26/02/2024 - Edição 525

Poder

CPMI vai acabar com ‘alucinação bolsonarista’, diz Flávio Dino

Manobra pode ser 'tiro no pé da oposição', mas extrema direita vai tentar criar narrativas distorcidas

Publicado em 26/04/2023 11:10 - RBA, Igor Carvalho e Felipe Mendes (Brasil de Fato), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Marcelo Camargo/Agência Brasil

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O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, afirmou na terça-feira (25) que não teme qualquer desgaste para o governo, diante da iminente instalação da CPMI dos atos golpistas de 8 de janeiro. Nesse sentido, disse que a investigação no Congresso deve agilizar a responsabilização dos próprios parlamentares fascistas que reivindicaram a instalação da CPMI, a quem classificou como fascistas. Além disso, também servirá para colocar fim às “fantasias” e “alucinações” bolsonaristas que tentam culpar o governo pelos episódios ocorridos em 8 de janeiro.

“Sinceramente, não tenho nenhum receio para o governo, para o país, de qualquer composição da CPI. Porque é muito simples: é verdade versus mentira. Quaisquer que sejam os deputados e senadores que lá estejam, é impossível criar base material para as fantasias que eles põem na internet”, disse em entrevista ao ICL Notícias.

Dino ressaltou que, diferentemente do investigações já em curso, a CPI pode, por exemplo, antecipar a coleta de depoimentos dos envolvidos. “Então, gente que só iria depor daqui três meses, vai depor daqui a semanas. Porque exatamente a CPI tem uma lógica diferente, do ponto de vista legal, do que um inquérito na polícia conduzido pelo Judiciário”.

Do ponto de vista da sua atuação no ministério, Dino afirmou que a determinação do presidente Lula é de que “nenhum fascista, nenhum golpista, ficará impune no Brasil”. E que esse não é apenas um compromisso “de governo”, mas “de vida”. “Nós devemos isso ao Brasil. Nós devemos à nossa pátria, sobretudo aos que virão depois. Que esta gente golpista seja punida, para não ter mais a ousadia de tentar invadir e destruir as sedes dos Poderes e a democracia”.

Participação dos militares

O ministro destacou que as investigações já avançaram contra “executores” e “financiadores” dos atos golpistas. Em julgamento virtual encerrado na noite de segunda-feira (24), o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou réus os primeiros 100 denunciados. Ontem, o ministro Alexandre de Moraes já votou a favor do acatamento das denúncias contra outros 200.

No chamado “núcleo político”, disse que o personagem mais notável identificado até o momento é o seu “antecessor”, se referindo ao ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal Anderson Torres. “Agora, ele agia sozinho? Claro que não. Óbvio que não. E ele está pagando sozinho, veja a deslealdade dessa gente até entre eles próprios. Outros integrantes do núcleo político vão aparecer, porque eles existiram”, declarou.

Flávio Dino também ressaltou que as investigações também avançam entre os militares. E que o nível hierárquico dos investigados está “subindo”. “Estou falando, sim, de generais, infelizmente, de oficiais, que traíram, são traidores do Brasil. Ficam dizendo que são patriotas, mas são traidores vis. Porque cantam o hino nacional, juraram defender a Pátria, e participaram de uma conspiração. São traidores, e esses traidores vão responder perante o Poder Judiciário”.

Imagens vazadas

O ministro disse ter certeza que as imagens da invasão que CNN Brasil divulgou na semana passada foi um “vazamento bolsonarista”. O propósito desse vazamento, segundo ele, seria para “tumultuar” e fortalecer a “narrativa” de que o próprio governo Lula teria facilitado a invasão. “Eles têm essa alucinação. Eu me preocupo muito, até com a sanidade deles”, ironizou.

“Eles dizem que nós estávamos lá, que sabíamos de tudo. Que nós participamos, planejamos, que havia infiltrados. Cadê os infiltrados? Já temos milhares de horas de gravações reveladas em vários momentos. Cadê os infiltrados, (mostrem) um nome? Realmente é uma desfaçatez, e esse vídeo foi para tentar fortalecer essa alucinação”.

CPMI pode ser ‘tiro no pé da oposição’, mas bolsonarismo deve criar narrativas distorcidas

Antes relutante, o governo decidiu aderir à CPI e prepara sua base para trabalhar na comissão. A oposição no colegiado deverá ser formada, em sua maioria, por bolsonaristas, ansiosos por impor uma agenda negativa para o presidente Lula.

“Nós, do governo, entendíamos que a investigação sobre o 8 de janeiro já está se dando no âmbito do STF e, portanto, considerávamos que era uma questão do judiciário e da polícia, não mais do legislativo, por isso a CPI era desnecessária. Além disso, queríamos tocar as pautas do governo e não perder tempo com algo que está encaminhado”, afirma o deputado federal Reimont (PT-RJ).

“Foi um tiro no pé”, diz o cientista político Rudá Ricci, que acredita em derrota da oposição no processo. No entanto, ele ressalta que “eles não são idiotas”.

“Devem ter analisado o cenário e viram que o governo estava recuando do (debate) 8 de janeiro, porque queria impor uma pauta positiva”, analisa o cientista político Rudá Ricci, que acredita em derrota da oposição no processo.

“Não podemos nos enganar que eles se entregarão como cordeirinhos. Eles estão assustados, o Mourão já disse que não vê motivos para a CPI e isso demonstra, portanto, que uma ala do bolsonarismo já percebeu que eles vão levar uma lavada e, por isso, transformarão a CPI numa tribuna”, alerta Ricci.

Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acredita que a instalação da CPI representa perigos para o governo federal, justamente porque muitos simpatizantes da extrema direita não consomem notícias tradicionais, se contentando com as fake news que recebem em suas redes.

“O bolsonarismo, assim como os populistas de direita, opera a partir de bolhas de dissonância cognitiva, na qual os apoiadores se informam em canais particulares de seus líderes, que são alternativos à mídia tradicional, onde recebem informações distorcidas”, diz Goulart.

Ambos os analistas acreditam que a CPMI tem o objetivo de ser um “contraponto à agenda positiva do governo federal e será usada para criar factoides”.

“Nesta lógica, qualquer vídeo que eles possam recortar dessa CPI, onde veremos bolsonaristas falando e pedaços de informações, que eles cortarão para inserir numa narrativa distorcida, pra eles pode ser bom.”

Na tribuna do Senado, o senador Eduardo Girão (Novo-CE), um dos bolsonaristas mais ativistas do Congresso Nacional, defendeu a criação da CPI. “O brasileiro precisa continuar acompanhando a política, cobrando de forma respeitosa, pacífica e ordeira, os seus representantes. Porque nessa CPMI não pode acontecer o que aconteceu na CPI da Pandemia, da qual eu participei como titular em 2022, que foi uma vergonha, um verdadeiro palanque político que protegeu poderosos.”

Reimont acredita que a extrema direita pode se arrepender de ter formado a comissão. “A CPI será uma grande oportunidade para o governo mostrar que os bolsonaristas estão envolvidos até o pescoço com a depredação de Brasília. Será, com certeza, um tiro no pé do bolsonarismo, tem deputado bolsonarista que participou dos atos e quer ocupar espaço na CPI.”

CPMI mobiliza bolsonaristas nas redes, mas não fura a bolha

A iminência da instalação da CPMI mobilizou os bolsonaristas nas redes sociais, mas o grupo segue fechado em uma “bolha”. O levantamento foi feito pelo analista de redes sociais Pedro Barciela, do site Essa Tal Rede Social.

O movimento articulado entre os apoiadores mais engajados do ex-presidente Jair Bolsonaro começou a crescer nas redes a partir do último dia 16, quando houve cerca de 61 mil interações no Facebook e no Instagram sobre o tema. No dia 17 foram mais de 728 mil. O crescimento seguiu no dia 18, quando o número passou de 2 milhões.

divulgação pela CNN Brasil de vídeo que mostrava o então ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Gonçalves Dias, dentro do Palácio do Planalto no dia 8 de janeiro, dia dos ataques golpistas à Praça dos Três Poderes, fez o movimento atingir seu ápice no dia 19. Gonçalves Dias, que é general da reserva do Exército, deixou o cargo após a repercussão da gravação.

Barciela afirma que a divulgação das imagens e a consequente demissão do ministro mostraram que o bolsonarismo, ao menos momentaneamente, conseguiu recuperar sua capacidade de pautar o debate. Entretanto, a discussão ficou restrito à “bolha” dos apoiadores engajados do ex-presidente.

Segundo dados compilados pelo especialista, em 28 dias, 98,7% das interações sobre o tema no Facebook e no Instagram partiram de páginas bolsonaristas. No Twitter, a porcentagem é menor, mas ainda alta: 73% dos perfis que citam o tema junto ao nome de Lula são bolsonaristas.

O analista lembra que o bolsonarismo sempre precisou de outros “atores” para furar sua própria bolha nas redes sociais. Durante os quatro anos de Jair Bolsonaro no governo isso era mais fácil, já que a imprensa cumpria esse papel, dando espaço às pautas lançadas pelo então presidente e seu entorno.

“Desde o início do governo Lula isso não aconteceu. Uma série de pautas foram sobrepostas, ou pelo governo Lula, ou pela imprensa, com desmandos do governo Bolsonaro, que fizeram com quem o bolsonarismo não mais conseguisse pautar como ele fazia até então”, destacou Barciela.

Bolsonaro adota mantra sobre 8/1: ‘Nada a ver’

Bolsonaro coleciona dois encontros com a polícia em menos de um mês. No dia 5 de abril, foi inquirido sobre as joias sauditas. Nesta quarta-feira (26), lida com a suspeita de ser mentor intelectual do 8 de janeiro. Noutros tempos, falava dez vezes antes de pensar. Liberdade de expressão, dizia, enquanto produzia provas contra si mesmo. Hoje, está condenado à meia palavra. Ou a palavra nenhuma. A liberdade constitucional que mais aprecia é o direito de não se autoincriminar. Em relação ao quebra-quebra golpista, Bolsonaro acorrentou-se a um mantra: “Nada a ver”. Pouparia o tempo dos interlocutores se gravasse essa expressão na testa.

Bolsonaro não tem nada a ver com os ataques aos prédios dos Três Poderes, como não teve nada a ver com o acampamento de bolsonaristas na frente do QG do Exército. Em 9 de dezembro, numa das várias falas dúbias que produziu após a derrota, disse aos devotos: “Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês. […] Vamos vencer. Se Deus quiser, tudo dará certo no momento oportuno”. Mas ele não tem nada a ver com barracas armadas quando estava recluso no Alvorada. Nada a ver com o quebra-quebra, pois se encontrava no autoexílio da Flórida.

Uma minuta de golpe foi apreendida dentro do armário do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. Documentos e depoimentos confirmam que Anderson Torres mapeou as cidades onde Lula foi mais votado no primeiro turno. No segundo round, armou barricadas da Polícia Rodoviária Federal para dificultar o encontro de eleitores de Lula com as urnas. Nessa época, Anderson encontrou-se várias vezes com o chefe. Mas Bolsonaro não tem nada a ver com isso.

No depoimento sobre as joias, em 5 de abril, Bolsonaro fez pose de pobre-coitado. Alegou que, mantido no escudo por Bento Albuquerque, o ministro que transportou presentes como se fossem contrabando, tentou reaver na última hora os diamantes retidos na alfândega apenas para evitar o “vexame diplomático” de um inexistente leilão. No caso do golpe, Bolsonaro faz pose de cachorro chutado, como se apanhasse mesmo quando não tem nada a ver com nada. O problema é que, no seu caso, nada tornou-se uma palavra que ultrapassa tudo.

Bolsonaro foi incluído no inquérito que investiga a autoria intelectual dos atos golpistas por ter compartilhado no Facebook, dois dias depois dos ataques às sedes dos Três Poderes, um vídeo que sugeriu que a vitória de Lula foi fraudulenta. Ironicamente, esse é o único tópico do passivo judicial de Bolsonaro sobre o qual ele poderia dizer “nada a ver”. Não foi o capitão quem realizou a postagem, mas o filho Carlos Bolsonaro, que gerencia os seus perfis eletrônicos.


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