01/03/2024 - Edição 525

Poder

Desfazendo sete mitos sobre o voto evangélico

Bolsonaro abre vantagem entre evangélicos, mas setor não está totalmente dominado pelo fascismo

Publicado em 24/08/2022 10:59 - Ana Carolina Evangelista (Piauí), Jullinho Bittencourt (Forum), DW, Eduardo Maretti (RBA) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Thiago dos Anjos/Brasil de Fato

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Com os acontecimentos das últimas semanas e as oscilações em pesquisas de intenção de voto para presidente, a variável religião voltou a chamar a atenção de quem acompanha o processo eleitoral deste ano. Mais do que isso, o chamado “voto evangélico” ocupou as reuniões de pauta de quase todas as redações que cobrem as eleições brasileiras. E hoje, quando saírem novas pesquisas, de novo os analistas se perguntarão sobre o impacto desse eleitorado nas eleições de outubro. Diante disso, vale a pena refletir sobre algumas afirmações que se tornaram comuns para tratar desse segmento.

  1. É um voto quase homogêneo

Quem lê grande parte da cobertura político-eleitoral no Brasil fica, à primeira vista, com uma certeza: há um “voto evangélico” em disputa. Quase único, quase homogêneo, uma espécie de bloco ideológico-religioso-moral convertido em objeto de desejo de candidatos e partidos que poderia levar candidaturas à vitória.

De fato, há um peso crescente dessa parcela significativa do eleitorado, especialmente depois do crescimento da população evangélica no país e, consequentemente, sua reivindicação de representação e registro de seus anseios nas urnas. No entanto, é equivocado sugerir um “voto evangélico”, como se pessoas evangélicas seguissem em bloco rumo a uma mesma direção política. Ou como se, ao compreendermos esse ou aquele elemento motivador, pudéssemos extrapolá-lo a todos desse recorte populacional. Ninguém é apenas evangélico, assim como não é apenas católico, tampouco apenas mãe, apenas mulher, apenas trabalhador. E nesse grupo que insistimos em analisar como “os outros” numa sociedade de maioria católica, existem diferenças sociais, de cunho ideológico-político, de renda e escolaridade, de práticas religiosas e por aí vai.

Ao mesmo tempo que esse voto não é tão uníssono assim, chama a atenção o crescente alinhamento de parte desse eleitorado com pautas conservadoras e simbologias que sintetizem ameaças morais. Afirmar que não é um bloco não significa dizer não haver elementos que nos permitam identificar o que tem mobilizado o voto de pessoas que se autodeclaram evangélicas.

  1. Os pastores fazem a cabeça dos fiéis nas eleições

Há uma tentação frequente no Brasil de pensar em voto de rebanho, sobretudo quando alguma importante liderança religiosa evangélica declara seu voto. Não raro, a partir daí, surgem análises tentando decifrar “para onde vai agora o voto evangélico”. Esse tipo de abordagem tornou-se ainda mais comum quando a diferença de votos num único segmento – o evangélico – bateu recordes a ponto de ser decisiva na definição do resultado das eleições presidenciais, como em 2018.

Isso não significa, porém, que, diante da orientação de um pastor, todo o seu rebanho vote como ele recomenda. Primeiro: a divisão e a fragmentação no universo evangélico são enormes, com inúmeras igrejas, denominações, histórico, práticas litúrgicas e lógicas muito distintas. Não custa lembrar que uma parcela significativa dos evangélicos no Brasil é formada pelos chamados “sem denominação” ou “desigrejados”.

Agora, mesmo que o pastor não faça a cabeça do fiel pura e simplesmente e sejam muitos pastores diferentes, falando com comunidades evangélicas diferentes com identificação institucional de variados níveis, é importante reconhecer que cada vez mais espaços de igreja têm buscado influenciar politicamente seus fiéis de múltiplas maneiras. Isso não era comum no meio evangélico institucional até trinta anos atrás, mas vem se intensificando.

No início dos anos 1990, o Iser (Instituto de Estudos da Religião) já media, na região metropolitana do Rio de Janeiro, a presença explícita do tema eleitoral nos templos e se a pessoa orava ou não por algum candidato. A pesquisa Novo Nascimento – Os Evangélicos em Casa, na Igreja e na Política, realizada durante a campanha presidencial de 1994, mostrou, por exemplo, que a Igreja Universal do Reino de Deus já se destacava pela incidência política e eleitoral a partir dos púlpitos. Enquanto, na média entre diferentes denominações evangélicas, 39% diziam orar por um candidato, entre fiéis da Universal esse número subia para 56%. Uma prática que se confirmou e se aprofundou nos últimos tempos.

Em outras palavras, a probabilidade de um fiel da Universal ser influenciado por seu pastor podia – e pode – ser maior do que em outras igrejas, e isso tem acontecido em outros espaços religiosos. Não pela relação automática líder-fiel, mas porque grandes corporações evangélicas, especialmente pentecostais, mas não apenas elas, possuem diferentes formas de manter influência e comunicação com seus fiéis além dos períodos eleitorais. Por meio de conteúdos de formação em escolas dominicais e grupos de oração, por meio de atividades culturais e de assistência social, por meio de veículos de rádio e televisão, e mais comumente nos cultos e templos.

Determinadas denominações evangélicas vêm aperfeiçoando, também, desde os anos 1990, a forma de se organizar para eleger candidatos e representantes “oficiais”. Essa maior organização política e essa “orientação de voto” têm, sim, tido impacto. Principalmente em relação às Assembleias de Deus, suas subdivisões, e à Universal do Reino de Deus. São as denominações que hoje têm mais filiados a elas eleitos para o Congresso, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras Municipais das capitais.

  1. É um voto definido por motivação ou identificação religiosa

A identificação religiosa explícita não tem sido, sozinha, fator de êxito numa disputa eleitoral. Basta ver que nomes como o pastor Everaldo, nas eleições presidenciais em 2014, ou o bispo Marcelo Crivella, nas eleições municipais em 2020, perderam eleições. Ou inúmeras candidaturas ao Legislativo pelo Brasil afora que utilizam ativamente sua identidade religiosa e não são eleitas. Porém, a identidade religiosa tem estado presente de maneira mais difusa e crescente em discursos e posicionamentos de candidaturas. Na realidade, é uma identidade cristã ampliada que nem sempre aciona linguagens e símbolos bíblicos, mas mobiliza moralidades religiosas de forma genérica, buscando alcançar evangélicos e católicos.

No estudo recente do Iser – Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020 –, identificou-se que os evangélicos fazem uma mobilização mais direta à religião que católicos e pessoas de outras religiões. A mobilização direta é aquela em que candidatos e eleitos utilizam sua identidade religiosa como referência central na campanha eleitoral, com o nome nas urnas, material de campanha e mídias sociais, ou quando a relação com a religião já é de conhecimento público. No caso dos evangélicos, 94% da mobilização foi direta, em comparação com apenas 60% entre católicos.

Mobiliza-se uma identidade cristã ampla e difusa e, paralelamente, acionam-se pautas priorizadas por esse segmento desde os últimos ciclos eleitorais: a defesa da moral e da família, o controle e a ordem no campo da segurança pública, e o forte posicionamento antiesquerda. Essas pautas não estão presentes apenas no eleitorado de base evangélica e fazem parte da vida de eleitores de diferentes matizes conservadores, com ou sem identificação religiosa – mas têm, sim, apresentado maior incidência na base evangélica.

  1. As pautas morais perderam força para a pauta econômica

As pautas morais seguem com forte apelo sobre os anseios e demandas desse recorte do eleitorado, e é justamente por essa força que os políticos recorrem a elas. É muito comum que materiais de campanha citem práticas ou temáticas consideradas “desvios morais”, sob a ótica de proteção à família e à fé cristã. Mistura-se tudo num mesmo balaio: de corrupção, passando por permissão ao aborto, pela legalização das drogas, chegando à chamada ideologia de gênero.

Quando o pânico moral volta a ser fortemente acionado, as intenções de voto do segmento evangélico mostram oscilações. Aconteceu em 2018, aconteceu em 2020 e está acontecendo em 2022.

  1. Não é um segmento com tanto peso político e eleitoral assim

Os evangélicos não se destacam no Brasil apenas pelo seu crescimento, mas também por seu ativismo de fé. Em comparação com católicos e outras religiões, eles se declaram mais praticantes, frequentando templos e afirmando orar com mais frequência. Também é um segmento que compartilha mais a sua fé fora dos templos, ocupando as artes, a música e a política. Estamos falando, portanto, de uma população que cresce e que é mais ativa em seus hábitos de fé num país até poucos anos de maioria católica não praticante.

Esse fenômeno não é novo, e o sistema político sabe disso. Desde os anos 1990 já se identificava, por exemplo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, que o sucesso eleitoral de candidatos evangélicos aparecia associado a uma comunicação mais intensa entre eleitores e eleitos nesse segmento — os evangélicos fluminenses se comunicavam mais com políticos, se comparados com a população em geral. Mais exemplos? O mesmo estudo do ISER já mencionado mostrava que o peso de candidatos evangélicos em eleições proporcionais, em 1994, representou 60% dos votos obtidos pelo PP e 49% dos votos do PFL no estado do Rio. Sem esquecer a emergência da “bancada evangélica”, com 33 membros em 1986 e hoje chegando a mais de 100 parlamentares.

O sistema político sabe, portanto, desse peso político e eleitoral há pelo menos trinta anos.

  1. Os evangélicos invadiram a política

Não, os evangélicos não invadiram a política. Entretanto, os evangélicos conservadores e denominações e igrejas mais ativas praticamente invadiram o governo federal atual. A presença de representantes conservadores do segmento evangélico em cargos importantes encontrou seu ápice no governo de Jair Bolsonaro.

O governo começou com a pastora Damares Alves ganhando a direção do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A Casa Civil foi ocupada pelo luterano Onyx Lorenzoni. O Ministério do Turismo era conduzido pelo membro da Igreja Maranata Marcelo Álvaro Antônio. Na Advocacia-Geral da União, o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça (mais tarde nomeado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal). O ministro-chefe da Secretaria de Governo era o general Luiz Eduardo Ramos, membro da Igreja Batista.

Em 2021, ocorreram trocas significativas na Esplanada dos Ministérios, e enquanto Marcelo Álvaro Antônio era afastado do governo, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro passava a ocupar o Ministério da Educação, e o recém-criado Ministério das Comunicações ia para as mãos do deputado federal Fábio Faria, da Igreja Batista.

Essa presença, somada à força da bancada evangélica no Congresso Nacional, reforçou a incidência da pauta e de políticas públicas de interesse desses setores evangélicos conservadores com incidência, consequentemente, sobre o eleitorado.

  1. Os evangélicos “bolsonarizaram”

Nem todo evangélico é bolsonarista, mas Jair Bolsonaro sintetizou em 2018 o que até então parecia disperso: um eleitorado que vinha dobrando à direita, para usar uma expressão do cientista político Jairo Nicolau ao radiografar as eleições daquele ano. Isso aconteceu de forma ampla e especialmente no segmento evangélico. Especialmente porque a figura do então candidato personificava e sintetizava demandas prioritárias de lideranças desse campo que o agora presidente transformou em políticas ou pautas legislativas.

Fundamental sempre destacar que a articulação de políticos religiosos evangélicos e católicos conservadores se aprofundou e faz parte desse marco geral de maior alinhamento.

A presença de lideranças religiosas no espaço público e na política tem uma enorme influência em moldar esse cenário, e hoje as lideranças religiosas com força política e voz pública marcante são as de cunho ultraconservador. É um movimento duplo: políticos ultraconservadores mobilizam o religioso e os líderes religiosos, hoje em sua maioria evangélicos, usam o espaço da política institucional para impor a moral do seu segmento como agenda geral.

Além desse casamento de intenções comuns a partir de 2018, os evangélicos também se destacam pelas candidaturas legislativas de perfil religioso, e a maior parte delas, nas últimas eleições municipais pelo menos, está no campo da direita. No caso católico, apesar de as candidaturas legislativas estarem em maior número em partidos de esquerda, as que tiveram mais sucesso eleitoral foram aquelas vinculadas também aos partidos da centro-direita e direita, em 2020.

Na minha última coluna neste espaço refleti sobre o apelo a símbolos, fatos e medos na mobilização por eleitores. Esse raciocínio segue válido e é inegável que, no segmento evangélico especificamente, por mais heterogêneo que seja, a incidência de símbolos e medos se mostra muito eficiente há décadas na mobilização por votos.

Não é possível, portanto, falarmos em “voto evangélico” ou igualarmos esse segmento ao campo conservador, mas tampouco é suficiente afirmarmos apenas que não se trata de um campo homogêneo. É fundamental continuarmos a destrinchar qualitativamente como votam os evangélicos num país onde “ser cristão” está cotidianamente na boca do presidente. E mais ainda, num país em que as preferências desse segmento resultam, em grande medida, em vitória nas urnas.

Marina Silva: “Lula esteve no governo por dois mandatos e nunca fechou igrejas”

A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (REDE), que é evangélica, fez duras críticas à instrumentalização da fé por partidos e candidatos, sobretudo os ligados ao presidente Jair Bolsonaro (PL), durante entrevista aos jornalistas Cintia Alves e Johnny Negreiros no site GGN.

De acordo com ela, o momento é de “manipulação perversa” pela campanha de Bolsonaro, “péssima para a fé e é péssima para a política. Quando alguém mentirosamente diz que, se o presidente Lula ganhar as eleições, ele vai fechar as igrejas, isso é uma forma mentirosa que desabona a própria fé. Lula esteve no governo por dois mandatos, nunca fez isso.”

Ela afirmou também que não se deve tomar o “povo evangélico como se ele fosse homogêneo, pois não existe essa homogeneidade no segmento. Existem diferenças, abordagem diferentes. Eu sou evangélica da Assembleia de Deus. Nas campanhas que fiz, uns diziam que eu era fundamentalista e outros, que eu era uma falsa crente. Isso foi muito complicado.”

Marina teve uma criação católica até se converter à fé cristã-evangélica. “Mas quem visita o meu trabalho no Congresso sabe que eu nunca fiz do púlpito um palanque nem do palanque um púlpito.”

Ela reforçou na entrevista ao GGN que é preciso haver a separação entre Estado e religião no trato com a questão em tempos eleitorais. Para ela, também é preciso repisar que “preconceito e mentira não têm base nem no Código Civil, nem na Constituição e, para os cristãos, nem na Bíblia.”

“O apóstolo Paulo diz: ‘não é judeu nem grego, não há servo nem senhor, não há macho nem fêmea, porque todos são em Cristo, Jesus’. Quem quiser ser preconceituoso, seja por sua conta, não venha usar a Bíblia para mentir, ser homofóbico, racista, machista, nada! Essas pessoas desabonam a fé cristã, inclusive quando levam uma arma enorme para a Marcha por Jesus. É isso tipo de coisa que muitas pessoas cristãs, evangélicas, católicas, espíritas estão vendo que há uma grande contradição e não estão entrando nessa canoa furada.”

Bolsonaro abre vantagem entre evangélicos, aponta Datafolha

O presidente Jair Bolsonaro ampliou sua vantagem sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no eleitorado evangélico, que agora é de 17 pontos percentuais, segundo a última pesquisa do Datafolha sobre a disputa ao Planalto, divulgada no último dia 18.

Bolsonaro tem 49% das intenções de voto nesse segmento, contra 32% de Lula. A distância entre os dois principais candidatos à Presidência entre os evangélicos vem se ampliando mês a mês. Em maio, a dianteira do presidente era de 3 pontos, em junho, de 5 pontos, e em julho, de 10 pontos.

Na amostra do Datafolha, 25% dos eleitores se declararam evangélicos, e a margem de erro é de 3 pontos percentuais nesse segmento. A pesquisa foi realizada de terça a quinta-feira desta semana, e entrevistou 5.744 pessoas em 281 municípios.

Bolsonaro, que se declara católico, aproximou-se dos evangélicos já durante a campanha de 2018, em torno de pautas conservadoras de forte apelo moral, como aborto e drogas, e construiu proximidade com parte desse eleitorado. Na eleição passada, ele recebeu quase 70% dos votos evangélicos no segundo turno, segundo estimativa do Datafolha.

Uma das apostas do presidente para tentar aumentar suas chances de ir ao segundo turno e vencer Lula é exatamente o eleitorado evangélico, o que se reflete na sua retórica e agenda de campanha. No final de julho, em seu discurso de lançamento da candidatura, Bolsonaro fez sete menções a Deus – sua esposa, a protestante Michelle Bolsonaro, o invocou outras 27 vezes no palanque.

Na ocasião, Michelle apresentou o marido como um “escolhido de Deus” que tem um “projeto de libertação para a nossa nação”, aconselhou a plateia a não negociar com o mal e foi festejada aos gritos de “aleluia”.

Nos últimos meses, Bolsonaro tem ido a eventos evangélicos com frequência quase semanal. Só em julho, esteve em diversos encontros com fiéis no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Ceará, Espírito Santo e Rio Grande do Norte. Ao longo da corrida ao Planalto, o presidente seguirá participando presencialmente e por vídeo de cultos organizados por lideranças evangélicas – assim como outros candidatos.

Em 8 de agosto, Michelle compartilhou em suas redes sociais um vídeo que mostrava Lula participando de um ritual da umbanda em agosto de 2021, com o comentário: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não”. O deputado Marcos Feliciano, que é pastor evangélico e apoiador de Bolsonaro, afirmou no último domingo à rádio CBN que “alertou” os fiéis sobre uma suposta “perseguição” de Lula que poderia “culminar no fechamento de igrejas”. O PT rebateu a fala de Feliciano, que classificou como fake news, e na quarta-feira ingressou com uma ação na Justiça para que o deputado apresente provas de sua acusação.

Lula também vem tentando ampliar seu apoio entre esse eleitorado – o PT criou neste ano núcleos evangélicos em 21 estados – enquanto busca diferenciar sua abordagem sobre a interface entre política e religião em relação à de Bolsonaro.

No lançamento de sua campanha, nesta terça-feira, Lula afirmou que o presidente tentar manipular a boa-fé de evangélicos, mas disse que ele era “possuído pelo demônio”. Nesta quarta-feira, ele afirmou em suas redes sociais: “Eu sou candidato do povo brasileiro, e quero tratar todas as religiões com respeito. Religião é para cuidar da fé, não para fazer política. Eu faço campanha eleitoral respeitando religião, e não uso o nome de Deus em vão.”

A sua esposa, Janja, também vem reagindo às investidas da campanha de Bolsonaro nesse tema. Ao responder ao vídeo compartilhado por Michelle de Lula em um ritual da umbanda, ela afirmou: “Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo.”

Apesar do seu crescimento no segmento evangélico, há dúvidas se Bolsonaro conseguirá repetir neste ano sua performance de 2018 nesse eleitorado, devido ao desgaste dos quatro anos de seu governo.

“Bolsonaro vai continuar apostando nessa pauta porque não tem outra opção, mas não acredito que terá o mesmo papel e visibilidade que teve em 2018, porque a vida das pessoas piorou e elas sabem disso”, afirmou Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (Iser), à DW no início de agosto. “Se antes o Bolsonaro conseguia se descolar dos problemas do país, hoje, depois de quatro anos no poder, isso já não é mais possível.”

Por outro lado, o vínculo entre a plataforma ultraconservadora bolsonarista e segmentos importantes dos evangélicos deve permanecer mesmo no caso de uma derrota do presidente. O percentual dos evangélicos na população brasileira seguirá crescendo, e pode superar o dos católicos em 2032, impondo desafios a partidos de centro-esquerda que busquem dialogar com esse eleitorado.

Entre os católicos, que representam 53% da amostra do Datafolha, Lula tem 52% das intenções de voto, contra 27% de Bolsonaro, segundo o último levantamento do instituto.

Na amostra geral, o petista pontou 47%, contra 32% de Bolsonaro. Se forem considerados apenas os votos válidos, o petista tem 51%, dentro da margem de erro para uma vitória apertada no primeiro turno.

Frente evangélica declara apoio a Lula e alerta para ‘armadilhas bolsonaristas’

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito – que atua em 20 Estados do Brasil –  formalizou apoio à candidatura de Lula. O movimento dos evangélicos é apartidário, mas diz que o apoio é necessário diante “das ameaças diuturnas das forças reacionárias sustentadas pelo governo federal e pelo próprio Bolsonaro”.

A entidade afirma que o Estado de direito (como a democracia) existe “para deter as forças destruidoras do Anti-Messias”. “Se não detivermos essa situação de modo imediato, muito mais vidas serão ceifadas. E todo o futuro, não só do Brasil, mas de todo o planeta, estará ameaçado”, diz a frente.

O crescimento de Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto entre o eleitorado evangélico tem sido apontado por pesquisas. No mais recente estudo Genial/Quaest, divulgado no último dia 18, o presidente cresceu de 48% para 52% no segmento. Enquanto Lula oscilou para baixo, de 29% para 28%.

É importante observar, no entanto, que o segmento evangélico, por si só, não dará a vitória a Bolsonaro. Isso porque ele teria de crescer entre as mulheres, os mais pobres, os jovens, os nordestinos e outros grupos – inclusive os católicos. Portanto, crescer só entre evangélicos não basta para Bolsonaro. Mesmo assim, nessa frente é preciso que o combate eleitoral seja eficiente, porque o crescimento entre os protestantes se espraia para as mulheres desse grupo, assim como para os mais pobres etc.

O caso Damares

“O crescimento de Bolsonaro nas igrejas é real e tem preocupado os setores progressistas”, diz Nilza Valéria, coordenadora nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Ela destaca ações da ex-ministra Damares Alves e de um pastor da igreja evangélica Assembleia de Deus em Botucatu (SP), Rúben Oliveira Lima, que afirmou durante um culto que os crentes que declaram voto em Lula não merecem a Santa Ceia. “Sistema que prega que vai ajudar aos pobres, mas no casamento dele não teve um pobre”, disse o pastor.

Valéria diferencia duas personagens dos cultos evangélicos. Uma coisa são os líderes midiático-políticos poderosos, que disseminam falsas informações, fake news e mentiras que se espalham nas redes. Esse trabalho é consciente e deliberadamente insidioso. Damares, por exemplo, não surgiu do nada antes de ser ministra. Desde 2015 ela era assessora parlamentar do senador Magno Malta, liderança importante da bancada evangélica.

É a partir de pastores “de cima”, como Damares, que as informações chegam aos cultos. Os pequenos pastores de comunidades, por exemplo, muitas vezes acreditam nas informações que repassam aos fiéis, que chegam a eles pela pregação dos poderosos e influentes.

É preciso que crentes falem com crentes

Para Nilza Valéria, é importante que candidatos progressistas e, principalmente, a campanha de Lula, ouçam as vozes progressistas dos evangélicos. “É preciso de alguma forma incluir-nos na estratégia de campanha, para permitir que crentes falem com crentes”, diz. “O que não se pode de forma alguma é emular um discurso em que Lula e aliados façam falas religiosas caindo na armadilha bolsonarista”, defende.

O que Bolsonaro faz é criar um discurso de guerra religiosa. Ele sabe que esta é uma nação essencialmente cristã, evangélica ou não, e que tem um segmento religioso crescente no país, o evangélico. Ele usa o discurso moral dirigido a esse enorme eleitorado e seus aliados, como Damares e pastores líderes, fazem o discurso religioso nas redes sociais e para o interior dos templos.

Nesse cenário, é preciso evitar armadilhas que deem a Bolsonaro a chance de pautar as campanhas progressistas. E, portanto, saber o que dizer aos evangélicos. Sobretudo, não discriminá-los como uma população à parte. São pessoas comuns que tomam Ônibus, pagam aluguel, vão ao supermercado, têm as mesmas carências de todos, e não podem ser tratadas como uma classe à parte da sociedade.

“Ninguém é só evangélico. Eu, por exemplo, estou superfeliz que o meu Fluminense passou à semifinal da Copa do Brasil”, diz Valéria. “Eu não sou apenas evangélica, eu sou tricolor também”, avisa. “A gente vem alertando desde o golpe contra Dilma que a precisamos ter uma estratégia para lidar com os evangélicos.”

O exemplo de Macron

Ela dá um exemplo de fora do Brasil. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi reeleito em abril, derrotando a representante da extrema-direita Marine Le Pen com apoio de ampla aliança. “Vamos imaginar que a mulher do presidente, Brigitte Macron, tivesse postado um tuíte celebrando um filme muçulmano. Para mim é certo que Macron não seria reeleito se ela postasse algo que soasse como elogio à cultura islâmica, a qualquer aspecto do mundo islâmico”, diz Valéria, em referência à xenofobia de parte dos franceses.


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