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Poder
Douglas Garcia pratica a selvageria como um animal com dono
Publicado em 14/09/2022 10:39 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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A Assembleia Legislativa, que cassou o mandato de Arthur do Val por conta de comentários misóginos sobre refugiadas ucranianas, precisa dar a mesma resposta ao caso envolvendo o deputado Douglas Garcia (Republicanos) – que agrediu Vera Magalhães no debate dos candidatos ao governo de São Paulo, realizado, na terça (13), por UOL, Folha de S.Paulo e TV Cultura.
Ainda depõe contra Garcia o agravante de ter agido de forma premeditada, como indica uma postagem sua antes do debate, questionando se a jornalista estaria presente, mostrando que ele já tinha a intenção de agredi-la.
Copiando os ataques que Jair Bolsonaro fez contra Vera Magalhães durante o debate presidencial na TV Bandeirantes, no dia 28 de agosto, Douglas Garcia aproveitou um momento em que ela estava sentada, escrevendo, para começar a gravar e ataca-la.
Gritou que ela é uma vergonha do jornalismo brasileiro, contou mentiras sobre sua remuneração, entre outros absurdos, em uma truculência insistente e prolongada.
Quem estava presente no auditório ficou chocado não apenas pela cena grotesca, mas pela total falta de preocupação do deputado com o decoro relativo ao cargo que ocupa. Como se tivesse a certeza de que pode agredir qualquer cidadão e se safar afirmando que é liberdade de expressão, tal como faz o presidente da República.
Determinado a ataca-la, ele se desvencilhou de tentativas de retirá-lo do local por seguranças. Só foi interrompido quando o diretor de jornalismo da TV Cultura, Leão Serva, num ato de pura sensatez, tomou o celular de sua mão e atirou longe. Diante de um jornalista homem, o deputado, claro, nada fez. Ao fim, foi expulso do recinto.
O deputado foi ao evento como convidado da campanha de Tarcísio de Freitas e o rosto e o número do ex-ministro de Bolsonaro aparecem em santinhos do deputado, que concorre a um mandato de deputado federal. Tarcísio disse ao jornalista Thiago Herdy, do UOL, que não permitirá mais que Douglas Garcia o acompanhe em sabatinas e debates eleitorais da campanha de 2022. Para não impactar sua campanha, nem a do presidente, vai ter que entregar mais do que isso.
Além dele, Fernando Haddad e Rodrigo Garcia repudiaram a agressão. Vera teve que sair escoltada do Memorial da América Latina, onde ocorreu o debate.
Quem acompanha essa coluna sabe que tomo muito cuidado em usar o termo fascista para designar certos comportamentos violentos da extrema direita para evitar banalizar o termo. Mas eu estava lá e posso afirmar que a violência e a intimidação do deputado repetiram as piores técnicas do fascismo.
Após o caso ganhar as redes sociais, o deputado disse de forma covarde que “apenas a questionei educadamente” e que irá processar todos os que afirmarem que a sua agressão contra a jornalista foi uma agressão.
A agressão, desta terça, contra Vera Magalhães é consequência direta do ataque realizado por Bolsonaro no dia 28. As ameaças contra ela se intensificaram desde então, chegando ao absurdo do seu rosto estampar cartazes no megacomício eleitoral do presidente na praia de Copacabana.
Bolsonaro foi instado a baixar a fervura da violência de seus seguidores, mas, ao invés disso, tem colocado mais lenha na caldeira. Se não quiser fazer isso pela decência e pela legalidade, poderia ao menos fazer em nome de votos, uma vez que está muito atrás de Lula na intenção de voto feminino. Mais do que isso: de acordo com o Datafolha, 51% dos eleitores acreditam que Bolsonaro é o candidato que mais ataca as mulheres.
Mas ele não é o único responsável. Se não abrir um processo de cassação contra o deputado, que atacou uma jornalista para conseguir votos entre parcela da população que aplaude a violência, o parlamento paulista passará a mensagem de que apoia a agressão a mulheres e não dá a mínima para a liberdade de imprensa.
Com a palavra, o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo.
Agressor de Vera Magalhães pratica a selvageria como um animal com dono
Mesmo nas melhores democracias, grandes nulidades sempre são eleitas. O caso do deputado estadual Douglas Garcia, que agrediu verbalmente a jornalista Vera Magalhães na plateia do debate entre candidatos ao governo de São Paulo, é uma extrapolação dessa anomalia.
Charles Darwin escreveu um livro chamado ‘A expressão das emoções no homem e nos animais’. Nele, foram catalogadas expressões fisionômicas dos chimpanzés, dos cachorros e dos homens. Darwin batizou de ‘princípio da antítese’ o fenômeno que leva um cachorro a expressar o amor que nutre pelo dono por meio de uma mutação corporal. Para agradar, o animal modifica a face, amolece as costas, abana o rabo, baba a mão do dono.
Darwin não previu o comportamento de políticos como Douglas Garcia que, para expressar sua sabujice, repetem as atrocidades praticadas pelo dono. Candidato à Câmara Federal, Douglas fez uma selfie na qual repete para Vera Magalhães o mesmo ataque misógino que Bolsonaro havia dirigido à jornalista no debate presidencial de dias atrás.
Vivo, Darwin diria que Douglas Garcia e seus assemelhados, são evidências de que o homem parou de evoluir. Quando era apenas um neandertal, o hominídeo dispunha de uma caixa craniana maior. Mas não tinha a linguagem dos bolsonaristas, embora o grunhido às vezes fosse parecido. Vivia em tribos polarizadas.
Lutava-se pela sobrevivência, só que a selvageria não era atribuída a Jesus Cristo. Douglas Garcia é filiado ao Republicanos, braço partidário da Igreja Universal do Reino de Deus. A inação do partido é um aval à truculência. O eco de Bolsonaro é o som da cumplicidade. Contra esse pano de fundo, o repúdio de Tarcísio de Freitas, soa insuficiente.
O objetivo da evolução era dar voz à humanidade, nome às coisas e um enredo para o universo. A conjuntura intima o eleitor brasileiro a chamar a coisa pelo nome correto: retrocesso. A anormalidade convoca o eleitor a reescrever o enredo nas urnas. A alternativa seria enviar gente como Douglas Garcia para o Congresso Nacional. Ou fugir para as cavernas.
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