23/04/2024 - Edição 540

Poder

Derrapadas no Planalto

A articulação política de Lula tropeça: dois ministérios relevantes mantêm vínculos perigosos com o bolsonarismo e a Casa Civil opera mal o poder interno

Publicado em 13/06/2023 10:12 - Luís Costa Pinto (Brasil 247), Alex Mirkhan (Brasil de Fato), Chico Alves (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Os ministros da Casa Civil, Rui Costa, das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e da SECOM, Paulo Pimenta, acompanhados dos líderes do Senado, senador Randolfe Rodrigues, e da Câmara, José Guimarães durante entrevista após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

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Um funcionário terceirizado da Secretaria de Comunicação da Presidência da República tem acesso a toda a agenda de compromissos externos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e recebe missões como organizar entrevistas coletivas no exterior, ou, até, criar canais exclusivos de interlocução com formadores de opinião da mídia internacional por meio dos quais o Chefe de Governo brasileiro tenta obter apoio externo para suas pautas de transição energética, defesa do Meio Ambiente, combate às invasões de madeireiros e garimpeiros em terras indígenas e promoção da paz mundial. Esse mesmo funcionário, porém, mantém diálogo franco e aberto com Ricardo Salles, o deputado de extrema-direita do PL paulista que foi “ministro” do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro e caiu em razão de seu consórcio de interesses com madeireiros e garimpeiros que devastam a Amazônia. Além disso, Salles é o relator da “CPI do MST” criada pelos extremistas radicais da Câmara dos Deputados para tentar conter e assustar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Não há muro de contenção entre o que ouve, vê e articula no Palácio do Planalto comandado por Lula o funcionário contratado por uma empresa terceirizada, mas que também serviu de forma risonha e franca na trágica gestão de Bolsonaro.

Ouviu-se um rol tremendo de reclamações na base governista, sobretudo nas redes sociais, com reclamações de militantes do PT, do PSol, da Rede e do PCdoB quando o vice-presidente Geraldo Alckmin surgiu todo gabola numa foto ao lado do ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro, Fábio Faria, que teve o comando da Secom durante os dois últimos anos de mandato do ex-presidente que deve se tornar inelegível e imprestável para a política nas próximas semanas, depois de julgamento do Tribunal Superior Eleitoral. Faria, que é genro do empresário Sílvio Santos e tem pretensões de herdar o comando do SBT, atualmente é vice-presidente de Relações Institucionais do banco BTG Pactual. Enquanto foi ministro de Jair Bolsonaro, o genro de Silvio Santos perfilava na linha de frente de perseguições políticas, publicitárias e midiáticas ao PT, a Lula, à esquerda em geral e a veículos de comunicação que fugiam ao controle de pauta imposto pelo bolsonarismo. A transição daquele Fábio Faria de fidelidade canina ao ex-presidente para esse Fábio Faria que se vende como “amplo” e posa ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin se deu na velocidade da luz de um frame de vídeo porque as assessorias de comunicação de todos eles estão entrelaçadas – desde o antigo Governo, até o atual; do vice e ministro Alckmin e do BTG.

Há pouco mais de um mês, o ministro-chefe da Secom de Lula, Paulo Pimenta, esteve na redação do jornal Folha de S. Paulo para protestar contra uma campanha persecutória esdrúxula e injusta que vinha enfrentando por parte da publicação do banqueiro Luiz Frias. A base da campanha eram denúncias – vazias, falsas – de “irregularidades” na declaração de imposto de renda de Pimenta. As irregularidades jamais existiram e Paulo Pimenta sempre esteve com a razão. Contudo, convencido por terceiros de fora do Palácio e do PT de que deveria ampliar seu acesso aos veículos de mídia, Paulo Pimenta incorporou ao grupo que o acompanhou na blitz à Folha dois profissionais de “gestão de crise” e de comunicação do mercado de São Paulo que figuram na base da estrutura de comunicação política e de gestão do governador paulista Tarcísio de Freitas (PL), um dos maiores adversários políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os nomes do rol de acompanhantes de Pimenta na visita ao jornal foram publicados numa coluna da diretoria da empresa. O ministro não sabia de quem se tratava – conheceu-os horas antes da visita. Desde então, a dupla foi agregada ao grupo de aconselhamento e de troca de ideias de quem aconselha Pimenta. Mais uma vez, não se estabeleceu muro de contenção às informações e às estratégias traçadas entre funcionários terceirizados – mesmo em se tratando de jogo político.

Entre a penúltima e a última reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central, quando foi mantida a injustificável e depressora taxa básica de juros Selic de 13,75%, Roberto Campos Neto, presidente do BC, chamou uma reunião com três dealers de opinião e análise de pesquisas. Todos tinham cumprido o mesmo papel sob os períodos de Michel Temer e Jair Bolsonaro na presidência. A reunião foi marcada e acompanhada pela estrutura empresarial que presta serviços de comunicação terceirizados ao Palácio do Planalto e, por isso, tem acesso a todos os levantamentos de pesquisa encomendados pelo Governo e pelo PT. Esses levantamentos foram destrinchados naquela reunião, quando Campos Neto, um crítico ácido da linha desenvolvimentista e expansionista que o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, querem adotar, foi informado da aderência da opinião pública aos ataques do presidente e do ministro aos juros altos. Sem nenhum cuidado, informações do “cliente A” transitaram para o “cliente B” e auxiliaram no traçado de uma operação de contenção de danos à imagem de Campos Neto.

O Governo Federal, sob Lula, traçou como uma de suas estratégias centrais rever a privatização da Eletrobrás, empresa pública entregue ao controle da iniciativa privada sem que houvesse leilão e sequer discussão transparente do processo licitatório. Atuando em duas frentes – no Congresso e no Poder Judiciário – o Palácio do Planalto tenta retomar o controle da antiga estatal. O comando privado da Eletrobrás, por sua vez, preparou-se para uma batalha midiática em torno do tema e contratou para sua gestão de comunicação uma agência publicitária e uma empresa de administração de crise que se entrelaçam com a comunicação pública do próprio Palácio do Planalto e dos ministérios das Minas e Energia e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Novamente: não foi levantado um muro de contenção sanitária entre informações e interesses públicos e privados.

Por fim, para sair da coleção de ações ingênuas na comunicação de Governo que levam profunda confusão aos resultados pretendidos na área, o Governo atual começa a sentir os efeitos da falta de recursos para o setor. Atualmente, na gestão Lula, estão sendo pagas contas de comunicação e publicidade que ficaram atrasadas, como “restos a pagar”, do período de Jair Bolsonaro (quando Fábio Faria era o gestor da área). Exceto aquelas ações de mídia e comunicação executadas pela administração indireta – bancos públicos, estatais etc – acumulam-se os atrasos de pagamento às agências publicitárias e aos veículos de comunicação que veiculam a publicidade do Governo em curso. Os atrasos começam a entrar na faixa dos 120 a 150 dias e promovem um anticlima midiático que se converte em revés crescente para a imagem do presidente, de sua equipe e de suas prioridades de ação.

No último domingo, 11 de junho, o jornal O Globo publicou uma nota na coluna do repórter Lauro Jardim dando conta da “estratégia de advogados de alguns dos envolvidos” na Operação Hefesto (aquela que fez busca e apreensão nas casas do operador do presidente da Câmara, Arthur Lira) a fim de pedirem a transferência das investigações e da ação para o Supremo Tribunal Federal porque um deputado federal havia sido flagrado recebendo dinheiro em espécie dos entregadores de grana em espécie das franjas do poder operado por Lira. O deputado não detinha mandato quando foi flagrado pela operação, em monitoramento da Polícia Federal empreendido ainda no ano passado – sequer estava diplomado. O fato, por si só, desobriga a assunção do inquérito ao STF, como deseja a defesa de Arthur Lira, certa de que detém controle sobre ações que transitem nos tribunais superiores. A coluna do jornal carioca foi usada por um advogado do próprio Arthur Lira para difundir a tese com “sujeito indeterminado”, pois advogados de alguns investigados resistem a tirar o inquérito de Alagoas, onde ele se iniciou.

Na mesma edição de O Globo a página 5, considerada a mais nobre dos domingos, expôs intrincada reportagem derrogando ações e estratégias do ministro-chefe da Articulação Política, Alexandre Padilha, e lançando luz e dando voz ao líder do Governo na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE), visto no Palácio do Planalto – e não só por Padilha – como um ventríloquo de Arthur Lira no Governo Federal antes de encarnar a difícil personagem de líder de Lula num Parlamento tomado pelo “centrão” político amorfo e pela extrema-direita. As duas pautas – a nota de Jardim e o embaraço político que detrata Padilha – não podem ser dissociadas e integram o conjunto de ações destinadas a preservar a ascendência de Lira sobre a agenda política nacional. Não há muro de contenção, também no Congresso, para os ataques aéreos e as minas deixadas pelos bolsonaristas nas trincheiras de articulação política do Governo Lula.

O ministro Alexandre Padilha não é interlocutor da confiança de Arthur Lira, e isso é um ponto positivo no currículo do ministro palaciano. O presidente Lula errou, ainda na fase de transição entre as administrações dele e do nefasto Jair Bolsonaro, quando admitiu (convencido, entre outros, por José Guimarães) estabelecer um canal preponderante de negociações com o Congresso nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado. Lula devia ter estabelecido que essa interlocução seria feita obrigatoriamente com os presidentes dos partidos e seus líderes. Operando da forma como operou, terminou por conferir superpoderes a Lira e ao senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Fabricado com material diferente (e melhor) que o do presidente da Câmara, o presidente do Senado sabe usar o poder com comedimento e o divide sobretudo com os senadores Jaques Wagner e Davi Alcolumbre. No caso de Alcolumbre, isso é um problema – entretanto, essa frente de análise não será abordada aqui, nem agora, porque os problemas advindos dela não convergem para explicar o furdúncio em que estão a Comunicação e a Articulação Política do Governo.

Há um mês, logo depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometer um escorregão de natureza política em discurso em Fortaleza (CE), quando lançava o programa de ampliação das escolas públicas que ofertam o horário integral para seus alunos, a assessoria do ministro da Cava Cilvil disparou um whatsapp para diversos jornalistas no qual o ministério se jactava de Rui Costa ter sido “confirmado” como “primeiro ministro” pelo presidente da República. Lula afirmou, ali, que Costa atuava como tal, um “primeiro ministro”, porque controlava os demais colegas de ministério “melhorando” até as demandas e pleitos que eles teriam para com a Presidência.

Nenhum Palácio ou Ministério de Brasília aceita que haja peso superior para um ministro em detrimento de outro, mesmo que isso ocorra com frequência em diversos governos e seja da natureza da operação de poder. No lugar de driblar a inconfidência inapropriada do chefe, por meio de sua assessoria, Rui Costa amplificou-a. O ato repercutiu entre outros assessores, de outras pastas, e chegou aos titulares delas – isso em nada contribuiu para a formação da “persona brasiliense” do ministro da Casa Civil, que a partir de então escorrega na língua sempre que tenta demonstrar ser apenas um “humilde servo de Lula” a organizar as demandas ministeriais. Há uma semana, discursando no interior da Bahia, Costa cometeu o bobo desatino de criticar a transferência da capital da República para Brasília – um tema superado há décadas. Ouviu provocações e críticas duras de dentro do próprio PT, mas demorou 72 horas até formalizar um pedido de desculpas envergonhado. O ministro da Casa Civil não pronunciou o conjunto de palavras “errei, bola para a frente” que sempre se espera nessas horas. Ele cicatriza as feridas ao indicar humildade, mesmo que disfarçada, de quem o pronuncia. Ao contrário, ficou como que empalado e empertigado pela própria língua.

A ingenuidade e a arrogância têm sido a marca registrada da trinca de ministros palacianos do presidente Lula – na Secom, na Articulação Política e na Casa Civil. Os titulares desses ministérios não podem crer que suas estratégias de atuação estão sempre certas e que o erro estaria na cabeça dos outros. Paulo Pimenta, Alexandre Padilha e Rui Costa são três dos melhores quadros políticos da atual safra do PT. Contudo, a autossuficiência estéril com que atuam não os permite ver nem a Esplanada dos Ministérios, nem o País, em 360º. Tampouco ajuda o conjunto do Governo ou o presidente Lula em especial. Mudanças são necessárias, nem que se dêem entre eles mesmos e na repartição ou redivisão de suas funções – desde que abram os olhos para os inimigos internos que existem, estão à espreita e têm pontes com a tragédia política e administrativa promovida por Jair Bolsonaro.

Lula enfrenta dilemas e possíveis trocas de ministros para blindar agenda ambiental na Câmara

Com sinais emitidos pelo presidente Lula e seus aliados, o governo federal aproveitou a curta semana de feriado de Corpus Christi para reposicionar a abordagem junto ao Parlamento. Lula se aproximou da articulação política e se movimenta para angariar apoios através das primeiras trocas ministeriais do atual mandato, que devem ser anunciadas nos próximos dias.

Se já havia indícios de que o Congresso Nacional não permitiria vida fácil ao governo petista, todo o nó ficou mais evidente no dia 31 de maio. A poucas horas do fim da validade, finalmente a Câmara dos Deputados aprovaria a Medida Provisória que reorganizou a administração federal com um total de 37 ministérios.

A decisão era considerada simples e elementar, mas se tornou uma vitória de gosto amargo pelas concessões feitas, considerando a desidratação de alguns ministérios-chave e a liberação de R$1,7 bilhão em emendas parlamentares no dia anterior. Encorajados pela numerosa Frente Parlamentar da Agropecuária, os opositores também abriram verdadeiras trincheiras para se contrapor aos projetos de preservação do meio ambiente e aos direitos dos povos originários.

À imprensa, a oposição alega haver “problemas de articulação política” e não escondem o descontentamento com as atuações dos ministros Alexandre Padilha [Relações Institucionais] e Rui Costa [Casa Civil]. Para políticos governistas, a intenção é forçar uma chamada “política de varejo”, ao gosto do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), buscando negociar a aprovação de projetos votação por votação, inclusive com liberações de emendas parlamentares.

Espera-se que uma troca de ministros, acatando sugestões de alguns líderes, surta efeitos positivos para a consolidação de uma maioria permanente, ao menos, para as votações mais cruciais ao governo em temas como economia e políticas sociais. Porém, para a socióloga Joyce Luz, professora na Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo, o problema reside na atual conjuntura pós-Bolsonaro.

“Se a gente considerasse o PSD (Partido Social Democrata) e o União Brasil fazem parte da coalizão, porque cada um tem 3 ministérios, a base seria sólida. Acontece que o PSD e o União Brasil, mesmo assim se declararam independentes, falaram que não iriam votar com o governo necessariamente só porque tinham cargos. Aí veio a negociação de recursos, porque a gente veria um congresso que passou os últimos 4 anos negociando pautas votação a votação e se acostumou a receber recursos em troca”, aponta.

O mesmo fenômeno é apontado pelo deputado federal Túlio Gadêlha (Rede Sustentabilidade-PE), que destaca o caráter bem mais propositivo do atual poder Executivo. “O vácuo político deixado pelo governo Bolsonaro deixou que o centrão conseguisse impor o orçamento secreto, quase R$ 20 bilhões por ano em emendas RP9. E toda essa frouxidão por ausência de políticas públicas, ela não existe nesse governo”, afirma.

O deputado listou alguns programas sociais no horizonte que exigem atenção e orçamento, como o Minha Casa Minha Vida, a expansão das universidades com aumento do número de bolsistas e o Bolsa Família que passa a receber mais de 50 reais por criança. “Por isso, parece que o Congresso vai estar sempre insatisfeito, porque não existiu um processo de ‘desmame’ das emendas RP9. Mas essa é uma reflexão que a gente busca fazer com o presidente Lula, não para colocar orçamento para parlamentares, mas para construir um diálogo mais próximo com essa base que nós acreditamos que pode ser um núcleo duro para aprovação de projetos”, defende.

‘Semiparlamentarismo’ herdado e difícil de reverter

As RP9 são as chamadas emendas de relator, mais conhecidas como “orçamento secreto”, usadas sem qualquer controle pelos deputados no repasse de dinheiro público aos seus redutos eleitorais. O dispositivo, que foi normalizado e expandido no governo passado, sob a arquitetura de Lira, foi vetado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em dezembro de 2022 por considerá-lo inconstitucional e pouco transparente.

Esse montante de quase R$ 20 bilhões anuais provenientes da União continuou chegando aos mesmos destinatários por duas novas modalidades. Uma delas foi a de emendas individuais, que compartilhou R$ 9,8 bi de forma igualitária entre todos os congressistas, e que pressupõe maior transparência quanto à destinação de recursos.

Outra parte, porém, passou a avançar de forma menos controlada através de outra rubrica, a RP2, usada na destinação de verbas dos ministérios e que também não prima pela transparência. Questionado pela imprensa sobre o assunto no Palácio do Planalto, no dia 5, o senador Jaques Wagner (PT-BA) enxerga uma ameaça ao próprio sistema político vigente.

“Se for por aí a gente não tem limite. Se é porque está fazendo falta, então qual é o teto? Aí é melhor ter a coragem de partir para o parlamentarismo. Não estou dizendo que está certo ou errado. Mas se é para o Congresso administrar toda a capacidade de investimento do Estado, então tem que ser um governo do Parlamento, e não é o caso no presidencialismo… quando se faz uma coisa tem que se fazer completa”, ironizou.

Para tentar estabelecer um clima mais harmonioso com o poder responsável pela legislação do país, Lula tem assumido uma relação mais próxima com os líderes de partidos e chegou a se reunir com Lira no dia 5. Responsável por definir o ritmo de pautas que entram na Casa, o deputado alagoano será o termômetro para a eficiência de um aguardado redesenho ministerial.

É possível que, nos próximos dias, a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, e o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, dois ministros ligados ao União Brasil, sejam substituídos por outros nomes exigidos para uma adesão mais efetiva do partido ao governo.

Correligionários de Lula, assim como Wagner, não negam a possibilidade de trocas motivadas por “desempenho ou ruptura política”. “Ninguém que é ministro é apenas técnico, todo mundo é técnico e político. Então, o desempenho ocorre em duas acepções: o primeiro é entregar o que a pasta demanda e o segundo é entregar uma relação política”, disse o ex-governador da Bahia.

Para Joyce Luz, há de se considerar a consolidação da influência de outros nomes do União Brasil, como o do senador Davi Alcolumbre (PA) e o deputado Elmar Nascimento (BA), caso nomes ligados a eles assumam ministérios. “Precisa ver se essas mudanças vão agradar o Arthur Lira, né? Se não agradarem, aí complica um pouco para o lado dele, porque foi ele mesmo que que parou toda a pauta do Congresso, impôs as derrotas para o governo. Se agora ele não aceitar esse diálogo, as propostas que o Lula vai fazer para a Câmara, sobretudo, será complicado para ele manter seu projeto de seguir votação a votação”, diz.

Agenda ambiental não pode ser moeda de troca 

Outra importante frente de batalha para o governo petista é a do agronegócio, importante setor da economia dominado pela oposição. No dia 6, Lula participou da abertura da Bahia Farm Show, uma das maiores feiras do setor, e pregou a conciliação entre pequenos e grandes agricultores.

O presidente tenta apagar o fogo criado pela ala mais conservadora do agro, que tem imposto derrotas sucessivas e simbólicas, como por exemplo a aprovação relâmpago do PL 490, que admite a tese do Marco Temporal. Porém, outras derrotas têm maior potencial de tumultuar a coalizão mais à esquerda do governo, como a retirada de algumas atribuições caras aos ministérios do Meio Ambiente, de Marina Silva, e dos Povos Indígenas, de Sônia Guajajara.

Para Gadêlha, algumas acomodações serão feitas facilmente graças à boa relação mantida com os responsáveis para onde a demarcação de terras indígenas foi destinada, por exemplo, que no caso é o ministro Flávio Dino. Ele também vislumbra saídas para um diálogo mais produtivo junto aos ruralistas.

“O presidente tem sinalizado, tem participado de eventos, tem tentado construir um diálogo com essa bancada, mas a gente sabe quais são as pautas deles e o quanto eles agridem o meio ambiente. Só que existe um núcleo pensante do agro, que é esse que a gente quer dialogar e empoderar dentro do parlamento, que é o núcleo que vê o meio ambiente e todos os ecossistemas como fundamentais para que a gente possa continuar com a atividade agro de uma forma consciente”, informa.

Já a cientista política vê certa semelhança na encruzilhada que Lula se meteu com Marina Silva durante o seu segundo mandato e que continua sendo o seu calcanhar de Aquiles junto a correntes diferentes dentro da esquerda e centro esquerda.

“O agronegócio tem um peso fundamental na economia e vai fazer pressão para conseguir aprovar as pautas que são do seu interesse. Ao mesmo tempo, a gente sabe que o Lula tem, já foi motivo de ruídos, o Lula tem duas ministras que são muito duras frente às pautas de preservação do meio ambiente e do próprio agronegócio. Esse pra mim é o dilema mais difícil de resolver, porque o Lula não vai conseguir governar sem o agronegócio”, encerra.

‘Articulação política’ é apelido do Centrão para pressão por verba e cargos

São recorrentes as críticas ao governo por não conseguir se articular no Congresso para garantir uma base de apoio às matérias de seu interesse. O foco dessas reclamações está voltado para os ministros Rui Costa, da Casa Civil, e Alexandre Padilha, de Relações Institucionais, que são os responsáveis por fazer essa intermediação entre Executivo e Legislativo.

Realmente, não se pode dizer que o trabalho de Costa e Padilha seja bom, já que nas primeiras votações na Câmara o governo amargou muitos revezes. As reclamações dos deputados e até do presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), são públicas.

No entanto, quando se vai apurar os motivos pelos quais os parlamentares – especialmente os do Centrão — estão insatisfeitos, descobrimos que aquilo que alguns chamam de “articulação política” nada mais é que uma expressão cínica para encobrir a voracidade dos políticos fisiológicos por verba e cargos.

Até certo ponto, é normal que os partidos que apoiam um governo queiram ter correligionários participando em alguns postos da administração. Não há político que apoie uma gestão para ter apenas o ônus, todos querem também o bônus.

As contrapartidas exigidas pelo Centrão, porém, vão muito além do razoável. Já era assim antes e piorou depois que Jair Bolsonaro instituiu o presidencialismo de submissão, praticamente entregando a direção de seu governo a Arthur Lira, que decidiu como quis o destino de bilhões em recursos do orçamento secreto.

Lira e sua turma ficaram mal-acostumados, a ponto de se sentirem à vontade para cobrar do governo atual o domínio do Ministério da Saúde, pasta fundamental para a qual querem indicar o titular. Por enquanto, Lula resiste.

Reportagem de Cátia Seabra e Julia Chaib, publicada hoje na Folha de S. Paulo, dá uma ideia da amplitude do território administrativo que o Centrão quer dominar.

Um dos alvos é a Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Segundo define o site do Ministério da Fazenda, é o “órgão que autoriza a ocupação dos imóveis públicos federais, estabelecendo diretrizes para alienação de imóveis, cessão onerosa ou gratuita dentre outras formas de destinação”. Além disso, “promove a gestão dos terrenos de Marinha, das praias marítimas e fluviais e o controle do uso dos bens de uso comum”.

Não é difícil estimar os polpudos valores e interesses que a SPU movimenta, além do poder político que confere a seu titular.

Outra meta do Centrão é ocupar a Fundação de Previdência Complementar do Servidor da União (Funpresp), instituição que no início de 2022 tinha uma carteira de investimentos da ordem de R$ 4,8 bilhões.

Nos dois casos, a resistência a entregar o controle dos cargos foi feita pela ministra Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços Públicos. Mas de tanto ser bombardeada pelo Centrão – e pelos próprios colegas de governo —, já dá sinais de que vai ceder. A Funpresp está prometida a caciques do Podemos e as filiais da SPU estão a ponto de serem ocupadas por gente do União Brasil.

Depois de alguma relutância, também a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, determinou ao presidente do Ibama, Agostinho Mendonça, que cumpra acordos e permita nomeação de apadrinhados políticos na instituição.

O preço a pagar caso o governo Lula resista a essas exigências é muito alto. Basta ver o estrago causado pela MP dos Ministérios, que bagunçou completamente a estrutura administrativa que o petista tinha desenhado para sua gestão.

Em entrevista à CNN Brasil, o líder do União Brasil na Câmara, deputado Elmar Nascimento (União-BA), reconheceu que é direito do governo colocar em prática o organograma que desejar, mas que a MP dos Ministérios foi um “recado” a Lula por não atender às reivindicações do Centrão.

Não é possível continuar chamando esse escambo descarado de “articulação política”. Trata-se de pura e simples pressão sobre o governo para conseguir recursos e postos que possibilitem ganho eleitoral ou financeiro.

Classificar essa relação imoral de “articulação política” é dar nome muito nobre a negociações que em nenhum momento levam em conta o bem do país e dos brasileiros.

Se a maioria do Congresso é composta por políticos fisiológicos e o o “toma lá, dá cá” é inevitável, pelo menos que seja tratado pelo termo correto: chantagem.


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