13/04/2024 - Edição 540

Poder

Ciro Nogueira disse que EUA temiam recusa de Bolsonaro em aceitar derrota

Novas mensagens do celular de Mauro Cid podem complicar ainda mais o ex-presidente

Publicado em 30/06/2023 10:09 - Leonardo Sakamoto (UOL), Plinio Teodoro (Revista Fórum) – Edição Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil, disse ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que a preocupação de representações estrangeiras, convocadas por Jair Bolsonaro (PL) para uma reunião no Palácio do Alvorada no qual atacou sem provas o sistema eleitoral em julho do ano passado, não era com problemas na urna eletrônica, mas com a possível recusa do presidente em aceitar os resultados.

O depoimento consta do voto de Benedito Gonçalves, relator da ação que pode levar à inelegibilidade do ex-presidente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ministro votou por suspender os direitos políticos de Bolsonaro por oito anos, na noite de terça (27), devido a abuso do poder político e uso indevido de recursos públicos visando à sua reeleição.

“A testemunha descreve a preocupação do representante diplomático dos Estados Unidos da América com a instabilidade democrática no Brasil. O foco do receio não era algum risco de fraude no sistema de votação, mas a instabilidade política provocada pelo movimento de recusa à legitimidade dos resultados eleitorais”, diz o voto de Gonçalves.

Nesse sentido, disse a testemunha: ‘Eles tinham preocupação sobre a situação dessas discussões políticas e conflitos, né? Mas sobre a funcionalidade do sistema, não'”, completa.

Na quinta, o julgamento continua com os votos dos outros seis ministros da corte. A tendência é pela inelegibilidade.

Ciro Nogueira também afirmou ao TSE que discordava da reunião com embaixadores estrangeiros e que o evento era “superdimensionado e evitável”. O voto de Benedito Gonçalves afirma que o ex-ministro “não teria tido, pelo que relata, oportunidade para informar ao então Presidente da República que era desfavorável ao plano”.

O testemunho do senador tem peso especial porque ele exercia, na prática, a função de primeiro-ministro do governo Bolsonaro. De acordo com Gonçalves, o senador e liderança do centrão afirmou que não ajudou o então presidente a preparar o material que foi apresentado, não foi chamado a discutir a abordagem e desconhecia o que seria dito. Ou seja, não teve nada a ver com aquilo.

“A testemunha deixou evidente que esteve alheia ao planejamento da reunião de 18/07/2022. O ex-chefe da Casa Civil informou que não foi consultado sobre nenhum aspecto relevante da reunião com embaixadoras e embaixadores. Não teria tido, pelo que relata, oportunidade para informar ao então presidente da República que era desfavorável ao plano”, diz Gonçalves.

Nogueira, dessa forma, tentou se desvencilhar das consequências negativas da reunião criada por Bolsonaro como ato de campanha eleitoral transmitido pela TV pública. Na mesma linha estavam os depoimentos do então chanceler Carlos França e do ex-assessor para assuntos estratégicos da Presidência, Flávio Rocha, também citados no voto.

Para deixar claro sua discordância, o ex-ministro preferiu, logo no começo de seu depoimento, expressar confiança no sistema eletrônico de votação e reconhecer a atuação da Justiça Eleitoral em seu contínuo aperfeiçoamento. Distanciou-se, dessa forma, da abordagem do ex-presidente que, durante os últimos anos, afirmou em eventos, discursos e comícios exatamente o oposto.

Na análise de Benedito Gonçalves, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi “integral e pessoalmente responsável pela concepção intelectual do evento objeto desta ação”.

“Isso abrange desde a ideia de que a temática se inseria na competência da Presidência da República para conduzir ‘relações exteriores’ (percepção distinta da que externou o chanceler ao conceituar a matéria como ‘tema interno’), até a definição do conteúdo dos slides e a tônica da exposição (que parecem ter sido lamentadas pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil)”, analisa o ministro relator.

Ironicamente, Ciro Nogueira havia sido chamado pela defesa de Bolsonaro.

Novas mensagens do celular de Mauro Cid podem implicar Bolsonaro

A inelegibilidade que deve ser decretada nesta sexta-feira (30) pelo TSE deve ser apenas a primeira das várias derrotas que Bolsonaro sofrerá nos próximos dias. Uma preocupação do ex-presidente, no entanto, é latente: o depoimento de seu ex-ajudante de ordens, o tenente-coronel Mauro Cid, à CPMI dos Atos Golpistas, que acontece na próxima terça-feira (4).

Membro titular e uma das vozes mais consistentes entre os governistas na comissão, Rogério Correia (PT-MG) afirma que novas revelações sobre conversas do celular de Mauro Cid podem vir à tona até a oitiva do militar. E podem implicar diretamente Bolsonaro.

“O Mauro Cid está tão encalacrado que, realmente, o celular dele é uma nitroglicerina pura. Isso do que a gente sabe, porque o que ouvi dizer é que o telefone dele tem muito mais coisa além do que foi revelada. Coisas que ligam diretamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro”, afirmou.

Segundo Correia, a Polícia Federal (PF) ainda não terminou a diligência no celular, que foi apreendido. As informações devem ser compartilhadas com a Comissão.

“A PF ainda não divulgou tudo, pois ainda está em diligência. Tem muita coisa em segredo, tanto do telefone dele quanto do caso Mauro Cid. Vamos ver se até a semana que vem conseguimos revelar”, afirmou.

Cid obteve no Supremo Tribunal Federal (STF) o direito de ficar em silêncio em pergunta que possam incrimá-lo na CPI. A estratégia, no entanto, pode complicar ainda mais a vida do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

“Ele pode permanecer em silêncio naquilo que possa formar provas contra ele, nos outros assuntos, não. Ele na PF ficou em silêncio, então a tendência é que fique em silêncio. Tomara que não. O problema do silêncio é que isso posteriormente conta muito contra ele no relatório final. De certa forma, o silêncio denuncia também, é uma prova contra ele. Não quis se defender. Pode ser agravada a pena dele, diante da leitura que o Supremo faça do silêncio dele”.

Coronel prova na CPMI que militares bolsonaristas são corajosos só no zap

Em um patético depoimento na CPMI dos Atos Golpistas, na terça (27), o coronel Jean Lawand Júnior reforçou a percepção de que militares bolsonaristas são corajosos em conversas do WhatsApp, mas covardes à luz do dia.

Tratando os deputados e senadores como otários, ele disse que as mensagens que enviou ao tenente-coronel Mauro Cid, então faz-tudo de Jair Bolsonaro, pressionando o colega a incentivar o chefe a dar um golpe de Estado, eram, na verdade, para “apaziguar” o Brasil.

“Afirmo aos senhores que em nenhum momento falei sobre golpe, atentei contra a democracia brasileira ou quis quebrar, destituir, agredir qualquer uma das instituições”, disse ele na CPMI. Os diálogos ocorreram no final do ano, quando Lawand também era subchefe do Estado Maior do Exército.

“Cidão, pelo amor de Deus, cara. Ele dê a ordem, que o povo está com ele. Acaba o Exército Brasileiro se esses caras não cumprirem a ordem do Comandante Supremo”, disse ele ao tenente-coronel.

“Se o EB [Exército Brasileiro] receber a ordem, cumpre prontamente. De modo próprio o EB nada vai fazer, porque será visto como golpe. Então, está nas mãos do PR [presidente]” também afirmou, “Se a cúpula do Exército não está com ele, da Divisão para baixo está. Assessore e dê-lhe coragem. Pelo amor de Deus.”

Ou seja, ele diz que nunca disse o que efetivamente disse com medo de ser expulso da corporação ou até mesmo preso após ter perdido um posto nos Estados Unidos por conta das revelações de suas articulações golpistas.

Lawand mostra-se, dessa forma, alinhado ao próprio discurso de Bolsonaro, que, agora, nega o golpe três vezes até o galo cantar. Alega que suas mentiras contra as instituições e o sistema eletrônico de votação, que mobilizaram milhares de pessoas a tentarem um golpe em Brasília, eram apenas “sugestões”.

“É justo cassar os direitos políticos de alguém que reuniu embaixadores? Não é justo falar [que] atacou a democracia”, disse Jair nesta segunda (26), referindo-se à micareta golpista na qual juntou representantes de outros países no Palácio do Alvorada para atacar o sistema eleitoral do país usando, para isso, recursos públicos. “Não podemos aceitar passivamente no Brasil que possíveis críticas ou sugestões de aperfeiçoamento do sistema eleitoral seja tido como ataque à democracia”, afirmou.

O problema para Lawand é que essa tática não funciona. Tanto que Jair está prestes a se tornar inelegível em julgamento pelo TSE e pode ser preso por incitar o golpe de Estado.

É um alívio saber que a maioria da cúpula das Forças Armadas não divide as mesmas opiniões com esses oficiais bolsonaristas. Imagine se a covardia demonstrada em não assumir o que disse se traduzir em comportamento no campo de batalha? O Suriname conquistaria o Brasil em dois dias, caso quisesse nos invadir.

E, como bom bolsonarista, Lawand jogou alguém ao mar para se salvar. Neste caso, o próprio Jair. “Uma palavra do Bolsonaro, uma manifestação dele faria com que aquelas pessoas nas ruas retornassem aos seus lares e retornassem às suas vidas“, afirmou. A palavra, como sabemos, não veio. Ou seja, Jair é que não quis.

Quase inelegível, Bolsonaro insiste que lulistas quebraram Brasília em 8/1

Bolsonaro dividiu os atores golpistas do 8 de janeiro em dois grupos em entrevista à Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo de terça (27): “senhorinhas com uma Bíblia debaixo do braço e senhorzinhos com a bandeira do Brasil nas costas”, de um lado, e apoiadores de Lula infiltrados que destruíram as sedes dos Três Poderes, do outro. “Está mais do que comprovado que o quebra-quebra foi do pessoal deles [lulistas]”, mentiu.

Pois bem, uma das tais “senhorinhas” era Dona Fátima, de Tubarão (SC).

Ela ficou famosa ao ser presa na terceira fase da Operação Lesa Pátria, da Polícia Federal. Vestida com uma bandeira do Brasil, ela é exaltada em um vídeo gravado pelos próprios golpistas por estar “quebrando tudo”. No que responde: “Vamos para a guerra, vou pegar o Xandão agora!”, em referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes.

Antes do envolvimento nos atos golpistas, Dona Fátima foi condenada por tráfico de drogas (crack), usando jovens menores de idade, em 2014. Também tentou fraudar o INSS e usou documentos falsos. Nas redes, defendia o voto impresso e criticava a urna eletrônica, repetindo as palavras do “mito”.

Claro que nem todos os golpistas tinham a capivara de Dona Fátima. Mas ao insistir que as depredações do 8 de janeiro foram executadas por lulistas e petistas infiltrados, Bolsonaro ofende profundamente não apenas a razão e a realidade, mas o seu rebanho.

Vídeos mostram seguidores do ex-presidente extremamente orgulhosos do que estavam fazendo, acreditando estarem salvando o Brasil de uma ditadura gayzista-comunista-globalista-naturalista-republicanista. Débora Rodrigues dos Santos, por exemplo, estava em júbilo quando pichou “perdeu, mané” na estátua que representa a Justiça em frente ao STF.

Quando a Polícia Militar começa a agir no 8 de janeiro, já sob intervenção do secretário-executivo do Ministério da Justiça Ricardo Capelli, o coronel da reserva Adriano Testoni, bolsonaristas de carteirinha, gravou um vídeo reclamando dos generais que não estavam dando um golpe. “Bando de generais filhas da puta. Vão tudo tomar no cu. Vanguardeiros de merda. Covardes. Olha o que está acontecendo com a gente. Esse nossa Exército é uma merda”, afirma.

A PF cruzou os vídeos com as redes sociais dos envolvidos e, surpresa, não eram petistas infiltrados, mas bolsonaristas-raiz.

Na entrevista, Jair disse que seu seguidor que plantou uma bomba em um caminhão de combustível para explodir o Aeroporto de Brasília era apenas um “imbecil”, a imagem do vândalo com um camiseta com o seu rosto foi propositadamente divulgada por Lula e nenhum quebra-quebra ocorreu pelas mãos de quem estava acampado na frente do Quartel-General do Exército, apesar do local ter sido usado como cabeça de ponte para o ataque à Praça dos Três Poderes e depois como esconderijo de vândalos.

No Bolsoverso, o universo paralelo construído a partir das narrativas de Jair, a culpa é sempre do PT.

Prestes a ser impedido de disputar eleições por oito anos devido a crimes cometidos, em ação que volta a ser julgada nesta terça, Bolsonaro continua empurrando para longe de si toda e qualquer prova das ações que efetivamente cometeu. Golpistas são sempre os outros.

O problema é que isso deve colar com pessoas como a Dona Fátima de Tubarão, mas não com a maioria dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral.


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