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Poder
Banco Central aponta indícios de fraude em operações do Banco Master e aciona MPF
Publicado em 31/12/2025 10:44 - Semana On
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O Banco Central do Brasil comunicou ao Tribunal de Contas da União a existência de indícios de fraude em operações estruturadas do Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo relatório obtido pela Folha de S.Paulo, o órgão regulador também acionou o Ministério Público Federal após identificar falhas consideradas graves em negócios realizados com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A..
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O documento, atualmente sob análise do TCU, aponta que, entre julho de 2023 e julho de 2024, o Banco Master e a Reag estruturaram operações em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional. As transações fazem parte de um conjunto de operações estruturadas que somam R$ 11,5 bilhões, envolvendo diversos fundos, dos quais ao menos dois estão ligados diretamente à Reag. Trata-se da segunda comunicação formal do Banco Central ao MPF sobre indícios de irregularidades na atuação do Master. A primeira envolveu a revenda ao Banco de Brasília (BRB) de cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos que, segundo investigadores, simplesmente não existiam.
No relatório encaminhado ao TCU, o Banco Central descreve um quadro de inadequado gerenciamento de capital e de riscos, com operações sem garantias suficientes, baixa liquidez e ausência de diversificação. Segundo o regulador, essas fragilidades agravaram a crise financeira da instituição e justificaram a abertura de processos administrativos sancionadores, que ainda se encontram em fase de instrução.
A situação da Reag adiciona um elemento sensível ao caso. A empresa foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que investiga conexões entre o setor de combustíveis, o PCC e empresas do sistema financeiro. Procurada pela reportagem, a Reag não se manifestou até a tarde desta terça-feira (30).
De acordo com pessoas que tiveram acesso aos achados do Banco Central, uma das principais suspeitas é que os fundos teriam sido utilizados para pulverizar recursos em nome de terceiros, os chamados “laranjas”. Entre os veículos citados estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos administrados pela Reag. Em outra frente, esses recursos teriam sido realocados no contexto da tentativa de venda do Banco Master ao BRB.
Os técnicos do Banco Central também levantaram a hipótese de que um dos beneficiários finais desses fundos seria o próprio Daniel Vorcaro, segundo informações repassadas ao MPF. Procurados, o banqueiro e o Banco Master não se manifestaram.
O relatório é explícito ao afirmar que o gerenciamento de risco de crédito e de liquidez pelo Banco Master foi considerado “inadequado ou inexistente”. Não havia, segundo o regulador, acompanhamento efetivo da composição dos ativos líquidos dos fundos envolvidos. “Adicionalmente, o Banco Master operou, por determinado período, com insuficiência de capital, devido à adoção incorreta de Fatores de Ponderação de Risco (FPRs) dessas operações”, registra o documento.
As inconsistências relatadas foram comunicadas formalmente ao TCU, onde o processo tramita sob sigilo por decisão do relator, o ministro Jhonatan de Jesus. Em um trecho central do relatório, o Banco Central informa que a nova comunicação ao MPF ocorreu na véspera da decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master, anunciada em 18 de novembro. “Em 17 de novembro de 2025, houve nova comunicação ao MPF por indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta”, diz o texto enviado ao tribunal.
Paralelamente, o TCU conduz um processo que apura eventuais falhas e omissões do próprio Banco Central no caso Master. Como revelou a Folha, esse procedimento pode se transformar em um trunfo jurídico para Vorcaro, caso seja usado para questionar a legalidade da liquidação e, em tese, enfraquecer uma eventual acusação criminal ou a pressão por uma delação premiada. Técnicos e ministros da corte, ouvidos sob condição de anonimato, divergem sobre o alcance do poder do tribunal para anular uma decisão do regulador bancário.
No campo criminal, a investigação avançou nesta terça-feira com os depoimentos de Daniel Vorcaro, do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, à Polícia Federal. Vorcaro e Costa foram submetidos a uma acareação após apresentarem versões conflitantes. As oitivas ocorreram na sede do Supremo Tribunal Federal e foram acompanhadas por um representante do MPF e por um juiz auxiliar do gabinete do ministro Dias Toffoli, relator das apurações.
O processo corre sob sigilo, e desde o início de dezembro diligências relacionadas ao caso dependem de autorização prévia de Toffoli. A investigação da Polícia Federal sustenta que, antes mesmo da formalização da tentativa de venda ao BRB, o Banco Master teria forjado e vendido R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado — sendo R$ 6,7 bilhões em contratos falsos e R$ 5,5 bilhões referentes a prêmios e bônus associados ao suposto valor das carteiras.
As audiências desta terça-feira começaram com um desentendimento entre a delegada da PF Janaína Palazzo e o juiz auxiliar Carlos Vieira Von Adamek, sobre a ordem dos depoimentos e a realização da acareação. Após consultas telefônicas ao ministro Toffoli, ficou definido que os depoimentos seriam colhidos individualmente antes de eventual confronto direto. Vorcaro foi ouvido por quase três horas e, na sequência, participou da acareação com o ex-presidente do BRB. O diretor do Banco Central foi dispensado, por não figurar como investigado.
Preso em novembro ao tentar embarcar para os Emirados Árabes Unidos no aeroporto de Guarulhos, Vorcaro foi solto dias depois por decisão judicial, passando a cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica. O avanço das investigações e o conteúdo do relatório do Banco Central ampliam a pressão institucional sobre o caso e colocam sob escrutínio não apenas a conduta do banqueiro, mas também a atuação dos mecanismos de supervisão do sistema financeiro brasileiro.
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