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Poder

Centrão tenta enquadrar investigação sobre o Master como disputa eleitoral

Emenda de Ciro Nogueira amplia riscos, estimula apostas financeiras de alto risco e pode levar Fundo Garantidor de Crédito ao colapso histórico

Publicado em 13/05/2026 9:23 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O avanço das investigações sobre o caso Master desencadeou uma movimentação coordenada entre lideranças do Centrão e partidos de centro-direita, que passaram a discutir uma estratégia conjunta para enfrentar os efeitos políticos da Operação Compliance Zero. O ponto de inflexão ocorreu após a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro.

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Nos bastidores, dirigentes de legendas como Progressistas, Republicanos, PSD e União Brasil avaliam que o aprofundamento das apurações atingirá prioritariamente seus quadros nos próximos meses, justamente às vésperas do processo eleitoral. Diante desse cenário, consolidou-se uma linha de atuação dividida em duas frentes: defesa técnica nos tribunais e enfrentamento político na arena pública.

A avaliação predominante entre esses grupos é de que as denúncias devem ser enquadradas, politicamente, como parte de uma ofensiva seletiva com motivação eleitoral. A expectativa é de que discursos sobre perseguição política passem a ocupar espaço central na narrativa pública adotada pelos investigados.

A reorganização da defesa de Ciro Nogueira tornou-se um dos exemplos mais simbólicos dessa estratégia. Embora inicialmente representado pelo criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, um dos advogados mais conhecidos do país, o senador optou por transferir sua representação formal para um afilhado do jurista, com atuação menos exposta na mídia. A mudança preserva a articulação jurídica nos bastidores, mas reduz a associação política direta da defesa no debate público.

A quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal na última semana, elevou o caso a outro patamar. A investigação, autorizada pelo ministro André Mendonça, passou a examinar uma relação que, segundo o Supremo Tribunal Federal, teria ultrapassado os limites de uma amizade pessoal entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

As suspeitas apontam para um esquema de contrapartidas políticas envolvendo benefícios financeiros e atuação legislativa em favor da instituição bancária. Entre as vantagens investigadas estão a aquisição subfaturada de participação societária em empresas ligadas à família do senador, pagamentos mensais que teriam alcançado R$ 500 mil, uso de imóvel de alto padrão e custeio de viagens em voos privados e hospedagens internacionais. Em troca, segundo a PF, Ciro Nogueira atuaria como um representante dos interesses do banco dentro do Congresso Nacional.

O núcleo mais sensível da investigação envolve a chamada “Emenda Master”, apresentada em agosto de 2024. A proposta previa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal identificou que o texto não teria sido elaborado pela equipe legislativa do senador, mas redigido diretamente pela assessoria do Banco Master e entregue pessoalmente na residência de Ciro Nogueira.

Mensagens interceptadas pela investigação mostram que Daniel Vorcaro teria comemorado a proposta internamente, descrevendo-a como uma “bomba atômica no mercado financeiro” capaz de “sextuplicar” os negócios do banco.

Em resposta às acusações, Ciro Nogueira passou a reforçar publicamente a tese de motivação política das investigações. Em vídeo divulgado nas redes sociais em 12 de maio, o senador afirmou estar sendo alvo de ataques em ano eleitoral e defendeu novamente a atualização do teto do FGC. Segundo ele, o valor atual estaria defasado há mais de uma década.

Na gravação, o parlamentar afirmou que pretende reapresentar a proposta, sustentando que a correção monetária baseada na taxa Selic elevaria o limite para mais de R$ 840 mil. Também argumentou que, com o desaparecimento do Banco Master, os grandes bancos perderiam a justificativa para se opor à ampliação da proteção aos correntistas.

O debate em torno da emenda ganhou dimensão ainda mais crítica após economistas apontarem os riscos sistêmicos da proposta. O professor e mestre em economia Robert Lamas Correa classificou a medida como um fator potencial de desestabilização do sistema financeiro brasileiro. Segundo ele, a ampliação da garantia estimularia o chamado “risco moral”, mecanismo em que agentes privados assumem apostas mais arriscadas ao saberem que prejuízos futuros serão absorvidos por terceiros.

Para o economista, a aprovação da proposta transformaria o FGC em uma ferramenta de subsídio indireto a operações de alto risco. Ele estima que o impacto adicional poderia chegar a R$ 15 bilhões acima do prejuízo já registrado de R$ 51,8 bilhões. “O aumento do teto para R$ 1 milhão eliminaria o freio de contenção representado por investidores institucionais, permitindo que bancos de captação agressiva operassem com risco moral elevado”, afirmou.

O modelo de negócios do Banco Master, segundo especialistas, dependia fortemente da captação agressiva de recursos garantidos pelo FGC e de aplicações em ativos de risco elevado. A eventual ampliação do limite de cobertura permitiria ao banco expandir ainda mais essa estratégia, prolongando um modelo considerado financeiramente insustentável.

O temor em torno dos impactos econômicos aumentou após o colapso do Banco Master, em fevereiro de 2026. A liquidação da instituição, somada às quebras do Will Bank e do Banco Pleno, provocou um impacto estimado de R$ 51,8 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, consumindo quase um terço dos recursos disponíveis, avaliados em cerca de R$ 140 bilhões.

Segundo Robert Lamas, o sistema chegou perto de um cenário inédito de insolvência do fundo garantidor. “O FGC operou no limite da sua liquidez, caindo para 1,28% do mínimo recomendado. Teríamos assistido ao primeiro calote do Fundo Garantidor de Créditos da história do Brasil”, alertou. O economista acrescenta que depositantes com valores entre R$ 250 mil e R$ 1 milhão poderiam sofrer perdas permanentes, provocando uma crise de confiança nos bancos médios e pequenos do país.

A dimensão do rombo levou o Conselho Monetário Nacional a endurecer, em abril de 2026, as regras do FGC, com novas medidas previstas para entrar em vigor em junho. Para especialistas, o episódio expôs fragilidades estruturais na relação entre interesses privados, Congresso Nacional e sistema financeiro.

Robert Lamas sustenta que a chamada “Emenda Master” não foi um evento isolado, mas resultado de um ambiente político permissivo à captura regulatória. Segundo ele, o caso demonstra como emendas parlamentares passaram a funcionar como instrumentos de barganha com baixa rastreabilidade e reduzido controle técnico. “Quando o Legislativo tenta atropelar a competência técnica do Banco Central para favorecer um player específico, está negociando a estabilidade do país em troca de vantagens privadas”, afirmou.

A defesa de Ciro Nogueira nega as acusações apresentadas pela Polícia Federal. O senador também divulgou manifestações oficiais nas redes sociais contestando as suspeitas. Em março de 2026, ele chegou a afirmar que renunciaria ao mandato caso surgisse alguma denúncia comprovada contra si. Atualmente, por decisão judicial, está proibido de manter contato com os demais investigados do caso.

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