29/05/2024 - Edição 540

Poder

Dividendos políticos não justificam presença de gente ligada à Milícia no Governo Lula

Miliciano condenado e esposa têm ligações com grupo político de Daniela Carneiro, do União Brasil, e chegaram a fazer campanha para ela em 2018 e 2022.

Publicado em 06/01/2023 8:52 - DW, Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Ministério do Turismo

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A nova ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), conhecida como Daniela do Waguinho, se viu envolvida numa polêmica já no início do seu mandato: a ligação dela com um miliciano condenado por homicídio e associação criminosa.

O vínculo político de Carneiro, reeleita deputada federal pelo Rio de Janeiro, com o ex-PM Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura e acusado de comandar uma milícia na Baixada Fluminense, foi revelado na terça-feira (03/01) pelo jornal Folha de S.Paulo.

A reportagem mostrou que a ministra também teve o apoio de Giane Prudêncio, ex-vereadora e esposa do ex-policial durante as campanhas de 2018 e 2022.

Em 2018, Carneiro chegou a chamar o miliciano de “liderança”, ao publicar fotos ao lado de Jura e sua esposa nas redes sociais.

Na época, ele já estava condenado e preso. O ex-PM, porém, tinha autorização para deixar a prisão durante a semana para trabalhar. Ele cumpria expediente como assessor na prefeitura de Belford Roxo, cujo prefeito era o marido de Carneiro, Wagner dos Santos Carneiro, conhecido como Waguinho.

A postagem foi apagada das redes da ministra depois da revelação da reportagem.

Quem é Jura, o miliciano ligado ao grupo político da ministra           

Em 2008, a CPI das Milicias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro apontou o ex-cabo da Polícia Militar como o líder da milícia Bonde do Jura, que atuava nas cidades Belford Roxo, Queimados, Nova Iguaçu e São João de Meriti. O grupo invadia comunidades e cobrava de moradores e comerciantes por proteção. Jura também seria chefe de um grupo de extermínio, que fazia ameaças inclusive no período eleitoral.

Jura foi preso em 2009 e condenado a 26 anos de prisão por associação criminosa e homicídio. Apesar da condenação e detenção, o miliciano arrumou, em 2017, um emprego na prefeitura de Belfort Roxo, onde o marido da ministra já era prefeito.

No mesmo ano, Jura passou a cumprir pena no regime semiaberto para trabalhar como assessor na Secretaria de Ordem Urbana de Belfort Roxo, recebendo um salário de R$ 3 mil.

No ano seguinte, durante as eleições, embora tivesse que oficialmente cumprir expediente na prefeitura, Jura atuou como cabo eleitoral de Carneiro, que na época concorria a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo MDB, e do ex-deputado federal Márcio Canella, também do MDB e então vice-prefeito de Belford Roxo.

Em 2020, o jornal Extra e TV Globo revelaram a atuação de Jura nas eleições e sua contratação pela prefeitura de Belford Roxo. A prefeitura negou que o miliciano tivesse tomado posse na secretaria, que, por sua vez, disse que Jura fazia parte de um programa de ressocialização e não recebia salário. A mulher do miliciano chegou a postar um vídeo na época, no qual Jura agradece a Waguinho pela “oportunidade de ressocialização”.

Apoio da esposa de Jura em 2022

Após a repercussão do caso, a Vara de Execuções Penais do Rio de Janeiro suspendeu a permissão para que o miliciano deixasse a prisão para trabalhar. O Ministério Público mostrou possíveis irregularidades na comprovação da presença de Jura no trabalho. Em seu depoimento, o ex-PM negou ter sido empossado e ter recebido salário.

Atualmente, Jura está preso na Cadeia Pública Constantino Cokotós. O Ministério Público considera que o miliciano continua atuando no crime organizado, apesar de sua prisão.

Em 2018, além de Jura, a ministra recebeu o apoio de sua esposa, a ex-vereadora Giane Prudêncio. Ao concorrer à reeleição para a Câmara dos Deputados em 2022, Carneiro voltou a contar com Giane como cabo eleitoral, que divulgou sua participação em caminhadas nas redes sociais, acompanhadas da frase “família Jura sempre com vocês”. A esposa do miliciano é atualmente assessora do deputado estadual Márcio Canella (União Brasil).

O que diz a ministra do Turismo

Após uma campanha com relatos de intimidação e atuação irregular de policiais, Carneiro foi a deputada mais votada do Rio de Janeiro, recebendo 213,7 mil votos. Sua indicação para o Ministério do Turismo também se deve a sua participação e a atuação de seu marido, Waguinho, o prefeito de Belford Roxo, no segundo turno na campanha de Lula.

Após a reportagem da Folha de S.Paulo, a ministra afirmou ao jornal em nota que recebeu apoio em vários municípios e destacou que isso não significar compactuar com quem comete ato ilícito.

“Ela ressalta que o apoio político não significa que ela compactue com qualquer apoiador que porventura tenha cometido algum ato ilícito. Daniela Carneiro salienta que compete à Justiça julgar quem comete possíveis crimes”, afirmou por meio de sua assessoria.

A ministra disse também que não tem nenhuma relação com a contratação de Jura pela prefeitura de Belford Roxo.

Novas revelações

Após a revelação do envolvimento de Jura com o grupo político da ministra, novas ligações controversas de Carneiro vieram à tona. Uma reportagem do jornal O Globo mostrou que outro acusado de integrar uma milícia também fez campanha para a ministra nas eleições de 2022.

Réu por extorsão e porte ilegal de arma de fogo, Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão, pediu votos para Carneiro em eventos em regiões dominadas por seu grupo paramilitar, incluindo um comício da própria atual ministra.

Varandão é acusado de liderar uma milícia em Belford Roxo que monopoliza a venda de gás de cozinha e serviços de internet e tv a cabo clandestinos, além de ameaçar moradores da região controlada por seu grupo paramilitar.

Vereador em Belfort Roxo, Varandão foi preso em 2018. Em julho de 2019, ele foi solto para responder ao processo em liberdade. Mesmo com problemas na Justiça e com as graves acusações que pesam contra ele, Varandão foi reeleito vereador em 2020. No ano seguinte, Waguinho nomeou o miliciano para comandar inicialmente a Secretaria Municipal de Defesa Civil e depois a Secretaria de Ciência e Tecnologia.

O miliciano aparece ao lado de Carneiro e Waguinho em várias fotos que ele publicou em suas redes sociais.

Além de Varandão, familiares do ex-vereador Márcio Pagniez, o Marcinho Bombeiro, também fizeram campanha para a ministra em 2022. Desde 2019, Marcinho Bombeiro está preso, acusado de liderar uma milícia. Ele é réu por homicídio e estaria envolvido no assassinato de dois jovens que ocorreu em abril de 2017.

Nomeados na prefeitura de Belford Roxo, a irmã e o pai de Marcinhho participaram ativamente na campanha da ministra e chegaram a organizar um comício no bairro onde atuava a milícia de Marcinho.

Se União Brasil não apoiar Lula, ministra Daniela será demitida: mas não é iesso que importa

A ministra do Turismo poderá ser a primeira baixa no governo Lula se o União Brasil não mostrar apoio ao presidente eleito e compor a base do governo. Mas não é isso que importa. Os indícios de ligação política entre ela e o miliciano e ex-PM Juracy Alves Prudêncio deveriam ser motivo, por si só, para o Governo Lula ter pensado dez vezes antes de entregar um ministério a ela.

“O União Brasil ainda não está fechado como base do governo e o governo Lula, ao que tudo indica, também está usando esse episódio da Daniela para tentar garantir que o União Brasil feche ou pelo menos se comprometa. Se não se comprometer, a Daniela muito provavelmente vai ser expelida. (…) Se o governo e a ministra não conseguirem dar uma explicação cabível, vai ter que no limite procurar trocar de ministra”, opina o jornalista Leonardo Sakamoto, do UOL.

Sakamoto também relembrou a “dívida política” de Lula com Daniela. Waguinho, marido da ministra, é prefeito de Belford Roxo (RJ) e presidente do União Brasil no Rio de Janeiro. Durante as eleições Waguinho apoiou Lula e ajudou a conquistar votos na baixada fluminense, uma região com forte influência bolsonarista e das igrejas evangélicas neopentecostais, além de uma presença muito forte da milícia.


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