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Poder

Brasil transforma acordo Mercosul–UE em resposta ao isolacionismo dos EUA

Governo Lula apresenta pacto com europeus como defesa do multilateralismo

Publicado em 16/01/2026 8:59 - Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert - Abr

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O anúncio da assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será explorado pelo governo brasileiro como um gesto político de peso: uma reação direta ao enfraquecimento da ordem internacional e à escalada de ataques a tratados multilaterais promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Após um quarto de século de negociações, o pacto entre os dois blocos surge, para o Planalto, como um contraponto simbólico e concreto ao avanço do unilateralismo norte-americano.

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A leitura predominante no governo é de que o acordo consolida princípios que vêm sendo colocados em xeque pela atual política externa dos EUA. Previsibilidade nas relações comerciais, abertura regulada de mercados, alinhamento às normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e compromissos com direitos humanos e a agenda climática são apresentados como os pilares do tratado — e, ao mesmo tempo, como marcas de resistência a uma diplomacia baseada em rupturas e imposições.

Esse enquadramento deve aparecer com destaque no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o encontro, nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, com autoridades europeias. A expectativa é que o presidente utilize a ocasião para reforçar a defesa do multilateralismo e do direito internacional, em contraste com o discurso e as ações recentes da Casa Branca.

Nos encontros com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não está descartada a discussão de temas sensíveis da geopolítica atual, como as tensões envolvendo a Groenlândia e a Venezuela — ambos alvos de declarações e pressões de Trump. Ainda assim, Lula não participará da cerimônia oficial de assinatura do acordo, marcada para sábado (17), em Assunção.

A ausência do presidente brasileiro também reflete as fricções políticas dentro do próprio Mercosul. A relação entre Lula e o presidente da Argentina, Javier Milei, permanece deteriorada, sem sinais de reaproximação. Em entrevista recente, Milei afirmou que apoiará Flávio Bolsonaro na eleição presidencial brasileira de 2026, gesto que aprofundou o distanciamento entre os dois governos.

No plano interno, o governo reconhece que a entrada em vigor do acordo com a União Europeia ainda depende de uma série de etapas legislativas e enfrenta resistência, sobretudo de setores da agricultura europeia. Ainda assim, a orientação política é sustentar a narrativa de que Brasil e parceiros europeus estão dispostos a enfrentar pressões para preservar o multilateralismo e as regras do comércio internacional.

Negociações com os EUA seguem em suspenso

Paralelamente, o governo brasileiro mantém, para 2026, a expectativa de retomar negociações com os Estados Unidos sobre tarifas aplicadas a produtos nacionais. Embora parte das taxas tenha sido retirada nos últimos dois meses, cerca de 22% do fluxo comercial entre os dois países ainda enfrenta algum tipo de barreira.

O Itamaraty busca alternativas para reativar o diálogo, mas avalia que a agenda congestionada do Salão Oval — marcada por intervenções militares e crises políticas — tem dificultado a retomada das negociações. Diante desse cenário, o Brasil também aposta no Brics como um possível fiador da estabilidade internacional. Apesar das divergências entre seus integrantes, o governo Lula identifica um ponto de convergência entre os países emergentes: a defesa da previsibilidade e de regras claras nas relações globais.

A apreensão aumenta diante dos sinais de que, sob uma eventual presidência dos EUA no G20 em 2026, temas centrais da agenda recente do grupo podem ser esvaziados. Questões como empoderamento das mulheres, clima e direitos humanos correm o risco de desaparecer das discussões. Integrantes do próprio governo brasileiro já classificam, nos bastidores, a perspectiva como a de uma “presidência complicada”.

Alckmin projeta vigência do acordo ainda em 2026

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou nesta quinta-feira (15) que o acordo entre Mercosul e União Europeia deve entrar em vigor no segundo semestre deste ano. Segundo ele, após a assinatura prevista para sábado, o tratado seguirá para aprovação no Parlamento Europeu e, em seguida, para internalização nos países do bloco sul-americano.

“A gente espera que aprove a lei ainda neste primeiro semestre e que, no segundo semestre, o acordo já esteja em vigência”, disse o ministro. Alckmin classificou o pacto como o maior acordo entre blocos econômicos do mundo, abrangendo um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas e movimentando aproximadamente US$ 22 trilhões.

Para o ministro, a abertura comercial prevista no tratado — com redução e eliminação de tarifas, dentro de um arcabouço regulatório — tende a ampliar exportações brasileiras e baratear produtos para os consumidores. “Comércio exterior hoje é emprego na veia. Há empresas que simplesmente não sobrevivem sem exportar”, afirmou.

Alckmin também destacou o caráter simbólico do acordo em um contexto global marcado por conflitos, instabilidade política e recrudescimento do protecionismo. “É a demonstração de que, por meio do diálogo e da negociação, é possível fortalecer o multilateralismo e avançar no livre comércio com regras”, concluiu.

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