23/02/2024 - Edição 525

Poder

Com Torres solto, agora é Cid quem sinaliza que lealdade ao mito tem limite

PF encontra certificados de diamantes em busca na casa do ‘faz tudo’ de Bolsonaro

Publicado em 12/05/2023 9:54 - Josias de Souza (UOL), Raphael Sanz (Fórum), Fernando Miller (DCM) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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A tranquilidade tornou-se um sentimento volúvel na rotina de Bolsonaro. O capitão confia plenamente no amanhã, a não ser que uma surpresa lhe caia sobre a cabeça durante a noite. Num instante em que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes coloca Anderson Torres em liberdade, o coronel Mauro Cid, ainda preso, se move como se flertasse com a delação.

Logo que foi recolhido à cana especial, Cid mandou dizer a Bolsonaro que não cogitava encrencá-lo em seus futuros depoimentos à Polícia Federal. Agora, a apenas seis dias do interrogatório do próprio Bolsonaro no caso da falsificação dos cartões de vacina, marcado para a próxima terça-feira, o coronel sinaliza ao capitão que não convém abusar de sua lealdade.

A saída do advogado Rodrigo Roca da defesa de Mauro Cid pode significar muita coisa ou coisa nenhuma. Roca é avesso a delatores. Declara abertamente que não defende réus que optam por firmar acordos de delação premiada. O novo defensor do ex-faz-tudo de Bolsonaro é o criminalista Bernardo Fenelon, um especialista em delações.

Nesse contexto, a novidade será bombástica se o desembarque de Roca for seguido do anúncio de que Cid decidiu confiar sua defesa ao doutor Fenelon porque se equipa para contar à polícia os podres de Bolsonaro. Do contrário, a troca de defensores será, aos olhos da plateia, uma irrelevância processual.

O comportamento de Bolsonaro em cima do patíbulo parece crucial na definição dos próximos movimentos do militar cuja atribuição estava resumida no nome do cargo. Cabia a Cid providenciar para que as ordens do presidente fossem cumpridas —as legais e, sabe-se agora, também as ilegais.

Rodrigo Roca já participou da defesa do primogênito Flávio Bolsonaro no caso da rachadinha. Ele havia abandonado também a defesa de Anderson Torres. Imaginou-se que o ex-ministro da Justiça viraria delator. Por ora, nada. Para sossego de Bolsonaro, o xerife Xandão, como se refere ao seu algoz supremo, mandou soltar Torres numa fase em que a língua dele continua presa.

Agora, pressionado por familiares, é Mauro Cid quem se pergunta diante do espelho de sua cela especial: Qual é o limite da lealdade? À medida que o tempo passa e as investigações da PF avançam, os encrencados do bolsonarismo vão percebendo que é sempre melhor se arrepender do que experimentou do que não experimentar. Exceto, naturalmente, luta de boxe, queda de avião e a subordinação irrefletida a Bolsonaro.

Bolsonaristas que planejaram bomba no aeroporto de Brasília são condenados

George Washington de Oliveira Sousa e Alan Diego dos Santos Rodrigues foram condenados em primeira instância na quinta-feira (11) pelo plano desbaratado na véspera de Natal em que pretendiam colocar uma bomba no aeroporto de Brasília a fim gerar uma situação de caos que justificasse um suposto golpe do então presidente Jair Bolsonaro (PL), mediante “intervenção” dos militares, que o mantivesse no poder.

A condenação de George Washington é de 9 anos e 4 meses de prisão, enquanto Alan Diego ficará preso por 5 anos e 4 meses. Por ser uma decisão em primeira instância, os condenados ainda podem recorrer.

Os dois foram julgados pelos crimes de expor a vida humana e o patrimônio público e privado a perigo mediante explosão de bomba. George Washington ainda acumulou as acusações de porte ilegal de armas de fogo e explosivos – com ele foi encontrado um verdadeiro arsenal avaliado em R$ 160 mil. Para Osvaldo Tovani, o juiz do caso, a dupla confessou o crime e afirmou que foi premeditado.

A sentença lembra cada passo do plano da dupla, que ainda teria contado com a participação de Wellington Macedo, que está foragido e alega inocência. O juiz relembrou que o próprio George Washington confessou o planejamento da colocação das bombas em dois locais de Brasília com o intuito de catalisar uma reação federal, a partir do caos gerado pelo atentado, que justificasse um golpe de Estado.

George Washington e Alan Diego se conheceram no acampamento bolsonarista armado diante do Quartel-General do Exército, em Brasília, onde teriam planejado o atentado. Em 24 de dezembro, a primeira bomba foi colocada no eixo de um caminhão de combustível aeronáutico que se dirigia ao aeroporto para abastecer aviões. A bomba foi desbarata não pelos serviços de inteligência ou pelas forças de segurança, mas pelo próprio trabalhador, o motorista do caminhão, que percebeu que havia algo errado, parou para checar, constatou a instalação do explosivo e, então, chamou as autoridades. Seu caminhão carregava 63 mil litros de combustível aeronáutico.

De acordo com a acusação, foi George Washington quem montou o artefato explosivo para que Alan Diego o colocasse no caminhão enquanto o motorista dormia.

PF encontra certificados de diamantes em busca na casa de Mauro Cid

Durante a busca na residência de Mauro Cid, a Polícia Federal encontrou, além de envelopes contendo dinheiro em espécie, certificados de diamantes sauditas emitidos por Saddik Omar Attar Est.

Não há indicação no material apreendido pela PF de que esses certificados estejam relacionados aos presentes de Bolsonaro ou se são joias pertencentes à família Cid. Os certificados dos diamantes foram encontrados em um envelope na cozinha de Cid.

Além disso, a PF descobriu vários pendrives espalhados por diferentes partes da casa, juntamente com um caderno contendo uma espécie de contabilidade paralela, no qual estavam registradas “anotações políticas” e pagamentos que totalizam R$ 50 mil.

Cid foi preso na semana passada por ordem do STF devido ao seu envolvimento em fraudes no sistema de vacinação do Ministério da Saúde.

A Polícia Federal já havia identificado um depósito considerado suspeito, no valor de R$ 400 mil, na conta do ex-braço-direito de Bolsonaro.

Recentemente, ele promoveu a troca de seu advogado: saiu Rodrigo Roca, próximo da família Bolsonaro, e assumiu sua defesa Bernardo Fenelon, especialista em delações premiadas.

PF faz busca e apreensão na casa do responsável pelo setor de presentes na gestão Bolsonaro

Na manhã desta sexta-feira (12), no Rio de Janeiro, ocorreu uma operação da Polícia Federal para realizar busca e apreensão de documentos na residência de Marcelo da Silva Vieira, ex-responsável pela classificação de presentes recebidos pelo presidente da República durante o governo Bolsonaro.

Marcelo da Silva Vieira ocupou o cargo de funcionário do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da Presidência da República desde o governo Temer, mas foi demitido em janeiro deste ano. Sua principal responsabilidade era revisar os presentes que poderiam ser aceitos para o acervo privado presidencial.

No mês passado, Vieira prestou depoimento à Polícia Federal sobre o caso das joias das Arábias. Durante esse depoimento, ele relatou que o presidente Bolsonaro participou de uma ligação na qual seu ajudante de ordens, Mauro Cid, solicitava que ele assinasse um ofício para liberar um estojo de joias oferecidas pelo governo da Arábia Saudita, as quais haviam sido retidas pela Receita Federal no Aeroporto de Guarulhos.

De acordo com informações do Blog da Andreia Sadi, do G1, em 13 de abril, o ex-chefe de gabinete de documentação histórica da Presidência, Silva Vieira, afirmou que, em dezembro de 2022, Cid pediu para ele assinar um ofício que seria enviado à Receita para solicitar incorporação dos bens aprendidos pela presidência.

Cid entrou em contato com Silva Vieira via WhatsApp e enviou um ofício para ele assinar e pedir a liberação das joias. Vieira disse ao braço-direito de Bolsonaro que não poderia fazê-lo. A mensagem foi enviada em 27 de dezembro, às vésperas do ex-capitão deixar o governo.


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