22/02/2024 - Edição 525

Poder

Derrota para Lula leva bolsonarismo a assumir seu desprezo pela democracia

Pressionado, Bolsonaro pede fim dos bloqueios em rodovias, mas incentiva golpistas

Publicado em 03/11/2022 9:59 - Leonardo Sakamoto e Jamil Chade (UOL), DW – Edição Semana On

Divulgação Valter Campanato - Abr

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Nem bem Jair Bolsonaro perdeu a eleição e a extrema direita que o apoia cerceou o direito de ir e vir de milhões de brasileiros, usou crianças como escudo humano em São Paulo e pediu golpe militar com expurgo de adversários. Em outras palavras, a derrota levou o bolsonarismo a se despir da fantasia e assumir publicamente seu desprezo pela democracia.

Agora, imaginem o que aconteceria se ele tivesse ganho. Por mais incômodo que pareçam, os bloqueios de caminhoneiros bolsonaristas e as manifestações de extrema direita que reuniram milhares de pessoas na frente dos quartéis com o intuito de contestar as eleições não se comparam ao que seria a assustadora instalação de um estado autoritário. O que certamente ocorreria com mais quatro anos de Bolsonaro, pelo que é possível ver pelo comportamento de seus seguidores mais fiéis.

Mas uma tentativa de um golpe (que já nasce inviável devido ao reconhecimento da vitória de Lula pelas instituições brasileiras, os governos estrangeiros e o grosso dos investidores e do empresariado) é menos preocupante do que um golpe em si. Isso, nossa democracia suporta.

Durante quatro anos, o malabarismo retórico de aliados do presidente tentou vender a falsa ideia de que eram apenas alguns poucos malucos que defendiam “intervenção militar” nas manifestações bolsonaristas. As imagens em frente aos Comandos Militares do Leste e do Sudeste, no Rio e em São Paulo, respectivamente, mostraram que não são. A diferença é que, agora, seguidores radicais de Jair perderam o pudor de assumirem seu golpismo. E, em alguns casos, o seu fascismo.

Bolsonaro adubou seu rebanho com uma realidade paralela através de narrativas enviadas por redes sociais e aplicativos de mensagens. Praticamente, proibiu o consumo de informação por outras fontes, o que poderia ter fornecido a eles uma visão mais plural da sociedade em que vivem.

Ao mesmo tempo, preparou terreno para insurreição ao vender a seus seguidores mais radicais mentiras como aquelas que contaram que urnas eletrônicas eram fraudadas, pesquisas manipuladas e até inserções de propaganda eleitoral foram roubadas. Ensinou que deveriam aceitar qualquer teoria da conspiração que vá ao encontro das “verdades” que ele fomentou.

Agora, bem treinados, terão muita utilidade em 2023, podendo ser enviados por ele à rua para emparedar o governo diante de mentiras.

Mas se o comportamento golpista diante da derrota para Lula é uma demonstração de força da extrema direita, também mostra ao restante da sociedade a verdadeira face desse grupo – que atropelaria a democracia se pudesse e, depois, ainda daria ré para passar por cima dela uma segunda vez.

Para muitos brasileiros, o comportamento de mau perdedor tanto do presidente da República (que não teve coragem de reconhecer a derrota) quanto de seus seguidores (que não aceitaram o resultado das urnas) fez com que passassem a ser vistos como “golpistas” e “intolerantes” pela maioria moderada da população.

Acompanho grupos de eleitores de Bolsonaro no WhatsApp e tão logo a bandeira do golpe foi hasteada, um intenso conflito foi gerado neles. Pois uma minoria estridente e antidemocrática tentou, sem sucesso, convencer os outros que deveriam exigir que os militares saíssem às ruas. Ouviram como resposta que as eleições haviam acabado e que esse tipo de confusão era ruim para o Brasil.

Esse eleitor de Bolsonaro que não concorda com violência e não deseja quebra institucional vai desempenhar um papel importante a partir do ano que vem. Eles são as pessoas que não votaram em Lula, mas preferem um governo escolhido pelas urnas do que um regime imposto pela força. Não podem ser tratados como golpistas, mas sim como democratas – sob o risco de serem acolhidos pelos golpistas.

Esses sim não podem ter tolerados em sua intolerância sob o risco de a intolerância vir, em algum momento, destruir a tolerância.

As instituições precisam desde já punir quem está financiamento os bloqueios de caminhoneiros (sim, eles contam com empresários com recursos) e identificar quem são as lideranças que incentivam os atos golpistas em frente aos quartéis. E leva-los à Justiça – afinal, quem conspira contra a democracia não pode ficar solto por aí.

Não se trata apenas de acalmar os ânimos após a eleição, mas garantir que o país não seja um campo de batalha dominado pela mentira e o ódio a partir de 2023, desviando as prioridades nacionais, como o combate à fome, à inflação, ao desmatamento, ao baixo crescimento, à desigualdade social.

Bolsonaro pede fim dos bloqueios em rodovias mas incentiva golpistas

Depois de três dias de protestos nos quais manifestantes da extrema direita bloquearam estradas em diferentes partes do país, o presidente Jair Bolsonaro veio a público na quarta-feira (2) para pedir para que seus apoiadores desobstruíssem as rodovias.

Grupos bolsonaristas descontentes com a derrota do atual mandatário para Luiz Inácio Lula da Silva, no último domingo, vêm impedindo o tráfego em várias estradas pelo país. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) disse ter multado 2,9 mil motoristas que bloqueavam as rodovias. Até esta quarta-feira, o valor total das multas chegou a 18 milhões de reais.

Em mensagem de vídeo divulgada no canal da Presidência da República no YouTube e por aliados do presidente, Bolsonaro fez um apelo para que os manifestantes desobstruíssem as estradas. “Isso daí, no meu entender, não faz parte de manifestações legítimas”, disse Bolsonaro.

“Então tem que respeitar o direito de outras pessoas que estão se movimentando, além de prejuízo à nossa economia”, afirmou.

Bolsonaro se disse “tão chateado e tão triste” quanto seus apoiadores pela derrota nas urnas, mas pediu que eles tenham “a cabeça no lugar”. “Tem algo que não é legal: o fechamento de rodovias pelo Brasil prejudica o direito de ir e vir das pessoas, está lá na nossa Constituição e sempre estivemos dentro das quatro linhas”, afirmou.

Ele destacou que as manifestações são espontâneas e legítimas, desde que não afetem o direito de ir e vir das outras pessoas. “Proteste de outra forma, em outros locais, que isso é muito bem-vindo, faz parte da nossa democracia.”

A PRF informou que o número de estados com estradas bloqueadas caiu para 14 na noite desta terça-feira.

Após se manter calado por quase 48 horas na esteira da derrota para Lula, Bolsonaro fez um rápido pronunciamento no Palácio do Alvorada nesta terça-feira, onde reclamou de “injustiças” que teria sofrido na campanha eleitoral, mas não pediu claramente o fim dos protestos nas estradas.

O presidente em fim de mandato vinha sendo pressionado por várias frentes, inclusive por alguns de seus aliados mais próximos, para que viesse a público pedir a liberação das rodovias.

Governadores que o apoiaram em sua tentativa frustrada de reeleição atuaram em seus estados para liberar as estradas.

Rodrigo Garcia (SP), Claudio Castro (RJ) e Romeu Zema (MG) seguiram a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ordenaram às polícias militares de seus estados que agissem para desobstruir as rodovias.

O governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi um dos que trabalhou para convencer Bolsonaro a fazer uma manifestação de pacificação e pedir publicamente para que os manifestantes liberassem as estradas.

Terraplanismo político

Acusada de ser “comunista”, de atuar em nome do interesse de Luiz Inácio Lula da Silva, de estar ao lado do regime venezuelano e de ser um dos arautos do globalismo, a ONU presenciou na quarta-feira (2) um protesto por parte de 20 brasileiros em Genebra que pediam a ação da entidade e denunciavam uma suposta “fraude” na eleição brasileira.

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e observadores estrangeiros garantiram que o processo eleitoral no Brasil não demonstrou qualquer irregularidade, enquanto até mesmo aliados estrangeiros de Jair Bolsonaro reconheceram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

No país, vozes como a do vice-presidente e senador eleito, Hamilton Mourão (Republicanos), acenaram para o fato de que o processo eleitoral estava encerrado.

Mas, para esses brasileiros, a suposta fraude ocorreu. Carregando cartazes pedindo a “intervenção federal” e “exército já”, o grupo vestia as camisas da seleção brasileira diante do prédio de uma entidade que fez alertas contra eventuais intervenções no processo eleitoral brasileiro e que já declarou sua chancela ao processo de escolha do novo presidente.

Ao conversar com a reportagem do UOL, os integrantes do protesto insistiam ainda em atacar a suposta censura do TSE contra a imprensa e atos que estavam “calando jornalistas”.

“Queremos pedir uma intervenção militar. Não é justo que a população sofra com uma eleição que não é legítima”, disse um deles. “Queremos que as forças armadas intervenham”, apontou.

Eles ainda apontaram que queriam pedir que a entidade fosse “realmente imparcial” e que “desse esse apoio à população brasileira, que pede transparência”.

“A ONU ela tem essa força para poder intervir contra o poder que atua contra a população brasileira”, disse um dos membros do grupo.

Perguntados sobre o fato de a ONU ter passado os últimos quatro anos denunciando as violações de direitos humanos por parte de Bolsonaro, os brasileiros colocaram em questão o que foi denunciado. “Será que essa crítica tem fundamento? Ou foi um ativismo da imprensa?”, perguntou um deles.

Desde 2019, a ONU tem denunciado a violência promovida pelo governo, a desinformação usada em campanhas eleitorais, os ataques contra povos indígenas, o encolhimento do espaço cívico, as ameaças contra jornalistas, o negacionismo climático de Bolsonaro e dezenas de outros temas.

Há dois meses, a então alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, ainda criticou Bolsonaro por seus ataques contra o TSE.

A ONU ainda foi alvo de duros ataques por parte dos membros do governo Bolsonaro, que acusavam a entidade de ser de esquerda, de defender uma agenda internacional contrária à soberania e de defender um suposto “globalismo”.

Perguntados sobre o discurso de Bolsonaro, proferido na terça-feira, o grupo elogiou o presidente. “Um grande chefe de estado e que sabe respeitar a Constituição. Ele respeita a democracia”, afirmaram.

Para um deles, “há uma ditadura por parte da esquerda, que cala jornalista e usa a máquina pública a favor de um ex-presidente”.

Questionados sobre o fato de a Suíça já ter reconhecido o processo eleitoral brasileiro, a explicação foi outra. Para eles, a culpa é a da imprensa, que “mostrou Lula como inocentado”.

Perguntados se, então, o governo da Suíça foi enganado pela imprensa, a resposta foi contundente: “com certeza”.


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