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Poder
O senador bolsonarista vale tanto quanto uma nota de 3 reais
Publicado em 04/02/2023 8:56 - Lucas Neiva (Congresso em Foco), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), João Filho (The Intercept_Brasil) – Edição Semana On
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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de inquérito contra o senador Marcos do Val (Podemos-ES) por suspeita de falso testemunho. De acordo com ele, apesar de o parlamentar ter prestado depoimento, versões apresentadas do suposto golpe orquestrado em conjunto com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado Daniel Silveira se contradizem, exigindo o aprofundamento nas diligências.
Ao menos quatro versões da tentativa de golpe foram proferidas pelo senador. Em todas elas, ele afirma que Bolsonaro e Silveira o coagiram a marcar uma reunião com Moraes enquanto utilizava escutas eletrônicas, e conduzia a conversa para que o ministro dissesse algo que pudesse ser utilizado para justificar um golpe de Estado. A forma como isso se deu já varia: em uma versão, ele diz que Daniel Silveira intermediou pelo presidente. Em outras, conta que os três se encontraram pessoalmente, mas mudando o local a cada versão. O senador também não apresenta consenso sobre se Bolsonaro falou ativamente do esquema ou se apenas concordava com as ideias de Silveira.
À Polícia Federal, chegou a incluir o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, na narrativa, alegando que este ficaria encarregado de fornecer equipamento para a espionagem ao ministro, bem como orientações em ponto eletrônico para a condução da conversa.
Além de incluir do Val entre os investigados, Moraes ainda autorizou a Polícia Federal a realizar uma nova oitiva sobre o ocorrido, e emitiu três ofícios para colher material de apoio: um à editora Veja, exigindo uma cópia dos áudios publicados das entrevistas com o senador, outro à CNN, solicitando uma cópia de todas as entrevistas realizadas com ele, e um terceiro à Meta, empresa proprietária da plataforma Instagram, exigindo o arquivo com a gravação da transmissão ao vivo em que o investigado confessa o objetivo de atingir o presidente Lula e o próprio ministro Alexandre de Moraes.
Os tipos penais variam conforme qual for a narrativa comprovada no curso da investigação. Caso se confirme o plano de Bolsonaro e Silveira, estes responderão por golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Caso contrário, Marcos do Val pode responder por denunciação caluniosa, falso testemunho e coação no curso de processo.
Moraes acertou em abrir a investigação contra Do Val. Após a apuração de um suposto falso testemunho do parlamentar, essa investigação deve se estenda à participação de Bolsonaro no episódio.
“Ele muda as histórias, mas isso se mantém em todas. Tinha o presidente Jair Bolsonaro, o deputado Daniel Silveira e Marcos Durval conspirando. E qual que era a conspiração? Fazer uma sacanagem com o ministro Alexandre de Moraes, com objetivos golpistas. A variação é se Bolsonaro coagiu, se Bolsonaro pediu”, disse o jornalista Leonardo Sakamoto em sua análise sobre o caso, ontem, no UOL.
Ainda durante a análise, Sakamoto destacou que o ex-mandatário brasileiro não apareceu para rebater as denúncias de Do Val. Além disso, o jornalista lembra que o próprio filho do ex-presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL), não negou que ocorreu a reunião.
“Portanto, independentemente do que aconteça, tudo que está sendo dito é que Bolsonaro participou de uma conspiração e isso é suficiente, no meu ponto de vista, para depois de fazer as análises com relação ao Marcos Do Val, abrir uma investigação de Bolsonaro por conspiração por ataque ao estado democrático de direito”, afirmou.
Marcos do Val vale tanto quanto uma nota de 3 reais
Marcos do Val vale tanto quanto uma nota de 3 reais. A maioria dos seus colegas sabe, talvez a maioria dos seus eleitores não, mas nada impede que venha a saber um dia.
Não há bolsonaristas que ainda acreditam em Bolsonaro apesar do que ele fez e deixou de fazer nos últimos 4 anos? É assim mesmo, e pior na era das bolhas. Um dia a ficha cairá.
Em menos de 24 horas, Do Val passou da condição de denunciante de um escândalo a de investigado, e logo por quem – por Alexandre de Moraes, o xerife da República. Moraes não perdoa.
Exagero. É só consultar os votos que o ministro dá no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral para ver que ele perdoa, sim, quando acha que é o caso.
Do Val contou à revista Veja que foi convidado em dezembro último para uma reunião com Bolsonaro e o deputado Daniel Silveira no Palácio do Alvorada.
E que, ali, recebeu a proposta de grampear Moraes. A ideia: que extraísse de Moraes alguma declaração que o tornasse suspeito de jogar fora das quatro linhas da Constituição.
Se conseguisse, salvaria o país de ser governado por Lula. Estava pronta a minuta do golpe para anular as eleições passadas, intervir na Justiça Eleitoral e prender Moraes e outros ministros.
Acontece que depois do que disse à Veja, Do Val, em entrevistas a outros veículos de imprensa, apresentou pelo menos outras três versões da mesma história, com diferenças substanciais entre elas.
Na primeira, o convite para o encontro no Alvorada partiu de Bolsonaro. Na segunda e na terceira, Bolsonaro sumiu como autor do convite. Na primeira, Bolsonaro falou durante o encontro.
Teria chegado a dizer que a Agência Brasileira de Informações, o serviço secreto do governo, ajudaria Do Val na tarefa de grampear Moraes. Nas versões seguintes, Bolsonaro ficou calado.
Limitou-se, no fim, a dizer que esperaria uma resposta de Do Val, que pediu tempo para refletir sobre a proposta. O senador disse que procurou uma vez Moraes e que lhe contou tudo.
Agora, diz que esteve com ele duas vezes. Como prova, exibe uma mensagem enviada pelo celular ao ministro. A mensagem não prova que ele se reuniu duas vezes com Moraes.
O que levaria um bolsonarista raiz, que apoiou a tentativa fracassada de golpe em 8 de janeiro, que visitou golpistas presos, a detonar Bolsonaro? O que se esconde por trás disso?
O encontro no Alvorada ocorreu. Nem Bolsonaro nega. O mais está para ser confirmado ou não. Aguardemos os próximos capítulos.
Presepada de Do Val é mais um roteiro dos Trapalhões no Brasil golpista de Bolsonaro
Um ex-deputado se encontra com um senador e diz que tem um assunto urgente. Em seguida, liga para o presidente da República e passa o telefone ao senador. O presidente, então, pede para ele “dar um pulinho” no Palácio da Alvorada. No dia combinado, os dois são levados secretamente à residência oficial da presidência por um carro da própria presidência. São cinco e meia da tarde e o presidente os recebe de camiseta, bermuda e chinelos. O ex-deputado então revela o motivo do encontro secreto: executar um plano para espionar um ministro da Suprema Corte, captar alguma frase dúbia que o torne suspeito de fraude eleitoral, prendê-lo e, assim, pavimentar o caminho para um golpe de estado.
O que o presidente e o ex-deputado não sabiam é que, três dias depois, o senador convidado para o plano golpista deduraria todo o esquema justamente para o ministro da Suprema Corte.
Parece o roteiro de um filme dos Trapalhões, mas foi só mais um episódio do Brasil de Bolsonaro. Assim como o soldado Didi Mocó aparecia no final para estragar as missões do Sargento Pincel, Marcos do Val apareceu no final para estragar os planos golpistas de Bolsonaro.
Do Val meteu a boca no trombone em uma entrevista para a Veja em que coloca Jair Bolsonaro como mentor do plano golpista. Depois da publicação, o senador trouxe novas versões em que Bolsonaro aparece apenas como um mero ouvinte, enquanto Daniel Silveira seria o grande articulador do golpismo. Nenhuma das novas versões mudou o que foi relatado no primeiro parágrafo deste texto. Bolsonaro convocou uma reunião no Alvorada com os dois e disponibilizou um carro da presidência para transportá-los secretamente. Na melhor das hipóteses para o então presidente, ele teria presenciado um plano para prender um ministro do STF e impedir a posse do presidente eleito por meio de um golpe de estado. Na pior das hipóteses, ele seria o arquiteto desse plano. Seja como mentor ou prevaricador diante de aliados golpistas, Bolsonaro cometeu crime gravíssimo contra a democracia.
Estranhamente os filhos de Bolsonaro não fizeram o que sempre fazem quando o papai é traído por aliados. Eles costumam atacar ferozmente e convocar outros bolsonarista para aniquilar o traidor em praça pública. Foi assim com Bebianno, com Alexandre Frota, com Joice Hasselmann, com Sergio Moro e tantos outros. Mas com Do Val o tratamento foi o oposto. O senador foi afagado com telefonemas de Flávio e Eduardo Bolsonaro, que lhe apoiaram e ajudaram a fazer com que desistisse de renunciar ao mandato. Ficou evidente que o afago foi uma estratégia para reduzir os danos do estrago já feito pelo aliado trapalhão.
Flávio Bolsonaro fez o que os bolsonaristas fazem diante de situações graves: disse que não houve nada demais e que o episódio relatado por Do Val não configura crime. Flávio admite o encontro do pai com o senador e Daniel Silveira — que já havia sido preso por ameaçar a democracia no ano passado — e em nenhum momento negou o conteúdo do que foi conversado. Sustentou a versão de que Silveira teria feito a proposta enquanto Bolsonaro assistia à proposta de crime calado. O escolhido para ser largado ferido na estrada foi o ex-deputado, que não tem mais foro privilegiado e já voltou para a cadeia por desrespeitar as medidas cautelares impostas pelo STF.
No depoimento dado à Polícia Federal, Do Val apresentou uma versão ajustada — a mesma que foi repercutida por Flávio Bolsonaro — em que Daniel Silveira aparece como o líder golpista e o presidente da República apenas como um espectador inocente, de bermuda e chinelão. Ou seja, Bolsonaro teria oferecido sua residência para a reunião golpista, disponibilizado um carro da presidência para transportá-los secretamente, mas não teria nada a ver com o golpismo proposto. O presidente seria como uma criança sentada à mesa ouvindo calada os adultos tramando um golpe de estado. Convenhamos, é até mais fácil acreditar em mamadeira de piroca do que nisso.
A denúncia de Do Val é apenas mais um indício entre tantos outros da existência de um plano organizado dentro do Palácio do Planalto para impedir a posse de Lula. Está ficando cada vez mais difícil remover as digitais do ex-presidente na tramóia golpista. Em uma das mensagens enviadas por Silveira a Do Val, ele diz que a espionagem de Alexandre de Moraes serviria “para pautar a ação a ser tomada, que já está desenhada e pronta para implementar”.
Espionar Alexandre de Moraes para caçar alguma frase que o torne suspeito de fraude eleitoral e prendê-lo seria o estopim para que se desenrolassem as ações planejadas naquela minuta golpista encontrada na casa de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro.
As peças estão se encaixando e tudo aponta para Bolsonaro como um dos protagonistas do movimento golpista. O seu ex-ministro da Justiça foi preso por ser conivente e omisso com os bolsonaristas que invadiram e destruíram os prédios dos Três Poderes. O seu braço direito, Valdemar da Costa Neto, deixou claro que a minuta golpista circulou entre toda a cúpula do bolsonarismo sem que ninguém tenha sido repreendido pelo presidente.
Bolsonaro já é oficialmente um investigado no inquérito do STF que apura os atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo uma apuração do Estadão, ministros do tribunal garantem que esses novos episódios são suficientes para pedir a quebra de sigilo dele e de outros integrantes da cúpula. E, assim, o cerco vai se fechando.
Há poucos dias, Alexandre de Moraes mandou prender preventivamente 942 golpistas. Talvez seja a hora de prender o principal líder do bando. Bolsonaro está há mais de um mês sem foro privilegiado. Fica a dica.
Moraes leva pedrada de doido porque tratou coisa séria como mera maluquice
Falando por videoconferência para uma plateia em Lisboa, Alexandre de Moraes confirmou ter recebido Marcos do Val em 14 de dezembro. Tratou como mera maluquice cômica o relato que ouviu do senador bolsonarista sobre a conspiração urdida por Bolsonaro e o ex-deputado Daniel Silveira para grampeá-lo com o propósito de promover uma virada de mesa. Absteve-se de tomar providências. Decorridos 50 dias, Moraes descobriu o valor de um antigo provérbio português segundo o qual “ninguém se livra de pedrada de doido e de coice de burro” —nem mesmo um ministro do Supremo e presidente do TSE.
Com atraso hediondo, Moraes abriu nesta sexta-feira investigação contra Marcos do Val. Antes, chamou a trama de “Operação Tabajara”, cujo amadorismo “mostra o quão ridículo nós chegamos na tentativa de um golpe no Brasil”. O ministro ironizou “a ideia genial que tiveram de colocar uma escuta no senador para que ele pudesse me gravar”. De fato, o bolsonarismo prova cotidianamente que a diferença entre a genialidade e a burrice é que a genialidade tem limites. Mas não é menos precário o magistrado que, percebendo que lidava com malucos de inteligência curta, se manteve por quase dois meses na incômoda condição de alvo de pedradas e coices.
Moraes alega que recebeu Marcos do Val apenas uma vez. Seu interlocutor diz que esteve com ele antes e depois da conversa com Bolsonaro e Daniel Silveira. O ministro sustenta que perguntou ao senador se ele faria um depoimento formal. Diante da recusa, decidiu dar de ombros. “O que não é oficial para mim não existe”, afirmou Moraes à plateia de Lisboa. Nada mais equivocado. Cabia ao ministro formalizar numa investigação o que jamais poderia ter permanecido por um segundo sequer na informalidade.
Como já era previsto, Do Val evoluiu da posição de pretenso traidor do bolsonarismo para a condição de suposto doido. Anunciou nesta sexta-feira que pediria à Procuradoria o afastamento de Moraes da relatoria dos inquéritos contra atos golpistas. Entre eles o que é estrelado por Bolsonaro. Uma maluquice que é vedada pelo Código de Processo Penal nos casos em que a suspeição do juiz é fabricada pela parte interessada no caso.
Além do inquérito aberto com atraso por Moraes, os senadores precisam levar Marcos do Val para o banco do Conselho de Ética. É preciso cassar o mandato do qual Do Val desistiu de renunciar. No Império Romano, houve um senador de estirpe parecida que fez muito sucesso. Chamava-se Incitatus. Mas tinha mais glamour do que o senador cavalgado por Bolsonaro. E não há notícia de que o preferido de Calígula distribuísse coices.
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