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Poder
Em manobra articulada para prejudicar o governo, Câmara beneficia bancos, bets e grandes fortunas
Publicado em 09/10/2025 9:44 - Semana On
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Em uma operação silenciosa e calculada, o Centrão e a extrema direita selaram um acordo que derrubou a Medida Provisória 1303 — conhecida como MP do IOF — e impuseram um rombo de R$ 46 bilhões nas contas públicas entre 2025 e 2026. A decisão, articulada a poucas horas do prazo final para a votação, garantiu que a medida caducasse sem sequer chegar ao plenário. O resultado: alívio para grandes fundos, bancos, casas de apostas e investidores de curto prazo — e menos recursos para infraestrutura, saúde, educação e programas sociais que atendem a população mais pobre.
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A sabotagem foi liderada por partidos do bloco de direita e centro-direita — PL, PP, União Brasil e Republicanos —, que, segundo fontes do Planalto, operam hoje como um “governo paralelo”, regulando o fluxo de arrecadação e gastos conforme seus interesses eleitorais. “Eles não derrotaram o governo, derrotaram o Brasil”, disse um interlocutor da base governista.
O que previa a MP 1303
A Medida Provisória enviada pelo Executivo previa a unificação da alíquota de Imposto de Renda sobre aplicações financeiras em 18%, corrigindo uma distorção do atual modelo regressivo, que isenta ou reduz tributos para aplicações de curtíssimo prazo — ferramenta usual dos super-ricos. A MP também previa o aumento da taxação das apostas eletrônicas (bets), que passaria de 12% para 18%, gerando arrecadação sobre um setor que movimenta bilhões sem a devida contrapartida fiscal.
O texto relatado pelo deputado Carlos Zarattini (PT-SP) previa ainda a manutenção de isenções para pequenos investidores, protegendo a classe média e concentrando a tributação nos grandes patrimônios. Com a derrubada da proposta, o sistema tributário segue beneficiando os mais ricos e adia mais uma tentativa de torná-lo mais justo e progressivo.
Benefício para poucos, custo para todos
Segundo cálculos da equipe econômica, os R$ 46 bilhões que deixam de entrar nos cofres públicos representariam recursos para ampliar o programa Minha Casa, Minha Vida, reforçar o Bolsa Família, expandir a rede de atenção básica à saúde e financiar obras de infraestrutura em regiões carentes. Agora, o governo será obrigado a rever despesas ou buscar alternativas para recompor parte da arrecadação.
“Hoje ficou claro que a pequena parcela muito rica do país não admite que seus privilégios sejam tocados. Não querem pagar impostos como a maioria dos cidadãos. E não querem que o governo tenha recursos para investir em políticas para a população”, afirmou a ministra Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política do governo (SRI), em publicação nas redes sociais.
Guerra política disfarçada de negociação
Para o Planalto, o movimento não foi uma derrota legislativa comum, mas uma sabotagem deliberada. O gesto reedita a tática vista em 2022, quando o mesmo Centrão aprovou, às vésperas da eleição, pacotes bilionários no governo Bolsonaro sem previsão de custeio — como a ampliação do Auxílio Brasil e o aumento do vale-gás — numa tentativa de inflar a popularidade do então presidente.
Agora, a estratégia se inverte: ao invés de liberar gastos, os partidos de direita impedem a arrecadação, estrangulam o caixa e tentam forçar o desgaste do governo Lula. “É jogar contra o Brasil”, resumiu o presidente Lula em publicação no X (antigo Twitter). “Essa medida reduzia distorções ao cobrar a parte justa de quem ganha e lucra mais. Impedir essa correção é votar contra o equilíbrio das contas públicas e contra a justiça tributária”, afirmou.
Congresso capturado
A manobra final contou com a pressão direta de lobbies poderosos. O destaque do deputado Pedro Campos (PSB-PE), que restabelecia a alíquota de 18% sobre as bets, foi derrubado juntamente com a retirada da MP da pauta. Parlamentares relataram pressão intensa de casas de apostas e representantes do mercado financeiro até os últimos minutos. O governo, com base fragilizada e sem maioria firme na Câmara, foi derrotado por uma coalizão informal de interesses privados que moldam a política fiscal conforme seus próprios lucros.
Para a economista e professora da UFRJ, Esther Dweck, ex-ministra da Gestão, a sabotagem ao sistema tributário tem como pano de fundo um modelo de dominação econômica. “Enquanto o andar de cima define o que pode ou não ser tributado, a maioria da população continua arcando com o grosso da carga tributária no consumo e nos serviços”, disse em entrevista à Carta Capital.
A conta chegou — e não é para todos
Com a queda da MP, as distorções persistem: investidores que aplicam por menos de 180 dias continuam pagando menos imposto do que aqueles que deixam o dinheiro por mais tempo. O Brasil segue entre os países que menos taxam a renda e o patrimônio dos mais ricos. Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em 2022, o Brasil arrecada apenas 3,8% do PIB em impostos sobre patrimônio, enquanto a média dos países membros gira em torno de 6,5%.
O governo promete reagir. A equipe econômica já estuda novas medidas infralegais para compensar parte da perda, e líderes do governo articulam projetos substitutivos no Congresso. Mas o desgaste político e simbólico está feito. Ao proteger os super-ricos e inviabilizar fontes de receita para políticas sociais, parte expressiva do Legislativo demonstra que, diante da escolha entre país e privilégio, opta sempre pelo segundo.
Governo avalia novo aumento de IOF e corte de emendas após derrota
A derrubada da medida provisória forçou a equipe econômica do governo a reavaliar o planejamento orçamentário e a discutir novas saídas para evitar o descumprimento do arcabouço fiscal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenta preservar o compromisso de equilíbrio fiscal sem recorrer a medidas impopulares, mas o quadro se estreitou.
Alternativas na mesa
Entre as opções em discussão estão:
– Novo aumento do IOF – o governo estuda voltar a elevar o imposto por decreto, mecanismo validado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que dispensa aval do Congresso. A medida teria efeito imediato sobre operações de crédito, câmbio e seguros, mas enfrentaria resistência de setores produtivos.
– Bloqueio de emendas parlamentares – segundo o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o Executivo pode congelar entre R$ 7 bilhões e R$ 10 bilhões em emendas. “O arcabouço atinge a parte que diz respeito ao Congresso, então tem que ter contingenciamento também dos recursos do Congresso”, disse o senador.
– Contingenciamento de despesas – o Ministério da Fazenda avalia ampliar o volume de gastos congelados, hoje em torno de R$ 12,1 bilhões, podendo chegar a R$ 27 bilhões. Isso incluiria cortes em programas e investimentos, afetando especialmente ministérios com maior execução orçamentária.
– Revisão de benefícios fiscais – o governo ainda tenta emplacar o projeto que reduz subsídios e isenções tributárias, com impacto estimado em R$ 19,8 bilhões em 2026, mas enfrenta forte resistência no Congresso e de setores beneficiados.
Tarcísio articulou queda da MP do IOF
A derrubada da MP 1303 não foi apenas uma derrota legislativa para o governo federal — foi uma ação política coordenada, liderada nos bastidores pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que se consolidou como figura central na reorganização da direita nacional. Em articulação direta com líderes do Centrão e da extrema direita, Tarcísio atuou para enterrar a medida que previa a taxação de bancos, fundos de investimento e apostas online, e que poderia gerar até R$ 35 bilhões em receitas públicas. O gesto, além de frustrar o ajuste fiscal de 2026, serviu como ensaio eleitoral para a corrida presidencial.
Apesar de ter negado publicamente qualquer envolvimento, a atuação de Tarcísio foi confirmada por lideranças da oposição e aliados do próprio governo. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP), relator da MP, foi direto: “Tarcísio teve participação direta e decisiva. Ele não queria apenas derrotar a medida, queria marcar posição nacional. Isso foi um movimento político calculado”.
Nos dias que antecederam a votação, parlamentares relataram ter recebido ligações de Tarcísio e de dirigentes partidários falando em nome do governador. Entre os articuladores estavam Antônio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (PP), dois dos principais operadores do Centrão. A ofensiva incluía ameaças relacionadas ao controle do fundo eleitoral e pressão direta sobre bancadas, especialmente a do PSD, alvo de atuação pessoal do secretário de Governo de São Paulo, Gilberto Kassab.
“Deputados receberam telefonemas dos presidentes de partido, em nome do Tarcísio. Eles ameaçaram os parlamentares por causa do fundo eleitoral”, afirmou Zarattini. Segundo ele, o próprio Kassab foi incumbido de “enquadrar” deputados do PSD e pediu pessoalmente o recuo do apoio à medida. Apesar disso, quase metade da bancada ainda votou com o governo — o suficiente para deixar explícito o racha e a quebra do acordo fechado dias antes entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e líderes do Centrão.
Um projeto de poder em construção
A atuação de Tarcísio foi confirmada no plenário. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido de Jair Bolsonaro, subiu à tribuna para agradecer publicamente: “Tarcísio, receba o nosso reconhecimento, a nossa gratidão por todo o seu empenho. Você tem sido um gigante no diálogo com os presidentes de partidos de centro para que a gente possa fazer essa coalizão”. O discurso foi aplaudido por parlamentares da oposição e visto nos bastidores como a consagração de Tarcísio como liderança nacional em ascensão.
O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) foi mais incisivo: “Tarcísio passou o dia ligando para presidentes de partido. Transformaram a votação da MP em um ato de oposição direta ao governo Lula. Isso é uma pré-campanha disfarçada”, afirmou.
A leitura em Brasília é de que o movimento foi um teste de força e influência de Tarcísio, que ainda não se lançou como pré-candidato à Presidência, mas articula silenciosamente com setores empresariais, partidos do Centrão e lobbies poderosos — em especial os ligados ao mercado financeiro e às casas de apostas sediadas em São Paulo. Esses grupos, contrariados com a proposta de taxação, pressionaram parlamentares e viram no governador paulista um canal confiável para bloquear a iniciativa.
“Protegendo os privilégios da Faria Lima”
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi direto ao apontar o verdadeiro impacto da derrota. Em declaração ao Broadcast Político, Haddad afirmou que a articulação contra a MP foi uma ação “em detrimento dos interesses nacionais, para proteger a Faria Lima”, em referência à elite financeira que opera no mercado paulista.
“Estamos falando de um movimento político para proteger privilégios e inviabilizar o financiamento de políticas públicas. Derrubar a MP foi uma escolha clara: deixar de arrecadar R$ 35 bilhões em nome de manter isenções para os mais ricos”, disse. O governo pretendia arrecadar R$ 17 bilhões apenas com a taxação das bets e dos títulos isentos.
Apesar do ataque direto, Haddad garantiu que o governo não responderá com retaliações institucionais: “Nós não vamos prejudicar o estado de São Paulo. Vamos agir para atender aos anseios dos paulistas, assim como fizemos até aqui”, afirmou.
Ensaio para 2026
Nos bastidores, membros da articulação política do Planalto reconhecem que a derrota expôs a fragilidade da base governista na Câmara e serviu de termômetro para a reorganização da direita no vácuo deixado pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Tarcísio surge como o nome mais viável para liderar essa recomposição, ao lado do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), que tem funcionado como escudo político para blindar o paulista do desgaste precoce.
“Eles transformaram uma votação fiscal em ensaio para 2026. Foi o primeiro ato de campanha, só que disfarçado de votação técnica”, disse um ministro ouvido reservadamente. Para o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, “a votação da MP foi um teste de lealdade à democracia e ao país”. Ele classificou a ofensiva como uma “sabotagem ao Brasil”.
O impacto da derrubada da MP vai muito além da disputa política. A proposta, além de corrigir distorções tributárias históricas, visava começar a romper com o sistema regressivo que onera mais os pobres e alivia os muito ricos.
A atuação de Tarcísio e de seus aliados impediu que esse debate avançasse. E sinalizou que, quando o tema é a taxação dos super-ricos, os compromissos com o país podem ser facilmente substituídos por alianças com quem lucra em silêncio. O Brasil perdeu. E a pré-campanha da direita ganhou seu primeiro comício.
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