22/04/2024 - Edição 540

Poder

Dá-se como normal a baderna dos golpistas tolerada pelos militares

Em Campo Grande, golpistas completam 15 dias de baderna e desrespeito à democracia

Publicado em 14/11/2022 9:21 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Semana On – Edição Semana On

Divulgação Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

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Pode ser tudo, menos normal, cinco homens armados, bolsonaristas, intimidarem Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar de Belo Horizonte. Aconteceu na cidade mineira de Moeda.

O bispo é conhecido por criticar o governo Bolsonaro e lutar pelas famílias vítimas da tragédia de Brumadinho. O estouro da barragem matou 270 pessoas, e quatro continuam desaparecidas.

A menos de 15 dias do segundo turno, Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal de São Paulo, viu-se obrigado a responder a críticas de bolsonaristas nas redes sociais que o acusaram de esquerdista: “A fé em Deus permanece depois das eleições; assim, os valores morais, a justiça, a fraternidade, a amizade, a família. Vale a pena colocar tudo isso em risco no caldo da briga política?”

Estranharam a cor vermelha de suas vestes, associando-a ao comunismo. Dom Scherer explicou: “Se alguém estranha minha roupa vermelha, saiba que a cor dos cardeais é o vermelho (sangue), simbolizando o amor à igreja e prontidão ao martírio, se preciso for. Deus abençoe a todos”.

Uma mulher bolsonarista perseguiu no fim de semana em Nova Iorque o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que está por lá para participar de um seminário. “Olha quem está por aqui”, disse a mulher que passou a seguir o ministro. “Vamos ganhar essa luta. Cuidado, o povo brasileiro é maior do que a Suprema Corte. Você não vai ganhar nosso país”.

No último dia 3, Barroso precisou interromper um jantar em Porto Belo, litoral norte de Santa Catarina, porque foi reconhecido por um grupo de bolsonaristas que começou a hostilizá-lo.

O silêncio de Bolsonaro sobre os resultados das eleições e o tratamento cúmplice dado pelas Forças Armadas a bolsonaristas sublevados são responsáveis por episódios como esses.

Nota assinada pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica nada disse sobre as mensagens de conteúdo subversivo dos bolsonaristas que gritam em frente aos quartéis.

Eles pedem que as eleições sejam anuladas, embora a auditoria militar feita nas urnas eletrônicas não tenha comprovado uma única irregularidade. Ainda há pontos de bloqueio em rodovias.

Ônibus e caminhões chegam em Brasília para um ato que ocorrerá amanhã na Esplanada dos Ministérios. O ministro Alexandre de Moraes quer saber quem financia o movimento.

Os militares fazem de conta que não sabem. Bolsonaro segue sem trabalhar. Isso tem tudo para acabar muito mal. Ou pior: estender-se até à posse do presidente eleito em 1º de janeiro.

Comandantes militares, os novos intérpretes da Constituição

Lula erra ao dizer que Jair Bolsonaro humilha as Forças Armadas usando-as para desacreditar o processo eleitoral e criando assim o clima de que um novo golpe, no limite, seria possível.

Os militares não foram humilhados e nem se deixaram humilhar. Tudo o que fizeram, quase sempre à vontade, era parte do plano de evitar que a esquerda, tão cedo, voltasse a governar o país.

Perde-se de vista que os militares apoiaram com entusiasmo a eleição de Bolsonaro em 2018 e sua reeleição porque pela primeira vez chegaram ao poder sem golpe, e nele pretendiam ficar.

Por muito tempo, mantiveram-se distantes de Bolsonaro, excluído do Exército nos anos 80 sob a acusação de planejar atentados terroristas a quartéis em protesto por melhores salários.

Antes de Bolsonaro dar sinais de que poderia se eleger presidente, o general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, selou a sorte de Lula com a publicação de um post no Twitter.

Foi em 3 de abril de 2018. O Supremo Tribunal Federal preparava-se para votar um habeas corpus que poderia livrar Lula da prisão. O post do general dizia simplesmente: “Asseguro à Nação que o Exército brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões constitucionais.”

No dia seguinte, depois de quase onze horas de discussão, os 11 ministros do Supremo rejeitaram o habeas corpus por 6 votos a 5. Lula foi preso quatro dias depois. Ficaria preso por 580 dias.

Uma vez eleito presidente, à primeira discordância com o novo comandante do Exército, Bolsonaro não só o demitiu como forçou a demissão dos comandantes da Marinha e da Aeronáutica.

Mais tarde, rifou o general que era ministro da Defesa por se opor à orientação de bater de frente com o Supremo. Daí em diante, Bolsonaro teve respaldo da farda para fazer quase tudo o que quis.

Onde já se viu desfile de tanques na Praça dos Três Poderes a pretexto de entregar um convite ao presidente? Ou um 7 de setembro transformado em comício de um candidato?

Nunca antes as Forças Armadas se prestaram ao papel de auditar as urnas eletrônicas. Uma vez que não acharam irregularidades, concluíram que se não houve sempre poderá haver. Ridículo.

Os chefes militares acolheram à porta de quartéis milhares de bolsonaristas que pedem a anulação dos resultados das eleições do último dia 30 já proclamados pela justiça.

E, em defesa dos rebelados, distribuem nota onde reconhecem que eles têm o direito de se manifestar. Comportam-se como se fossem uma espécie de poder moderador.

Bem que gostariam de ser, mas não são. São feras feridas, inconformadas com uma derrota que não estava em seus cálculos.

Em CG, golpistas completam 15 dias de baderna

As manifestações golpistas dos campo-grandenses insatisfeitos com os resultados das eleições presidenciais chegaram, na manhã desta segunda-feira (14), ao 15º dia. O protesto segue concentrado na Avenida Duque de Caxias, em frente ao CMO (Comando Militar do Oeste).

Nesta manhã, em razão do ponto facultativo do feriado da Proclamação da República, o trânsito na avenida fluía sem congestionamentos, situação diferente das últimas duas semanas.

Caminhões e carros seguem estacionados em uma das faixas da avenida, o que faz a Duque de Caxias ter apenas duas livres para o tráfego, em frente ao CMO. Cones sinalizam a interdição da faixa.

No canteiro central da via, tendas abrigam a estrutura montada pelos manifestantes, que conta com churrasqueira, banheiro químico e barracas.

Por volta das 8 horas, a reportagem constatou que cerca de 10 pessoas permaneciam na manifestação, que segue pacífica, apesar de descumprir decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

Na sexta-feira (11), o ministro do STF, Alexandre de Moraes, estendeu para todo o País a determinação para liberar vias públicas que estejam bloqueadas por manifestantes. As polícias Federal, Rodoviária Federal e Militar devem tomar as medidas necessárias para dispersar o público.

Moraes ressaltou que fatos trazidos aos autos por órgãos de segurança pública realçam a razão das determinações. Segundo ele, a persistência dos atos em todo país recomenda a extensão da decisão cautelar “a quaisquer fatos dessa natureza em curso em todo o território nacional”.

Ele determinou, ainda, a identificação dos veículos utilizados para bloquear as vias, para que possam ser aplicadas multas de R$ 100 mil por hora aos proprietários, e das empresas e pessoas que descumprirem a decisão mediante apoio logístico e financeiro aos manifestantes.


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