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Poder
Moraes presta um favorzão ao ex-presidente ao dar a deixa para trocar Ramagem
Publicado em 15/07/2024 9:37 - João Filho (Intercept_Brasil), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, derrubou, no início desta semana, o sigilo do relatório da Polícia Federal que indiciou Bolsonaro e outras 11 pessoas no caso das joias sauditas.
O conteúdo do inquérito é avassalador, não deixando pedra sobre pedra. Bolsonaro não só se apossou ilegalmente das joias como utilizou a estrutura do estado para, junto com subordinados e advogados, vendê-las nos Estados Unidos.
Segundo a investigação, a grana proveniente da venda ilegal ajudou a custear a estadia de Bolsonaro nos EUA. O ex-presidente fugiu para lá ainda no exercício do mandato, tentando evitar alguma ligação com os ataques golpistas do 8 de janeiro, que aconteceriam na semana seguinte.
Este é o segundo indiciamento sofrido por Bolsonaro, que há alguns meses foi indiciado no caso da falsificação da sua carteira de vacina. Só esses indiciamentos já dariam uma bela dor de cabeça para o ex-presidente, mas a coisa só está começando.
Ambos os casos, apesar de graves, ainda são brincadeira de criança perto do que está por vir. Há uma série de outras investigações que estão perto de indiciar o ex-presidente e outros integrantes da organização criminosa liderada por ele.
Segundo a PF, a investigação dos crimes dessa quadrilha foi dividida em cinco eixos:
Os ataques virtuais a opositores organizados pelo “gabinete do ódio”;
Os ataques às instituições democráticas e ao sistema eleitoral;
A tentativa de golpe de estado e a abolição violenta do estado democrático de direito;
Os ataques às vacinas e medidas sanitárias durante a pandemia;
O uso da estrutura do estado para obtenção de vantagens pessoais, como uso de cartão corporativo para despesas particulares, a adulteração de carteiras de vacinação e o desvio de bens de alto valor entregues por autoridades estrangeiras ao governo brasileiro.
São crimes diferentes, mas estão todos interligados de alguma maneira, já que em muitos casos os principais personagens são os mesmos e a estrutura do estado foi usada com a chancela e supervisão do então presidente da República. Em todos os cinco eixos de investigação, Bolsonaro é apontado como o líder das ações criminosas.
Se tudo correr dentro do que se espera no judiciário, não há a menor possibilidade do ex-presidente não passar uns bons anos atrás das grades.
Só no caso das joias — que mais parece um crime de roubo de galinhas dentro do contexto das investigações — Bolsonaro pode pegar até 32 anos de cadeia.
O inquérito foi conduzido com cautela e o relatório produzido está muito bem fundamentado. O conteúdo das mensagens de Mauro Cid capturadas pela PF coincide com os depoimentos dados por ele anteriormente.
As três hipóteses criminais apontadas pelos investigadores no caso das joias — peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa ou organização criminosa — foram fartamente comprovadas ao longo da investigação.
A polícia chegou a encontrar no celular de Bolsonaro registros de que ele acessou um site do leilão em que um kit de joias roubado da Presidência da República estava à venda. Foi Mauro Cid quem enviou o link para seu ex-chefe, que respondeu com ‘Selva!’ — uma saudação militar.
Ou seja, Bolsonaro tinha absoluta ciência de que um produto fruto de roubo estava sendo vendido. Como se já não bastasse o caminhão de provas, ainda temos o ‘Selva!’ como o batom na cueca do milico.
Está tudo muito bem amarrado e parece não haver qualquer brecha para a defesa de Bolsonaro. Não há mais como dizer que Bolsonaro não sabia da apropriação indevida das joias, da venda delas e do esquema de lavagem de dinheiro.
As conversas provam que todos os envolvidos sabiam que estavam praticando crimes e atuavam para encobri-los. Não há pra onde correr.
Os advogados do ex-presidente atuam como baratas tontas neste caso. Em uma das mensagens enviadas para Bolsonaro, o advogado Frederick Wassef, que também está indiciado por participar da quadrilha, combinou com o presidente uma linha de defesa mais “generalizada”e “sem muitos detalhes”.
A intenção era manter um caminho aberto que possibilitasse uma “mudança de estratégia a qualquer momento”. Com o desenrolar das investigações, novas provas irrefutáveis foram aparecendo, deixando os advogados de defesa em um campo minado.
Vendo-se impossibilitados de defender o indefensável, restou-lhes apontar possíveis falhas processuais. As investigações deram um baile na defesa. Está tudo lá, nos mínimos detalhes, nas trocas de mensagens dos celulares apreendidos pela polícia. “Selva!”
Abin paralela
Na manhã da última quinta-feira, a PF prendeu quatro pessoas envolvidas nos ataques e nas espionagens contra opositores do bolsonarismo, entre eles um militar e um policial federal. O gabinete do ódio, chefiado por Carlos Bolsonaro, era alimentado por informações da Abin paralela comandada por Alexandre Ramagem, então chefe da Abin.
Em meio à pororoca de provas da atuação criminosa do órgão de inteligência, há uma que revela o amadorismo e a certeza da impunidade que norteava as ações dos criminosos. Ramagem gravou o áudio de uma reunião que teve com o então presidente da República, o então chefe do GSI, Augusto Heleno, e uma advogada de Flávio Bolsonaro.
O objetivo da reunião? Planejar uma abertura de procedimentos contra os auditores fiscais que investigavam a rachadinha no gabinete de Flávio e, assim, conseguir a anulação da investigação.
O plano foi executado e bem sucedido, culminando com a anulação da investigação. Em outro momento das conversas, os investigados cogitam a possibilidade de “dar um tiro na cabeça” de Alexandre de Moraes.
Era com essa postura miliciana que a quadrilha instalada na Abin trabalhava. Aqui também não tem pra onde correr. Está tudo gravado em um áudio de mais de 1 hora de duração encontrado no computador de Ramagem. “Selva!”.
Mas voltemos ao caso das joias sauditas. A Polícia Federal fez o trabalho dela, agora falta o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, apreciar a investigação.
Depois, há 3 caminhos possíveis: oferecer a denúncia, arquivá-la ou devolvê-la para a PF pedindo a produção de mais provas. Interlocutores de Gonet adiantaram que ele optará pelo terceiro caminho.
Há o temor de que a denúncia em meio ao processo eleitoral tumultue o cenário político. Esse tipo de cálculo não cabe — ou não deveria caber — a um Procurador Geral da República, mas é assim que as coisas funcionam. De qualquer forma, o pedido de mais provas deve tornar a denúncia ainda mais forte, minimizando a possibilidade da defesa apontar falhas processuais.
O fato é que o cenário político será tumultuado com ou sem Bolsonaro na prisão. Encalacrado pelas evidências, resta ao bolsonarismo alimentar a ilusão de que a popularidade do ex-presidente pode livrá-lo da cadeia.
O parajornalista bolsonarista Augusto Nunes, por exemplo, levantou da catacumba moral em que está enterrado para gritar: “Não há mais clima para a prisão de Bolsonaro!”. Bobagem. Bolsonaro ainda é uma figura popular, mas as manifestações em seu apoio têm levado cada vez menos gente às ruas.
Não há só clima, Augusto. Há provas. Muitas provas. “Selva!”
Moraes presta um favorzão a Bolsonaro ao dar a deixa para trocar Ramagem
Quando levantou o sigilo da investigação sobre a máquina de espionagem de Jair Bolsonaro que abastecia a sua máquina de moer reputações, o ministro Alexandre de Moraes não apenas colocou mais uma pedra no sapato do ex-presidente, mas também lhe prestou um favor. Agora, com o que foi revelado, ele tem uma desculpa para trocar o seu pré-candidato à Prefeitura do Rio, o deputado federal Alexandre Ramagem – que vai mal nas pesquisas.
Ex-diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante a gestão de Jair, Ramagem (PL) tem míseros 7% no último Datafolha enquanto o atual prefeito Eduardo Paes (PSD) ostenta 53%, podendo vencer no primeiro turno – a margem de erro é de três pontos. O que seria uma humilhação suprema, uma vez que a capital fluminense é berço do bolsonarismo.
Claro que Ramagem vai crescer quando Jair colar nele como adesivo. Mas é difícil bater uma gestão que tem 46% de ótimo ou bom, 36% de regular e apenas 16% de ruim ou péssima. Ainda mais com um candidato com beeeeem menos carisma que o atual prefeito.
Bolsonaro pode justificar que está largando Ramagem porque se sentiu traído. O relatório da investigação da Polícia Federal indica um áudio em que o ex-presidente, o ex-diretor da Abin e o ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno, discutem como anular as investigações por rachadinhas (aka desvio de grana pública) contra Flávio Bolsonaro. A gravação estava em um aparelho de Ramagem.
O relatório também mostra que integrantes da máquina de espionagem legal tentaram levantar informações desabonadoras de auditores da Receita Federal para serem usados na defesa de Flávio.
Grampeador que grampeia grampeador tem 100 anos de perdão? Não para Bolsonaro. Para ele, o monopólio do grampo ilegal era dele. Deve, portanto, ter ficado enfurecido com o feitiço se voltando contra o feiticeiro.
A proximidade de Bolsonaro com Ramagem era tanta que ele queria o delegado da Polícia Federal como diretor da instituição para proteger a ele, seus filhos e amigos, como deixou claro em reunião ministerial de abril de 2020. O então ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro acabou pedindo demissão ao bater de frente com ele por conta disso.
Por muito menos, Bolsonaro abandonou aliados e assessores na beira da estrada, de Gustavo Bebianno ao general Santos Cruz. Por que não usaria a justificativa vitimista da traição como argumento para colocar alguém mais eleitoralmente competitivo no seu lugar? A saída dele seria o equivalente a passar um recibo e dificultaria o uso da narrativa de perseguição? Sim, mas ele não precisa “ser saído” agora. Pode ser levado a pedir para sair daqui a algum tempo.
Se Bolsonaro mantiver Ramagem mesmo assim, vai provar que realmente vê o deputado como um filho. Ou mostrar que de onde saiu aquele áudio de grampo tem muitos outros.
Bolsonaro acionou Abin quando a rachadinha engolfou Michelle
Registrada em áudio pelo então chefe da Abin, Alexandre Ramagem, a reunião de Bolsonaro com a cúpula da inteligência do governo, em 25 de agosto de 2020, não visava blindar apenas Flávio Bolsonaro. O plano para embaraçar a investigação sobre a rachadinha foi discutido num instante em que o escândalo engolfava Michelle Bolsonaro, constrangendo o marido.
Nos dias que antecederam a reunião, agora esmiuçada pela Polícia Federal, Michelle frequentava as manchetes de ponta-cabeça. Descobrira-se que o ex-PM Fabrício Queiroz, faz-tudo da família Bolsonaro e operador da rachadinha de Flávio, depositara na conta bancária da então primeira-dama não R$ 40 mil, como se suspeitava, mas R$ 89 mil.
Em 23 de agosto de 2020, dois dias antes do encontro tóxico do Planalto, Bolsonaro foi questionado sobre os aportes feitos em favor de Michelle. Ficou fora de si, revelando o que tinha por dentro. “Minha vontade é encher tua boca com uma porrada“, disse ao repórter que ousou questioná-lo.
O caso da rachadinha foi enterrado posteriormente, por questões processuais, nos tribunais de Brasília. Primeiro no Superior Tribunal de Justiça. Depois, no Supremo Tribunal Federal. E os depósitos que pingaram na conta de Michelle permanecem até hoje como um mistério de polichinelo à espera de explicação.
O Brasil estava às voltas com a pandemia da Covid. Bolsonaro transformara o cercadinho do Alvorada em palco de entrevistas-espetáculo permeadas de agressões aos repórteres. Assombrava o país com a defesa da hidroxicloroquina como elixir mágico para a cura da Covid. Em 24 de agosto de 2020, véspera do encontro da cúpula da inteligência sobre a rachadinha, o capitão recebera no Planalto um grupo de médicos adeptos da poção anticientífica.
O encontro foi trombeteado no site do Planalto. Ao discursar, Bolsonaro declarou: Se a hidroxicloroquina “não tivesse sido politizada, muito mais vidas poderiam ter sido salvas dessas 115 mil, que o Brasil chegou nesse momento”. A inepcia negacionista, contribuiu para elevar o número de cadáveres a mais de 700 mil.
No fatídico agosto de 2020, os cadáveres proliferavam contra um pano de fundo tisnado pela rachadinha. No início daquele mês, reportagem da Folha revelara que os desvios operados por Fabrício Queiroz foram potencializados por repasses provenientes do gabinete do próprio Bolsonaro quando era deputado federal.
Pendurada na folha salarial da assessoria parlamentar de Bolsonaro como funcionaria fantasma, a personal trainer Nathália Queiroz, filha do faz-tudo do capitão, repassava a maior parte do seu salário para o pai, lotado no gabinete do Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
O sigilo bancário de Nathália foi quebrado mediante autorização judicial. Entre janeiro de 2017 e setembro de 2018, ela transferiu R$ 159,5 mil recebidos no gabinete de Bolsonaro para a conta de Queiroz. A cifra corresponde a 77% de tudo o que a personal trainer recebeu da Câmara federal.
Foi nesse contexto que o alto-comando do aparato de inteligência do governo se reuniu no Planalto. De acordo com a PF, participaram do encontro, além de Bolsonaro e Ramagem, o general Augusto Heleno, então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e uma advogada que cuidava da defesa de Flávio. As circunstâncias sinalizam que Bolsonaro buscava, na prática, uma autoblindagem.
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