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Poder
Com a direita desarticulada e a esquerda sem projeto, o país caminha sem lideranças nem horizonte
Publicado em 23/06/2025 11:29 - Semana On
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A cena política brasileira hoje não se resume a uma disputa convencional entre governo e oposição. O que se desenha é um colapso de natureza sistêmica — social, econômica, política e até civilizatória — que não é fenômeno isolado do Brasil, mas expressão local de uma crise global que assola as democracias liberais desde os anos 1990.
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De um lado, uma direita devastada pela derrocada de seu líder máximo, Jair Bolsonaro, figura que, mesmo inelegível e cercado por investigações criminais, mantém-se como o principal polo gravitacional de um campo conservador incapaz de se reorganizar. De outro, uma esquerda que, embora no poder, vive um processo de esvaziamento simbólico, programático e organizativo, sem capacidade real de responder aos dilemas impostos pela globalização neoliberal, pela crise da representação e pelas novas dinâmicas do capitalismo de plataforma.
Não se trata apenas de uma crise conjuntural, mas de uma crise histórica, estrutural, de longo curso, que escancara os limites de um modelo de desenvolvimento excludente e de uma democracia capturada por interesses oligárquicos.
A Direita Ferida
O campo conservador brasileiro nunca foi homogêneo. Desde a transição pactuada da ditadura (1964-1985), a direita se articulou na defesa de um neoliberalismo periférico, dependente, subordinado aos interesses do capital financeiro internacional, como bem descreveu o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Nos anos 1990, sob Fernando Henrique Cardoso, a direita se vestiu de modernização econômica, com um discurso liberal que escondia a perpetuação das estruturas de desigualdade e concentração de renda.
A partir de 2013 — num movimento inicialmente contra o petismo, mas que logo se tornou algo mais profundo —, a direita abandonou o verniz liberal e se radicalizou. O surgimento do bolsonarismo não foi um acidente, mas a cristalização de décadas de ressentimento de setores médios e populares precarizados, somados ao projeto das elites econômicas de manter o Brasil na condição de país dependente e subordinado no sistema global.
A implosão das lideranças conservadoras, marcada pela fuga de figuras como Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro, pela inelegibilidade do próprio Jair Bolsonaro e pelo avanço dos processos judiciais contra o ex-presidente, não significa o fim da extrema-direita brasileira. Pelo contrário, a história demonstra que movimentos autoritários raramente desaparecem após a queda de seus líderes. Como observa a cientista política Nancy Fraser (The Old Is Dying and the New Cannot Be Born, 2019), “o populismo autoritário não é uma aberração, mas uma resposta deformada às crises do capitalismo financeirizado”.
Por isso, há no bolsonarismo a expectativa de que sua própria derrocada gere uma recomposição — uma “extrema-direita soft”, capaz de disputar setores moderados sem abrir mão de sua essência ultraconservadora. A dúvida reside no formato: haverá espaço para uma liderança bolsonarista sem Bolsonaro? Ou o campo conservador buscará uma nova cara, mais palatável aos setores médios, ao mercado e à institucionalidade?
Os dilemas são vários: a direita adotará uma linha radical ou tentará se moderar? Será capaz de se unificar? Conseguirá, em um prazo tão curto como até 2026, construir uma candidatura competitiva que não dependa diretamente da memória — ou do fantasma — de Bolsonaro?
A Esquerda no Labirinto
Se a situação da direita é de colapso de lideranças, a da esquerda é ainda mais grave — e paradoxal. Ocupando o governo federal, o campo progressista deveria, em tese, estar em melhores condições. No entanto, o que se observa é uma esquerda esgotada, dependente da figura de Luiz Inácio Lula da Silva, sem capacidade de se renovar e, mais grave, desconectada das transformações profundas que a sociedade brasileira experimentou nas últimas décadas.
O lulismo, enquanto fenômeno político, representou a maior inovação do campo progressista desde a redemocratização. Sua síntese entre crescimento econômico, inclusão social e conciliação de classes permitiu uma década de estabilidade relativa, com redução da pobreza, aumento do consumo e ascensão social de setores historicamente marginalizados.
Contudo, esse modelo entrou em colapso junto com o próprio ciclo das commodities, a partir de 2014, e nunca mais foi reconstruído. A esquerda, desde então, deixou de oferecer um horizonte de transformação e limitou-se a uma lógica de gestão do possível — uma esquerda administradora do neoliberalismo, sem coragem para confrontá-lo.
O problema se agrava quando se observa que o perfil da classe trabalhadora mudou radicalmente. Como bem aponta a economista Lena Lavinas (Combater a pobreza, proteger os ricos, 2020), a era da uberização, do trabalho intermitente e da informalidade destruiu as formas clássicas de organização da classe trabalhadora — sindicatos, associações, partidos — e criou um proletariado difuso, precarizado, sem identidade de classe clara.
A esquerda, ao não compreender essa transformação, insiste em um discurso que fala a uma classe trabalhadora que não existe mais, ou que, pelo menos, não se reconhece nas suas antigas representações. Esse é o drama que Boulos escancarou após sua derrota em São Paulo: a esquerda não sabe mais falar com os pobres, porque os pobres não são mais aqueles que ela imagina.]
O identitarismo liberal e o desaparecimento da pobreza
Outro vetor da crise da esquerda está no que o sociólogo Jessé Souza denuncia como a substituição da crítica à desigualdade estrutural por uma obsessão com a representatividade simbólica. Como escreve em A elite do atraso (2017), “a diversidade foi sequestrada pelo capital para ocultar a desigualdade social”.
Isso não significa negar a importância das lutas contra o racismo, o machismo ou a LGBTfobia. Pelo contrário: significa afirmar que essas lutas, quando desconectadas da crítica ao capitalismo, são facilmente transformadas em marketing corporativo — vitrines de diversidade em empresas como Itaú, Globo ou Disney, que, ao mesmo tempo que exibem suas campanhas de diversidade, precarizam trabalhadores, destroem empregos e perpetuam a concentração de renda.
O desaparecimento da classe como categoria política central abriu espaço para que a extrema-direita capturasse os setores populares que não se veem representados em nenhuma identidade específica. O resultado é a ascensão de um identitarismo reacionário, baseado na tríade “Deus, Pátria e Família”, que oferece pertencimento simbólico a quem foi abandonado tanto pelo Estado quanto pelo mercado.
A crise global e o vazio do projeto de esquerda
O drama da esquerda brasileira é parte de um fenômeno global. Desde os anos 1990, o colapso das experiências socialistas, somado à ascensão do neoliberalismo, produziu uma esquerda que, no poder, abdicou da transformação estrutural. Como analisou o economista francês Thomas Piketty em Capital e Ideologia (2019), a social-democracia europeia transformou-se em uma “esquerda brahmânica”, voltada para as elites educadas, abandonando os trabalhadores manuais, rurais e industriais.
No Sul Global, o mesmo se verifica. Na América Latina, os governos progressistas da onda rosa (2002-2015) obtiveram avanços sociais relevantes, mas não alteraram as bases do modelo extrativista, dependente e financeirizado. Quando os ciclos de commodities se encerraram, esses governos colapsaram, abrindo espaço para a revanche neoliberal e, depois, para as novas direitas autoritárias.
No mundo inteiro, a crítica à globalização neoliberal, antes patrimônio da esquerda, foi sequestrada pela extrema-direita. A resposta não foi atacar o capital financeiro, mas os imigrantes, os direitos civis e as instituições multilaterais. A retórica antiglobalista tornou-se, paradoxalmente, um instrumento de reforço da própria lógica neoliberal, agora associada ao ultraconservadorismo.
O futuro está em aberto — mas não esperará para sempre
O alerta é tão claro quanto urgente: a direita, por mais destruída que esteja no curto prazo, se reorganizará — seja na forma de um novo bolsonarismo reciclado, seja na emergência de uma direita liberal-conservadora mais sofisticada.
Se a esquerda brasileira não aproveitar essa janela histórica para se reorganizar, reconstruir suas bases, formular um projeto político que integre as lutas contra as opressões com a luta contra a desigualdade material, estará, mais uma vez, abrindo caminho para sua própria derrota.
Isso exigirá mais do que manter Lula no centro. Exigirá romper a dependência do Centrão, enfrentar a financeirização da economia, reconstituir os espaços de formação política e reconstruir a conexão com a nova classe trabalhadora precarizada — esse operariado difuso, invisível e fragmentado que hoje vive nas plataformas, nos aplicativos e na informalidade.
Como diria Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere: “O velho está morrendo, e o novo não pode nascer. Neste interregno surge uma grande variedade de sintomas mórbidos.”
O futuro permanece em aberto. Mas não indefinidamente.
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