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Poder

Datafolha mostra que Bolsonaro tem pior avaliação desde a redemocratização do país

Em 1º de janeiro, encerram-se quatro anos em que o Brasil foi governado por um extremista. Mas em qual espectro se enquadra o futuro ex-presidente? Para especialista, Bolsonaro muitas vezes se comportou como um fascista

Publicado em 30/12/2022 11:54 - DCM, Oliver Pieper (DW) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O presidente Jair Bolsonaro (PL) tem a pior avaliação ao fim de primeiro mandato desde a redemocratização do país, em 1985. Pesquisa Datafolha divulgada ontem (29) mostra Bolsonaro com reprovação de 37% e aprovação de 39%. Outros 24% consideram sua administração regular, enquanto 1% não opinou, segundo o estudo realizado nos dias 19 e 20 com 2.026 eleitores de 126 cidades.

Os dados foram divulgados por Igor Gielow no jornal Folha de S.Paulo. No fim de 1998, já reeleito, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) marcava uma aprovação de 35% e uma reprovação de 25%, com 37% o considerando regular. Nos estertores de 2006, já tendo vencido sua reeleição, Lula tinha 52% de ótimo/bom, 14% de ruim/péssimo e 34% de regular.

Dilma Rousseff (PT), por sua vez, era aprovada por 42%, reprovada por 14% e vista como regular por 34% no fim de 2014 — ela acabaria impedida no meio de seu segundo mandato, em 2016.

Não entram na comparação direta campeões de popularidade ou impopularidade. No primeiro quesito, vence Lula ao fim do segundo mandato em 2010, com 83% de aprovação. No segundo, Fernando Collor antes de perder a cadeira no impeachment de 1992, com 68% de insatisfeitos.

Ao longo de seu tumultuado mandato, pontuado por crises políticas, retórica golpista e a pandemia da Covid-19, Bolsonaro tinha tido o ápice de aprovação no segundo semestre de 2020 —quando os efeitos do auxílio emergencial devido à crise sanitária foram intensos entre o eleitorado mais pobre.

Nas medições do Datafolha de junho e de dezembro daquele ano, Bolsonaro teve 37% de aprovação. Agora, voltou ao nível e o ultrapassou numericamente, cortesia do processo eleitoral em que acabou apenas a 2 milhões de votos de Lula — essa avaliação final agora, aliás, empata com a registrada às vésperas do segundo turno.

Já seu pior momento foi extenso, tendo o auge em dezembro de 2021, antes do início da campanha eleitoral. Há um ano, 53% consideravam o governo ruim ou péssimo, repetindo uma aferição do setembro anterior.

Ali, a turbulência já havia encontrado a apoplexia das manifestações golpistas de Bolsonaro no 7 de Setembro, o coração do governo havia sido entregue ao centrão para evitar um colapso político e o governo não se acertava acerca dos benefícios que acabariam condensados no Auxílio Brasil.

Ao fim de seu governo, Bolsonaro entrega um país melhor na opinião de 39%, o mesmo índice daqueles que o aprovam. De forma similar, 36% dizem que os quatro anos do presidente legaram um Brasil piorado, enquanto 24% veem tudo igual. Não opinaram 1%.

Lula, que volta agora ao poder, encerrou seu primeiro mandato em 2006 com 84% dos brasileiros acreditando que seu governo havia deixado um país melhor e 12%, um pior.

Como definir Bolsonaro politicamente?

Quão à direita no espectro político está um presidente que comemora oficialmente o aniversário do golpe militar e do início da ditadura, em 31 de março de 1964? E um presidente que faz um discurso aclamado em apoio a manifestantes que pediram intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal? Ou um presidente que, seguindo a linha de um senhor de escravos, esbraveja contra minorias étnicas, como indígenas e negros, e contra os direitos das mulheres e de LGBTQs?

Se alguém pode ter as respostas para essas perguntas, é David Magalhães. O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) fundou o Observatório da Extrema Direita (OED) no início de 2020 e, desde então, vem examinando de perto os movimentos radicais de direita no Brasil e no mundo.

Magalhães faz uma distinção entre o presidente Jair Bolsonaro e seu governo. “Existe uma série de restrições institucionais que limitam a capacidade de ação de Bolsonaro, e é por isso que eu classifico seu governo como de direita radical, não de extrema direita, dentro da família ideológica da direita radical populista”, afirma o especialista.

“Bolsonaro, por outro lado, podemos classificar como um líder de extrema direita, já que ele fez apologia ao período mais violento da ditadura militar brasileira e não aceita as regras do jogo da democracia”, completa.

E há ainda o movimento bolsonarista. Segundo Magalhães, não se trata de um bloco homogêneo. Pelo contrário, inclui grupos extremistas de direita violentos, mas também defensores de uma direita liberal de mercado, conservadores religiosos e militares nacionalistas.

O especialista em extremismo argumenta que esse movimento de apoiadores, o governo e o presidente Bolsonaro devem ser analisados separadamente.

Para Magalhães, o que se pode tirar dos últimos quatro anos no Brasil é: “Quando a direita radical está no poder, ela tende a minar a democracia liberal em doses homeopáticas, como aconteceu na Hungria sob o governo de [Viktor] Orbán.”

A agência de inteligência doméstica da Alemanha, o BfV, define o termo direita radical como uma corrente que não necessariamente viola os princípios da ordem básica liberal democrática. Mas se inimigos direitistas da democracia rejeitam essa ordem básica liberal democrática e buscam estabelecer um sistema estatal autoritário ou mesmo totalitário com uso da violência, eles devem então ser classificados como extremistas de direita.

“Caricatura da extrema direita”

“O que é especial em Bolsonaro é que ele, como nenhum outro, combina 100% do repertório dos extremistas. Ao compará-lo com outros políticos proeminentes de direita, eles não mostram o mesmo radicalismo em todas as suas atitudes, não são necessariamente sempre misóginos ou homofóbicos, por exemplo. Bolsonaro tem tudo isso, ele é a caricatura da extrema direita”, afirma Georg Wink, professor de estudos brasileiros na Universidade de Copenhague.

Federico Finchelstein, autor do livro Uma breve história das mentiras fascistas, concorda. “Bolsonaro é um político populista de extrema direita, que muitas vezes se comporta não como um populista, mas como um fascista. Bolsonaro tem essa mistura. O populismo acontece em democracias formais, e ele foi eleito em uma democracia. Mas ele é um líder que às vezes parece querer destruir a democracia por dentro e estabelecer uma ditadura fascista”, diz o argentino.

Contudo, quando Bolsonaro tomou posse em 1º de janeiro de 2019, alguns setores ainda esperavam que o novo presidente se “normalizasse” no poder e adotasse uma postura mais convencional. Mas Bolsonaro continuou a seguir a mesma postura radical, opondo-se abertamente ao Judiciário e ao Congresso, promovendo a violência policial e os movimentos de massa para intimidar os opositores e alimentando dúvidas sobre o resultado das eleições presidenciais em que ele foi derrotado.

Modelo de direita na América Latina

“Deus, pátria e família” foi um dos slogans mais usados por Bolsonaro durante seus quatro anos no cargo. Um reaproveitamento de um antigo lema adotado tanto pela ditadura salazarista portuguesa (1933-1974) quanto pela Ação Integralista Brasileira (AIB), o principal grupo fascista da década de 1930.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro buscou se aproximar de políticos populistas de direita como o americano Donald Trump, o italiano Matteo Salvini e o húngaro Viktor Orbán. Na Alemanha, ele foi elogiado por políticos do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, tem laços estreitos com o ex-assessor de Trump e estrategista de ultradireita Steve Bannon. E Bolsonaro pai se tornou um modelo da direita na região, para Keiko Fujimori no Peru, Rodolfo Hernández na Colômbia ou mesmo José Antonio Kast no Chile.

Bolsonaro e a extrema direita podem ter perdido por pouco as eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva, mas estão longe de estar derrotados politicamente, diz David Magalhães.

“Bolsonaro conseguiu unir vários setores da direita brasileira e organizar um movimento que tem levado a manifestações de rua e é extremamente ativo nas redes sociais. Também legitimou grupos extremistas e violentos. Essa direita continuará a tomar as ruas, a fazer barulho, a demonstrar e a intimidar a esquerda, que estará no poder a partir de 2023.”


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