Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Conchavo com bolsonarista enterra pretensão de Aras de se manter como PGR

Bolsonaro aposta na certeza de impunidade ao confirmar ataque às urnas

Publicado em 24/08/2023 9:27 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Foto: José Cruz/Agência Brasil

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Mesmo sabendo que as chances não eram boas, o procurador-geral da República Augusto Aras vem tentando ser reconduzido a um terceiro mandato por Lula. Mas os diálogos analisados pela Polícia Federal, mostrando que ele agiu para proteger um empresário bolsonarista em uma investigação sobre mensagens golpistas após ser acionado por ele enterram essa pretensão.

Aguirre Talento, no UOL, nesta quinta (24), revela como Meyer Nigri, dono da Tecnica, acionou Aras após reportagem do site Metrópoles revelar a existência de um grupo de WhatsApp de empresários que trocavam conteúdo de teor golpista.

Aras respondeu que iria localizar o processo mas já antecipou que “se trata de mais um abuso do fulano”, a respeito do pedido de investigação que havia sido pelo senador Randolfe Rodrigues em cima da denúncia do Metrópoles.

Não era “abuso”, tanto que a PF descobriu que Nigri recebeu do próprio Jair Bolsonaro pedido para repassar “ao máximo” mensagens com ataques a urnas eletrônicas, ação confirmada pelo próprio ex-presidente. O empresário continua como investigado pela PF junto com outro membro do grupo, o dono da Havan, Luciano Hang.

E apesar de a defesa do empresário ter dito ao UOL que ele apenas “perguntou a opinião” de Aras, a proximidade manifestada com o procurador-geral da República através de outras mensagens e a proximidade do próprio PGR com Bolsonaro dá outro sentido à consulta.

Tanto que após o juízo de valor antecipado a PGR pediu ao STF o trancamento da investigação aberta contra Nigri e os outros empresários. O ministro Alexandre de Moraes autorizou a continuidade do inquérito.

Reportagem de Marcelo Rocha e Fabio Serapião, da Folha de S.Paulo, de 23 de agosto do ano passado, apontou que o procurador-geral da República ficou irritado por ser informado sobre a operação da Polícia Federal de busca nas casas dos empresários bolsonarista do tal grupo apenas na véspera da ação, pois sabia que isso demonstrava desconfiança do STF com a PGR.

O portal Jota já havia adiantado, na época, que, nos celulares apreendidos pela PF com os empresários bolsonaristas, havia trocas de mensagens deles com Aras com críticas a Alexandre de Moraes e comentários sobre a candidatura de Bolsonaro.

Aras chiou, mas após quatro anos de omissões graves, outros caminhos institucionais foram desenhados para suprir a inércia da PGR. Omissões que ajudaram a pavimentar o caminho para a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, com a invasão e vandalismo sobre as sedes dos Três Poderes. Afinal, se ele tivesse agido quando o então presidente atacava as urnas e o sistema de votação e ameaçava um golpe, provavelmente não teríamos o mesmo desfecho.

O PGR foi escolhido por Bolsonaro fora da lista tríplice de candidatos da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), quebrando uma tradição de quase duas décadas. Em seus dois mandatos, atuou como fiel escudeiro do presidente da República, protegendo-o.

Não significa que a PGR não investigava atos do governo federal, mas houve uma blindagem da figura de Jair. Com isso o ex-presidente também passou incólume apesar de suas ações e omissões na pandemia de covid-19 terem tido consequências mortais para milhares de brasileiros.

No governo Lula, há quem defenda pragmaticamente a manutenção de Aras no cargo exatamente pelos mesmos motivos que ele se mostrou útil a Bolsonaro. A Procuradoria-Geral da República, ressalte-se, precisa defender o povo brasileiro, não o seu governante de plantão – para isso, existe o Advogado-Geral da União e apenas para atos relacionados ao mandato.

Com a revelação dos diálogos e da ação subsequente de Aras, recolocá-lo como PGR seria equivalente a Lula a apoiar as conspirações que queriam apeá-lo à força do poder.

Bolsonaro aposta na certeza de impunidade ao confirmar ataque às urnas

Bolsonaro confirmou que pediu ao empresário Meyer Nigri, dono da Tecnisa, repassar “ao máximo” mentiras que ele enviou sobre as urnas eletrônicas. “Eu mandei para o Meyer, qual o problema?”, disse a Igor Gielow, da Folha de S.Paulo. A resposta tem o mesmo DNA de outras manifestações do ex-presidente que apostam em uma certeza de impunidade.

Antes de mais nada, vale explicar que o “problema” é que golpistas que depredaram as sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro estavam lá porque acreditaram em falsas afirmações sobre o TSE e o STF, como as propagadas por empresários bolsonaristas.

Tanto que levantamento de Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP, apontou que o primeiro a replicar no Facebook o texto com a mentira encaminhada por Bolsonaro a Negri foi um golpista, o major Ailton Barros. A informação foi inicialmente publicada na coluna de Daniela Lima, no G1.

Barros foi preso com o tenente-coronel Mauro Cid por envolvimento em fraude dos cartões de vacina. A polícia encontrou mensagens dele apelando a Cid para que intercedesse junto a Bolsonaro por um golpe de Estado. Ele aparece em conversas com outros militares, conspirando contra a democracia.

Dito isso, a declaração do “Mandei mesmo, qual o problema?” é prima-irmã do “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Questionado em 28 de abril de 2020 sobre o Brasil ter ultrapassado a China em número de mortos por covid-19, Bolsonaro deu essa declaração que se tornou símbolo de seu desdém não só pela vida, mas também da certeza de que sairia impune por suas ações e omissões durante a pandemia.

O “qual o problema” e o “e daí?” também são parentes do “foda-se” do então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, dito em fevereiro de 2020. Ele havia conclamado o presidente a não ficar “acuado” pelo Congresso Nacional (que pressionava para ficar com uma parte maior do Orçamento) e “convocar o povo às ruas”. A indignação foi captada pelo áudio de uma live.

Sabe aquele esforço para se preocupar com as consequências das próprias ações e palavras e, no mínimo, manter as aparências? Nos últimos anos, ele tirou férias, mandando avisar que não daria as caras tão cedo. Com isso, cada autoridade ou membro da elite deste país falou ou fez o que quis, sem medo da repercussão negativa junto à população.

Como já disse aqui quando teorizei sobre a “Era do Foda-se”, alguns a defendem, pois ela traria transparência. Há uma falsa dualidade nessa história, como se fossem possíveis apenas duas opções: pessoas que fazem coisas erradas e são sinceras (como um ex-presidente que espalhava mentiras sobre urnas para fomentar uma tentativa de golpe) e pessoas que fazem coisas erradas e mentem. Existe a alternativa de fazer a coisa certa e ser sincero, mas – pelo visto – essa está no campo da ficção.

A “Era do Foda-se” tem suas consequências, claro. Vendo autoridades darem de ombros para a razão, a população foi copiando. E passaram a descumprir regras do convívio em sociedade porque perceberam que elas não valem muita coisa mesmo.

Durante a pandemia isso significou seguir as orientações do presidente, ignorando quarentenas, saindo de casa mesmo quando não havia necessidade, contaminando e se deixando contaminar, ajudando a matar.

Depois, isso se traduziu em golpistas trancando rodovias e montando acampamentos com a anuência das Forças Armadas. Ou em ônibus e carros incendiados em Brasília no dia 12 de dezembro, em uma bomba plantada em um caminhão de combustível para explodir o aeroporto da capital federal no 24 de dezembro, e na invasão e destruição do Palácio do Planalto, do Congresso e do STF no 8 de janeiro.

E ela se manifesta fora da política também. Enquanto equipes de busca procuravam corpos soterrados e as autoridades locais faziam as contas para saber se haveria água potável para todo mundo após as chuvas, no início deste ano, turistas pegaram a estrada com pranchas de surfe, guarda-sóis e cadeiras para em São Sebastião (SP).

A administração do município litorâneo chegou a usar as redes sociais para pedir empatia e solidariedade, solicitando que fossem apenas em caso de necessidade. Muitos dos que deram de ombros e foram à praia poderiam muito bem repetir as palavras de Jair Bolsonaro que, questionado sobre os mortos pela pandemia de covid-19, usou o agora icônico “Eu não sou coveiro, tá certo?”.

Ainda na época do impeachment de Dilma Rousseff, ponderei que a reação em cadeia em curso de uma cassação ilegal inevitavelmente nos levaria para o esgarçamento institucional. E foi o que aconteceu.

Iniciada, a “Era do Foda-se” não pode ser freada do dia para a noite. O fim dela demanda nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de consensos. E de punição a quem causou o mal e confiava que, como Deus, estava acima de todos.

Pela quantidade de provas reunidas pela Polícia Federal em várias frentes, das joias árabes ao fomento do golpe, ele vai precisar de mais do que frases de efeito para se safar.

Apareceu o comandante do gabinete do ódio no Palácio do Planalto

Nos penitenciamos por termos sugerido várias vezes nos últimos anos que o comandante d gabinete do ódio que funcionava dentro do Palácio do Planalto era o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois do pai que não escolheu. Filho não escolhe pai.

Perdão, Carlos. Não era você. Você colaborou com o gabinete, deu ideias quando lhe pediram e torceu para que ele fosse bem-sucedido. Chegou a indicar alguns dos membros do gabinete, todos jovens como você, ardilosos, criativos e sem escrúpulos.

Mas o chefe do gabinete do ódio, responsável direto pela disseminação de notícias falsas, era seu pai, o presidente da República. Era dele a primeira e a última palavra. Como dono da caneta mais cheia de tinta do país, tudo passava por ele.

Foi o que Bolsonaro, querendo ou não, admitiu ao dizer que enviou uma notícia falsa para que o empresário Meyer Nigri, dono da Tecnisa, a distribuísse “ao máximo” em grupos de WhatsApp: “Eu mandei para o Meyer, qual é o problema?” É um réu confesso.

O problema é que as ações de um presidente da República têm um peso grande no destino de um país. Sua palavra, igualmente. Os efeitos dela são gigantescos. E quando ele age e fala para agredir as instituições e sabotar a democracia, incorre em crimes graves.

Mal assumiu o cargo, Bolsonaro começou a pôr em dúvida a segurança das urnas eletrônicas. Disse que teria sido eleito no primeiro turno se não houvesse fraude; defendeu a volta do voto impresso; desacreditou o processo eleitoral brasileiro.

O Congresso, em 2021, rejeitou a proposta que restabeleceria o voto impresso. Dentro das quatro linhas da Constituição, portanto, não haveria mais o que fazer. Mas Bolsonaro só jogou fora das quatro linhas. E passou a plantar e regar as sementes do golpe.

Por acreditar no que ele dizia, os golpistas se multiplicaram, e deu no que se viu: acampamentos à porta de quartéis; obstrução de rodovias; quebradeiras; queima de ônibus no centro de Brasília; bomba que quase explodiu; invasão da Praça dos Três Poderes.

E daí? Era Bolsonaro que mandava, e os pazuellos fardados e civis que tivessem juízo obedeciam. Não é só Janja que não confia em militar, Carlos também não. Ele derrubou o general Santos Cruz, ministro da Secretaria do Governo, por achar que conspirava.

Antes, por ciúmes, Carlos derrubou Gustavo Bebianno, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Desgostoso, Bebianno morreu menos de um ano depois. Carlos tentou derrubar o general Hamilton Mourão, mas o vice-presidente não é demissível.

Outra vez, perdão, Carlos. O culpado é seu pai.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *