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EUA ampliam sanções contra Moraes e atingem sua esposa em ato sem precedentes
Publicado em 22/09/2025 12:39 - Semana On
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A Procuradoria-Geral da República deve apresentar nesta semana denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pelos crimes de coação no curso do processo e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito. A ofensiva judicial é consequência direta da atuação do parlamentar nos Estados Unidos, onde, desde março, ele trabalha para que o governo norte-americano imponha sanções ao Brasil e a autoridades brasileiras, em especial ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
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A denúncia, caso aceita, transformará Eduardo em réu — o que fragiliza sua ambição de disputar a Presidência da República em 2026. A acusação se sustenta em relatório da Polícia Federal, que o indiciou em agosto, apontando que o deputado articulou com integrantes do governo Donald Trump a adoção de medidas de retaliação contra o Brasil. A própria PF considerou que a atuação configura coação contra um ministro do Supremo em pleno curso de processos judiciais. A investigação foi aberta a pedido do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em maio deste ano.
O pano de fundo é claro: o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, pelo qual já foi condenado a mais de 27 anos de prisão por quatro crimes. A PF afirma que Eduardo atuou deliberadamente para desestabilizar o ambiente institucional brasileiro e pressionar a Justiça. Uma das evidências mais graves é a transferência de R$ 2 milhões via Pix feita por Jair Bolsonaro ao filho nos EUA, dinheiro que teria financiado a ofensiva internacional. O apresentador Paulo Figueiredo, aliado do deputado no exterior, também foi indiciado.
Eduardo patrocina uma escalada diplomática sem precedentes, provocada por um parlamentar brasileiro em exercício que atua abertamente contra os interesses nacionais. Ele nega. Em nota, classificou de “delirante” o indiciamento, dizendo que sua atuação “não tem objetivo de interferir no processo em curso no Brasil”. Também atacou o vazamento de conversas com o pai, registradas pela PF no relatório da investigação. No entanto, os fatos falam por si.
Uma trajetória de erosão institucional
A situação de Eduardo não se limita ao campo criminal. A Polícia Federal instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar possíveis “desvios éticos e outras infrações” relacionados à sua conduta nos EUA. O deputado é escrivão concursado da corporação e pode ser desligado definitivamente do quadro funcional. O pedido para apurar sua conduta foi feito pelo deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), e, segundo fontes da PF, “somou-se ao conjunto da obra”.
Além das acusações judiciais e administrativas, Eduardo enfrenta problemas legais em relação ao exercício do mandato. Desde que se instalou nos EUA, em março, ele não comparece às sessões da Câmara. Para evitar a perda de mandato por excesso de faltas, tentou protocolar um pedido para exercer o cargo remotamente — o que não é previsto em lei. A solução encontrada por aliados foi nomeá-lo líder da minoria, cargo que, segundo interpretação do grupo, dispensa presença em plenário.
A manobra escancara a leniência da oposição com práticas incompatíveis com a ética pública. Um parlamentar em exercício que atua contra seu próprio país no exterior, promovendo boicotes e sanções econômicas, e que busca preservar seus privilégios mesmo sem cumprir suas obrigações legislativas, representa uma ruptura grave com os princípios do Estado Democrático.
Silêncio institucional e o risco da impunidade
A gravidade da situação impõe uma resposta à altura das instituições democráticas. O jurista Pedro Serrano, professor da PUC-SP e especialista em Direito Constitucional, já alertava: “Não se trata de divergência política, mas de atos que atentam diretamente contra a ordem constitucional e a soberania nacional”. Permitir que parlamentares atuem em nome de potências estrangeiras contra decisões da Justiça brasileira é flertar com a erosão do Estado de Direito.
A denúncia da PGR é um passo fundamental, mas insuficiente se não vier acompanhada de ações no Congresso e na Polícia Federal. A eventual perda do mandato, o afastamento da corporação e a responsabilização penal são medidas mínimas diante de uma traição institucional sem precedentes na história recente do país.
A defesa da democracia exige, antes de tudo, coerência — e não há coerência possível em tratar como figura pública legítima alguém que atua deliberadamente contra seu próprio país.
Conduta de Eduardo Bolsonaro expõe lacuna legal para crime de traição
Apesar de atuar diretamente no exterior para pressionar autoridades brasileiras e interferir em decisões do Supremo, Eduardo Bolsonaro dificilmente será enquadrado por crime de traição — simplesmente porque o ordenamento jurídico brasileiro não prevê esse tipo penal de forma clara. A avaliação é do jurista e ex-juiz Marlon Reis.
“Eduardo Bolsonaro praticou um crime, de forma flagrante, que é o de tentar coagir autoridades judiciárias no curso de um processo. Ele busca, por meio de aliança com governo estrangeiro, algo absolutamente inacreditável do ponto de vista da força que ele consegue movimentar contra autoridades brasileiras”, afirmou Marlon Reis.
Reis, que é um dos autores da Lei da Ficha Limpa e referência em Direito Eleitoral, classifica a atuação do deputado como “flagrante e reiterada” violação ao Estado Democrático de Direito. No entanto, ressalta que os dispositivos atuais do Código Penal não dão conta de enquadrar condutas como a do parlamentar, que atua fora do país com o objetivo de minar instituições brasileiras.
“Falta na lei brasileira um crime claro de traição. […] Quando vamos à conduta do Eduardo Bolsonaro, ele está tentando também contra o Estado Democrático de Direito, mas não de maneira direta, com uso de força armada. Isso inibe a aplicação das regras que foram usadas, por exemplo, contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.”
A crítica toca em um ponto sensível do sistema legal brasileiro: o princípio da legalidade estrita. Diferentemente de países como os EUA, onde há maior margem para interpretações mais amplas de certos crimes contra a nação, a legislação penal brasileira exige que toda conduta criminosa esteja rigidamente descrita em lei.
“Nossa Constituição é clara: ninguém pode ser responsabilizado criminalmente por uma conduta que não esteja previamente descrita em lei. Então, mesmo que haja flagrante traição, se ela não estiver capitulada como crime, não há base legal para punição”, explicou o jurista.
Chamado à atualização legal: traição à pátria precisa de nome
Para Reis, o caso de Eduardo Bolsonaro evidencia a necessidade urgente de atualização do ordenamento jurídico brasileiro. A legislação penal, construída em boa parte durante o século XX, não contempla cenários contemporâneos de ataque institucional por meios indiretos — como articulação com potências estrangeiras, lobby internacional contra decisões do Judiciário ou uso de sanções externas como forma de chantagem política.
“O que eu tenho como diagnóstico é o fato de que a lei precisa ter um tipo penal novo pra traição à pátria. Porque é isso que ele pratica”, declarou Marlon Reis.
A lacuna legal não apaga a gravidade do que está em curso. As ações de Eduardo Bolsonaro, ainda que não configuradas como “traição” sob os parâmetros penais atuais, representam uma escalada inédita na ofensiva bolsonarista contra a ordem democrática. Não se trata mais de discurso ou retórica. Trata-se de movimentações concretas — com apoio de um governo estrangeiro — para desestabilizar o Judiciário e, por consequência, o equilíbrio entre os Poderes no Brasil.
EUA ampliam sanções contra Moraes e atingem sua esposa em ato sem precedentes
Os Estados Unidos impuseram sanções financeiras e restrições de circulação à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, e ao instituto Lex, ligado à família do magistrado. A ação, anunciada pelo Departamento do Tesouro nesta segunda-feira (22), baseia-se na Lei Global Magnitsky e ocorre menos de dois meses após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
A justificativa oficial norte-americana é de que Viviane e o instituto atuariam como “rede de apoio” de Moraes, a quem o governo Trump acusa de violar direitos humanos por meio de “censura, detenções arbitrárias e processos politizados” — acusações que se referem a decisões tomadas no exercício legítimo de sua função jurisdicional e em trâmite regular no STF e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Segundo o Tesouro, o Lex Institute, sediado em São Paulo, atua como holding patrimonial da família, sendo proprietário de imóveis que teriam sido transferidos nominalmente de Moraes e sua esposa há mais de uma década. “A ação de hoje deixa claro que o Tesouro continuará a perseguir indivíduos que fornecem apoio material a Moraes enquanto ele viola os direitos humanos”, afirmou o secretário Scott Bessent no comunicado oficial.
A sanção imposta a Viviane Barci tem implicações amplas: ela está agora impedida de entrar em território americano, de manter bens ou contas em instituições financeiras nos EUA e de realizar transações em dólar com qualquer banco global com operação no país — o que inclui grandes operadoras como Visa, Mastercard, e até bancos brasileiros com presença internacional, como o Banco do Brasil.
Medida política, motivação ideológica
A ofensiva contra a família Moraes foi articulada por aliados do ex-presidente Donald Trump, entre eles Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. O pacote de sanções começou a ser desenhado após o STF, por maioria da Primeira Turma (4 a 1), condenar Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. Moraes foi relator do processo — mas a decisão foi colegiada.
A reação da Casa Branca republicana tem forte carga simbólica e política: ocorre na véspera do discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e um dia após protestos de extrema direita em 18 capitais brasileiras, pressionando pela aprovação de uma proposta de anistia aos golpistas de 8 de janeiro. É também uma retaliação pública à atuação do Judiciário brasileiro nos processos que envolvem a tentativa de ruptura institucional liderada por Bolsonaro.
A leitura de especialistas é clara: trata-se de um ataque direto à independência dos Poderes no Brasil. “É uma provocação em função da presença do Lula e é uma provocação também porque não tem o menor nexo”, disse o jornalista político Josias de Souza ao UOL. “A decisão de condenar Bolsonaro foi colegiada. O Alexandre de Moraes foi o relator, mas não decidiu sozinho.”
Precedente perigoso
A extensão de sanções a familiares de autoridades públicas é um ponto de ruptura com princípios fundamentais do direito internacional. A advogada Viviane de Moraes não é agente pública, não exerce função jurisdicional e não teve participação nos processos judiciais que motivaram a condenação do ex-presidente. Sua inclusão nas sanções, segundo juristas, representa violação direta de direitos civis.
“A conquista civilizatória do direito moderno reside justamente na responsabilidade individual. Extrapolar punições a familiares é uma distorção inaceitável, seja sob a Lei Magnitsky ou qualquer outro instrumento jurídico”, aponta a jurista Silvia Stefani, professora de Direito Internacional na Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, a medida americana configura “retaliação política revestida de legalidade duvidosa”.
A lei Global Magnitsky, adotada em 2016, foi criada para punir indivíduos envolvidos em corrupção sistêmica e graves violações de direitos humanos. Desde então, passou a ser usada como ferramenta geopolítica pelos Estados Unidos para pressionar governos e autoridades em regimes autoritários. No entanto, essa é a primeira vez que o instrumento é usado contra um magistrado de país democrático — e, agora, estendido a seus familiares.
Reação brasileira e impacto diplomático
O governo Lula avalia uma resposta formal. Itamaraty e Advocacia-Geral da União já discutem medidas jurídicas para contestar a sanção nos tribunais norte-americanos. O presidente brasileiro já teria oferecido apoio direto a Moraes, mas o ministro teria preferido não acionar ainda o Estado brasileiro. Para analistas, a questão agora ultrapassa o foro individual.
“Não se trata mais de uma deliberação do Alexandre de Moraes. Trata-se de uma provocação contra o Estado brasileiro e precisa ser respondida à altura”, disse Josias em editorial no UOL.
O episódio acirra o desgaste nas relações entre Brasília e Washington — especificamente com a gestão republicana, que vem atuando em sintonia com a direita bolsonarista. Para Trump, o caso Bolsonaro é análogo ao seu próprio processo após a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Em discurso recente, Trump afirmou: “Fizeram com ele o que tentaram fazer comigo e não conseguiram”.
Soberania em xeque
O uso político da Lei Magnitsky por Trump como forma de pressionar o Judiciário brasileiro marca um ponto de inflexão na relação entre os países. A soberania de um Estado passa pelo respeito à sua Justiça — e a tentativa de punir um ministro por decisões judiciais representa não apenas ingerência, mas desrespeito ao princípio da separação entre os Poderes.
Viviane de Moraes, ao que tudo indica, deve contestar a sanção por vias legais nos EUA. Mas o gesto, já consumado, sinaliza uma escalada perigosa: a criminalização transnacional de decisões judiciais legítimas. O discurso de Lula na ONU, amanhã, deve trazer esse tema à tona, como forma de reafirmar a autonomia das instituições brasileiras — algo que, ao que parece, ainda incomoda certos aliados da extrema direita internacional.
Eduardo ataca projeto de dosimetria e ameaça relator
Em mais um movimento de confronto aberto às instituições brasileiras, Eduardo Bolsonaro classificou como “acordo infame” a proposta de redução de penas para os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. O relator do projeto, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), tornou-se alvo direto das ameaças do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em publicação feita na rede social X (antigo Twitter) na noite de sexta-feira (19), Eduardo rejeitou qualquer tipo de negociação: “A anistia ampla, geral e irrestrita não está sob negociação. Não há qualquer possibilidade de aceitarmos a mera dosimetria das penas em processos completamente nulos e ilegais, advindos de inquéritos abusivos e absolutamente inconstitucionais”, escreveu.
A declaração amplia a ofensiva bolsonarista contra o projeto que busca uma saída institucional para o impasse gerado pela tentativa frustrada de golpe de Estado, que resultou na condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão.
O tom da postagem beira a ameaça direta ao relator do projeto.
“Paulinho da Força, vou retribuir o conselho que me deu, sobre colocar a mão na consciência. (…) Eu não abri mão da minha vida no Brasil e arrisquei tudo para trazer justiça e liberdade para meu povo em troca de algum acordo indecoroso e infame como o que está propondo”, escreveu.
Eduardo Bolsonaro sugeriu ainda que o próprio Paulinho da Força pode se tornar alvo de sanções internacionais por defender uma alternativa à anistia ampla.
“Um conselho de amigo, muito cuidado para você não acabar sendo visto como um colaborador do regime de exceção”, afirmou, em uma referência velada à Lei Global Magnitsky, usada recentemente pelos EUA para sancionar o ministro Alexandre de Moraes e, de forma inédita, sua esposa.
“Assim como está expresso na lei, TODO colaborador de um sancionado por violações de direitos humanos é passível das mesmas sanções”, completou o deputado, elevando o tom contra colegas do próprio Parlamento.
O discurso é alinhado à narrativa de que o Judiciário brasileiro atua sob um “regime de exceção”, tese que tem sido usada para tentar deslegitimar as condenações dos envolvidos no 8 de janeiro. Eduardo acusou Paulinho de ser “posto” por Moraes para “enterrar” a proposta de anistia — ignorando o fato de que a anistia ampla foi considerada inconstitucional pelo STF e rejeitada por ampla maioria da sociedade civil organizada e entidades jurídicas.
Articulação pelo “PL da dosimetria” busca solução viável
A proposta relatada por Paulinho da Força tem sido chamada de “PL da dosimetria” e está sendo construída como alternativa ao projeto de anistia ampla, considerado um retrocesso democrático por especialistas e entidades de direitos humanos. Na última quinta-feira (18), Paulinho se reuniu com o ex-presidente Michel Temer, o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em busca de um consenso.
Temer classificou o texto em construção como um “pacto republicano”. A proposta não prevê absolvição dos envolvidos, mas uma possível reavaliação de penas aplicadas aos réus com menor participação nos crimes.
“A anistia ampla é um sonho dos bolsonaristas, mas não é possível de ser concretizado. Ela foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, e eu não vou fazer nenhum projeto que confronte a Câmara com o Supremo. Nós estamos tratando de dose”, afirmou Paulinho à imprensa.
Ameaças e chantagem política não são política pública
Eduardo Bolsonaro também ameaçou o ex-presidente Michel Temer e os articuladores do projeto: “Você, Michel Temer, e o resto da turma não irão impor na marra o que chamam, cinicamente, de pacificação, que nada mais é do que a manutenção de todos os crimes praticados por Alexandre de Moraes.”
A retórica beligerante de Eduardo revela o impasse: setores da extrema direita recusam qualquer solução institucional que não passe por reescrever os fatos e isentar de culpa os autores da tentativa de golpe. Pressionar parlamentares e ameaçar colegas com sanções estrangeiras ultrapassa os limites do debate democrático — e escancara a disposição golpista de um grupo que, mesmo após condenado, insiste em atacar as instituições de dentro da própria democracia que os julga.
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