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Poder

Direita ensaia luto, mas respira aliviada com prisão de Bolsonaro

Sem ele no jogo, abre-se caminho para que a direita se aparte do extremismo

Publicado em 05/08/2025 10:09 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (PL-RJ), resultado do cerco jurídico que se fechou após a investigação da tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, provocou reações indignadas entre seus aliados. Mas o alarde público contrasta com o cálculo político privado. Enquanto a extrema direita brasileira grita “perseguição”, seus líderes mais influentes veem a retirada de Bolsonaro do tabuleiro como uma libertação silenciosa. Finalmente poderão tentar reconstruir o campo bolsonarista sem a figura incômoda do próprio Bolsonaro — cuja presença é ao mesmo tempo vital para o movimento e um obstáculo à sua renovação.

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A movimentação mais simbólica desse paradoxo veio das redes sociais. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), ambos advogados, divulgaram imagens do ex-presidente, que estava proibido judicialmente de manter contato com outros investigados. Ao fazê-lo, sabiam que expunham Bolsonaro ao risco de descumprir medidas cautelares. Resultado: veio a prisão domiciliar. Seria ingenuidade supor que não conheciam o risco. No ambiente político brasileiro, o improviso é raro quando se trata da sobrevivência do poder.

Nas palavras do colunista Reinaldo Azevedo, que sintetizou com precisão a lógica interna do bolsonarismo: “Correrão rios de lágrimas de crocodilo, vertidas pelos olhos de muitos dos seus aliados, que preferem o bolsonarismo sem um Bolsonaro”.

A análise não é isolada. O cientista político Christian Lynch, da Fundação Getúlio Vargas, já apontava em 2022 que “a extrema direita brasileira é um movimento em busca de um líder messiânico, mas aprisionado pela figura de Bolsonaro, que impede sua modernização ou adaptação institucional”. A prisão — mesmo que em regime domiciliar — abre uma fresta para essa transição.

O jogo interno: Flávio, Nikolas e a sucessão

Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como o nome mais racional do clã. Ao contrário dos irmãos Eduardo e Carlos — o primeiro, radical internacionalizado; o segundo, incendiário municipal —, Flávio articula com o empresariado e sonha em transformar Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, no herdeiro do bolsonarismo com viabilidade eleitoral.

A estratégia vinha se consolidando até ser abalada pelo desgaste do “tarifaço” no transporte público de SP, que reduziu o capital simbólico de Tarcísio entre os setores mais pobres. Ainda assim, ele permanece como o nome mais palatável para setores do mercado e das Forças Armadas, além de contar com o apoio discreto de alas do Centrão.

Nikolas Ferreira, por sua vez, busca capitalizar a juventude e a viralidade. Mas sofre de um problema básico de marketing político: não se chama Bolsonaro. Sua ambição é notória, mas seu avanço depende de romper com a lógica dinástica do clã, ainda resistente a ceder espaço.

Eduardo Bolsonaro: a linha dura

Quem resiste frontalmente à sucessão é Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o “zero três”. Para ele, o bolsonarismo deve permanecer uma propriedade da família. A depender de Eduardo, a extrema direita permanecerá em estado de oposição radical, mesmo que isso signifique perder eleições. Como ensinava Norberto Bobbio, “a oposição é também uma forma de poder” — e Eduardo parece mais interessado em preservar o monopólio do discurso do que em ganhar nas urnas com alianças indesejadas.

É nesse contexto que a prisão de Jair Bolsonaro funciona como catalisador. Com o ex-presidente inelegível e agora com mobilidade política restrita, a sucessão interna se torna inevitável — ainda que não menos conflituosa.

Tarcísio: aceno à base, recado ao clã

Em pronunciamento nas redes sociais, Tarcísio de Freitas lamentou a prisão de Bolsonaro, chamou o processo de “absurdo” e acusou o Judiciário de “avançar sobre garantias individuais”. O tom, no entanto, foi cuidadosamente calculado: atacou o Supremo Tribunal Federal, mas com verniz institucionalista. Falou em “desescalar a crise”, como se buscasse se posicionar como uma terceira via entre a ruptura e a moderação.

A fala revela mais do que aparenta: é um discurso de pré-candidato à Presidência, tentando se equilibrar entre a fidelidade simbólica a Bolsonaro e o desejo real de herdar seu eleitorado. Ao condenar a prisão e defender “liberdade e justiça”, Tarcísio se posiciona não só contra o STF, mas também como possível fiador de um futuro indulto ao ex-presidente — condição informal exigida pelo clã para a sucessão.

Mas Eduardo Bolsonaro, ainda influente na militância mais radical, não confia em Tarcísio. Para ele, o governador paulista é visto como “muito tucano”, sem o fervor ideológico necessário para liderar uma “cruzada contra o sistema”. A desconfiança ecoa o dilema clássico da extrema direita: precisa se institucionalizar para vencer eleições, mas sua base rejeita qualquer sinal de moderação.

Um movimento órfão do seu mito

A prisão de Bolsonaro, ao contrário do que se tenta fazer parecer, não representa um golpe à democracia — e sim a consequência do devido processo legal. Acusado de articular uma conspiração golpista com apoio de militares, empresários e figuras do alto escalão, Bolsonaro se encontra agora na mesma situação que criou para seus adversários: sob julgamento público e jurídico.

A ironia é histórica. A direita brasileira, que sempre flertou com o autoritarismo — do integralismo de Plínio Salgado ao apoio empresarial ao golpe de 1964 —, agora teme o peso da legalidade. Mas esse medo é menos pelo Estado de Direito do que pela perda de controle da narrativa.

Como diria o filósofo italiano Norberto Bobbio, “a democracia é o regime da publicidade, não do segredo”. A transparência que hoje atinge Bolsonaro é a mesma que ele tentou sufocar quando atacava o STF e espalhava desinformação. O retorno do pêndulo institucional não é um revanchismo: é um ajuste histórico.

O futuro: sem o homem, resta o mito?

A pergunta central agora é: pode o bolsonarismo sobreviver sem Bolsonaro? O caso não é inédito. O peronismo argentino sobreviveu à morte de Juan Domingo Perón. O franquismo espanhol tentou persistir após Franco. Mas em ambos os casos, o legado só se manteve com reorganização ideológica e novas lideranças. O bolsonarismo ainda patina nesse processo.

O bolsonarismo sem Bolsonaro será mais pragmático? Mais violento? Mais institucional? Ou implodirá nas disputas internas de um campo político que se alimenta da guerra e desconfia de pactos?

A prisão do ex-presidente pode não ser o fim de um ciclo, mas é sem dúvida o início de outro. E seus aliados — entre lamentações públicas e cálculos privados — já estão em plena disputa para herdar um trono que, ao que tudo indica, virou cela.

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