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Poder
Marçal provou o que vêm dizendo há tempos: você recebe o que faz por merecer
Publicado em 16/09/2024 1:04 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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Três avisos importantes: a) violência física em uma eleição deve ser repudiada; b) violência psicológica, ataques baseados em mentiras e campanhas de difamação também; c) a população de São Paulo está vivendo a eleição municipal com mais baixo nível desde a redemocratização.
Dito isso, as consequências políticas incertas da cadeirada que José Luiz Datena deu em Pablo Marçal, no debate da TV Cultura, na noite desta segunda (15) são incertas.
O advogado do influenciador disse que ele machucou uma costela e a mão. O Hospital Sírio Libanês já emitiu nota liberando Marçal, já que não houve ferimentos graves. O fato é que ele já está explorando isso. Mas ainda é cedo para dizer o quanto ele conseguirá capitalizar eleitoralmente a agressão. Se tiver sucesso, terá sido o grande vencedor do debate. Alijado de bater boca com Ricardo Nunes e Guilherme Boulos devido às regras dos sorteios, decidiu dar sequência à tática da baixaria e provocar o candidato do PSDB com uma acusação de assédio sexual até levar a cadeirada.
Mas também ser visto como corresponsável pelo episódio por parte do eleitorado indeciso e punido com aumento na rejeição. O próprio Datena pode ganhar votos ao final por “representar o sentimento” de uma parcela da população indignada com o seu comportamento.
Marçal, que implementa campanhas de ódio contra seus adversários, usa o caso para convencer que é, na verdade, o principal alvo de ódio da eleição. Defende que está sendo vítima porque que estaria lutando contra o sistema. Bobagem, claro, mas sempre tem um chinelo velho para um pé cansado e vitimizado.
Entre os comentários nos vídeos que mostram Marçal recebendo oxigênio ao ser transportado ao hospital e de avental no quarto do Sírio-Libanês, são muitos os que lhe dão suporte, torcendo para que esteja bem e atacando um fantasioso “complô comunista”.
Mas há também quem o chama de frouxo por chamar para a briga e não aguentar o tranco e quem o acusou de supervalorizar o ocorrido para copiar o que aconteceu com Jair Bolsonaro e Donald Trump. Lembram que ele saiu com as próprias pernas do Teatro B32 e chegou a entrar no próprio carro antes de resolver ir de ambulância para o hospital.
Suas contas nas redes sociais correram para comparar o ocorrido à facada que o ex-presidente brasileiro recebeu em 6 de setembro de 2018 e com o tiro que o ex-presidente norte-americano levou de raspão em 13 de julho deste ano. Ambos os casos foram em eventos eleitorais.
A cadeirada, contudo, não é facada. Apesar de ter sido agredido, Marçal passou longe de ser ferido como Jair, que quase morreu. Tanto que, antes de deixar o debate, e já tendo recebido a cadeirada, ainda estava bem o suficiente para continuar batendo boca com Datena. Além disso, o ataque serviu para Bolsonaro não precisar ir a sabatinas e debates, onde ele se dava mal. E Pablo precisa ir a debates e sabatinas, que é onde ele consegue gravar seus vídeos para bombar nas redes sociais – uma vez que não têm tempo de rádio e TV.
Cadeirada também não é tiro de sniper. Não gerou foto de sangue, como Trump, apesar de poder produzir imagem de tipoia ou gesso. Mas fica estranho alguém que levou uma multidão para escalar o pico dos Marins e criticar quem pediu para voltar por causa do mau tempo reclamar de tipoia ou gesso.
O ato de Datena está sendo compreendido por outra parte do eleitorado, que repudia a agressão física, mas entende que ele foi alvo de ataques muito baixos de Marçal. Há entre coordenadores de campanhas com os quais a coluna conversou logo após o debate a percepção de que ele pode, inclusive, ganhar votos ao invés de perder. A coluna falou com o apresentador e ele está tranquilo.
De acordo com o professor de Direito Eleitoral da FGV Fernando Neisser, mesmo com o ocorrido, o PSDB tem direito legal de ir aos próximos debates. Então, se Datena quiser, estará presente. Marçal pode tentar uma ordem judicial de restrição, mas vai ser difícil conseguir, dada a característica do caso.
Nisso, o prefeito Ricardo Nunes é quem deve estar mais preocupado com a possibilidade de Marçal tomar de volta parte dos votos do bolsonarismo que ele havia conseguido recuperar ao explorar o caso.
Não sabemos ainda qual rumo o eleitorado vai tomar diante do ocorrido, o jeito é esperar as próximas pesquisas. Por enquanto, o que é possível afirmar é que a cadeira lançada pelo apresentador contra o ex-coach venceu o debate. Pelo menos, do ponto de vista da superexposição.
Totalmente desconhecida antes de hoje, ela rodou o mundo e ganhou as manchetes de todos os veículos de comunicação no Brasil e está estampada em alguns da América do Sul, dos Estados Unidos e da Europa. Tornou-se meme, gif, está no TikTok, no Instagram, no YouTube. Já é o assunto mais falado desta eleição. Chamada de instrumento ditatorial por uns e de heroína paulistana por outros, nunca mais será a mesma depois desta noite.
Cadeiradas que importam devem ser desferidas pelo eleitor, na urna
Os debates eleitorais de São Paulo são tão violentos que a cadeirada de José Luiz Datena em Pablo Marçal parece uma cena de mutilação democrática destinada a descansar o espectador para coisas mais fortes que estão por vir. O diabo é que o descanso tem a duração de um intervalo comercial.
Datena foi expulso do programa. Marçal ainda voltou ao púlpito da TV Cultura. Mas preferiu transferir seu espetáculo, de ambulância, para as redes sociais. Ali, indagou: “Por que todo esse ódio?” Exagerando na pose de vítima, igualou a agressão de Datena às tentativas de homicídio contra Bolsonaro, em 2022, e Trump, neste ano.
Como cadeira não é faca nem rifle, o marketing da cadeirada serve para expor a debilidade de uma onda eleitoral que tem dificuldades para realizar o sonho de virar tsunami. Mais próximos do segundo turno, Ricardo Nunes e Guilherme Boulos cuidaram de manter o debate na sarjeta.
Nunes chegou a perguntar para Boulos: “Você cheirou?” Tanto lodo deu a Marina Helena uma aparência de Irmã Dulce. E permitiu a Tabata Amaral lamentar a “postura dos homens”.
Na ribalta da internet, os recortes de Marçal foram compartilhados na velocidade da luz. Ganharam as redes caretas do candidato com trilha sonora de sirene, o “M” feito com ar compungido no leito do hospital Sírio Libanês, a palavra do médico sobre uma “linhazinha de fratura” no sexto arco costal…
Datena diz que continua candidato. E Marçal manda dizer que agora é ele quem exige regras mais duras para os debates. Quer, por exemplo, seguranças no palco. Antes que seja necessário impor focinheira aos debatedores, o eleitor talvez perceba que que, numa democracia, as únicas cadeiradas que importam são aquelas desferidas por ele, nas urnas. Faltam 20 dias para o primeiro turno. É tempo suficiente para deixar de confundir certos candidatos com candidatos certos.
Marçal revela projeto messiânico ao se ver maior que Salomão, diz teólogo
Vídeos que mostram o candidato Pablo Marçal (PRTB) se colocando acima do rei Salomão, um dos mais reverenciados personagens do Velho Testamento, a quem são atribuídos os livros de Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos, circulam nas redes desde a semana passada. O que gerou indignação entre cristãos e passou a ser usado por seus adversários.
“Ao se comparar a Salomão, Pablo Marçal se coloca em patamar de uma nobreza sem paralelo na história judaica”, afirma o pastor Ricardo Gondim, presidente da Igreja Betesda, considerado referência entre os teólogos evangélicos. “Entre a riqueza e a sabedoria, Salomão escolheu a sabedoria. Marçal, imitando Donald Trump, se coloca como alguém que é rico e, ao mesmo tempo, tem habilidades intelectuais fora do normal.”
Gondim lembra que Salomão construiu o monumental Templo de Israel enquanto Marçal anuncia que vai construir um monumental edifício com um quilômetro de altura. “Ironicamente, ele não leva em conta que o empreendimento de Salomão, que ele pretende ultrapassar de forma megalomaníaca, levou o reino de Israel à bancarrota e a uma guerra civil”, diz.
No vídeo, Marçal desafia os fiéis a procurarem o nome de Salomão no Google. “Bate o nome dele lá. Sabe por que eu estou te falando isso? Porque nós precisamos parar de venerar Salomão”, afirma.
“Salomão escreveu três livros, eu escrevi 45. Salomão tinha mil mulheres e não encontrou a paixão da vida dele, eu tenho só uma. Salomão nunca voou. Salomão nunca falou com o planeta Terra inteiro ao mesmo tempo e eu estou falando. Salomão nunca teva a atenção de 50 milhões de pessoas, Salomão não tem 2,4 bilhões de marcação no TikTok”, disse também. “Salomão era um nenê”, define o candidato.
Outro vídeo que também viralizou é aquele em que Pablo Marçal, em evento realizado, em Goiânia, em 2021, tentou fazer uma mulher cadeirante voltar a andar na base da oração. Sem sucesso, claro. A cena, em que ele tenta copiar a cura presente nos evangelhos e em determinados cultos religiosos, é constrangedora.
“Pablo Marçal é evangélico. Sua fala tem todos os ‘códigos’ do mundo neopentecostal. Quando o vi tentando curar a moça numa cadeira de rodas e, no maior cinismo, dizer que a culpa de não se levantar era do auditório, mais que um charlatão eu o identifiquei imediatamente com minhas antigas racionalizações sobre milagre. Ou seja, ‘nossa obrigação é orar, se Deus vai curar ou não é uma decisão dele.’ Tudo isso é sinistro e cruel”, avalia Gondim.
Essas comparações tem potencial de atingir a sua imagem, mas também conectá-lo a um público suscetível ao projeto de uma liderança messiânica e que acredita na prosperidade material e na cura como resultado da fé.
“Ele também representa tanto os ‘farialimers’ como os ‘caipiras goianos’, com o discursos daquele que venceu. Articulado nas frases de efeito e com uma pegada tipicamente meritocrática, nada de braçadas nos empreendedores do ‘mercado'”, afirma Gondim.
Para Gondim, que estuda o impacto do discurso extremista entre o público evangélico, Marçal não é de extrema direita.
“Ele copia o que ‘dá certo’. Trump chama seus oponentes de apelidos, Marçal também. Trump aponta o dedo para ‘fake news’, Marçal também. Trump prometeu uma cerca que o México iria pagar, Marçal quer construir um edifício de mais um quilômetro de altura para mostrar a imponência de São Paulo. Trump se considera o homem com um QI excepcional, Marçal se diz superior a Salomão – e por aí vaí”, afirma.
Ricardo Gondim avalia que, com isso, o candidato não tem um projeto político, mas está empenhado em uma “corrida narcísica”.
“Enquanto Bolsonaro tinha um projeto familiar – fortalecer o clã – e encher as burras de dinheiro, Marçal tem um projeto solo: é ele por ele mesmo. Bolsonaro queria ser um autocrata, mas dividindo o poder com figuras patéticas, todavia, não se tem notícia de quem seriam os principais parceiros de Marçal”, diz.
Mas investigações policiais e da imprensa podem dar uma pista. Gravação mostra o presidente do PRTB, Leonardo Avalanche, afirmando ser ligado ao PCC e ter ajudado na soltura de um de seus líderes. Outras lideranças do partido são investigadas pela Polícia Civil por trocar cocaína por carros de luxo em nome da facção criminosa.
Na avaliação do teólogo, o fato de alguém que se apresentar como um “caipira do Planalto Central” fazer o barulho que faz em uma cidade cosmopolita como São Paulo, prova um abalo na forma de fazer política. Uma forma que usa Deus não como objetivo, mas como ferramenta.
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