17/04/2024 - Edição 540

Poder

Deus, pátria, família e bandidagem

Tratamento dado pelo “bando bolsonarista” da PF ao bandido Jefferson mostra os perigos pelos quais passam a democracia no Brasil

Publicado em 24/10/2022 11:28 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Quem mandou os agentes da Polícia Federal recebidos à bala e a granadas por Roberto Jefferson retardarem por mais de oito horas a execução de ordem de prisão contra ele?

Foi Bolsonaro quem mandou, ou o ministro Anderson Torres, da Justiça, que de Juiz de Fora, Minas Gerais, acompanhou a operação, ou o diretor-geral da Polícia Federal? Por que?

Porque contra todas as regras deixaram que pessoas estranhas tivessem acesso à casa onde Jefferson resistia a se entregar? E por que deixaram que a cena do crime fosse alterada?

Trata-se de crime, mais um, que Jefferson cometeu ao resistir de mão armada ao cumprimento de uma ordem judicial. Como os policiais reagiriam se ele fosse apenas um bandido de morro?

Mas ele é um bandido com conexões políticas e amigo pessoal, como diz em vídeo de 2020, do presidente da República desde que os dois se conheceram quando eram deputados federais.

Bolsonaro sempre defendeu que “bandido bom é bandido morto”. Jefferson é bandido, mas seu amigo, e, nesse caso, deve viver. Se reeleito, quem sabe Bolsonaro não o indultará?

Amigo é para essas coisas, e outras também.

Mitômanos

Adepto da mitomania, o hábito de mentir desenfreadamente, Bolsonaro descuidou de uma regra básica da sua atividade: um político jamais deve dizer uma mentira que não possa provar. Declarou que o aliado Roberto Jefferson recebeu da Polícia Federal “tratamento de bandido”. Foi desmentido antes que sua versão chegasse aos jornais. Gravada em vídeo, a conversa que antecedeu a rendição de Jefferson revela que ele recebeu tratamento de aliado, não de marginal.

Jefferson disparou contra a equipe da PF que foi prendê-lo um par de granadas e pelo menos duas dezenas de tiros de fuzil. Os estilhaços feriram dois agentes federais. Após um cerco de oito horas, o agente do grupo tático da Polícia Federal escalado para obter a rendição de Jefferson soou esquisito: “É a ordem que eu tenho. Prioridade zero um. O que o senhor precisar a gente vai fazer.”

O timbre subserviente e reverencial exposto no vídeo estilhaçou a versão de Bolsonaro segundo a qual ordenara ao ministro da Justiça, Anderson Torres, que tratasse Jeffersom como o rigor que merece um “bandido” que “atira em policial”. O negociador da PF como que perdoou Jefferson por ter ferido dois colegas —”Os meninos estão bem”. Desqualificou a equipe destacada para realizar a prisão —”São burocratas, trabalham em inteligência, escritório, não são operacionais”. Sorriu quando Jefferson disse ter lançado granadas de “efeito moral”.

Se o episódio serviu para alguma coisa foi para mostrar que, sob Bolsonaro, o rigor policial é seletivo. Nos morros do Rio de Janeiro, quem ousa atirar na polícia é enviado à sepultura sob aplausos do presidente. Nos fundões do Nordeste, quando um motoqueiro parado sem capacete é morto num camburão de gás, Bolsonaro defende que os policiais rodoviários federais sejam julgados pelo assassinato “sem exageros”. No bolsonarismo radical, os encrencados no Supremo Tribunal Federal, quando não recebem indulto presidencial, são tratados como bandidos VIP.

Caso pensado

Foi tudo de caso pensado: o ataque sujo, covarde, nojento do ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB e aliado de Bolsonaro, à honra da ministra Cármen Lúcia; e a nova prisão dele, que a Justiça se veria forçada a decretar, como decretou.

O que não estava no script, escrito a quatro mãos por Jefferson e Bolsonaro: os tiros e as granadas lançadas pelo ex-deputado na direção dos agentes da Polícia Federal que foram prendê-lo. Jefferson, canastrão como sempre, exagerou no seu papel.

Estilhaços das granadas feriram dois agentes, um deles uma mulher, e atingiram gravemente o plano de Bolsonaro de se reeleger no próximo domingo. Com granadas ou não, é difícil que um bolsonarista radical deixe de votar em Bolsonaro. Mas bolsonaristas moderados e com vergonha na cara, se é que existem; eleitores de Simone Tebet (MDB) e de Ciro Gomes (PDT) que migraram para Bolsonaro ainda no primeiro turno; e os chamados indecisos que cogitam votar nele podem recuar.

A pesquisa Ipec, a ser divulgada hoje, não vai registrar os efeitos do que teria sido uma farsa se não tivesse acabado como mais uma prova de que o bolsonarismo mata; ou deixa que morram os que tiverem de morrer (lembre-se da pandemia da Covid-19).

Os trackings que poluem a campanha (pesquisas diárias feitas por telefone para consumo interno de partidos, bancos e empresas) devem captar eventuais alterações no panorama; pesquisas a serem divulgadas a partir desta quarta-feira, certamente.

“As consequências vêm depois”, ensinou o jornalista gaúcho Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”, que com esse pseudônimo tornou-se famoso no Rio de Janeiro dos anos 1950. A peça foi escrita para que suas consequências favorecessem Bolsonaro.

De alguma maneira, ela beneficiaria também Jefferson, um político que só brilhou na vida ao meter-se em escândalos; foi da tropa de choque de Fernando Collor, derrubado por corrupção; e mensaleiro do PT, condenado e preso por corrupção.

Jefferson cumpria prisão domiciliar por ataques à democracia e ao Supremo. Ofereceu-se para ajudar Bolsonaro na reta final de campanha voltando a atacar o tribunal na pessoa da ministra. Assim, alimentaria o discurso de Bolsonaro contra a justiça.

Fez sua parte, e Bolsonaro a dele, que era calar-se e desconhecer o que Jefferson havia dito. Mas o barulho dos tiros e das granadas obrigou Bolsonaro a se pronunciar: repudiou o ataque à ministra e solidarizou-se com ela depois de um silêncio de 48 horas.

Pensou que bastaria. Então, acionou o ministro da Justiça para que negociasse a rendição de Jefferson. Finalmente, ao dar-se conta do tamanho da estaca com a qual seria empalado, mentiu, que é só o que lhe ocorre ao ver-se em apuros.

Bolsonaro fez um segundo pronunciamento. Disse que o ministro o informou que Jefferson fora preso. E chamou de “bandido” o comportamento do ex-deputado. Enfim, entregou-o às feras para salvar-se. Quantos auxiliares Bolsonaro já não entregou até hoje…

Será suficiente? É o que veremos daqui a seis dias.

Projeto antecipado

A resistência armada de Roberto Jefferson à ordem de prisão emitida por Alexandre de Moraes antecipou em uma semana a versão tupiniquim da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos. Bolsonaro foi compelido a transformar o aliado tóxico de herói da resistência em inimigo. Foi a senha para que a milícia digital bolsonarista despejasse nas redes sociais fotos de Jefferson ao lado de Lula e José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil petista. Horas depois da rendição de Jefferson, Bolsonaro repetiu em sabatina na TV Record o que havia anotado nas redes sociais: “É bandido”.

Bolsonaro tenta blindar o plano que esboçou para 2022. Possui duas fases. Numa, passou para o segundo turno dinamitando as contas de 2023 e empurrando mentiras para dentro das redes sociais. Noutra, demonizou as urnas, equipando-se para reagir à eventual vitória de Lula no segundo turno com um Apocalipse à moda Trump. Ecoando ataques de Bolsonaro a magistrados, Jefferson firmou-se como cultor da ideia de ruptura democrática. Adepto da tese presidencial segundo a qual “o povo armado jamais será escravizado”, o dono do PTB atirou prematuramente, num instante em que Bolsonaro tenta virar votos para não ter que virar a mesa.

Jefferson deixou Bolsonaro na posição paradoxal de ter que afagar seus radicais sem desprezar os votos moderados de que precisa para alcançar Lula. Na mesma postagem em que repudiou as granadas e os tiros que o ex-aliado disparou contra agentes federais, Bolsonaro atacou os “inquéritos sem nenhum respaldo na Constituição”— referência aos processos sobre milícias digitais e notícias falsas, relatados no Supremo por Alexandre de Moraes. Criticou Jefferson por chamar Cármen Lúcia de prostituta. Mas atacou na sabatina da Record a censura imposta pelo TSE à Jovem Pan, com o voto da ministra.

Bolsonaro tenta tomar distância de Jefferson, acomodando no colo de Lula o delator e beneficiário da corrupção do mensalão. Entretanto, continua acorrentado ao plano alternativo da contestação do processo eleitoral. Declarou na sabatina noturna que as Forças Armadas continuam buscando “possíveis fraudes” em urnas que jamais foram fraudadas. Repetiu a mentira de que inquéritos da PF teriam concluído que seria impossível auditar urnas que todos sabem ser perfeitamente auditáveis. Quer dizer: mesmo tendo consciência de que precisa fazer pose de moderado, Bolsonaro manuseia retoricamente as mesmas armas de Jefferson.

Deus, pátria, família e bandidagem

Nunca se falou no Brasil tanto em Deus, pátria e família. O festival de idolatria política e fanatismo religioso que assola o cotidiano nacional permite um inusitado vislumbre sobre o futuro primitivo da nação. O Brasil progride da condição de país do jeitinho para a posição de país que não tem jeito. Nele, o presidente sessentão diz que “pintou um clima” com meninas venezuelanas de 14 anos. Seus partidários chamam a evangélica Marina Silva de “vagabunda”. O aliado Roberto Jefferson gruda na figura monástica da ministra do Supremo Cármen Lúcia a pecha de “prostituta”.

É como se de repente os brasileiros caíssem nos anos 30 do século passado. Metade da nação tenta degolar a outra metade a fim de estabelecer se a sociedade deve ou não praticar barbaridades em nome de Deus, a serviço da pátria e em defesa da família. Seria reconfortante saber o que pensam a cristã Michelle Bolsonaro, a pastora Damares Alves e os líderes do centrão evangélico sobre o insulto dos devotos do mito a Marina Silva. Afinal, trata-se de uma “irmã em Cristo”.

Seria instrutivo ouvir uma reação qualquer da turma do púlpito sobre a abjeção de Roberto Jefferson. O dono do PTB (Partido Terrivelmente Bolsonarista) despejou o esterco que carrega na alma sobre reputação de Cármen Lúcia. “Lembra mesmo aquelas prostitutas, aquelas vagabundas, arrombadas”, ele rosnou. “Aí que viram para o cara diz: ‘E, benzinho, no rabinho, nunca dei o rabinho. É a primeira vez’. Ela fez pela primeira vez, ela abriu mão da inconstitucionalidade pela primeira vez. Ela diz assim: ‘É inconstitucional, censura prévia é contra a súmula do Supremo, mas é só dessa vez benzinho’…”

É preciso muita ingenuidade para esperar alguma reprimenda de Michelle, sobretudo depois que madame tomou as dores do marido no caso em que ele injuriou adolescentes venezuelanas. De Damares Alves não se pode esperar senão verdades pastosas e desculpas desdentadas. Quanto aos pastores bolsonaristas, eles estão ocupados demais para perder tempo com a decência. Que diabos! Precisam cuidar dos negócios espirituais, vertendo o comércio de almas em moeda sonante.

Terceira mulher de Bolsonaro, Michelle pede votos para o presidente em cultos e eventos religiosos. Ao lado de Damares, dirige seus apelos especialmente às mulheres. “Perdão pelos palavrões do meu marido, eu também não concordo, mas ele é assim”. Passou a soar como se fosse ela a candidata ao trono: “Não olhe para meu marido, olhe para mim que sou uma serva do senhor”, disse durante um culto que celebrou o aniversário de 63 anos da pastora Elizete Malafaia, mulher do pastor Silas Malafaia, um dos principais expoentes do centrão evangélico.

Além de Damares, incorporou-se à caravana espiritual de Michelle, suprema ironia, o padre Kelmon. É aquele presidenciável fake do PTB, que Jefferson improvisou na disputa do primeiro turno apenas para servir de escada para Bolsonaro nos debates. Jefferson é aliado do governo —qualquer governo— desde a chegada das caravelas.

Jefferson relaciona-se com o erário como um Robin Hood para si mesmo. Tem a cara embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins e babaganuches. Tudo 100% financiado pelo déficit público. É como se gritasse para os quatro ventos: “Tiro dos pobres contribuintes para o rico aqui, que ninguém é de ferro”. Quando o dono do PTB fala em prostituição, convém não contrariar. Não se deve discutir com especialistas.

Pintou um clima entre o bolsonarismo e o cafajestismo. Está cada vez mais difícil ouvir falar em Deus, pátria e família sem reprimir um sorriso interior. Sempre que alguém esbraveja a tríade predileta do fascismo, uma voz no fundo da consciência avisa: “Farsantes!” Tudo está impregnado de oportunismo e cálculo eleitoral. A aversão às mulheres e o estilo cafajeste faz com que Bolsonaro e os bolsonaristas mereçam o célebre epíteto do Evangelho: “Raça de víboras.”


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *