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Poder

Eleição de Trump pode fortalecer extrema direita no Brasil

Governo Lula ampliará aproximação com emergentes e a China

Publicado em 06/11/2024 12:46 - Bruno Lupion (DW), Leonardo Sakamoto e Jamil Chade(UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Nenhuma disputa eleitoral é acompanhada com tanta atenção pelo mundo como a pela Casa Branca. O cargo de presidente dos Estados Unidos tem grande poder político, econômico e militar, e suas decisões provocam efeitos muito além de suas fronteiras. O republicano Donald Trump derrotou sua rival democrata Kamala Harris e será novamente presidente dos Estados Unidos.

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Para o Brasil, o impacto da vitória de Trump deve ser significativo: fortalecimento da extrema direita, redução de financiamento e parcerias na área ambiental, entraves comerciais e pressão sobre a parceria com a China são alguns dos efeitos mencionados por especialistas ouvidos pela DW.

A vitória do republicano foi comemorada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. “Contra tudo e contra todos, Donald Trump voltará à Presidência da República dos Estados Unidos da América para completar sua missão: restaurar a grandeza de sua nação, proteger os interesses de seu povo e trabalhar por um mundo mais livre e com mais paz e tranquilidade”, escreveu nas redes sociais.

O ex-presidente também publicou um vídeo em apoio a Trump dois antes das eleições. Usando um boné com o slogan da campanha do então candidato republicano, Bolsonaro chamou Trump de o “maior líder conservador da atualidade”.

De acordo com a cientista política Maria Hermínia Tavares, professora aposentada da USP e pesquisadora sênior do Cebrap, a eleição de Trump fortalece a posição da extrema direita ao redor do mundo, inclusive a do Brasil.

“A vitória do Trump vai diminuir ainda mais a capacidade de democracias liberais de fazerem frente a uma ascensão de regimes autoritários e de movimentos de extrema direita”, afirma. “Existe uma influência clara e uma linguagem comum nesses movimentos, e uma vitória do Trump fortalece a extrema direita no Brasil, que já é forte.”

O sucesso de Trump em 2024 trará ainda um vento de esperança para o bolsonarismo em 2026, acrescenta Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da UnB e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

“Há um vínculo claro do núcleo duro do bolsonarismo com a extrema direita dos Estados Unidos. Se ele assumir a Casa Branca, essa rede se consolida mais”, diz, citando as articulações de Eduardo Bolsonaro com o trumpismo e lembrando que ele chegou a ser cogitado por Bolsonaro para ser embaixador do Brasil no país.

Parcerias sobre mudanças climáticas

Atualmente um ponto de convergência entre os atuais governos do Brasil e dos EUA é a defesa do meio ambiente. As gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Joe Biden firmaram parecerias para iniciativas climáticas, e a Casa Branca anunciou um plano de doar 500 milhões de dólares para o Fundo Amazônia ao longo de cinco anos – dos quais 53 milhões já foram transferidos.

O valor total anunciado pelos EUA é superior ao que Noruega, Alemanha e Petrobras doaram ao Fundo Amazônia ao longo de 14 anos, diz Menezes. Com Trump na Presidência, a tendência é de desmobilização dessas parcerias na área ambiental. “O Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris”, lembra.

Os dois atuais governos também avançaram em negociações sobre a economia verde, buscando alinhar objetivos do Green New Deal de Biden aos do Plano de Transformação Ecológica de Lula. Até agora, porém, pouco de concreto já foi anunciado – como investimentos americanos para extrair minerais críticos.

“Para o Brasil, essa cooperação na área ambiental é muito importante tanto no que diz respeito a recursos como a parcerias técnicas e científicas”, afirma Tavares. Com a vitória de Trump, ela projeta que essas ações serão paralisadas. “O Trump não é só muito nacionalista e isolacionista, mas também negacionista do ponto de vista ambiental.”

Comércio exterior

Os EUA são o segundo maior destino das exportações brasileiras. Em 2023, o país comprou 37 bilhões de dólares do Brasil, só atrás da China, que comprou 104 bilhões de dólares no mesmo período, segundo dados do Comex Stat.

O perfil de exportação para os dois países também é diferente. Enquanto para a China predomina a venda de commodities, para os Estados Unidos também são vendidos produtos semimanufaturados ou manufaturados, diz Menezes.

Entre as dez categorias de itens mais exportados para a China, todas são commodities agrícolas ou minerais, enquanto no mesmo ranking para os EUA constam também máquinas e aparelhos, aeronaves e produtos químicos. No entanto, a relação comercial com a China é superavitária para o Brasil, e com os EUA é deficitária.

No quesito investimento direto no Brasil, os americanos lideram, com um estoque de 246,3 bilhões de dólares em 2022, cerca de um quarto do total, segundo estudo da Apex Brasil divulgado neste ano, quando as relações comerciais entre os dois países completaram 200 anos.

“Os EUA não estão implicados diretamente no processo de desindustrialização da economia brasileira, como é o caso da China”, diz Menezes. Mesmo assim, a Casa Branca não tem em vista nenhum projeto ou acordo comercial mais ambicioso para o Brasil ou a América Latina, e isso não deve mudar. “Não somos um espaço de primeira ordem para os EUA”, afirma.

No entanto, Trump prometeu na campanha aumentar linearmente em 10 pontos percentuais as tarifas de importação. Para Tavares, se o acesso de produtos brasileiros ao mercado americano for dificultado, a tendência é o Brasil desviar uma parcela ainda maior de seu comércio exterior para a Ásia.

Aluguel impagável elegeu Trump, churrasco caro pode derrotar Lula

Trump venceu a eleição tanto no Colégio Eleitoral quanto no voto popular, algo que não havia feito em 2016, surfando mais a insatisfação com a alta no custo de vida dos trabalhadores do que o ódio contra o “inimigo externo”, no caso, os imigrantes. O surto inflacionário causado pela pandemia não existe mais, mas os preços estabilizaram-se em um patamar alto, com destaque para aluguéis e hipotecas. Poucas coisas são tão traumatizantes para uma família quanto um despejo.

Sua campanha foi bastante competente em vender a interpretação falsa de que o país estava à beira do precipício. Contou com a ajuda de uma quantidade de desinformação difundida nos subterrâneos por atores russos e às claras por Elon Musk — que se tornou, nesse período, a maior fonte de fake news dos EUA através do impulsionamento desleal de suas postagens no X.

Kamala Harris não conseguiu transformar indicadores econômicos em percepção de qualidade de vida. E o governo do qual fazia parte tinha o que mostrar: levou o desemprego a 4,1% em setembro (praticamente pleno emprego), os salários cresceram a 3,9% em um ano, a renda disponível per capita aumenta todos os meses há mais de dois anos, o Produto Interno Bruto cresceu 2,8% no último trimestre, os gastos dos consumidores, que respondem pela maior parte da economia, aumentou 3,7% no último trimestre.

Quem depende de aluguel ou refinanciou a sua casa através de uma hipoteca compromete boa parte da renda com moradia. Muita gente está tendo que deixar sua casa, indo para mais longe ou em residências menores e até precárias. Isso é a antítese do incensado sonho americano. Sem contar que os juros demoraram para começar a cair – o que, em um país em que todos compram tudo a prazo, de carro a celular, isso é péssimo para o humor coletivo.

Ironicamente, se Trump colocar em prática suas promessas, como barreiras protecionistas a importações, elas terão consequências inflacionárias, o que vai aumentar ainda mais o custo de vida e reverter a curva de queda dos juros. Mas, daí, Inês é morta e Donald é presidente.

Nesta semana, fiz aqui uma análise apontando que a lição que o governo Lula precisa tirar da tentativa democrata de se manter no poder é baixar os preços. É a percepção de custo de vida alto, principalmente entre os alimentos, que vem mantendo a popularidade de Lula em baixa. Não são as críticas dele ao governo de Israel ou a tentativa fracassada de mediar o conflito na Venezuela, mas o preço do arroz e do feijão.

Com uma taxa de 6,4%, a atual administração resvala no menor desemprego desde que começou a PNAD Contínua, do IBGE, em 2012, a renda média dos trabalhadores também aumentou no último ano, com a volta do aumento do salário mínimo acima da inflação e o PIB deve crescer mais do que 3%, superando as expectativas.

O ano passado teve inflação menor e dentro do teto da meta (4,62%), mas isso não significa que os preços voltaram a patamares anteriores ao salto inflacionário de 2021 (10,06%) e 2022 (5,79%) sob o governo Jair Bolsonaro. Sim, tal como nos Estados Unidos, a inflação está relativamente controlada, mas tudo segue caro.

No final do dia, a classe trabalhadora não está muito interessada em quem tentou golpe de Estado em 6 de janeiro de 2021, em Washington DC, ou em 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Também importa pouco para a formação do voto se Trump pagou suborno com dinheiro de campanha para uma atriz pornô com quem teve um caso ou se Bolsonaro surrupiou joias doadas por ditaduras árabes e depois as vendeu para ajudar a mantê-lo nos EUA enquanto a tentativa de golpe rolava no Brasil. Tirando os loucos que querem a implantacão do fascismo lá e aqui, o voto da maioria tem dimensões mais pragmáticas.

Da mesma forma, acusar um adversário de organizar uma máfia para roubar dinheiro de creches não rende tanto voto quanto mostrar creches que foram erguidas, mesmo roubando-se dinheiro.

Sim, a lente ideológica tem limites diante do pragmatismo do naco não polarizado da população — se o poder de compra dispara, não tem como alguém perder uma eleição. Lula foi reeleito em 2006 mesmo com o escândalo do mensalão porque a economia crescia e o povo comprava geladeira, frango e dentadura. Com a melhora na qualidade de vida, terminou seu segundo mandato com 87% de aprovação, segundo o Ibope.

Como já disse aqui, 2026 não é 2006 e não será 2022. A diferença entre Lula e Bolsonaro foi de pouco mais de 2 milhões de votos, o país está mais polarizado hoje do que antes, e o ruído provocado pela desinformação e o golpismo ainda são ensurdecedores.

Mas uma boa parte dos eleitores não está em guerra contra o petista, ao contrário do que acontece com o naco de extrema direita. Ele espera de Lula que cumpra as promessas de campanha. Com picanha e cerveja, mas principalmente com arroz e feijão.

Não vai ser fácil. Sabe qual é o setor mais dependente de estabilidade climática? A produção de alimentos.

Por exemplo, os eventos climáticos extremos, que provocaram tempestades e secas, além de fatores como a alta na demanda externa, o dólar valorizado e o mercado interno aquecido, jogaram a arroba do boi lá em cima neste final do ano. Isso após mais de um ano e meio de preços de carnes em queda que fizeram a alegria do churrasco de final de semana.

Para garantir que ele se reeleja ou aponte um sucessor em 2026, os trabalhadores vão ter que perceber a melhora na qualidade de vida. O que passa pelo crivo do caixa do supermercado.

Não surtiu efeito os alertas para o risco que o, agora, presidente eleito representa à democracia através da lembrança do ataque golpista ao Capitólio, do retrocesso no direito ao aborto e da erosão dos direitos civis — como a ameaça de Trump de usar as Forças Armadas contra cidadãos norte-americanos e de deportação em massa. Kamala Harris não conseguiu mostrar que a vida melhorou sob o governo do qual foi vice e perdeu. A ver se Lula conseguirá.

Governo Lula ampliará aproximação de emergentes e China, se Trump vencer

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma aproximação da China e de outros emergentes, principalmente na Ásia, diante da vitória de Donald Trump.

A vitória de Trump é vista pela diplomacia brasileira como um “complicador” para a estratégia de política externa do país. Lula vem insistindo na necessidade de se evitar que o mundo viva um racha entre blocos opostos e, na presidência do G20, tentou desmontar os enfrentamentos entre Rússia e China, de um lado, e os EUA, de outro.

Mas a vitória de Trump pode abalar essa estratégia e coincidiria justamente com a presidência do Brasil no Brics, hoje formado por alguns dos principais rivais de Trump, como China e Irã.

Mas outro aspecto que preocupa de forma imediata os brasileiros é o risco de que Trump volte a implementar uma política comercial protecionista. No final de semana, em Nova York, o republicano indicou que um de seus primeiros gestos seria a adoção de uma “lei de reciprocidade” comercial. Ou seja, caso os americanos considerem que estão sendo tratado de forma injusta num mercado, responderiam com tarifas contra produtos daquele país.

A questão é que qualquer gesto pode ser instrumentalizado para justificar uma barreira comercial. Além do setor agrícola, o Brasil também teme barreiras no setor da siderurgia, já que Trump teria de cumprir parte de sua promessa de dar preferência à indústria nacional.

Trump, no final de seu primeiro mandato, chegou a impor tarifas contra produtos siderúrgicos brasileiros. Naquele momento, o governo de Jair Bolsonaro não questionou, já que foi entendido que a barreira iria ajudar o republicano a ganhar votos. Brasília chegou a ser acusada de abrir mão dos interesses nacionais em troca de uma ajuda a Trump.

O governo Lula, portanto, teme que o caminho volte a ser o do protecionismo. Se isso se consolidar, a aposta é uma aproximação maior com chineses, indianos e com os países do Sudeste Asiático, que formam o bloco Asean.

Parceria com a China

Uma parceria que aguarda os resultados da vitória de Trump é com a China. Pequim insiste em ter o Brasil em seu projeto Cinturão e Rota, mega plano global chinês e que prevê investimentos.

O presidente Xi Jinping viajará ao Brasil em novembro, e a esperança dos chineses era anunciar a adesão do país, um dos poucos latino-americanos ainda fora do pacto. Documentos internos no Itamaraty, porém, apontam que o país não teria vantagens reais com a adesão, além de ter implicações geopolíticas e compromissos que atenderiam mais aos interesses de Pequim que às necessidades brasileiras.

Mas a ideia é que, com a vitória de Trump, os dois governos emergentes possam anunciar o início de um trabalho comum para encontrar “sinergias” entre os projetos de investimento do governo Lula e as ambições chinesas.

Novos acordos comerciais

O Brasil também quer restabelecer negociação para ampliar um acordo comercial com a Índia. A perspectiva é que, nos próximos dez anos, os indianos vivam o mesmo crescimento da classe média que experimentou a China há 20 anos. O consumo, portanto, poderia favorecer as exportações brasileiras.

Outro foco é ainda um acordo com os países da Asean, bloco de emergentes asiáticos que tem visto um forte crescimento econômico.

O FMI espera que o crescimento econômico da China diminua de 5,2% no ano passado para 4,8% neste ano e 4,5% em 2025. Mas prevê que o Vietnã crescerá 6% em 2024 e 6,8% em 2025, tornando-se a economia de crescimento mais rápido entre os principais países da Asean. A economia das Filipinas teria taxas de crescimento projetadas de 5,8% em 2024 e 6,1% em 2025. A previsão é que ambos os países mantenham um forte crescimento, atingindo entre 6% e 6,3% ao ano até 2029. Já a Indonésia, a maior economia da Asean, deve crescer de forma constante, com 5% em 2024 e 5,1% em 2025.

COP30 ameaçada

Outra preocupação se refere ao sucesso da Conferência da ONU para o Clima, que ocorre no final de 2025 em Belém, Pará. A vitória de Trump, com sua agenda negacionista, é vista como “desastrosa” para a presidência do Brasil na COP30.

O temor é de boicote por parte de Trump a qualquer avanço nas negociações, esvaziando o evento que é considerado um dos pontos de maior destaque internacional para o governo Lula.

O Palácio do Planalto e os diplomatas não escondem que levar o mundo para a Amazônia, em 2025, tem como objetivo consolidar a posição do Brasil como líder no dossiê ambiental e promover uma nova inserção do país.

Um sinal de alerta foi dado quando os movimentos de extrema direita anunciaram que, para o final de 2025, planejam realizar sua cúpula anual em Manaus, uma espécie de conferência anti-COP30, na mesma Amazônia que Lula quer promover.


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