13/06/2024 - Edição 540

Poder

Desemprego, feijão e arroz caem, renda sobe, mas parte da população vive à borda da terra plana

Quem mais perdeu com as derrotas do governo no Congresso foi o país

Publicado em 30/05/2024 9:09 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metróploes) – Edição Semana On

Divulgação

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O desemprego no país é o menor desde 2014, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, para um trimestre encerrado em abril (8,5%). Ao mesmo tempo, o rendimento médio mensal subiu 4,7% em um ano, alcançando R$ 3.151. Os dados foram divulgados nesta quarta (29).

São boas notícias para o governo Lula, somadas a um IPCA-15, a prévia da inflação de maio, que veio ontem em 0,44%, menor que a expectativa do mercado, ainda que pressionada pela alta da gasolina. Que, agora, vira dor de cabeça para a nova presidente da Petrobras, Magda Chambriard.

Mas o feijão e o arroz, que vêm sendo um dos motivos do mau humor dos consumidores, caíram. O preço do feijão preto reduziu, em média, 8,6%, e do carioca, 5,36%, enquanto o arroz variou 1,25% para baixo.

É um sinal positivo, mas ainda longe de gerar uma mudança profunda na percepção da qualidade de vida dos mais pobres após anos de alta. O arroz ainda acumula uma subida de 25,1% só nos últimos 12 meses e o feijão preto, 7,35%. O carioca teve queda de 17% nesse período.

Só para registrar: a picanha caiu 0,66% e a cerveja subiu 0,59%. Ambas são promessas de campanha de Lula. Em um ano, a picanha acumula queda de 6,3% e a cerveja, alta de 3,22%.

Por conta da tragédia no Rio Grande do Sul, grande produtor de arroz, o governo federal anunciou a autorização de importação de até 1 milhão de toneladas do grão. Isso pode ajudar a evitar mais altas no preço, a despeito da gritaria de parte dos produtores e dos expoentes do mercado, que acreditam que pobre faz fotossíntese.

Vale lembrar que o excesso de chuva em Minas Gerais e Goiás também afetou a safra de feijão. E ainda há negacionistas no agronegócio, vai entender…

Como já disse aqui, a renda dos domicílios sobe, desemprego cai, PIB cresce, juros estão sendo reduzidos, dívidas encolhidas. Contudo, isso não se traduz, necessariamente, em alta da percepção da qualidade de vida de todos os trabalhadores. O motivo é o preço dos alimentos básicos que continua nas alturas desde o último governo.

Há análises que não consideram a percepção sobre o custo de vida como uma das questões centrais para a perda de aprovação do governo Lula e olham só para os grandes índices. Trabalhadores e suas famílias não comem indicador econômico temperado com arcabouço fiscal. Isso alimenta outra espécie, os farialimers.

A economia melhorou no país com o governo Lula, mas isso ainda não se traduziu em um grande salto para a vida cotidiana, tal como ocorreu nos dois primeiros mandatos do petista. O que impacta negativamente sua popularidade. Enquanto o bolsonarismo se esforça para tentar convencer que a picanha, usada por Lula em sua campanha eleitoral para prometer dias melhores, disparou de preço (quando, na verdade caiu, em média), o problema político está no peso do arroz com feijão do cotidiano.

Para além de agir para reverter os preços de alimentos (investir na formação de estoque, ajudar mais os pequenos agricultores, fomentar a produção de arroz em outras regiões), o governo tem que mostrar ao país que a economia melhorou apesar de o bolsonarismo bater bumbo dizendo que não. Enquanto não fizer isso com força, vai receber críticas.

Lula conseguiu ser eleito porque uma parte dos eleitores, que não são petistas, nem bolsonaristas, também acreditou em sua promessa de dias (de compras) melhores.

A percepção da melhora da qualidade de vida será o elemento que vai garantir ou não a Lula o favoritismo em 2026. Se estiver boa, vai ter governador de estado que irá preferir a reeleição garantida do que disputar com o petista. Caso contrário, Lula terá companhia de peso.

Quem mais perdeu com as derrotas do governo no Congresso foi o país

Quem perde quando o Congresso, o mais reacionário da história do país desde o fim da ditadura militar há 39 anos, acaba com a saída temporária de presos para visitar as famílias em feriados e datas especiais? Em 95% dos casos, eles retornam aos presídios. Uma boa parte deles sequer ainda foi julgada.

O crime organizado agradece ao Congresso pelo que ele fez. É dessa mão de obra barata e sem esperança de redenção que lota os presídios que o crime organizado se alimenta em 25 dos 27 estados da Federação onde está presente e ativo. A medida é um incentivo a novas rebeliões com sequestros e mortes de agentes da ordem.

Quem perde quando o Congresso, dominado pelo Centrão em aliança com a extrema-direita bolsonarista, aprova o projeto de decreto legislativo que permite a instalação de clubes de tiro a pouca distância de escolas? E quem perde quando ele impede que seja criminalizada a distribuição de notícias falsas que atentam contra a democracia?

Jamais imaginei que viveria para ver deputados assomarem à tribuna da Câmara e defenderem o direito de mentir. Foi o que fez, por exemplo, a deputada Bia Kicis (PL-DF), uma bolsonarista raiz, quando disse: “Infelizmente, a verdade é a seguinte: o mundo está cheio de mentirosos e mentir não é crime. Pode ser pecado, pode ser feio, pode ser imoral, mas mentira não é crime. Estão perseguindo, querendo cassar mentirosos, é isso?”

A deputada admite que mentir pode ser pecado, ser feio, ser imoral, mas reclama da eventual cassação de mandatos de políticos que disseminam mentiras. Foram mais de 300 votos a favor do direito de mentir no Congresso, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras Municipais e nas redes sociais. Como se mentir não fizesse mal.

Mentiras, ditas por quem foi eleito pelo povo que não elegeria um mentiroso confesso, podem matar. Lembrai-vos da pandemia da Covid. Quantas pessoas não morreram por terem dado ouvidos às mentiras do presidente da República sobre o uso de drogas ineficazes contra o vírus? Não foi por ignorância que ele mentiu.

Mentiras, ditas por personagens de relevo, podem estar na base de tentativas de golpes de Estado, sejam elas bem ou mal sucedidas. Não foi o que vimos com Trump ao incentivar a invasão do Capitólio por que lhe teriam roubado a reeleição? E aqui com Bolsonaro ao dizer, sem provas, que as urnas eletrônicas eram inseguras?

O governo Lula colheu, esta semana, no Congresso, essas e outras fragorosas derrotas, e tem culpa no cartório. Mas não foi ele quem mais perdeu com isso – foi o Brasil.


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