22/02/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonaro se preocupa mais com o próprio futuro do que com golpismo

Centrão não pretende acompanhar os arroubos autoritários do presidente, mas bolsonaristas pedem golpe no Telegram

Publicado em 31/10/2022 1:12 - Josias de Souza (UOL), DW, Agência Pública – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Na avaliação do colunista do UOL Josias de Souza, hoje Jair Bolsonaro (PL) está mais preocupado com seu futuro criminal do que com um eventual golpismo de contestação do resultado das urnas.

Bolsonaro perdeu as eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva, que foi eleito com 50,9% dos votos válidos e, para Josias, o atual presidente foi de certa forma “cercado”.

“Ele está mais preocupado com o futuro criminal e civil dele porque ele vai deixar de ter a proteção do cargo a partir de janeiro”, disse o jornalista.

Hoje Bolsonaro tem foro privilegiado. Ao sair da presidência, ele deixa de ter essa vantagem, e por isso se preocupa com a ida de processos contra ele para a primeira instância, diz Josias.

Josias também afirmou que a reação de Bolsonaro, de não se pronunciar após a derrota, já era esperada, mas que existe um medo real da consequência de ter perdido as eleições.

O colunista ainda relembrou que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Alexandre de Moraes, “cercou” tentativas de golpe de Bolsonaro e manteve inquéritos como o das fake news ou das milícias digitais em suas mãos.

“Alexandre de Moraes estrategicamente manteve esses processos que ele conduz, alguns deles há mais de três anos abertos, porque ele queria ter o Bolsonaro de certa maneira na sua mão. (…) Hoje Bolsonaro está mais preocupado com as consequências da perda do mandato e transferência dos seus processos para a 1ª instância do que com o questionamento do resultado das urnas.”

Por fim, Josias também destacou que Bolsonaro não deve “esticar demais a corda” em uma possível guerra com as instituições e o próprio STF, já que ele “tem muito a perder”.

“Agora ele foi cercado, o Alexandre de Moraes proclamou o resultado das eleições com todas as instituições ao redor, e todas as forças políticas que estão em torno do Bolsonaro são pragmáticas. Para o Bolsonaro, não convém esticar a corda.”

Centrão não pretende acompanhar Bolsonaro se ele contestar urnas

Josias de Souza apurou junto a um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) que parlamentares do chamado “centrão” não pretendem acompanhar Bolsonaro em uma eventual contestação dos resultados das urnas. De acordo com Josias, esse ministro do STF aconselhou um líder do centrão a “desembarcar de qualquer iniciativa que represente uma contestação golpista ao resultado das urnas”, e a resposta tranquilizou ministros do STF.

“O que ele [ministro do STF] ouviu o deixou de certo modo tranquilizado porque essa liderança do centrão afirmou que não há no grupo a intenção de acompanhar Bolsonaro se a opção do presidente for a de contestar o resultado das urnas”, disse.

Na conversa com o líder do centrão, o ministro do STF teria dito que a corte está unificada em torno da defesa do resultado das eleições e que também está “fechado” com Alexandre de Moraes, atual presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

“Ficou muito claro para esse líder do centrão que qualquer contestação será rechaçada e não será uma reação tímida. Será uma reação muito contundente do judiciário. Então houve esse recado do centrão para o judiciário no sentido de que o grupo que hoje apoia o Bolsonaro não o acompanhará no eventual questionamento que o presidente fizer ao resultado das urnas”.

Josias ainda afirmou que, por outro lado, o Judiciário não tem uma expectativa positiva em relação a Bolsonaro. “Imagina-se que ele irá questionar o resultado e será uma surpresa grande se ele aceitar em um primeiro momento o resultado da urna, sobretudo um resultado apertado como o que se vislumbra. Então há uma expectativa de questionamento”.

“Isso [a vitória de Lula] aponta para duas coisas. A primeira delas é que o Bolsonaro, embora derrotado, ele sobrevive politicamente, como uma liderança expressiva. Em segundo lugar, significa que o Lula, para ter alguma chance de êxito, terá que fazer um governo, como ele próprio acenou, prometeu antes da realização deste segundo turno, um governo bem maior que o PT. Para que ele tenha êxito, ele terá que já de saída fazer uma pregação pela pacificação nacional, pela união do país, e ele terá que demonstrar já na composição do seu ministério essa disposição de fazer um governo mais amplo, um governo que faça um movimento rumo ao centro e até à direita, eu diria”, afirmou Josias.

Ele ainda destacou que a vitória de Lula também conta com “ineditismo histórico”.

“Pela primeira vez, você tem um caso de um presidente no exercício do cargo, que não consegue obter a reeleição. Desde a criação do instituto da reeleição é a primeira vez que isso acontece”.

“Eles imaginam que terão que judicializar, pois já existe uma lei que determina que o governo que acaba deixe funcionários, informações, aporte e assessores na montagem do novo governo. O PT sabe que conseguirá as informações ‘na marra’, sem esperar por boa vontade do governo Bolsonaro” disse a colunista do UOL Thaís Oyama sobre a expectativa do PT para a transição do governo.

Ela ainda afirmou que é importante prestar atenção nos “pequenos sinais emitidos” pelo presidente eleito hoje. “O pronunciamento vai ser importante para saber qual é a disposição, como ele pode estender o governo para a frente ampla”.

Bolsonaristas defendem intervenção militar no Telegram após resultado das eleições

Reportagem da Agência Pública mostra que, antes mesmo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar o resultado do 2º turno das eleições presidenciais deste ano, grupos bolsonaristas no Telegram já falavam em fraude nas urnas e pediam intervenção militar para evitar que o presidente eleito, Lula, assuma o cargo.

De acordo com levantamento da Agência Pública, a palavra “fraude” apareceu ao menos 343 vezes nos grupos bolsonaristas no Telegram, o que representa um aumento de 230% de citações no dia da eleição em comparação com a média dos dois dias anteriores (149). A palavra apareceu mais vezes ao final da tarde, quando Lula ultrapassou Jair Bolsonaro (PL) na apuração da votação. A Pública monitora 122 grupos no Telegram.

O mesmo aconteceu com as menções ao termo “intervenção militar”, que foi citada ao menos 28 vezes durante o dia de votação —  a média dos últimos dois dias foi de 6 citações. A palavra também foi mais citada com o desenrolar da apuração e anúncio da vitória do candidato petista.

Por volta das 19h30, um usuário compartilhou no grupo B-38 —  grupo de mais de 60 mil membros que já foi suspenso por desrespeitar as regras da plataforma —  uma mensagem em que afirmava que o “algoritmo” de apuração do TSE estaria roubando os votos de Jair Bolsonaro (PL) e passando para Lula. “Nos 30% de urnas apuradas o luladrão vai passar, um absurdo! Minas que representa o Brsil, (sic) luladrão está caindo lá e Bolsonaro crescendo já praticamente empatado!! As Forças Armadas nada farão??? Caraculas está na cara!!! muita sacanagem”, acrescentou.


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