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Poder

Desculpas do presidente sobre venezuelanas soa a fakenews

Lula: Bolsonaro se comporta como se fosse pedófilo

Publicado em 19/10/2022 10:43 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Brasil de Fato - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Bolsonaro postou, na terça (18), um vídeo com uma tentativa de pedido de desculpas pelo episódio em que declarou que “pintou um clima” com meninas venezuelanas de 14 anos – na ocasião, ele sugeriu que elas estariam fazendo programa. De forma surreal, o presidente usou o seu pedido de desculpas para criticar quem ficou indignado por suas falas, consideradas abjetas.

“Se as minhas palavras, que, por má-fé, foram tiradas de contexto, de alguma forma foram mal entendidas ou provocaram algum constrangimento às nossas irmãs venezuelanas, peço desculpas”, afirmou ao lado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e da representante no Brasil de Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, Maria Teresa Belandria, mostrando que não consegue pedir desculpas não-condicionadas.

Lembremos o que ele havia dito:

“Parei a moto numa esquina, tirei o capacete e olhei umas menininhas, três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas num sábado numa comunidade. E vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei, ‘posso entrar na tua casa?’ Entrei”, afirmou Bolsonaro.

O presidente reclama que suas falas foram retiradas de contexto e que ele não praticou pedofilia. Tenta, dessa forma, se livrar de uma coisa terrível que disse afirmando que não fez algo mais terrível ainda.

Mas a questão central não é o que ele teria feito, mas o que ele disse. A expressão “pintou um clima” usada por um homem de 67 anos para se referir a meninas de 14 é abjeta em qualquer contexto. Reportagem do UOL, aliás, já havia demonstrado que não havia exploração sexual de adolescentes, mas uma ação de uma ONG dando um curso sobre maquiagem e estética.

O governo Bolsonaro, seguindo o padrão da extrema direita global, colocou a ameaça da pedofilia como uma das pautas centrais, incutindo nas famílias um medo de que existe um complô de esquerda para desvirtuar as crianças. A senadora eleita Damares Alves já havia implementado a tática ao mentir afirmando que crianças de três anos tinham os dentes arrancados na Ilha de Marajó para poderem fazer sexo oral sem morder.

Por sorte de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes, do Tribunal Superior Eleitoral, a quem o presidente chama de “canalha” e “vice de Lula”, mandou a campanha do petista tirar do ar as peças em que sugeriria pedofilia por parte de Jair pouco antes do debate de domingo. Afinal, há uma diferença entre declarações abjetas e práticas abjetas. E isso foi usado por Bolsonaro no debate para se vitimizar.

Mas o TSE, em nenhum momento, afirmou que Bolsonaro não disse o que ele de fato disse. E ele ainda está devendo uma desculpa por ter dito que “pintou um clima” com adolescentes.

Ele se diz “indignado” porque as meninas teriam sido expostas por conta da repercussão. Esquece que foi ele quem as tornou alvo ao dar a declaração e sugerir que estivessem sendo sexualmente exploradas.

Custa simplesmente pedir desculpas decentes, presidente? Custa se preocupar de fato com as meninas e não apenas com sua campanha?

Lula: Bolsonaro se comporta como se fosse pedófilo

Lula fez numa conversa com o podcast Flow o que poderia ter feito no debate com seu rival, no último domingo: explorou politicamente a fala de Bolsonaro segundo a qual “pintou um clima” entre ele e adolescentes venezuelanas, na periferia de Brasília. Indagado se considera o presidente pedófilo, Lula usou contra Bolsonaro o veneno bolsonarista da maledicência: “Ele se comporta como se fosse”.

Jogando num podcast, o campo preferido de Bolsonaro, Lula invadiu a rede depois do chute, para se certificar de que a bola havia entrado: “O comportamento dele no caso das meninas venezuelanas é o comportamento de um pedófilo”, acentuou. “Ele percebeu isso. Por isso ficou apavorado.”

Faltou explicar por que o chute não foi desferido no debate da noite de domingo, quando Lula teve a oportunidade de cutucar Bolsonaro com o pé, para ver se ele mordia.

Alexandre de Moraes, chefe do TSE, havia proibido o petismo de acusar Bolsonaro de pedofilia. Mas Lula não acusou, apenas insinuou. Exatamente como faz o rival quando sugere que ele pode fechar igrejas, descriminalizar o aborto e liberar as drogas se chegar novamente ao Planalto.

A estratégia de Lula serve para proporcionar a Bolsonaro a sensação desagradável que assalta o líder político quando ele não pode dizer com certeza se as pessoas o estão seguindo ou perseguindo nas redes sociais.

Venezuelanas se recusam a gravar vídeo e Bolsonaro pede desculpas ao lado de “embaixadora”

A campanha de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição tenta conter os danos e explicar o vídeo em que o presidente afirmou que “pintou um clima” entre ele e jovens venezuelanas com idades entre 14 e 15 anos, e a insinuação, feita por ele, de que as meninas se prostituíam.

Ao lado da esposa, a primeira dama Michelle Bolsonaro, e da advogada e professora universitária Maria Teresa Belandria, apresentada como “embaixadora” da Venezuela no país, o presidente se contradisse, e afirmou que sabia que as meninas eram trabalhadoras. Belandria foi nomeada pelo autoproclamado presidente venezuelano Juan Guaidó, e recebeu o reconhecimento do governo brasileiro em 2019.

O vídeo é encerrado por uma fala de Michelle Bolsonaro. A “embaixadora”, por sua vez, permanece em silêncio durante toda a gravação, que durou mais de dois minutos e foi imediatamente replicada por perfis favoráveis ao presidente. A mensagem também foi alvo de críticas.

A gravação foi divulgada depois que a equipe do presidente tentou fazer com que algumas das meninas que foram citadas por ele publicassem mensagem dizendo que tudo havia sido um mal entendido, de acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. A tentativa, porém, foi frustrada, já que as jovens e suas famílias ficaram com receio de uma exposição ainda maior.

O “pedido de desculpas”

No vídeo desta terça, o presidente, que aparentava estar lendo um texto, afirma que “as palavras que eu disse refletiram uma preocupação da minha parte no sentido de evitar qualquer tipo de exploração de mulheres que estavam vulneráveis”.

Bolsonaro afirmou, ainda, que as dúvidas sobre a real situação das meninas venezuelanas expostas “foram quase imediatamente esclarecidas” após uma visita da então ministra da Mulher, Damares Alves. Mesmo assim, ele seguiu replicando a história e fazendo insinuações (ou efetivamente afirmando) que as meninas se prostituíam.

“Elas estão reconstruindo suas vidas no Brasil, e ajudam outras venezuelanas refugiadas a encontrar profissão”, afirmou o presidente. “Se minhas palavras que, por má fé, foram tiradas de contexto, de alguma forma foram mal entendidas ou provocaram algum constrangimento às nossas irmãs venezuelanas, peço desculpas”, complementou, tentando repassar a quem ouviu a responsabilidade pelo que ele disse.

Bolsonaro insinuou exploração sexual de meninas em outras oportunidades

O caso ganhou destaque depois de uma entrevista de Bolsonaro a um podcast na última sexta-feira (14). Aquela, porém, não foi a primeira vez que o capitão reformado contou o caso. Ele falou sobre o assunto em pelo menos duas outras oportunidades.

Convidado a participar de uma feira do setor de alimentos e bebidas, Bolsonaro aproveitou a oportunidade para fazer um de seus discursos tradicionais. Misturando o habitual negacionismo da pandemia com outros assuntos, ele narrou o episódio.

Em setembro, o presidente concedeu entrevista a um pool de podcasts, e também falou sobre o tema. A entrevista foi recuperada e publicada nas redes sociais nesta terça por diferentes perfis, como o de Janja, esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


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