23/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro oscila entre algema e camisa de força

Farda e silêncio de Cid desmoralizam o Exército

Publicado em 13/07/2023 4:36 - DW, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Abr

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Em depoimento prestado pela quarta vez à Polícia Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) negou ter conhecimento de um plano golpista para invalidar as eleições e mantê-lo no poder conforme relatado pelo senador e outrora aliado Marcos do Val (Podemos-ES).

O senador veio a público no início do ano para relatar uma reunião que teria tido com o ex-deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) e o então presidente para discutir uma ideia: gravar uma conversa com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Alexandre de Moraes para tentar incriminá-lo e anular a votação que sagrou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencedor.

Bolsonaro confirmou que se reuniu com a dupla em 08 de dezembro do ano passado, no Palácio da Alvorada, mas negou ter participado do plano.

“Nada aconteceu no dia, até porque eu não tinha nenhum vínculo com o senhor Marcos do Val. Que eu me lembre, eu nunca tive uma reunião com ele, nunca o recebi em audiência, a não ser talvez em fotografia, que é muito comum entre nós”, afirmou a jornalistas na saída da PF.

“Nada foi tratado, não tinha nenhum plano”, insistiu Bolsonaro, insinuando que as oitivas seriam uma tentativa de constrangê-lo. “Por que eu ia articular alguma coisa com o senador?”

Questionado sobre o conteúdo da reunião, disse ainda que teria sido para tratar da filiação de senadores ao PL, e que o nome do ministro Moraes sequer teria sido mencionado.

Porém, segundo a coluna da Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Do Val teria mandado uma mensagem a Moraes após a reunião em que incriminava Silveira e poupava Bolsonaro. O conteúdo dessa conversa com o ministro teria sido depois printado por Do Val e encaminhado a Bolsonaro, que teria reagido com um lacônico: “Coisa de maluco”.

Ainda segundo o jornal, o presidente teria dito em depoimento à PF ter ouvido de Silveira que o senador Do Val “teria algo para mexer com a República”.

Marcos do Val sob investigação

Do Val é investigado por suspeita de falso testemunho após dar versões diferentes sobre o suposto golpe articulado por Silveira com a conivência do então presidente Jair Bolsonaro (PL), e também por suspeita de obstruir investigações sobre o 8 de janeiro.

Primeiro, o senador afirmou que Bolsonaro tentou coagi-lo a dar um golpe para se manter no poder a despeito da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Depois, a jornalistas, atenuou a acusação dizendo que o ex-presidente teria apenas ouvido a conversa.

Até agora, o ex-presidente já depôs sobre os atos antidemocráticos, sobre as joias da Arábia Saudita e sobre a  suspeita de fraudes em certificados de vacinação contra a covid-19. Recentemente, ele foi declarado inelegível por oito anos por promover ataques ao sistema eleitoral brasileiro durante uma reunião com embaixadores estrangeiros.

Na mira da PF, Bolsonaro troca ‘conhecereis a verdade’ por ‘esculacho’

Bolsonaro voltou a chamar de “esculacho” a ação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal em sua casa em meio a uma investigação sobre fraude em cartões de vacina. Uma grande mudança para quem dizia que o Evangelho de João capítulo 8, versículo 32 (“Conhecerei a verdade, e ela vos libertará”) era seu lema de vida.

“Fazer uma busca e apreensão na minha casa, contra a orientação do Ministério Público, atrás de cartão de vacina, ao meu entender, é um ato de esculacho”, afirmou em entrevista à imprensa após depor sobre uma suposta articulação golpista entre ele, o senador Marcos ‘Coisa de Maluco’ Do Val e o então deputado Daniel ‘Surra de Gato Morto’ Silveira. A operação ocorreu em maio e levou também à prisão do seu ex-faz-tudo, Mauro Cid.

“Não roubei nada, nunca conspirei nada! É para esculachar, gerar constrangimento perante a opinião pública, me desgastar. Se eu não tivesse nenhum capital político, não estariam fazendo tudo isso contra mim”, completou.

Detalhe é que nenhum colega jornalista havia perguntado se ele havia roubado joias dadas pela Arábia Saudita à Presidência da República, tampouco se ele havia conspirado contra a democracia ao fomentar o golpismo entre seus seguidores, o que culminou em rodovias trancadas, carros incendiados, bomba colocada em caminhão de combustível e na depredação das sedes dos Três Poderes no 8 de janeiro. Ele que levantou a lebre sozinho.

Atos falhos envolvem a emergência de uma palavra ou expressão no discurso, seguida de uma correção ou negação do ocorrido. Isso ocorre porque há uma cadeia de pensamentos, inconsciente, que se encontra suprimida e emerge revelando um fragmento da verdade queremos suprimir a nós mesmos, como já me explicou o psicanalista Christian Dunker, nosso colega no UOL.

Tem um golpistinha dentro de Jair com uma vontade louca de sair, mas que segue contido pelo medo da cadeia. Não à toa, ele tirou o corpo fora no depoimento sobre a articulação golpista entre ele, Do Val e Silveira para fazer uma pegadinha do tipo Ivo Holanda com o ministro Alexandre de Moraes e, com isso, tentar melar a eleição.

Mas se ele não disse nada de comprometedor, e evitou comprometer os outros dois, em seu curto depoimento de 35 minutos, o celular de Marcos Do Val continua falando pelos cotovelos. Além disso, o que dirá Daniel Silveira, preso em Bangu, por atacar o STF? Alguém condenado e sem nada a perder vai ficar em silêncio para proteger quem o esqueceu?

Bolsonaro oscila entre algema e camisa de força

Na versão original divulgada por Marcos do Val, a trama discutida com Silveira e Bolsonaro no Palácio da Alvorada consistia em tentar gravar Alexandre de Moraes com equipamento de escuta da Abin. A ideia era induzir o ministro, que preside o TSE, a dizer algo que fosse comprometedor o bastante para levar à anulação do processo eleitoral de 2022. A esse ponto chegamos.

Na estratégica concebida pela defesa, Bolsonaro precisa se dissociar do senador Do Val. Não pode negar a reunião do Alvorada, pois a existência da conversa é algo incontroverso. Precisa desqualificar Do Val e vender a tese segundo a qual foi apenas uma testemunha muda de um diálogo amalucado.

Se for bem-sucedido, Bolsonaro ficará em situação paradoxal. Livrando-se das algemas, corre o risco de ser metido numa camisa de força, pois só um presidente sem juízo abriria as portas da residência oficial para a desqualificação.

Farda e silêncio de Cid desmoralizam o Exército

Por orientação do comando do Exército, o tenente-coronel Mauro Cid compareceu fardado à CPI do Golpe. Utilizou oito dos 15 minutos que lhe foram concedidos para ler uma manifestação inaugural. Nela, vangloriou-se da excelência de sua formação militar, vinculou ao Exército os atos que praticou como ajudante de ordens de Bolsonaro e informou que usufruiria do salvo-conduto obtido no Supremo Tribunal Federal para não se autoincriminar, abstendo-se de responder a qualquer pergunta. A fala do militar foi desmoralizante, desonrosa e reveladora.

A manifestação do coronel desmoraliza porque arrasta formalmente o Exército para dentro dos oito inquéritos criminais que ele responde no Supremo Tribunal Federal. Desonra porque a hipotética qualificação do militar potencializa a desqualificação das ordens que aceitou cumprir a serviço de Bolsonaro. A explanação é reveladora porque cada pergunta não respondida por Cid soa como um silêncio cúmplice das Forças Armadas e dos superiores hierárquicos que determinaram que a perversão se exibisse diante dos refletores de farda.

O Exército divulgou nota oficial para esclarecer que orientou Mauro Cid a comparecer à CPI envergando sua farda. O texto sustenta que o uniforme se justifica porque o tenente-coronel foi convocado “para tratar de temas referentes à função para a qual fora designado pela Força”.

Preso há 70 dias, o próprio Cid empilhou os inquéritos que descarrilaram uma carreira que estava fadada a atingir o generalato:

O golpismo de 8 de janeiro.

Envolvimento nos atos antidemocráticos de 2019.

O caso das joias sauditas.

A fraude nos cartões de vacinação.

A disseminação de fake news.

A cumplicidade com as milícias digitais bolsonaristas.

O pagamento em dinheiro vivo de despesas de Michelle Bolsonaro.

O vazamento de inquérito sigiloso.

Nenhuma dessas atividades está inserida no rol que o Exército chamou de “temas referentes à função para a qual [Mauro Cid] fora designado.” O uniforme e o silêncio exibidos pelo ex-ajudante de ordens na CPI não desonram apenas o depoente. Desmoralizam também o Exército e, por extensão, as Forças Armadas.

José Múcio, o ministro da Defesa, disse não ter visto afronta à CPI do Golpe no fato de Mauro Cid ter comparecido à comissão uniformizado. Tem razão. A ofensa não foi à CPI, mas às Forças Armadas. A exposição de quase oito horas a que foi submetido o tenente-coronel Mauro Cid na CPI do Golpe escancarou diante dos refletores duas obviedades:

1) Ao orientar o não-depoente a se apresentar fardado, o Exército transformou o drama criminal do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro num processo de desmoralização das Forças Armadas.

2) Ao transformar a hipotética inquirição do ex-faz-tudo do capitão num show de horrores intercalado por exibições de despreparo, os parlamentares produziram material para a convocação de uma outra Comissão Parlamentar de Inquérito —uma CPI para investigar a inutilidade de certas CPIs.

Na nota em que justificou o uso da farda, o Exército alegou que o encrencado foi convocado para “tratar de temas referentes à função para a qual fora designado pela Força”. Ao informar que ficaria em silêncio para não se autoincriminar, o próprio Cid disse estar encrencado em oito inquéritos. As investigações tratam de muitas coisas —de joias sauditas e vacinas a conversas vadias sobre golpe. Nada a ver com as atribuições de um ajudante de ordens.

Se estivesse em trajes civis, Cid desonraria apenas a si próprio. Fardado, empurrou as Forças Armadas para dentro de inquéritos que enferrujam a reputação de um oficial cujo silêncio transforma o nada numa palavra que ultrapassa tudo.

Quanto à CPI, ficou demonstrado que seu funcionamento dificilmente resultará em algo útil para a elucidação da tentativa de golpe do 8 de janeiro. Planejada pela oposição e controlada pelo governo, a comissão transformou-se numa versão coletiva da velha prática de jogar dinheiro público pela janela.

Se pudesse, o contribuinte talvez chamasse o Procon. Como a inutilidade legislativa não se encaixa no ramo do Direito do Consumidor, resta torcer para que os parlamentares desenvolvam por conta própria o senso do ridículo.


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