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Poder
Quem aterrorizou a capital da República, quem mandou e porque? Há gente acima do falso “Cacique” tsererê, a nova fake news do bolsonarismo
Publicado em 14/12/2022 10:15 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Sylvio Costa e Lucas neiva (Congresso em Foco) – Edição Semana On
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Após a derrota para Lula, Bolsonaro desapareceu da vida pública, apesar de continuar recebendo R$ 30.934,70 para ser presidente até 31 de dezembro. Nesta reta final de seu governo, ele vem reaparecendo na imprensa apenas quando o assunto é o golpismo e o terrorismo perpetrados por seus seguidores, fomentados por seu aliados e que contam com a chancela do seu silêncio.
Jair nunca foi, de fato, um governante strictu senso, tendo priorizado à própria reeleição durante os quatro anos de seu mandato. Mas, desde o segundo turno, parou de dar declarações, mesmo toscas, absurdas ou sem sentido, sobre economia, educação, saúde, relações internacionais, agropecuária e indústria, segurança pública, entre outros temas, simplesmente porque abandonou a gestão.
Neste momento, está mais preocupado em garantir a manutenção de sua influência sobre os seus seguidores mais radicais no ano que vem, em buscar formas de atazanar a vida de Lula e em encontrar maneiras de evitar que seja processado e preso após deixar o poder por qualquer uma das razões que constam na imensa capivara que redigiu para si mesmo.
(Não significa que o seu governo acabou, ressalte-se. Na terça (13), por exemplo, ele vetou o projeto de lei que proíbe a construção de intervenções para afastar pessoas em situação de rua nas cidades brasileiras, conhecido como Lei Padre Júlio Lancelotti. Além disso, a fiscalização ambiental continua sucateada e praticamente proibida de atuar, gerando altas taxas de desmatamento. E a administração pública passa por uma pane seca após ele usar bilhões comprando votos.)
Seu nome reaparece nas manchetes quando o assunto são os atos golpistas executados por seus apoiadores, que acampam nas portas de quartéis ou bloqueiam rodovias. E, agora, também com as ações terroristas, como as dos bolsonaristas que tentaram invadir a sede da Polícia Federal, jogaram paus e pedras em agentes de segurança, deixaram carros e ônibus incendiados e espalharam o pânico entre a população de Brasília na noite de segunda (12).
Supostamente, os baderneiros queriam libertar um indígena bolsonarista preso a pedido da Procuradoria-Geral da República, indo, claro, contra a lei. Na verdade, desejavam manifestar seu ódio contra a diplomação de Lula, ocorrida horas antes.
Apesar de a própria polícia apontar que seguidores do atual presidente estavam por trás dos ataques, apesar de vídeos deixarem claro que eles mesmos tinham orgulho dos ataques, aliados de Bolsonaro vendem a versão risível de que foram infiltrados de esquerda que proporcionaram as cenas de barbárie.
Isso demonstra um misto de cara de pau e covardia infantil, de quem suja a fralda e diz que o cheiro vem do amiguinho.
As provas que bolsonaristas dizem ter de tais infiltrados provavelmente têm a mesma credibilidade daquelas com as quais acusaram as urnas eletrônicas de fraude. Provas que têm como origem “vozes da própria cabeça”. Servem para enganar os próprios bolsonaristas, mas não passam no psicotécnico. Até porque figuras como Roberto Jefferson e Carla Zambelli mostraram o caminho de como usar a violência para impor seu ponto de vista eleitoral.
Bolsonaro deve se manifestar, mais cedo ou mais tarde, para defender a tese absurda, porque é isso o que ele faz.
Mas a falta de repúdio desses atos, representado pelo silêncio do atual presidente, é um sinal de apoio a esse tipo de ação terrorista. Que merece ganhar tal alcunha e difere de outros protestos violentos porque tem como objetivo final um golpe de Estado, ou seja, são um ataque ao Estado democrático de direito.
Bolsonaro se satisfaz com o que está acontecendo e certamente gostaria de ver essas cenas se repetirem em São Paulo, no Rio, em Manaus, Florianópolis, Recife… Não bastasse deixar as contas públicas do país em caos no final do governo, quer o caos nas ruas para que Lula assuma um país em ruínas.
Pelo visto, ele, Jair, não se importa, desde que possa gargalhar sobre os escombros.
Quem aterrorizou a capital da República, quem mandou e porque
Quer dizer que todo o aparelho de segurança e de informação da capital da República do Brasil foi surpreendido pelos atos de terrorismo que deixaram Brasília em pânico? É nisso que se quer acreditar?
A Agência Brasileira de Inteligência, órgão do Gabinete de Segurança Institucional aos cuidados do general Augusto Heleno, não farejou nada? Verdade que sob as barbas do general um oficial da FAB já levou cocaína para o exterior no avião presidencial.
Cada uma das armas tem seu serviço secreto. Verdade que na época da ditadura de 64, o Serviço Nacional de Informações, segundo o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda, não funcionava às segundas-feiras porque os jornais não circulavam.
Mas, hoje, os jornais que restam circulam, e as redes sociais estão entupidas de informações em tempo real. Na pior das hipóteses, monitorá-las ajuda a conhecer o que se trama às claras ou mesmo às escondidas. De resto, o grampo, legal ou ilegal, sempre existirá.
Quando em campanha para se eleger presidente em 2018, Bolsonaro teve acesso a informações exclusivas do Alto Comando das Forças Armadas, e elas foram muito úteis para balizar seu comportamento. Agora, até ele foi pego de surpresa?
Nas grandes cidades do país há câmeras de vigilância por toda parte, nas ruas e nos prédios. Não será difícil identificar e depois punir os terroristas, a maioria deles sem máscara, responsáveis pela noite de horror vivida por Brasília. É só querer. Vão querer?
Noite de terror em Brasília foi obra de profissionais da subversão
Se tem tromba de elefante, presas de elefante, orelhas de elefante, altura de elefante, vive em grupos como os elefantes e locomove-se como um deles, só pode ser um elefante, concorda?
O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Partido Popular, ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, discorda. Segundo ele, pode ser um “black bloc”.
Bolsonaristas acampados à porta do QG do Exército, em Brasília, alguns vestidos com a camisa amarela da Seleção, queimaram carros e ônibus no centro da cidade e depredaram prédios.
Mas não foram eles quem Nogueira viu em ação, foram os “black blocs”, anarquistas e integrantes de movimentos que costumam se juntar para protestar com violência contra o que os incomoda.
Nogueira escreveu no Twitter: “Eles têm cara de Black Blocs, jeito de Black Blocs, fúria de Black Blocs, cheiro de Black Blocs e violência dos Black Blocs, que não existiram durante todo o governo Bolsonaro. Será coincidência ou a volta deles?”
A última aparição dos “black blocs” por estas bandas foi em junho de 2013, quando engrossaram as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus que quase derrubaram o governo Dilma.
Naquela ocasião, ouvi de Eduardo Paes, então prefeito do Rio: “Fomos salvos pelos ‘black blocs’. Se não fossem eles, os protestos aumentariam e os governos poderiam ser levados de roldão”.
Nogueira não sabe o que fala, mas sabe o que quer dizer: isentar de culpa pela baderna os bolsonaristas golpistas e sugerir que grupos de anarquistas infiltrados e a serviço do PT foram os culpados.
O que aconteceu em Brasília na noite da última segunda-feira, estendeu-se pela madrugada da terça e poderá se repetir até a posse de Lula foi obra de agentes profissionais da subversão.
Por que as polícias do Distrito Federal não prenderam nenhum? Porque não era para prender, ora. Porque muitos são militares da ativa e da reserva ou parentes do que chamam de “família militar”.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do governo do Distrito Federal justificou: “A SSP/DF destaca que, para redução dos danos e para evitar uma escalada ainda maior dos ânimos, a ação da Polícia Militar se concentrou na dispersão dos manifestantes”.
Enquanto o centro de Brasília pegava fogo, Anderson Torres, ministro da Justiça, jantava. Nogueira disse que cenas como aquelas nunca “existiram durante todo o governo Bolsonaro”. Oi?
O governo Bolsonaro deixou de existir? Quem é o presidente do Brasil até o último minuto do próximo dia 31? Quem ordenou a abertura dos portões do Palácio da Alvorada na noite do domingo?
Os bolsonaristas foram avisados, antes da meia-noite do domingo, que os portões estavam abertos para quem quisesse acampar nos jardins do palácio, e centenas deles rumaram para lá.
Foram bem tratados ao longo da segunda-feira. Não lhes faltou comida providenciada por Michelle Bolsonaro. No fim da tarde, em rápida aparição, Bolsonaro saudou-os em silêncio.
Enquanto eles voltavam para a porta do QG do Exército, Bolsonaro recepcionou o blogueiro Oswaldo Eustáquio, que, com medo de ser preso, pediu refúgio no palácio. Se ainda está lá, não se sabe.
Apenas cinco horas separam o histórico discurso feito pelo ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, no ato da diplomação de Lula, do início da baderna.
No discurso, o ministro prometeu punir todos os que, antes, durante e depois das eleições, atentaram contra a democracia. A resposta planejada nas trevas foi dada de imediato.
“Cacique” tsererê, a nova fake news do bolsonarismo
A tentativa de invasão da sede da Polícia Federal tem um personagem fundamental, um enredo digno dos mais intensos filmes de ação e, como é próprio do bolsonarismo, uma estrondosa farsa.
Bolsonaristas alegam agir em defesa de “um índio preso injustamente” para transformar Brasília em cenário de guerra. Além de tentarem invadir a sede da PF, queimaram ônibus, deram tiros e, no momento em que escrevo, andam pelas ruas da cidade a incendiar carros, explodir botijões de gás, destruir ônibus e cuspir ameaças, garantindo que Lula não tomará posse em 1º de janeiro.
Não se sabe de onde veio a repentina paixão por um indígena, depois de quatro anos em que os povos originários do país foram atacados como nunca. Suas terras foram invadidas, os processos de demarcação foram paralisados e os assassinatos de indígenas subiram incrivelmente. Conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foram 358 homicídios somente nos últimos dois anos: 176 em 2021 e 182 em 2020.
O “grande líder” indígena em nome do qual os bolsonaristas resolveram tocar o terror na capital federal, o pastor evangélico José Acácio Sererê Xavante, apresenta-se como cacique, título que sua própria comunidade lhe nega. Mais que isso: o povo que Sererê, 42 anos, diz representar não apenas o repudia como, na palavra do seu verdadeiro cacique, apelou ao ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para que não se dê ouvido aos golpistas que recorrem à violência na pretensão de prolongarem na marra o mandato do presidente Jair Bolsonaro, mesmo após a derrota nas urnas.
Para completar a farsa, Sererê e os indígenas que seguem sua liderança foram despachados para Brasília de ônibus por obra de um produtor rural, que se apresentou em grupos bolsonaristas como Didi Pimenta. No vídeo a seguir, ele também pede ajuda financeira para arcar com os custos de manutenção dos golpistas no Distrito Federal.
Veja o vídeo, editado por Tiago Rodrigues, e você entenderá melhor a história.
Resumindo: já tivemos o falso padre; o falso mito, cuja trajetória real jamais autorizou a narrativa do político honesto, cristão e valente vendida por tantos; e agora temos o falso cacique, cultuado por falsos democratas que, a exemplo do presidente derrotado nas urnas, invocam a democracia para assassiná-la impiedosamente.
Em tempo: Sererê foi preso temporariamente, por dez dias, por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, após convocar manifestantes armados a impedirem a diplomação de Lula. Segundo o jornal O Globo, ele foi candidato a prefeito de Campinápolis (MT) e foi derrotado; teve apenas 689 votos. Na disputa presidencial deste ano, a população majoritariamente indígena da cidade garantiu vitória a Lula, que teve no segundo turno 4.174 votos, o correspondente a 56,5% do eleitorado total da cidade. Sererê é filiado ao Patriota, partido alinhado ao bolsonarismo.
Aldeias Xavante repudiam atentados terroristas em Brasília
Líderes de 23 aldeias indígenas da etnia Xavante, do Mato Grosso, assinaram uma carta endereçada ao presidente Lula repudiando as ações terroristas, decorrentes do mandado de prisão executado contra o autointitulado Cacique Sererê, da mesma etnia.
A carta foi lida pelo cacique Suptó Xavante em um vídeo feito junto aos demais líderes para dar visibilidade ao documento. “Não compactuamos com as manifestações antidemocráticas em protesto contra o resultado das eleições presidenciais. Acreditamos na lisura do sistema eleitoral brasileiro. (…) Nossa história mostra que combatemos atividades ilícitas dentro de nosso território. Portanto, repudiamos as manifestações feitas essa semana por um grupo pequeno de indígenas em Brasília”.
Além de Lula, a carta também é endereçada ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, alvo frequente dos discursos de ódio proferidos por Tserere no palanque do acampamento bolsonarista montado em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília.
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