Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
Diálogo vadio expõe propósito de Bolsonaro: matar provas
Publicado em 16/07/2024 9:22 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O poeta Fernando Pessoa ensinou que o único sentido oculto das coisas é que elas não têm nenhum sentido oculto. O objetivo da reunião de Bolsonaro com os mandarins do aparato de inteligência do Planalto e duas advogadas do primogênito Flávio era claro, muito claro, resplandecente. Desejava-se matar as provas colecionadas pelos investigadores do caso da rachadinha.
O objetivo foi 100% alcançado. Cavalgando questões processuais, a defesa de Flávio asfixiou provas vivas nos tribunais superiores de Brasília. Resta agora esclarecer qual foi o tamanho da contribuição do aparato estatal na organização do sepultamento do escândalo. O áudio da reunião de 25 de agosto de 2020 registra uma conversa vadia.
Convém agora puxar o fio da meada, não pisar nele, como fez o antiprocurador-geral Augusto Aras. O novelo é velho conhecido do Supremo Tribunal Federal. Quatro meses depois de Bolsonaro ter levado a rachadinha para dentro do gabinete presidencial, Cármen Lúcia intimou Aras a abandonar a letargia.
Em seu despacho, a ministra enumerou os crimes que o episódio evocava há quatro anos: “Prevaricação, advocacia administrativa, violação de sigilo funcional, crime de responsabilidade e improbidade administrativa.” Exceto pelo crime de responsabilidade, prescrito com o fim do mandato presidencial, os demais continuam aplicáveis.
Sem elementos para enfrentar o mérito das acusações contra Flávio, as advogadas pediram socorro à Abin para sufocar as provas. Uma das doutoras admitiu que a defesa seria “bastante atacada” se a manobra viesse à tona. O próprio Bolsonaro citou funcionários que poderiam ser acionados. Entre eles o então chefe da Receita José Tostes.
Falava-se sobre o Serpro quando o capitão citou Gustavo Canuto, da Dataprev. O general Heleno mencionou a necessidade de manter as luzes apagadas. “Ele tem que manter esse troço fechadíssimo. Pegar de gente de confiança dele. Se vazar…” E Bolsonaro: “A gente nunca sabe se alguém está gravando alguma coisa.”
Antevendo problemas futuros, Bolsonaro injetou vacinas retóricas em sua prosa. “Não estamos procurando favorecimento de ninguém”, disse a certa altura. Todos os envolvidos no episódio, pilhados com a voz na botija, tratam o áudio apreendido pela PF com uma naturalidade que não orna com a vulgaridade dos diálogos.
Flávio Bolsonaro diz que “a montanha mais uma vez pariu um rato.” Em matéria de roedores, convém não discutir com especialistas.
Bolsonaro vai continuar sangrando até ser condenado e preso
No embalo do atentado a tiros contra Donald Trump, um dos filhos de Jair Bolsonaro (PL), Eduardo, o mais ideológico, espalhou que seu pai, caso Trump se reeleja, sairá vencedor. Uma vez empossado, Trump pressionaria a justiça brasileira e o Congresso para libertar os golpistas do 8 de janeiro. O passo seguinte seria restabelecer a elegibilidade de Bolsonaro.
Você é capaz de imaginar Trump dedicando-se a salvar Bolsonaro e os bolsonaristas condenados por atentarem contra a democracia – e, no caso de Bolsonaro, roubo de joias e fraude em atestados de vacina contra o Covid-19? Faça-me o favor: Trump teria mais o que fazer. Seu interesse pela América Latina é igual a zero. Ele nunca pôs os pés por aqui.
E a justiça brasileira? Dá para imaginar a toga em modo de alvoroço para anular suas decisões e atender aos reclamos do presidente dos Estados Unidos, interessado em libertar golpistas que bateram continência a pneus e acamparam em portas de quartéis clamando por uma intervenção militar? Ora, tenha dó. Menos, menos.
Dó de nós não de Bolsonaro. Ele não merece sua piedade. Sabe a última de Bolsonaro e da gangue que o cercava, todas pessoas honradas que só queriam o bem do país? O ministro Alexandre de Moraes – sim, sempre ele – suspendeu o sigilo do áudio de uma reunião onde Bolsonaro discute como salvar seu filho Flávio, o senador, da encrenca da rachadinha.
“É o caso de conversar com o chefe da Receita”, sugeriu Bolsonaro a duas advogadas de Flávio. Participaram da reunião que aconteceu em agosto de 2020 o chefe da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o delegado Alexandre Ramagem, e o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
À época, o secretário da Receita era José Tostes. Bolsonaro menciona ainda o chefe do Serpro (estatal de processamento de dados do governo) e Gustavo Canuto que estava à frente da Dataprev, outra estatal de processamento de dados. Ramagem gravou a reunião – segundo ele, com autorização de Bolsonaro. Tiro no pé ou não?
A certa altura da gravação, ouve-se o general Heleno a comentar: “Tentar alertar ele que ele tem que manter esse troço fechadíssimo. Pegar de gente de confiança dele. Se vazar [inaudível].
No período de um mês, o secretário da Receita reuniu-se meia dúzia de vezes com as advogadas no Palácio do Planalto, e pelo menos uma vez com elas e Flávio no apartamento do senador. A gravação foi apreendida pela Polícia Federal no notebook de Ramagem e faz parte do inquérito que apura o uso da ABIN para beneficiar Bolsonaro e seus filhos.
O cerco (perdão!) a Bolsonaro nem tão cedo se fechará.
Deixe um comentário