrão de joias a inimigo da democracia

Elementar: quanto mais Bolsonaro se complica, melhor para seus adversários. O que elementar não é: que ele se estrepasse por atos deliberados que carregam suas indeléveis impressões digitais.

Entenda-se por deliberados: atos de sua iniciativa, sobre os quais deve ter refletido bastante. Supor o contrário seria achar que Bolsonaro não tem juízo, comporta-se como um animal irracional.

Ele pode ser inculto, como tantas vezes demonstrou. Se não mentiu, e como já disse, só leu, ou mal leu, um livro em toda a sua vida – as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Ustra.

Mas uma toupeira, seguramente ele não é. Uma toupeira não chega à presidência da República. Em 2018, unir a direita em torno de si foi uma obra admirável de argúcia e arquitetura política.

Deu azar no ano passado ao esbarrar em Lula que imaginara fora do seu caminho desde que o ex-juiz Sérgio Moro o prendera e condenara. Ainda assim, perdeu por uma titica de votos.

Era para ter perdido por uma grande diferença, afinal carregava nas costas 700 mil mortos pela Covid, a situação deplorável da economia e os ataques furiosos à democracia que jurou respeitar.

Ao seu modo, fez quase tudo certo para tentar se reeleger. Ao perder, entrou em estado de choque. De lá para cá, fez tudo errado. Tivesse reconhecido a derrota, não estaria à beira do cadafalso.

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Provocava-lhe náuseas telefonar para Lula parabenizando-o pela vitória? Era-lhe inadmissível participar da cerimônia de transferência da faixa presidencial? Absurdo, mas sairia na urina.

Não foi, porém, o que aconteceu. Paralisado, com a erisipela a aumentar seu sofrimento, absteve-se de governar por dois meses e estimulou silenciosamente o golpe de 8 de janeiro.

Ou os golpistas teriam ido às ruas se Bolsonaro, de pronto, ordenasse o retorno para casa? Ou o Exército deixaria contra a vontade de Bolsonaro que golpistas acampassem à sua porta?

Para completar a desdita, antes de fugir para os Estados Unidos de onde não deveria ter voltado tão cedo, Bolsonaro caiu na tentação de surrupiar joias que seriam incorporadas ao acervo do Estado.

E, de fato, surrupiou uma parte – infelizmente, para ele, a de menor valor. E tentou surrupiar a outra parte, no valor de 16,5 milhões de reais, que fora apreendida pela Receita Federal.

Vem, agora, em depoimento à Polícia Federal, e diz com a maior cara de pau que só tomou conhecimento das joias dadas de presente pela ditadura da Arábia Saudita mais de um ano depois.

E que ao tentar reavê-las, quis salvar o Brasil da vergonha de apreender presentes oferecidos por um governo ao outro. Ora, por que não os declarou desde logo como presentes entre governos?

As joias teriam sido liberadas, conforme a lei. E por que se apropriou de parte delas que lhe chegou às mãos, levando-as ao deixar o governo? É uma história sem pé nem cabeça, surreal.

Em resumo, no que Bolsonaro quer que acreditemos:

* Que apenas a poucos dias do fim do seu governo ficou sabendo que jazia há mais de um ano em um cofre da Receita um estojo com joias destinadas a Michelle;

* Que por mais de um ano sonegaram-lhe a informação de que um estojo com joias destinadas a ele esteve guardado em algum lugar do Ministério das Minas e Energia, não se sabe por quê;

* Que sinceramente não lembra do nome do auxiliar que o avisou sobre as joias para ele e para Michelle trazidas da Arábia Saudita pelo almirante e ex-ministro Bento Albuquerque.

A história é outra, e poderá custar-lhe o indiciamento em crimes de peculato e corrupção passiva. Deixar a cena como ladrão é pior do que ficar inelegível por sabotar a democracia.


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