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Poder

Brasil lidera nova aliança global contra a fome

Ação conta com apoio de 81 países e US$ 25 bilhões em investimentos

Publicado em 18/11/2024 8:50 - Semana On

Divulgação PR

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Na Cúpula do G20 realizada nesta segunda-feira (18), o Brasil apresentou sua principal iniciativa para o evento: a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. Com a adesão de 81 países até o momento, a proposta liderada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reúne apoio financeiro de instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que anunciou aportes de US$ 25 bilhões (cerca de R$ 146 bilhões). A Aliança busca promover ações concretas para reduzir a fome e a pobreza, problemas que voltaram a crescer nos últimos anos.

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Desde que foi oficialmente lançada em julho, a Aliança Global expandiu seu alcance rapidamente. Até a última sexta-feira (15), contava com o apoio de 41 países, mas, após uma rodada de negociações conduzida pelo governo brasileiro, o número de nações envolvidas quase dobrou, chegando a 81. O Brasil espera que, nas próximas semanas, o número de participantes ultrapasse 100.

A iniciativa busca atender diretamente as metas globais de erradicação da pobreza e da fome, previstas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Entre as metas divulgadas estão a ampliação de programas de transferência de renda para 500 milhões de pessoas, merenda escolar para 150 milhões de crianças e programas de saúde materna e para a primeira infância que beneficiarão 200 milhões de mulheres e crianças. Apesar da grandiosidade dos números, o detalhamento de como essas metas serão alcançadas ainda não foi divulgado.

Desafios históricos e ceticismo

A ideia de uma aliança global contra a fome enfrentou resistência inicial. Alguns países argumentaram que já existem organizações como a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e o PMA (Programa Mundial de Alimentos) atuando nessa área, além de iniciativas como a “Nova Iniciativa para Segurança Alimentar e Nutrição”, criada em 2012 pelo G8, mas que fracassou em atingir seus objetivos.

A diretora do Centro de Estudos Brasileiros de Oxford, Laura Waisbich, reconheceu o mérito da Aliança em reposicionar a fome e a pobreza como prioridades globais, mas ponderou que “o salto é menor do que anunciado”. Já Mario Lubetkin, diretor regional da FAO, reforçou a importância de ações tangíveis e concretas: “Já passou a fase de falar, falar, falar. Tem que colocar elementos concretos, com foco em resultados.”

Investimentos e parcerias financeiras

Além da adesão de países, a Aliança também atraiu nove instituições financeiras, incluindo o Banco Mundial, o Banco dos BRICS e bancos de desenvolvimento da Europa e da Ásia. O BID, liderado pelo brasileiro Ilan Goldfajn, foi o maior anunciante de recursos até agora. Dos US$ 25 bilhões previstos, US$ 200 milhões serão destinados à doação para países estruturarem programas sociais.

Ao contrário de políticas externas anteriores, o Brasil não planeja financiar diretamente outros países da Aliança. Em seus primeiros mandatos, Lula perdoou dívidas de nações em desenvolvimento e concedeu empréstimos via BNDES para projetos de infraestrutura no exterior. Desta vez, o foco será na cooperação técnica e no compartilhamento de experiências.

Panorama global e o papel do Brasil

O contexto global reforça a urgência da iniciativa. Dados da FAO mostram que o número de pessoas com fome caiu de 798 milhões, em 2005, para 541 milhões, em 2017, mas voltou a subir, alcançando 733 milhões em 2024. Durante a pandemia, a pobreza extrema também avançou em várias regiões do mundo.

O Brasil, que assumiu a presidência rotativa do G20 em 2023, utilizou estatísticas globais para convencer outros países da necessidade de uma nova ação coletiva. O governo aposta na experiência brasileira em programas como o Bolsa Família, um dos maiores sistemas de transferência de renda do mundo, para inspirar políticas públicas em outras nações.

“Quero dizer para os milhões de habitantes que passam fome no mundo, para as crianças que não sabem se vai ter alimento. Quero dizer que hoje não tem, mas amanhã vai ter. É preciso coragem para mudar essa história perversa”, disse o presidente Lula. “O que falta não é produção de alimentos. O mundo tem tecnologia e genética para produzir alimentos suficientes. Falta responsabilidade para colocar o pobre no orçamento público e garantir comida. Tiramos 24 milhões de pessoas da fome até agora. E em 2026, não teremos nenhum brasileiro passando fome”.

“Quando colocamos fome para discutir no G20, era para transformar em questão política. Ela é tratada como uma questão social, apenas um número estatístico para período de eleição e depois é esquecida. Quem tem fome é tratado como invisível no país”, disse o presidente. “Fome não é questão da natureza. Não é questão alheia ao ser humano. Ela é tratada como se não existisse. Mas é responsabilidade de todos nós governantes do planeta”.

Próximos passos

Dois escritórios serão criados para gerenciar a Aliança: um em Brasília, na Agência Brasileira de Cooperação, e outro em Roma, na sede da FAO. O governo planeja apresentar um balanço dos resultados dentro de um ano. Apesar das metas ambiciosas, a história de outras iniciativas semelhantes e a falta de detalhamento de algumas estratégias colocam desafios para o sucesso do projeto.

A Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza não é apenas uma proposta ambiciosa, mas também um teste de liderança internacional para o Brasil. Se conseguirá superar desafios históricos e entregar resultados concretos, o tempo dirá. Por ora, o movimento reacende esperanças em um multilateralismo que parecia esgotado.


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