22/02/2024 - Edição 525

Poder

Duas primeiras pesquisas de 2º turno mostram Lula à frente

Simone Tebet e tucanos históricos declaram voto em Lula , Bolsonaro tenta votos no Nordeste chamando povo de burro

Publicado em 06/10/2022 10:19 - Semana On, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Foram divulgadas as duas primeiras pesquisas de intenção de voto para o segundo turno. E elas apontam para a vitória do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

A pesquisa Ipec – instituto formado por pesquisadores do antigo Ibope –  foi encomendada pela TV Globo. Ela mostra Lula com 51% de intenções de voto, e Jair Bolsonaro, do PL, candidato à reeleição, com 43%. Brancos e nulos foram 4%. Não sabem ou não responderam, 2%.

Foram entrevistas duas mil pessoas entre os dias 3 e 5 de outubro, em 129 municípios. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR-02736/2022. Na simulação de segundo turno feita pelo Ipec antes da realização do primeiro turno, Lula aparecia com 52% e Bolsonaro com 37%. No primeiro turno das eleições, Lula teve 48,4% dos votos válidos (57,2 milhões) e Bolsonaro 43,2% (51,07 milhões).

A pesquisa PoderData mostra Lula com 52% das intenções de voto contra 48% de Bolsonaro. O placar é referente aos votos válidos. A diferença numérica é a menor já captada pelo instituto em um confronto direto entre os 2 candidatos. A distância indica vantagem mínima do petista, mas sem empate técnico. No 1º turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizou 48,43% dos votos para Lula e 43,2% para Bolsonaro.

Rodrigo Garcia empurra tucanos históricos como FHC a declarar voto em Lula

O governador de São Paulo Rodrigo Garcia (PSDB) provocou uma revoada de tucanos históricos, como FHC e Serra, em direção a Lula ao declarar seu apoio “incondicional” à reeleição do presidente Jair Bolsonaro, na terça (4). Para além da preocupação com a democracia, em jogo neste segundo turno, pesou a percepção de que é preciso proteger a própria biografia dos interesses pessoais dos neotucanos.

“Diante das alternativas postas, votarei em Lula”, declarou o senador José Serra, que perdeu do petista na eleição presidencial de 2002, poucas horas após um sorridente Garcia posar para fotos ao lado de Jair.

“Neste segundo turno voto por uma história de luta pela democracia e inclusão social. Voto em Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que ganhou do petista nas eleições de 1994 e 1998, através de sua assessoria de imprensa e nas redes sociais nesta quarta.

O diretório nacional do PSDB optou pela neutralidade, liberando seus filiados a declarem votos em quem quiserem, o que provocou duras críticas de membros da ala mais tradicional do partido.

Tasso Jereissati, Aloysio Nunes Ferreira, José Aníbal, Pimenta da Veiga e Teotônio Vilela Filho também declararam apoio a Lula, alguns deles ainda no primeiro turno, bem como nomes de administrações tucanas como Armínio Fraga, André Lara Resende, Claudia Costin, José Gregori, entre outros.

A opção de Garcia de apoiar “incondicionalmente” Bolsonaro, seja por seu alinhamento ideológico ao capitão, seja pela necessidade de manter cargos da atual administração numa possível gestão Tarcísio de Freitas, gerou irritação entre membros do seu próprio governo.

Parte dos secretários está voando para longe, como Rodrigo Maia, filiado ao partido, que pediu demissão, nesta quarta, do cargo de secretário de Assuntos Estratégicos. A decisão de Garcia foi tomada sem consulta ao PSDB, atropelando as instâncias decisórias, o que irritou ainda mais o diretório estadual.

Entre os tucanos, isso sugere que o governador, que entrou no partido em maio do ano passado para disputar o Palácio dos Bandeirantes após ter feito carreira no PFL/DEM (hoje União Brasil), pode estar de saída do PSDB.

PSDB na Câmara foi criticado por alinhamento a Bolsonaro

Ao longo dos últimos anos, o PSDB tem sido criticado por abrir mão de colocar a social-democracia como uma alternativa à extrema direita. Pelo contrário, lavou as mãos. E, no histórico de ascensão e queda das democracias, a grande responsável por limitar a expansão do extremismo de direita é exatamente a direita liberal.

Mesmo com a declaração tardia do PSDB, em setembro do ano passado, de que iria para a oposição ao governo, os deputados do partido continuaram votando alinhados à base bolsonarista. Sem a oposição da direita liberal, o bolsonarismo se esparramou mais tranquilamente, ocupando o lugar que era dos tucanos.

Na Alemanha, a CDU (partido de centro-direita) já se juntou ao SPD (centro-esquerda) para barrar a extrema-direita. Com um governo Lula mais ao centro, os tucanos teriam espaço para ver convertidas pautas que lhe são caras. Mesmo assim, o diretório nacional do PSDB preferiu permitir que membros escolhessem Bolsonaro, enquanto veem seu poder em São Paulo, ex-fortaleza nacional do partido, ser substituído pelo de Jair e amigos.

Basta ver o mapa de votação que mostra o interior tucano tomado por Tarcísio, que venceu em 500 municípios, enquanto Haddad levou a populosa capital e mais 90 cidades. Garcia venceu em apenas 52.

E como resultado dessa visão, o partido diminuiu. Nesta eleição, o PSDB de Aécio Neves foi de 22 para 13 deputados na Câmara.

As declarações de votos dos tucanos da ala social-democrata mostram que a parte do partido que foi exilada na ditadura militar, arquitetou a Constituição de 1988 e/ou defendeu direitos fundamentais sabe que neutralidade é equivalente a conivência diante do histórico do atual governo.

E que a opção entre o campo democrático e o autoritário não é uma escolha muito difícil.

Discurso de Simone Tebet de apoio a Lula encolhe ainda mais Ciro Gomes

Simone Tebet (MDB), que já havia chegado à frente de Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno da eleição presidencial, conseguiu aumentar a dianteira com seu discurso de apoio à candidatura de Lula na quarta (5). O motivo não é a forma do apoio dado ao petista por cada um, mas a defesa enfática que ela fez da democracia, reconhecendo que ela corre risco.

“Peço desculpas aos amigos e companheiros que imploraram pela neutralidade, preocupados que estão com a eventual perda de algum capital político, para dizer que o que está em jogo é muito maior que cada um de nós. Votarei com minha razão de democrata e com minha consciência de brasileira”, afirmou, cutucando a ala do MDB que está apoiando Bolsonaro.

E foi além: “E a minha consciência me diz que, neste momento tão grave da nossa história, omitir-me seria trair minha trajetória de vida pública, desde quando, aos 14 anos, pedi autorização à minha mãe para ir às ruas lutar pelas Diretas Já”. Para ela, neste momento, “não cabe a omissão da neutralidade”.

O ex-governador e ex-ministro já havia declarado apoio ao petista, nesta terça, após seu partido, o PDT, fazer o mesmo – de forma bem mais enfática que ele, através de seu presidente, Carlos Lupi. Mas Ciro não crê que o regime esteja em uma encruzilhada:

“Não acredito que a democracia esteja em risco nesse embate eleitoral. Mas sim no absoluto fracasso da nossa democracia em construir um ambiente de oportunidades, que em frente à mais massiva crise social e econômica, humilha a esmagadora maioria do nosso povo”, afirmou.

Tanto Tebet quanto Ciro não se furtaram em reafirmar suas críticas a Lula e deixaram claro que não estão apoiando-o em troca de nada, mas ela fugiu do conforto da falsa simetria, afirmando textualmente que um candidato é do campo democrático e o outro, não.

“Depositarei nele o meu voto, porque reconheço seu compromisso com a democracia e a Constituição, o que desconheço no atual presidente”, disse.

Já Ciro, sem citar o nome de Lula, registrou um apoio que os historiadores do futuro terão certa dificuldade de catalogá-lo como tal: “Gravo esse vídeo para dizer que acompanho a decisão do meu partido, o PDT. Frente às circunstâncias, é a última saída. Lamento que a trilha democrática tenha se afunilado a tal ponto que reste para os brasileiros duas opções, ao meu ver, insatisfatórias”.

Ele poderá dizer que está implícita em sua fala os posicionamentos autoritários de Bolsonaro ao falar das tais “circunstâncias” e do “afunilamento da trilha democrática”. Mas Ciro é uma das pessoas mais eloquentes deste país. Se quisesse, poderia ter escrito o texto de forma diferente. Não quis.

O problema é que o momento histórico, como colocou Simone Tebet, não admite a omissão da neutralidade, seja ela política ou semântica. Nesse sentido, ao contrário dele, ela faz um discurso de estadista, que a fará ser lembrada em 2026.

Existe consenso de que Tebet pode virar ministra se Lula for eleito

Simone Tebet deve ser ministra em um eventual governo do petista. De acordo com o colunista do UOL Josias de Souza, já existe um consenso no PT sobre isso, principalmente por causa do bom desempenho da emedebista na campanha de 2022, em que ela ficou no 3º lugar.

“Sem pedir cargo, ela se credenciou para um ministério de um eventual governo Lula. Em conversa com pessoas da campanha do Lula, há certo consenso de que, se Lula vencer, Tebet será ministra dele”, disse Josias.

O colunista contou bastidores de uma conversa entre Lula e Tebet. “Em um almoço antes da manifestação de apoio da Tebet, houve um momento em que ela disse que não tinha definição sobre o que faria no futuro, porque o mandato de senadora acaba em fevereiro. Lula fez um comentário na linha ‘não há como você voltar para o Mato Grosso do Sul, você se tornou uma figura nacional’. E ficou entendido que, na hipótese de vitória do Lula, Tebet estará na Esplanada dos Ministérios”.

O colunista também destacou que Simone só manifestou apoio após apresentar cinco propostas que devem aparecer no programa do possível governo de Lula. “Ela se credenciou sem fazer concessões. Ela apresentou uma pauta de sugestões extraídas do programa dela. Lula manifestou a intenção de incluir isso no programa dele. Isso é retórico, é preciso ver se vai ser feito, mas ela fez a parte dela.”

Questionado sobre qual seria o ministério de Tebet, Josias afirmou que, por enquanto, tudo é só especulação, mas existem duas possibilidades aventadas: ministério da Educação e ministério da Cidadania.

Bolsonaro tenta votos no Nordeste chamando povo de burro por votar em Lula

Antes de começar, vale o aviso: burrice não é a falta de letramento. Um camponês analfabeto pode não saber navegar na internet, mas duvido que você saiba produzir alimento como ele. Burro é, na verdade, quem cultiva o preconceito violento como sabedoria, como muitos políticos.

Jair Bolsonaro associou o analfabetismo no Nordeste à vantagem de 12,9 milhões de votos que Lula teve em relação a ele na região no primeiro turno. Disse que há “falta de cultura”. Isso não foi um deslize, isso foi legitimação.

A declaração foi dada em uma de suas lives, nesta quarta (5), que têm como objetivo engajar seu público mais fiel – o que inclui uma minoria de seguidores radicais que inundou as redes sociais e aplicativos de mensagens, neste domingo, com ataques aos nordestinos por conta da votação expressiva do petista.

“Lula venceu em nove dos dez estados com maior taxa de analfabetismo. Você sabe quais são esses estados? No nosso Nordeste”, afirmou Bolsonaro. Ele ainda disse que a região é administrada há 20 anos pelo PT (o que é mentira), mas foi além, dizendo que a esquerda levou o analfabetismo e “a falta de cultura” para lá.

A ideia de voto “errado” vinculado ao nível de escolaridade ou de renda ou mesmo de cor da pele é uma bizarrice criminosa propagada há tempos para criar uma justificativa política. Não surpreende que o presidente, que apela sistematicamente a esse tipo de expediente, adote-o agora. Surpreende que pessoas estejam surpresas.

Em 2014, quando o Nordeste também ajudou a dar mais um mandato ao PT, os mesmos eleitores violentos rechearam as redes sociais com comentários preconceituosos contra os moradores da região. Naquela época, votaram em Aécio Neves, agora em Bolsonaro.

Com essa validação de seu candidato, os seguidores de extrema direita de Jair sentem-se empoderados para continuar a onde de preconceito contra nordestinos. Essa violenta tática de constrangimento pode gerar votos entre um naco da elite preconceituosa do próprio Nordeste, mas tende a aumentar mesmo a fratura entre dois Brasis. E, depois, o presidente diz que não estimula o “nós contra eles”.

O mais irônico é que a realidade das urnas contradiz Bolsonaro. O presidente ganhou 1,3 milhão de votos no Nordeste em comparação à sua votação de 2018. Lula, por outro lado, teve uma votação 23 pontos maior que a de Haddad naquele ano no Sudeste e 17 pontos maior que a dele no Sul. Os dados são de apuração de Amanda Rossi e Juliana Caro, no UOL.

Burro é quem encara seu preconceito violento como sabedoria

Nem precisaríamos explicar que uma pessoa analfabeta não é burra, apenas não teve acesso à educação formal devido à burrice do Estado brasileiro.

Burro não é quem separa sujeito e predicado por vírgula. Muita gente não entende isso e desvaloriza a opinião do outro por não compartilhar dos mesmos padrões de fala ou do mesmo universo simbólico. Algumas das pessoas mais sábias que conheci são iletradas. E alguns dos maiores idiotas têm doutorado. Significa que os iletrados são melhores que os doutores? Não. Então, o contrário? Também não. Pois é burrice achar que usar ou não a norma culta da língua é condição para participar do debate público.

A burrice é quem menospreza o conhecimento, seja ele qual for, chegando a odiar quem o detém ou quem busca aprendizado. Nesse sentido, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o atual governo – que lutou contra vacinas, que estragou o Enem, que cortou orçamento de universidades e institutos de pesquisas – é burro.

Essa burrice, prepotente e apressada, também xinga um texto ou vídeo na rede sem ter consumido nada além de seu título ou visto o nome do autor ou autora. E, diante das críticas sobre a superficialidade desse comportamento, rosna, dizendo que tudo o que é importante pode ser escrito em uma linha ou um tuíte. Ou que acredita que um produto é ruim simplesmente por não ter ido com a cara do rótulo.

Burro é aquele que vê seu preconceito violento como sabedoria.

Essa burrice, montada na soberba, pensa que já sabe de tudo a ponto de tachar os que discordam de sua visão de mundo como mal informados, comprados ou manipulados sem apresentar dados e fatos que corroborem a crítica. Ou tenta calar as vozes diferentes da sua por encarar a dissonância como ruído e não como música.

Pois a burrice sempre tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ela própria.

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas. Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por pensarem diferente da maioria. A Alemanha “purificou pelo fogo” as ideias imundas deles, da mesma forma que, durante a Contra-Reforma, a Santa Inquisição purificou com fogo a carne, o sangue e os ossos daqueles que ousaram discordar de sua interpretação da bíblia.

Ironicamente, hoje há alguns que se dizem cristãos, herdeiros do protestantismo de Lutero, que condenam ao fogo quem ousa deles discordar. Inclusive sobre quem seria o melhor candidato nesta eleição.

A burrice também é incapaz de aceitar o próprio erro, transferindo a culpa para o outro. Ou, diante de um questionamento, foge da autocrítica, dizendo que outra pessoa ou partido também faz a mesma coisa.

A burrice não pede desculpa, pois a burrice de um indivíduo acha que é absolvida pela burrice de outro indivíduo ou do coletivo.

A burrice não aceita a existência de outra versão que interprete os fatos além da sua. É incapaz de reafirmar sua visão e, ao mesmo tempo, conviver com análises divergentes. Enxerga a opinião alheia como “notícia falsa” não por desconhecer a diferença entre formatos de textos narrativos e opinativos, mas por não admitir o conteúdo.

A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista descrito acima. Deu no que deu. Hoje, vemos muitos se acovardarem diante de ondas burras, intolerantes e violentas frente à diferença e o conhecimento. Como disse Simone Tebet, nesta quarta, neste momento “não cabe a omissão da neutralidade”.

Como sempre digo: falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto. E calmante na água de muita gente.


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