26/02/2024 - Edição 525

Poder

Cerco a Bolsonaro se fecha com prisão de Anderson Torres

Sabotagem nas forças de segurança da capital federal teria sido orquestrada pelo então secretário da Segurança Pública ligado ao ex-presidente

Publicado em 11/01/2023 9:53 - Ricardo Noblat (Metrópoles), DW, Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Abr

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Nunca antes na história do Brasil democrático um ministro da Justiça, ou ex-ministro, teve sua prisão decretada. Nunca antes um presidente fugiu do país para não passar a faixa ao seu sucessor. E nunca antes manifestantes invadiram ao mesmo tempo as sedes dos três Poderes da República, destruindo o que puderam.

Está bom ou quer mais? Nunca antes o Exército forneceu abrigo a golpistas que pediam a anulação de eleições por discordarem dos seus resultados. Nunca antes portas de quartéis viraram incubadoras de terroristas, como bem observou recentemente o novo ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB-MA).

A pedido da Advocacia-Geral da União, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ordenou a prisão de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. Um dia depois de assumir a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, Torres voou ao encontro de Bolsonaro em Orlando.

Antes de fazê-lo, demitiu ocupantes de cargos-chave da Secretaria e não nomeou seus substitutos. Dessa forma, a Secretaria estava acéfala no dia da tentativa do golpe insinuado há mais de ano pelo ex-presidente que se evadiu. Torres anunciou sua volta ao Brasil para não ter que entrar na lista dos procurados pela Interpol.

Quer ele colabore ou não com as investigações sobre o golpe, a memória do seu celular poderá ajudar a esclarecer muitas coisas. Por saber disso, ele antecipou que o celular foi clonado e que alguém em seu nome teria enviado mensagens. É a construção de um álibi para defender-se de possíveis acusações.

Bolsonaro já construiu o dele para desvincular-se da suspeita de que sabia do golpe. Dirá que condenou os bloqueios de estradas por caminhoneiros, a invasão por vândalos do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e que estava fora do país quando isso aconteceu. Convincente?

Quanto à memória do seu celular… Uma vez, pediram ao Supremo a apreensão do celular de Bolsonaro. Ele revoltou-se, disse que jamais o entregaria, antes mesmo de o Supremo julgar o pedido improcedente. Mas à época, ele era o presidente. Agora, não é mais nada, e responde a quatro inquéritos no Supremo.

Se o único problema de Bolsonaro fosse o celular, ele não teria problema algum. Poderia jogá-lo no mar da Flórida, onde se refugiou, e alegar depois que o perdeu ou que ele lhe foi roubado. Mais dia menos dia, Bolsonaro será forçado a retornar ao Brasil; teme ser mandado embora pelo governo americano.

Se pensa em exilar-se na Itália, terra dos seus avós, fique sabendo que por lá não será bem-vindo. O governo da Itália é de extrema-direita, embora finja que é só de direita. Sob pressão de chefes de Estado da Comunidade Europeia, a primeira-ministra italiana criticou o movimento golpista do último dia 8 no Brasil.

Bolsonaro arrisca-se a ficar parecido com o antigo porta-aviões São Paulo, da Marinha brasileira. Posto à venda, ele foi comprado por uma empresa turca para ser desmontado e transformado em sucata. Sua entrada na Turquia, porém, foi proibida pelo governo porque o navio contém materiais tóxicos em sua estrutura.

Desde então, o navio vaga pelo mundo sem encontrar um país que o aceite.

Sabotagem

O interventor do governo federal na segurança pública do DF, Ricardo Garcia Cappelli, acusou Torres de estar por trás de uma sabotagem nas forças de segurança da capital federal, que teria sido orquestrada pelo então secretário da Segurança Pública.

“Foi um ato de sabotagem do secretário Anderson Torres, ex-ministro de Bolsonaro, que assumiu a Secretaria de Segurança no dia 2, mudou todo o comando e viajou. Não foi por acaso”, disse Cappelli.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, avaliou que a quantidade de policiais na Esplanada dos Ministérios no dia dos ataques era insuficiente. “Havia um efetivo planejado e um efetivo real, em um certo momento esse efetivo era três ou quatro vezes menor que o planejado”, observou.

Torres rejeitou as acusações de que teria sido leniente. “Não houve leniência, é a primeira vez que tiro férias em muito tempo”, afirmou o ex-secretário ao jornal Folha de S. Paulo. Ele também negou que tivesse ido aos EUA para se encontrar com Bolsonaro, que viajou para a Flórida antes da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Não me encontrei com ele em nenhum momento. Estou de férias com a minha família. Não houve nenhuma trama para que isso ocorresse”, declarou, referindo-se aos atos golpistas.

Na mira do STF

Em nota divulgada em suas redes sociais, Torres negou uma possível associação com os golpistas que atacaram a sede do Poder na capital federal. “Lamento profundamente que sejam levantadas hipóteses absurdas de qualquer tipo de conivência minha com as barbáries a que assistimos.”

A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu também a Moraes a investigação e responsabilização civil e criminal dos perpetradores de atos ilícitos no domingo, além da apreensão de “todos os veículos e demais bens utilizados para transporte e organização dos atos criminosos”.

Torres já havia sido apontado por Moraes – que é o relator das investigações sobre atos antidemocráticos no STF – como envolvido na live nas redes sociais de Bolsonaro realizada em 29 de julho, uma das ocasiões nas quais o ex-presidente atacou as urnas eletrônicas e o sistema de votação no Brasil.

Ex-comandante da PM preso

O ex-comandante da Polícia Militar do Distrito Federal Fabio Augusto Vieira foi preso nesta terça-feira, também após ordem de Moraes. Ele era o comandante da corporação no domingo passado e já havia sido afastado do cargo por Cappelli por suspeita de conivência com os extremistas bolsonaristas.

A atuação da polícia e do governo do DF durante os atos golpistas vem sendo questionada, em meio a suspeitas de conivência por parte das autoridades locais. Imagens registradas pelos próprios bolsonaristas mostram policiais permitindo a entrada de grupos de bolsonaristas na sede do Congresso Nacional.

Análise

Ao mandar prender Anderson Torres, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes encostou em Jair Bolsonaro a investigação da versão tupiniquim do Capitólio. A movimentação de Moraes inquieta o bolsonarismo. Em avaliações compartilhadas com Bolsonaro, filhos e aliados dizem estar convencidos de que o magistrado que o capitão já chamou de “canalha” se equipa para prendê-lo.

Sentindo o cheiro de queimado, o primogênito Flávio Bolsonaro foi ao microfone do Senado nesta terça-feira para qualificar de fantasiosa a tese segundo a qual seu pai estaria por trás do Capitólio bolsonarista. “Não queiram criar essa narrativa mentirosa, como se tivesse alguma vinculação de Bolsonaro a esses atos irresponsáveis”, declarou o Zero Um.

O problema é que Bolsonaro e os bolsonaristas cavaram nas redes sociais as trincheiras do golpismo. Produziram um rastro de provas contra si mesmos. Anunciaram em conta-gotas um complô contra a democracia como se desenhassem sem borracha. Tornou-se impossível apagar todas as evidências. A responsabilidade política de Bolsonaro é clara. Moraes tenta empurrar o capitão e seus cúmplices para dentro das quatro linhas do Código Penal.

Com o fim da gestão Bolsonaro, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres havia reassumido a chefia da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal no dia 2 de janeiro. Apenas cinco dias depois, viajou em férias para a Flórida, o mesmo refúgio escolhido por Bolsonaro. Estava ausente do Brasil no domingo, quando falanges bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes.

Em vez de reprimir os golpistas, a Polícia Militar de Brasília, subordinada a Anderson Torres, escoltou os criminosos até a cena do crime, abstendo-se de reprimir o quebra-quebra. Mesmo ausente, Torres foi demitido pelo governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha. Horas depois, Moraes afastou do cargo por 90 dias o próprio Ibaneis.

O mandado de prisão contra Anderson Torres foi expedido a pedido da Advocacia-Geral da União, no âmbito do inquérito sobre milícias digitais. Moraes ordenou também que a Polícia Federal varejasse a casa de Torres numa batida de busca e apreensão. O ex-ministro mora no mesmo condomínio fechado em que Bolsonaro alugou uma casa em Brasília.

Moraes foi um dos principais alvos da fúria dos invasores que destruíram o plenário do Supremo no domingo. O atentado reforçou o aval tácito concedido pela maioria dos colegas de tribunal para que Moraes conduza com mão forte as investigações que envolvem Bolsonaro e o bolsonarismo no Supremo.


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